quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Canto do meu cisne

Imagem Wikipedia













A verdade é que depois
de nós tudo se repete
e sigo menos que dois
na modorra deste frete.

Estou velho como fui novo,
sem esperas nem desencanto,
perder-te nunca foi estorvo
do que vivi entretanto.

Mas gosto ainda de exibir-te
por entre as folhas de outono:
és o canto do meu cisne
mesmo quando te abandono.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

.


Tem calma, senta-te e pensa,
sempre estiveste em bom porto:
no fundo, é pouca a diferença
entre ir vivendo e estar morto.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

primeiro café da tarde XI


Eritemas a espera,
buscas álacres o prurido,
talvez um bicho tivesse
rastejado a noite inteira
esta preguiça,
talvez um bicho em busca
do melhor compasso
para o delírio.
Sem talvez é evidente
que o bicho eras tu.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

SONETO DEL HOMBRE SORPRESO


Me gusta tu manera inteligente
de buscar poco a poco lo que pienso
con hechizos y trampas que suspenso
me retienen en ti ahora y siempre.

Me gusta en nuestra casa tu caliente
mirada que es hogar, me gusta el viento
de tu habla que a veces no comprendo
cuando te enteras que la vida miente.

Si te abrazo me gusta, si te beso,
si tu cuerpo se va hacía el mio,
si parece que quieres como quiero.

Tu tan mujer, yo hombre tan sorpreso,
me gusta si en verano tengo frío
y mi amor es todo el amor que espero.


Lisboa y 1983

sábado, 9 de novembro de 2019

primeiro café da tarde X


Grande e pontual é o meu cuidado
na dissecção do nosso cadáver,
durante a lua toda, todas as noites,
com o deciso escalpelo do futuro antigo.
Ignoro outra maneira de sobrevoar a morte,
outra arte mais justa que a deste delongado corte
com que busco a madrugada.
Prenúncio de luz para lançar a espera,
é ela, a madrugada,
a terra sempre fértil do que me deixaste.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Hoje Adrianus fica em casa


Van Gogh, Worn Out (At Eternity's Gate)
Imagem Wikipedia
À lareira, Adrianus espera
nessa paz de quem tem fé,
sem chorar o jovem que era
nem lembrar o velho que é.

O final já não o aterra
(na verdade é sonho até),
que foi larga a sua guerra
e entre apuros feita a pé.

No limiar da eternidade,
espera a noite em fim de tarde,
na alma um Deus de almas serenas.

Não se adianta nem se atrasa:
hoje Adrianus fica em casa,
hoje Adrianus espera apenas.

agua selenita


Ayer viajé a la Luna por el agua que te gusta. Me dijeron en todos los mercados que ahora su venta es prohibida a extranjeros, que solo la pueden comprar los selenitas. Sin embargo, hubo un selenita que me prometió una botella. Una sola, por un precio que casi no puedo.

Mañana es tu cumpleaños y me iré a buscarla. Quizás sea mi ultimo viaje, cariño. Poco a poco se van acabando nuestros intereses fuera de Marte.

domingo, 3 de novembro de 2019

primeiro café da tarde IX


Cansado de estar nada e ser ébrio,
deste nós antigo aos gritos na praça,
de mim nas madrugadas quando o teu rosto é sério,
dos nossos papéis serôdios em peça inacabada,
de que a minha vida seja uma pausa na tua
e a tua na minha o que se adivinha,
de ter perdido o meu catre no fim da rua,
de ter falhado e por isso viajar de lado.
Cansado de um nunca estar que é estar sempre ébrio,
deste choro a vendaval no trânsito da espera,
de ser nada, deste quotidiano tédio
por ter sido o que fui quando fui o que era.


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

SONETO DA CONSTRUTORA DO MEU PASSADO

Imagem Photosearch

Não consigo inibir-me de um sorriso
no momento em que dizes, rapariga,
que a nossa história foi bem sucedida,
que não há que chorar qualquer prejuízo.

Agarras-me na mão com um suspiro,
pões o teu ar mais sério e rejubilas,
«Eu sempre fui, Antóneo, tua amiga,
tu foste sempre, Antóneo, meu amigo.»

E atestas esse invento e bom prenúncio
com uma lista de episódios nossos
que são notáveis mas que não recordo.

Até na despedida investes fundo
nesse modo sincero e despojado
com que vais construindo o meu passado.

soneto pubentíssimo II

Botticelli: O nascimento de Vénus 
Ontem ainda
estavas aqui,
linda, tão linda,
ao pé de mim.

Mas na ânsia infinda
cheio de ti,
não entendi
que a noite finda.

Agora, só,
choro a lembrança,
crio a ilusão.

E tenho dó
da sem-razão
que é ter esperança.

                                                                                         1978*


*Agora que chamo sonetos a sonetilhos e quejandos, este é de facto o mais antigo dos meus sonetos sobreviventes. Tinha eu 10 ou 11 anos e acabava de conhecer Afrodite num livro de História comprado a alfarrabista. Entretanto, a palavra 'linda', da primeira quadra, foi caindo bastante no meu dicionário literário. A segunda quadra sofreu um pequeno ajuste pouco depois e já não me recordo daquela que a antecedeu. Quanto aos tercetos, torço o nariz à rima pobre, de que hoje fujo a sete pés. A mantê-la, a última estrofe merecia um bom retoque. Mas para que há de um homem com mais de meio século alterar os sonhos da criança que foi?

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

tantas musas e uma só

Ao poeta Jorge Fortes, no seu natalício


Já não sei eu quanto ocupa
o amplo harém das minhas musas,
rumando ao céu e sem culpa,
galgando por sobre a turba
enjoada de almas obtusas.

Fi-lo de pedras e plantas
ontem roubadas aos livros,
retiro e alma das calhandras 
tecto e paz dos pintassilgos,
e à espera em cada janela
sopra sempre o canto d'ELA.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

primeiro café da tarde VIII


Sou escultor e estou com a mosca. Talvez por isso
ao nascer do sol me ponha a enxotar poemas.
A verdade é que estou pelos cabelos
de trabalhar as tuas mãos.
E depois não é só.
Durante a noite inteira me acorrentaste
ao chão da cama com três fumos travessos,
e o fumo do meio trazia a loucura de um diastema.
Chegaste mesmo a sussurrar, num canto da nossa pele,
antóneo, estou afeita a ter-te
de soslaio.
Ah, ingrata!, estou exausto, pelos cabelos
de trabalhar as tuas mãos,
tão pelos cabelos que os olhos
nem são o mais impotente
dos meus modos,
tão exausto que não dares por nada
tem sido o corpo que damos
ao nosso nome.
Sim, estou exausto, demissionário, pelos cabelos,
estou por estes dias um poeta morrendo
de trabalhar as tuas mãos.

sábado, 26 de outubro de 2019

SONETO DO MEU FANTASMA EGOÍSTA


Tenho uma foto de quando
eras tu quase menina,
ao meu lado caminhando
com essa pose magrebina.

E há um fantasma nefando

nessa foto clandestina
ansioso de que, chorando,
lhe incendeies a rotina.
Um fantasma nesse dia
que por vãos de pesadelo
se alenta em chama tardia.

Um fantasma que imagina

oportuno o seu desvelo,
eras tu quase menina.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

primeiro café da tarde VII


Em que linha dessa vossa leitura da vida se deu
a abrupta descoberta de que éramos quincalha?
Imagino que logo ali nalguma do proémio, não é?,
entre aquelas de que por berço nos sobrevoais.

E, no entanto, o vosso viés é largo e a crença demasiada.
Um dia destes, se quiserdes,
encontramo-nos num dos nossos dois ou três sonhos
junto às madrugadas de sexta-feira.
Apesar de breves, são densos como o chumbo.
Ou, para sermos precisos,
como o ouro a sério.

Qual quincalha, qual quê.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

primeiro café da tarde VI


O mapa antecipava menos inóspita
a nossa vereda vicinal
mas o pior no seu trânsito tem sido
este hábito de a percorrermos sem guardas
contra zoeiras e aguilhões.

Se o ardor nos endomingou,
e isso deveria ter sido evitado,
a complicação maior é, no entanto,
quem bate à porta do outro já o fazer exausto
e descobrindo-se iluso.
Perene se foi fazendo o desencontro
das nossas febres terçãs.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

.

Todas as religiões monoteístas têm um princípio incompatível com a minha religião: o homem como ser privilegiado.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

SONETO DOS TRANSPARENTES

Imagem Wikipedia















O cão que toda a vida acorrentado,
a rosa que hoje à noite assassinada,
a pomba moribunda que na estrada,
o deus que sem futuro nem passado,

o grito súbito que desprezado,
a mão que de verdugos decepada,
a lágrima que a meio da piada,
o verso que na estrofe sem cuidado,

a vítima que há muito amortalhada,
o beijo que dos beijos desgastado,
a cabeça que à espera de almofada,
o ex-abrigo que em ruínas ao meu lado,

este homem de ambições que desde sempre
tem sido aos vossos olhos transparente.

                                                  Leceia e 2015

sábado, 17 de agosto de 2019

SONETO DO CÃO ACORRENTADO

Imagem Canal Ciências Criminais











Black arrasta a corrente à procura de um naco
de céu caído. Em vão. Apenas morde,
neste tão derradeiro ano disto que é morte,
os repisados vãos do seu metro quadrado.

Passa os dias assim apesar de cansado
de outros dias assim apesar da má sorte
que lhe impõe a renúncia apesar do transporte
aos cuidados da mãe apesar de passados.

Um minuto à tardinha, o carcereiro vem
renovar a ração, saber da água também,
tratar da merda no ar que chateia o vizinho.

Black quer-lhe bem. Pele e osso, a cabeça vergada,
fica a vê-lo partir e nunca pede nada,
aprisionado já no seu próprio latido.

                                                                  Leceia e 2015

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

SONETO DA VELHA TENTAÇÃO


van Gogh,Kop van een skelet met
brandende sigaret

Retirou desinquieto
o que tinha na algibeira,
pendurou a corda ao tecto,
pôs-se em cima da cadeira.

Tinha aquilo todo o aspecto
de tolice passageira
e, no entanto, circunspecto,
avançou com a brincadeira.

Desde então, de olhar vazio
no meu passo de inseguro,
tem-me feito o desafio
de acabar com o futuro.

Desde então, a minha vida
é viver a minha vida.

                         Leceia e 2014*

*as duas primeiras estrofes,
pouco menos velhas do que eu.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

SONETO PUBENTÍSSIMO

J.-J.-F. Le Barbier,
Cupido numa Árvore (1795-1805)
Quando na praia as ondas se perdiam
de encontro às rochas ou beijando a areia
e enfim ao astro ardente sucediam
os encantos da noite e a lua cheia,

oh quantas vezes houve que se ouviam
ao longe, ao longe, em som de melopeia,
tão sentidas canções que pareciam
de deusa, de nereida ou de sereia.

E embora em tua voz não encontrasse
timbre que fosse assim dulcissonante
nem conseguisse ver em tua face

a beleza, o candor desconcertante
que naquelas acaso imaginasse,
não há ninguém que como tu me encante.

Lisboa, 1980 *

O mais antigo dos sonetos sobreviventes.