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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

palavra exacta

na minha busca da palavra exacta
costumo trocar os olhos com que olho as mãos
e há na terra que arranho uma outra memória
a fazer de mim um dos outros que sou

como folha ressequida que me guardasse dentro
encontro-a então     a palavra exacta
escondida e sólida sob a palavra momento
desfeita e pó sobre a palavra nada

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

voo

Tiraram-me quase tudo,
e se acaso estrebuchei
puseram ar carrancudo
e disseram que era a lei.

Mas o pior foi agora e
eu tão de bolso vazio:
meteram-me na gaiola e
tentaram cortar-me o pio.

Não sabiam os malditos
que as minhas asas são dentro
 e que este voo é um grito
na garganta do silêncio.

sábado, 24 de agosto de 2013

o mais impotente dos meus modos

as mãos foram difíceis
quando as procurei como parecem
e mais difíceis ainda
porque só as encontrei onde me perdi

mas pior tem sido agora
este rasgar de horas nos teus olhos
e descobrir que tu és ainda
o mais impotente dos meus modos

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

não saiba a minha mãe (1988)

Anoiteceu.
O vento marulheiro
baloiça a chuva
e eu deixo-me embalar
no sussurro da velha árvore.
Segredei-lhe todo o dia
tantas coisas tão minhas...
e sob ela sempre
poalhou apenas.
(Não vão dizer à minha mãe,
que não me quer constipado).

A Maria há pouco
deu-me as boas noites
e chamou-me louco...
Eu ri muito
como se estivesse louco
e disse-lhe ao ouvido
um segredo nosso.
A Maria... moça amiga.
Maria, não digas à minha mãe
que me chamaste louco.

Agora saboreio
um cigarro apagado
(a árvore amiga,
parece que acinte,
sempre que o acendo
sempre que o apaga)
e escrevo estas coisas
num caderno molhado.
Não digam à minha mãe
que eu escrevo versos.

Enquanto isto vou pensando
que talvez... que talvez...
Não tenho a certeza,
mas neste resto de vida
tudo há-de correr
às mil maravilhas
e amanhã
talvez nem seja
talvez de novo!
Mas, Maria, não digas à minha mãe,
que não me quer indeciso.

sábado, 29 de junho de 2013

teu

por que hei-de fechar os olhos
ao teu corpo?, esquecer as curvas
que nas curvas pressinto do teu abraço?,
por que hei-de fechar o sonho
à língua que prometes na minha boca?,
por que hei-de ser deus se quero morrer homem?,
por que hei-de ser mais que homem
se quero morrer teu?

domingo, 19 de maio de 2013

de lado (1986)

de lado
os pés
cansados
deitados
pequenos
como tu
e como eu
e o que espera
porta fora


de lado
os pés
e o calor
nos teus pés
e ademais
o amor
está de lado

de lado
os pés
mas os teus
ensonados
amarrotados
encalados
encalhados
de lado como tu

de lado
os pés
e tu
e o que pensas
de mim

de lado eu



terça-feira, 14 de maio de 2013

aqui (2000)

 
ao largo
 
     sombra viscosa
     da acumulação dos dias
          lembrança desta luz
 
     cicatriz inescapável
     do amor intacto:
          sabor à tua pele
 
que
 
     o bico do melro
          sem luta nem fracasso
     continua amarelo

sábado, 27 de abril de 2013

iguaria (2001)

ao arrepio escancarámos o segredo
     quando os braços se encheram
          de bocas largas
     e nos derramámos de agulhas
          sob a pele tendida

não é verdade que tenhamos sido canibais
ainda que o frio
     nos esquecesse a carne
          em plena vigília

quando muito exploradores sem método
     com todo o presente
          e a entrega toda
     para a laboriosa aferição dos temperos

sexta-feira, 26 de abril de 2013

testemunho (1984)

Sim, senhor, é verdade
que a princesa dormia quase nua
com uma cuequinha quase transparente
quando pela janela toda a lua
se esgueirou descarada de contente.
E eu aqui às escuras
nesta rua às avessas
e quem disser que não é porque mente.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

se tu quiseres assim

Amanhã ao despertares
dos sonhos por onde vais
e ouvires os familiares
assobios dos pardais;

quando saíres à rua
onde o sol te beije a frente
e guardares para tua
a aura da manhã contente;

amanhã muito cedinho,
se tu quiseres assim,
crescerá no teu caminho
uma flor do meu jardim.

sábado, 20 de abril de 2013

que nada sei (1992)

que nada sei
das tuas minhas
embrenhadas procuras
decerto em ti
nem tão minhas assim

e da cor em teus olhos
e do sonho em teus sonos
e do choro sem pausa
do frio em teus outonos
da loucura com causa
que nada sei

do corpo dedilhado
em ritmos sincopados
tão que sim tão que não
que sim já que não tão
já que não então sim
que nada sei

embuti apressado
o que de ti mais pude
no que de mim não tinha
e apodreci
que nada sei de mim


que nada sei de mim...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

construção (2002)

erecto de luas cheias
teu corpo sorri
     na minha boca inteira

porque és carta de navegar-me
e navegar-me
     é coisa minha

tantos nomes

menina marota, que te deu
para esvaziar o mundo?
por que apanhaste tantos nomes
se nenhum nome te veste inteira?
não sabias acaso que a transparência
é destino do tempo na tua pele?
por que roubaste o tecido
das noites e dos dias?
porquê, menina marota,
porquê, se já sabias?



quarta-feira, 17 de abril de 2013

pesadelo

Se este cuidado há muito posto
na construção de um sonho
tanto cai por um erro,
manda-me embora e com desprezo,
ignora-me por onde eu for,
recusa o meu amor.

Inventa que um dia te disse
as frases cruéis dos aprendizes,
quando por fim me for;
também dirás que mereci
perder quanto perdi,
estrela da minha noite, meu amor.

terça-feira, 16 de abril de 2013

o condutor eficaz (2001)


           CONTROLO TUDO: A INTENSIDADE
          DO VENTO NA ORELHA PONTIAGUDA!
         O MEDO DOS OUTROS NO VELOZ QUE SOU!
       AQUI VOU EU AQUI VOU EU PI PI AFASTEM-SE QUE AQUI VOU EU!
    A AUTO-ESTRADA É DE QUEM A COME ATRASADO MENTAL! ENCOSTA O CARRO BANANA!
    E DEIXA PASSAR QUEM SABE DISTO! PI PI AQUI VOU EU! PI PIII NINGUÉM ME PÁRA! PI PIII!
   PELA DIREITA PELA ESQUERDA POR CIMA SE NÃO TE AJEITAS!!! PI PI! ADEUS GRANDE PALEEERMA!
                       OCONDUTOREFICAZ                                                                   OCONDUTOREFICAZ
                             OCONDUTOR                                                                                  OCONDUTOR
                                   EFICAZ                                                                                             EFICAZ

domingo, 14 de abril de 2013

a bela e camilo (1982/2007)

Consta que ele era poeta,
desses que escrevem novelas;
mas, à parte ser directa,
pouco mais se sabe dela.

"Quererá dançar comigo
a mais bela desta sala?",
ter-lhe-á proposto o atrevido,
que às vezes perde quem cala.

Logo a moça, gozo à flor
dos lábios, volve serena:
"Pudesse eu dizer, senhor,
o mesmo de si. Que pena..."

Pronto e sério, o poeta apara
o golpe e devolve a finta:
"Quando assim é, minha cara,
faça como eu faço: Minta!"

sábado, 13 de abril de 2013

assim (2001)

o tiquetaque surdo sei-o de cor mas não é fácil
saber que o sei nem quando a noite me deixa só
não sou despertador a que dou corda
e me acorda
sou apenas o que me acorda

domingo, 7 de abril de 2013

querida

faltou-me sempre saber de ti e demasiado foi o tempo
em que te inventei
às vezes receio que sejas de porcelana     eu bem sei
e outras vezes atento mais à menina do que à mulher
é como se quisesse juntar a pedaços do que vives
pedaços do que viveste e eu perdi
desculpa-me     dá-me tempo
deixa-me continuar a ouvir o teu sorriso
para te entender melhor


sexta-feira, 5 de abril de 2013

és tu, mulher

atrás da porta     ao virar da esquina
na rua torta por trás da minha
és tu     mulher
ao fim da tarde      na alma de um livro
na pele do que há-de      em copo de vidro
és tu     mulher
neste poeirento poiso de cima
no vai de vento que ainda ontem vinha
és tu     mulher
sobre esta cama que me crê outro
e que me atraca ao cais do teu porto
és tu     mulher

quarta-feira, 3 de abril de 2013

princípio de incerteza (2002)

de tanto madrugar-te
o viço na rosa
não mais consentir
que o fim da manhã:

     de espinhos colhida
     para água em que bebo
     já cadáver guardar-te
     com o jardim na memória

     e indignado de que a meu lado
     já não sejas a de outrora
     pôr-me a chorar de triste
     e deitar-te fora