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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Canto do meu cisne

Imagem Wikipedia













A verdade é que depois
de nós tudo se repete
e sigo menos que dois
na modorra deste frete.

Estou velho como fui novo,
sem esperas nem desencanto,
perder-te nunca foi estorvo
do que vivi entretanto.

Mas gosto ainda de exibir-te
por entre as folhas de outono:
és o canto do meu cisne
mesmo quando te abandono.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

fingimento XXIX


Se eu fosse jovem... Melhor:
se eu fosse um pouco mais jovem
e te soubesse de cór
no território e por ordem...

Se eu ao menos fosse a tempo
de esquecer o que aprendi
e rir do que fui perdendo
no percurso até aqui...

É provável que fosse outra
a nossa história futura,
que valesse a vida toda
toda a minha ao pé da tua.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

poema de um homem morto (2011)

Acordo, ponho-me a pé
vai o dia noite ainda
e preparo dois cafés
a contar com a tua vinda.

É de há tanto o teu atraso
e este medo a que te atrases
que tudo o que sempre faço
vive da hora em que voltasses.

E esqueço que isto se acaba
na suspensão do teu corpo,
que já não bastam palavras
ao poema de um homem morto.

quinta-feira, 21 de março de 2013

assunto encerrado

Para provar que és capaz
de me esquecer de uma vez
vieste ver se aqui se faz
o amor que um dia se fez.

Não sei se foste feliz
nem se fomos mais que sós:
o teu adeus só me diz
que não quiseste ser nós.

Extinguiste enfim a luz
que nos trazia de trás,
e a este engano eu já lhe pus
o letreiro de Horas Más.

domingo, 10 de março de 2013

tão

És tão mulher! E, no entanto,
tão menina... Tão menina,
tão do tempo, tão do canto
em que nunca foste minha...

Tão de amar-te, tu bem sabes,
tão em falta, tão da pele,
tão das mãos, tão deste catre
em que não serás mulher.

És tão mulher! Tão mulher,
tão distante, tão querida,
tão sem de quem tão te quer
há tanto na sua vida.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

café

Quando antes me perguntavas
bebes um café comigo?,
o café era a palavra
de me saberes teu amigo.

Quando agora me perguntas
queres beber um café?,
a vontade não é muita
e a amizade é o que é.

E tudo porque entretanto
fomos homem e mulher
que por isso deram tantos
outros nomes ao café.

sábado, 2 de junho de 2012

só afrodite me guarda

.
Ao invés do que parece
não sou de ontem nem da casa
nem do arrepio na pele
sob a mão que desce rasa.

Não de ti, não dessa lua
que escondeste e eu dormitava,
não da tarde que ainda é tua
mal desponta a madrugada.

A minha paz, encontrei-a
nesta ânsia do que me falta
e em saber que, vida meia,
só Afrodite me guarda.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

que inútil o meu tormento


Manhoso, egoísta, cruel,
esse deus em que eu te quis
ainda baixa ao papel
a ver se o  fazes feliz.

Acredita ele que assim
o compreenderás melhor,
que só através de mim
é que o saberás de cor.

Mal se distraia um momento,
hei-de apagar todo o poema.
Que inútil o meu tormento
se tu segues tão serena...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

atrasavas-te


Atrasavas-te. Eu à esquina
sempre em busca do teu rosto
e desse olhar de menina
que, dizem, ainda tens posto.

E atrasavas-te. Ao contrário
do que é costume, eu escondia
nas parangonas dos diários
os estragos da minha vida.

Mas atrasavas-te. E viesse
o café que viesse, e fosse
no teu ar o ar que esquece
- pouco importa, eu nunca soube.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

fundo

.
A verdade é que os amigos
já não te batem à porta,
que o vaivém do amor antigo
é hoje vai que não volta.

No sofá dos dias planos,
nem televisão tens visto,
e é tão grande o teu desânimo
que até desistes dos livros.

Vives de pão, enlatados
e margarina vaqueiro;
isso e o peso do passado
são o teu futuro inteiro.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

para uma ciência do adeus


Quantas vezes morre um homem
antes de morrer de vez?
Quantos dias e por que ordem
vão desfazendo o que ele fez?

Quantos sonhos são precisos
para que vá devagar?
Para estender-lhe o sorriso,
onde temos de acordar?

Como reter os seus rumos
em rumos que sejam nossos?
E como fazer-lhe o luto
sem nos descobrirmos mortos?

sexta-feira, 13 de abril de 2012

como se fosse outro acaso

Estio morno. Sol deitado.
Voo rente. Sombra larga.
A indolência do passado.
O futuro do que estagna.

O suor do homem que nisto
desliza a mão pela frente.
Toda a alma do seu respiro
no socalco do presente.

E se vier a maior paz
para fim do nosso estado
- sorrir por tudo, aceitar
como se fosse outro acaso.

domingo, 8 de abril de 2012

artifício

Por menos voltas que der
a pena que em mim ciranda,
nunca fica no papel
o pensamento que o mancha.

E mais: o grau do artifício
é sempre tanto e tamanho
que toda a frase é delírio
e nenhum verbo sai plano.

Por isso, pouco me importa
que gozes com a redondilha:
se a palavra é sempre torta
ao menos que seja minha.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

década

Há dez anitos, nem tanto, 
punhas a vida em cadernos
e os cadernos nesse canto
dos amores ainda eternos.

Há mais ou menos cinco anos
abandonaste os papéis
e os anseios mais humanos
no canto aos dias cruéis.

E agora entregas a chave
da gaveta que te sobra
pois não há nada que trave
a tua última manobra.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

piegas

Luís Caminha é piegas
quando chora o desamor,
o adeus, as noites incertas
e este azar que se instalou.

Apara em paz as afrontas
e deixa ir tudo o que parte
sem levantar muitas ondas
nem queixa que aos grandes farte.

Luís Caminha não gosta
é que o chame de piegas
esse tipo da fatiota
que tanto o enterra na merda.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

da própria cicuta


Eu hoje olhei para trás
como quem olhasse em frente

e senti que era capaz
de ter feito bem diferente.

Podia ter sobrevoado
este abismo em estar de menos,
não ter ido assim cansado
por caminhos tão pequenos.

Podia que à flor da pele
me doesse a dor impoluta
de quem por taça fiel
beba da própria cicuta.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

c major ii

Eu ando exausto de mim,
das minhas noites vazias,
de ter fracassado assim,
de acordar todos os dias;

de um sol que nada me traz
e de ouvir sempre esta voz
gritar "eh pá, nem és capaz
de conjugar
somos nós
".

Os meus versos são apenas
um chorrilho de ais e eus
que, ai!, eu vomito às centenas
no bailarico do adeus.

terça-feira, 27 de julho de 2010

0,5

Todo o sono é princípio
do sonho em que um dia foste,
toda a vigília é caminho
para o adeus no teu nome.

Nunca se completa, pois,
a arte antiga de eu perder,
que já nunca chega a dois
quem já nem um pode ser.

Portanto, se ao teu sinal
eu não olhar para ti -
mulher, não leves a mal:
é que eu já não moro aqui.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

o espaço em que não estás

Subo ao nosso comboio
na gaveta de outros dias
quando eu ainda era antónio
e ainda tu me querias.

Quando o silvo da partida
trazia a hora da chegada
e uma esperança perdida
junto ao cais te segurava.

Teu corpo em tão pouca terra
nunca seria feliz:
foste à vida que te espera
e enferrujam os carris.

sábado, 23 de janeiro de 2010

consolo

O cão que vive comigo,
meu companheiro de há tanto,
já sabe que eu nunca digo
à noite o que ao dia canto.

Por isso, quando me deito
triste e em lágrima corrida,
encosta o corpo ao meu peito
a querer saber da vida.

Tenho uma ou duas ideias
mas ficam para depois:
na nossa almofada a meias
adormecemos os dois.