* A primeira versão do "Manuscrito de Henoch - 6 excertos" data de 1993 e tinha o título de "As 11 cartas de
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
Foi num fim de
tarde em que as nuvens se começaram a juntar sobre as nossas vidas e a minha
mãe cozinhava a caça do dia. De repente, ele endireitou-se e atirou os olhos,
muito arregalados, para um ponto do céu. Virou costas para não acreditar,
meneou a cabeça para não poder ser e, aterrorizado, frenético, desatou a
trabalhar na velha casa que o bom tempo nos deixara descuidar.
Não teve mais
de dois dias, mas as primeiras chuvas encontraram a resistência de um telhado
novo e quatro paredes reforçadas. Enquanto se manteve connosco, ele
confidenciava-nos que o único perigo vinha da velha árvore, da sua ramada e das
suas raízes – que, de facto, foram permitindo o humedecimento das paredes e dos
ossos e deram alento à simpática proliferação dos fungos pela casa e pelos seus
habitantes.
Foram noites e
chuvas que perduraram tanto como as vidas dos sapos e das salamandras.
Fizeram-se lagos nos lugares mais baixos e os cursos de água transbordaram,
arrastando tudo o que os ladeava. Por muito tempo, água, trovões e relâmpagos
foi tudo o que vimos e ouvimos e muito do que nos ocupou o pensamento.
O pai, que
sempre dizia que não há para onde fugir quando o céu se põe assim, e que, ainda
no fim do primeiro dia, chamara por Deus – deixou que, pouco a pouco, os seus
olhos embaciassem e nos atravessassem e a tudo o que estivesse perto. Não creio
que fosse ideia que crescesse numa lua, nem em duas nem em três, mas ficámos
todos surpresos quando um dia abandonou mulher e filhos.
Nunca
mais foi visto.
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domingo, 17 de março de 2013
sábado, 16 de março de 2013
* manuscrito de henoch - excerto 5 (1993)
* A primeira versão do "Manuscrito de Henoch - 6 excertos" data de 1993 e tinha o título de "As 11 cartas de
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
Sempre temera a morte. Ainda criança, já meu pai acordava em sobressalto, mesmo que sem pesadelo, preocupado com a perda de tempo: mas não podia evitar perdê-lo, porque, como ele dizia, o tempo contado implica que nunca saibamos o que fazer com ele. No entanto, o trabalho moía-lhe o corpo e adormecia-lhe o temor.
Durante anos, quando lhe falavam do futuro, a ideia mais bonita girava em torno de melhores colheitas. Tudo o resto eram necessidades quotidianas.
Um dia (e estas coisas acontecem quando o amor faz esconder a morte, e, mais que o amor, o encanto), começou a sonhar. Primeiro, o sonho trouxe-lhe a inveja: porque a necessidade de tempo fazia a sua falta e porque o seu esforço, tornado de repente mais árduo, não era recompensado. Depois do crime e, infelizmente, só depois, juntamente com o remorso, e talvez por causa dele, começou a saber de coisas grandes a fazer, que o prolongariam e dariam um sentido a todos os seus momentos.
Se bem que aqui estejamos eu e os meus irmãos como prova da sua existência, nunca foi essa a forma de continuidade que mais o entusiasmou. Por isso, foi incansável na construção da cidade e na transmissão dos seus pensamentos; por isso, absorvia as palavras e os actos dos outros como uma esponja. Era grande a dar e a receber.
Alterou a vida de todos. Mas, perto do fim, começou a duvidar da bondade dos seus actos. É o preço da ousadia: se a dúvida não vem antes, vem, muitas vezes, depois da decisão. Começou a ficar mais cansado e regressou à sua velha preocupação com a morte. Quando falavam com ele, quando via um sorriso, quando observava um movimento... sentia-se triste. Mal escutava, prisioneiro de gestos que corriam contra o tempo... de olhos que se regalavam e que se contraíam e que se alheavam e que se fixavam, que insinuavam...; de bocas que sorriam, que embeiçavam, que gritavam e que calavam... Num instante tudo se acabava. E era estranho olhar para aquelas caixas de vida sem vida, paradas, sem resposta... Caixas que traziam o rótulo: «Fora de prazo. Amanhã vai para a lixeira.» E algumas dessas caixas foram gente que ele amou.
A caixa que era o seu corpo era arrastada pelo tempo, Deus esquecera-se de a mandar para a lixeira. E pensava isso com a naturalidade de quem tudo perdeu, de quem já nada quer. Sem uma lágrima sequer. Desiludido. Preso no abismo da insensibilidade.
Por tudo isso, partiu. E porque nunca quis testemunhas da sua morte. O tempo juntara ao seu velho medo de morrer o medo a que o vissem morrer. A memória das pessoas não devia estender-se a um corpo morto.
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
Sempre temera a morte. Ainda criança, já meu pai acordava em sobressalto, mesmo que sem pesadelo, preocupado com a perda de tempo: mas não podia evitar perdê-lo, porque, como ele dizia, o tempo contado implica que nunca saibamos o que fazer com ele. No entanto, o trabalho moía-lhe o corpo e adormecia-lhe o temor.
Durante anos, quando lhe falavam do futuro, a ideia mais bonita girava em torno de melhores colheitas. Tudo o resto eram necessidades quotidianas.
Um dia (e estas coisas acontecem quando o amor faz esconder a morte, e, mais que o amor, o encanto), começou a sonhar. Primeiro, o sonho trouxe-lhe a inveja: porque a necessidade de tempo fazia a sua falta e porque o seu esforço, tornado de repente mais árduo, não era recompensado. Depois do crime e, infelizmente, só depois, juntamente com o remorso, e talvez por causa dele, começou a saber de coisas grandes a fazer, que o prolongariam e dariam um sentido a todos os seus momentos.
Se bem que aqui estejamos eu e os meus irmãos como prova da sua existência, nunca foi essa a forma de continuidade que mais o entusiasmou. Por isso, foi incansável na construção da cidade e na transmissão dos seus pensamentos; por isso, absorvia as palavras e os actos dos outros como uma esponja. Era grande a dar e a receber.
Alterou a vida de todos. Mas, perto do fim, começou a duvidar da bondade dos seus actos. É o preço da ousadia: se a dúvida não vem antes, vem, muitas vezes, depois da decisão. Começou a ficar mais cansado e regressou à sua velha preocupação com a morte. Quando falavam com ele, quando via um sorriso, quando observava um movimento... sentia-se triste. Mal escutava, prisioneiro de gestos que corriam contra o tempo... de olhos que se regalavam e que se contraíam e que se alheavam e que se fixavam, que insinuavam...; de bocas que sorriam, que embeiçavam, que gritavam e que calavam... Num instante tudo se acabava. E era estranho olhar para aquelas caixas de vida sem vida, paradas, sem resposta... Caixas que traziam o rótulo: «Fora de prazo. Amanhã vai para a lixeira.» E algumas dessas caixas foram gente que ele amou.
A caixa que era o seu corpo era arrastada pelo tempo, Deus esquecera-se de a mandar para a lixeira. E pensava isso com a naturalidade de quem tudo perdeu, de quem já nada quer. Sem uma lágrima sequer. Desiludido. Preso no abismo da insensibilidade.
Por tudo isso, partiu. E porque nunca quis testemunhas da sua morte. O tempo juntara ao seu velho medo de morrer o medo a que o vissem morrer. A memória das pessoas não devia estender-se a um corpo morto.
sexta-feira, 15 de março de 2013
manuscrito de henoch - excerto 4 (1993)
* A primeira versão do "Manuscrito de Henoch - 6 excertos" data de 1993 e tinha o título de "As 11 cartas de
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
Desde muito novo me fizeram saber do que se passara e minha mãe me ensinou a compreender: um homem e a sua morte eram a maior parte da tristeza de meu pai. E se ele tinha riso e sorriso para desgraças e percalços também algumas vezes o encontrei com as mãos lavadas em lágrimas.
– Um homem não deve fazer nada que não se possa perdoar mais tarde – aconselhavam-me muitas vezes. Mas sentiam melhor que ninguém que o futuro dorme sobre actos e intenções.
Entretanto, o pai ia torcendo a realidade, reinventando-a, substituindo-a, esquecendo-a. Mas ela deitava-se e acordava com ele.
– A realidade não foge, estúpido – espicaçava-se.
– Foi o diabo do mau tempo – tentava justificar-se.
A verdade é que, em certo dia da sua juventude, se pusera a descansar e entendera que do seu trabalho não vinha fortuna. Ali estava, no cimo do monte verdejante, o seu irmão, com todo o futuro que os gordos animais, sem canseira alguma, lhe ofereciam. E foi assim que a guerra estalou. A doce rotina que fazia parte do seu adormecimento começou a iluminar-lhe as insónias. E perdeu o interesse pelos outros.
Não foi só o mau tempo. Quando as enxurradas levaram os animais não correu em auxílio do seu irmão. E, de longe, viu-o sufocar.
Quando lhe perguntaram por ele, convenceu-se e a todos de que não sabia nada. Quando lhe voltaram a perguntar por ele, já irritado, respondeu:
– Eu sou, por acaso, guarda do meu irmão?
O corpo apareceu alguns dias depois. E tudo o que ele disse foi que ali estava o seu irmão, que ele deixara morrer. Teve pena e soube com dor que o passado não se procura com as mãos, não se agarra, não se molda, não se muda.
O resto foi e é choro, peso, memória e tempo.
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
Desde muito novo me fizeram saber do que se passara e minha mãe me ensinou a compreender: um homem e a sua morte eram a maior parte da tristeza de meu pai. E se ele tinha riso e sorriso para desgraças e percalços também algumas vezes o encontrei com as mãos lavadas em lágrimas.
– Um homem não deve fazer nada que não se possa perdoar mais tarde – aconselhavam-me muitas vezes. Mas sentiam melhor que ninguém que o futuro dorme sobre actos e intenções.
Entretanto, o pai ia torcendo a realidade, reinventando-a, substituindo-a, esquecendo-a. Mas ela deitava-se e acordava com ele.
– A realidade não foge, estúpido – espicaçava-se.
– Foi o diabo do mau tempo – tentava justificar-se.
A verdade é que, em certo dia da sua juventude, se pusera a descansar e entendera que do seu trabalho não vinha fortuna. Ali estava, no cimo do monte verdejante, o seu irmão, com todo o futuro que os gordos animais, sem canseira alguma, lhe ofereciam. E foi assim que a guerra estalou. A doce rotina que fazia parte do seu adormecimento começou a iluminar-lhe as insónias. E perdeu o interesse pelos outros.
Não foi só o mau tempo. Quando as enxurradas levaram os animais não correu em auxílio do seu irmão. E, de longe, viu-o sufocar.
Quando lhe perguntaram por ele, convenceu-se e a todos de que não sabia nada. Quando lhe voltaram a perguntar por ele, já irritado, respondeu:
– Eu sou, por acaso, guarda do meu irmão?
O corpo apareceu alguns dias depois. E tudo o que ele disse foi que ali estava o seu irmão, que ele deixara morrer. Teve pena e soube com dor que o passado não se procura com as mãos, não se agarra, não se molda, não se muda.
O resto foi e é choro, peso, memória e tempo.
quarta-feira, 13 de março de 2013
* manuscrito de henoch - excerto 3 (1993)
* A primeira versão do "Manuscrito de Henoch - 6 excertos" data de 1993 e tinha o título de "As 11 cartas de
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
O poeta entretinha-se com as palavras e jogava-as umas com outras, estas contra aquelas; e, às vezes, escondia-as até dele próprio. Fazia de um som um delírio, maravilha de uma palavra, um mundo de uma ideia. Inventava o mundo. Toda a gente o faz, dando nomes às coisas. Mas ele tinha a consciência de que o fazia e era mais atento que todos na arte de dar nomes aos nomes. Porque os nomes também são coisas, para lá das coisas de que são nomes.
Nunca foi diferente. Muito antes de terem perdido o jardim, já meus avós sabiam disto. Nos reflexos das águas tranquilas os surpreendera a consciência de um poder de que apenas desconfiavam. Por mais que quisessem ou lhes conviesse, não podiam ser acessórios da beleza ou da verdade, do que se convencionou chamar paraíso. Descobriram o sonho e o desejo, o desalento e o desassossego, a procura; que o paraíso não lhes sobrevivia, era um projecto, eram eles, a memória, o futuro, o tempo. E o bom deste paraíso tão relativo, tão deles, era o acaso, a implaneabilidade, o não poderem dizer que amanhã vai ser melhor, pior ou diferente. Mas foi nesta incerteza que as palavras se foram aconchegando, com todo o aroma de previsibilidade, como que a dar uma direcção, ainda que temporária, um sentido, ainda que mutável, às vidas; as palavras, nas asas do perdão e da esperança, preparando, na falsa cristalização do tempo, a sua fluidez; as palavras – esse paraíso, como tão bem sabia o poeta. Porque para irmos para onde não sabemos é necessário pensarmos que sabemos para onde vamos.
Por isso não lhes foi difícil perder o jardim, ainda que o arrependimento chegasse muitas vezes ao fim da tarde, embrulhado no suor do cansaço. Arrependimento do rumo escolhido (que, apesar de tudo, esteve sempre fora do seu controlo), não da escolha de rumo.
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
O poeta entretinha-se com as palavras e jogava-as umas com outras, estas contra aquelas; e, às vezes, escondia-as até dele próprio. Fazia de um som um delírio, maravilha de uma palavra, um mundo de uma ideia. Inventava o mundo. Toda a gente o faz, dando nomes às coisas. Mas ele tinha a consciência de que o fazia e era mais atento que todos na arte de dar nomes aos nomes. Porque os nomes também são coisas, para lá das coisas de que são nomes.
Nunca foi diferente. Muito antes de terem perdido o jardim, já meus avós sabiam disto. Nos reflexos das águas tranquilas os surpreendera a consciência de um poder de que apenas desconfiavam. Por mais que quisessem ou lhes conviesse, não podiam ser acessórios da beleza ou da verdade, do que se convencionou chamar paraíso. Descobriram o sonho e o desejo, o desalento e o desassossego, a procura; que o paraíso não lhes sobrevivia, era um projecto, eram eles, a memória, o futuro, o tempo. E o bom deste paraíso tão relativo, tão deles, era o acaso, a implaneabilidade, o não poderem dizer que amanhã vai ser melhor, pior ou diferente. Mas foi nesta incerteza que as palavras se foram aconchegando, com todo o aroma de previsibilidade, como que a dar uma direcção, ainda que temporária, um sentido, ainda que mutável, às vidas; as palavras, nas asas do perdão e da esperança, preparando, na falsa cristalização do tempo, a sua fluidez; as palavras – esse paraíso, como tão bem sabia o poeta. Porque para irmos para onde não sabemos é necessário pensarmos que sabemos para onde vamos.
Por isso não lhes foi difícil perder o jardim, ainda que o arrependimento chegasse muitas vezes ao fim da tarde, embrulhado no suor do cansaço. Arrependimento do rumo escolhido (que, apesar de tudo, esteve sempre fora do seu controlo), não da escolha de rumo.
terça-feira, 12 de março de 2013
*manuscrito de henoch - excerto 2 (1993)
* A primeira versão do "Manuscrito de Henoch - 6 excertos" data de 1993 e tinha o título de "As 11 cartas de
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
De trabalhar a terra, nunca mais quis saber. Partiam todas as madrugadas, ele e mais uma dúzia de seguidores, para onde a caça os levasse. E chegavam antes do ocaso, extenuados e, quase sempre, com a tarefa cumprida.
Foi nesses primeiros tempos que, ao fim da noite, quando se acendiam os fogos e se comia, o poeta lhes trouxe o gosto pela música, a ele e à minha mãe, que já se procuravam para outros enredos nos seus sonos. Rasgavam as noites com os instrumentos e as vozes que ainda hoje o vento guarda, dançavam e riam, riam até ao esgotamento.
Não havia noite em que o poeta não trouxesse ideias novas. Afastando a barba enorme, dedilhava, acariciava, golpeava as cordas, enquanto os seus olhos hipnotizadores envolviam e levavam todos num voejar de sons e sonhos. Começou o meu pai, então, a acompanhá-lo com harmoniosa mestria; e, para júbilo de todos, atreveu-se minha mãe na arte das sereias.
Para o poeta, as noites estendiam-se naturalmente ao nascer do sol, para os meus pais até onde lhes era possível. E na ressaca planeava-se a simplicidade dos dias seguintes.
Mais anos que os que tenho se passaram assim, naquele abraço ao fogo que também veio a ser meu. Mas, então, o poeta partiu.
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
De trabalhar a terra, nunca mais quis saber. Partiam todas as madrugadas, ele e mais uma dúzia de seguidores, para onde a caça os levasse. E chegavam antes do ocaso, extenuados e, quase sempre, com a tarefa cumprida.
Foi nesses primeiros tempos que, ao fim da noite, quando se acendiam os fogos e se comia, o poeta lhes trouxe o gosto pela música, a ele e à minha mãe, que já se procuravam para outros enredos nos seus sonos. Rasgavam as noites com os instrumentos e as vozes que ainda hoje o vento guarda, dançavam e riam, riam até ao esgotamento.
Não havia noite em que o poeta não trouxesse ideias novas. Afastando a barba enorme, dedilhava, acariciava, golpeava as cordas, enquanto os seus olhos hipnotizadores envolviam e levavam todos num voejar de sons e sonhos. Começou o meu pai, então, a acompanhá-lo com harmoniosa mestria; e, para júbilo de todos, atreveu-se minha mãe na arte das sereias.
Para o poeta, as noites estendiam-se naturalmente ao nascer do sol, para os meus pais até onde lhes era possível. E na ressaca planeava-se a simplicidade dos dias seguintes.
Mais anos que os que tenho se passaram assim, naquele abraço ao fogo que também veio a ser meu. Mas, então, o poeta partiu.
segunda-feira, 11 de março de 2013
*manuscrito de henoch - excerto 1 (1993)
* A primeira versão do "Manuscrito de Henoch - 6 excertos" data de 1993 e tinha o título de "As 11 cartas de
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
Nascera
algures a ocidente. O seu pai ensinara-lhe o amor à terra e a espera
transpirada e paciente de que o fruto chegasse. Desse tempo, sobrava-lhe o
abraço ao chão e o suspiro da entrega, além de um admirável acerto na mínima
gota de água que no céu se preparasse.
Viera pela vereda mais curta que aqui nos traz e instalara-se. Começou por ser mal recebido. Quem aqui vivia aprendera a não simpatizar com nada nem ninguém de outro lado. Ainda que, por esses dias, poucos se lembrassem de relações antigas, fossem elas cordiais ou tempestuosas.
– Há cinquenta primaveras que, para lá daquele monte, nada se passa que nos interesse – disse-lhe o velho. – E no dia em que não for assim, alguma coisa há-de estar mal.
No entanto, a ele foram permitindo, sem recriminação, os vaivéns constantes entre aquém e além-monte. Essa ousadia acabou por ser reconhecida como necessária e previsível pelos que mais sabiam, ou pensavam saber, do destino. A sua perseverança valeu-lhe o apodo de mensageiro e aos poucos emergiu nos habitantes a curiosidade, primeiro sobre a vontade dos mais jovens, depois sobre a anuência dos restantes.
Assim, foi-se tornando amigo, de início, e chefe, depois, dos movimentos e anseios de todos. Com a vantagem de não ser um deles, reuniu todos, passando ao lado de todas as histórias.
Finalmente, em terra de ninguém, no cimo do monte, iniciou meu pai a construção da casa. E, ainda se lançavam os seus alicerces, convenceu os ajudantes a continuarem a edificação até ao sopé, em todas as direcções.
Henoch ao seu amor perdido". Modifiquei-a (encurtei-a) em 2006. É o meu texto em prosa mais antigo; pelo
menos dos que foram perdoados pelo pequeno incêndio que destruiu grande parte do que escrevi na minha
juventude.
| Acaso sou guarda do meu irmão? (Génesis 4,9) E conheceu Caim a sua mulher, que concebeu e deu à luz Henoch. E edificou uma cidade, e deu à cidade o nome do seu filho, Henoch. (Génesis 4,17) |
Viera pela vereda mais curta que aqui nos traz e instalara-se. Começou por ser mal recebido. Quem aqui vivia aprendera a não simpatizar com nada nem ninguém de outro lado. Ainda que, por esses dias, poucos se lembrassem de relações antigas, fossem elas cordiais ou tempestuosas.
– Há cinquenta primaveras que, para lá daquele monte, nada se passa que nos interesse – disse-lhe o velho. – E no dia em que não for assim, alguma coisa há-de estar mal.
No entanto, a ele foram permitindo, sem recriminação, os vaivéns constantes entre aquém e além-monte. Essa ousadia acabou por ser reconhecida como necessária e previsível pelos que mais sabiam, ou pensavam saber, do destino. A sua perseverança valeu-lhe o apodo de mensageiro e aos poucos emergiu nos habitantes a curiosidade, primeiro sobre a vontade dos mais jovens, depois sobre a anuência dos restantes.
Assim, foi-se tornando amigo, de início, e chefe, depois, dos movimentos e anseios de todos. Com a vantagem de não ser um deles, reuniu todos, passando ao lado de todas as histórias.
Finalmente, em terra de ninguém, no cimo do monte, iniciou meu pai a construção da casa. E, ainda se lançavam os seus alicerces, convenceu os ajudantes a continuarem a edificação até ao sopé, em todas as direcções.
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