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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

primeiro café da tarde XI


Eritemas a espera,
buscas álacres o prurido,
talvez um bicho tivesse
rastejado a noite inteira
esta preguiça,
talvez um bicho em busca
do melhor compasso
para o delírio.
Sem talvez é evidente
que o bicho eras tu.

sábado, 9 de novembro de 2019

primeiro café da tarde X


Grande e pontual é o meu cuidado
na dissecção do nosso cadáver,
durante a lua toda, todas as noites,
com o deciso escalpelo do futuro antigo.
Ignoro outra maneira de sobrevoar a morte,
outra arte mais justa que a deste delongado corte
com que busco a madrugada.
Prenúncio de luz para lançar a espera,
é ela, a madrugada,
a terra sempre fértil do que me deixaste.

domingo, 3 de novembro de 2019

primeiro café da tarde IX


Cansado de estar nada e ser ébrio,
deste nós antigo aos gritos na praça,
de mim nas madrugadas quando o teu rosto é sério,
dos nossos papéis serôdios em peça inacabada,
de que a minha vida seja uma pausa na tua
e a tua na minha o que se adivinha,
de ter perdido o meu catre no fim da rua,
de ter falhado e por isso viajar de lado.
Cansado de um nunca estar que é estar sempre ébrio,
deste choro a vendaval no trânsito da espera,
de ser nada, deste quotidiano tédio
por ter sido o que fui quando fui o que era.


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

primeiro café da tarde VIII


Sou escultor e estou com a mosca. Talvez por isso
ao nascer do sol me ponha a enxotar poemas.
A verdade é que estou pelos cabelos
de trabalhar as tuas mãos.
E depois não é só.
Durante a noite inteira me acorrentaste
ao chão da cama com três fumos travessos,
e o fumo do meio trazia a loucura de um diastema.
Chegaste mesmo a sussurrar, num canto da nossa pele,
antóneo, estou afeita a ter-te
de soslaio.
Ah, ingrata!, estou exausto, pelos cabelos
de trabalhar as tuas mãos,
tão pelos cabelos que os olhos
nem são o mais impotente
dos meus modos,
tão exausto que não dares por nada
tem sido o corpo que damos
ao nosso nome.
Sim, estou exausto, demissionário, pelos cabelos,
estou por estes dias um poeta morrendo
de trabalhar as tuas mãos.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

primeiro café da tarde VII


Em que linha dessa vossa leitura da vida se deu
a abrupta descoberta de que éramos quincalha?
Imagino que logo ali nalguma do proémio, não é?,
entre aquelas de que por berço nos sobrevoais.

E, no entanto, o vosso viés é largo e a crença demasiada.
Um dia destes, se quiserdes,
encontramo-nos num dos nossos dois ou três sonhos
junto às madrugadas de sexta-feira.
Apesar de breves, são densos como o chumbo.
Ou, para sermos precisos,
como o ouro a sério.

Qual quincalha, qual quê.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

primeiro café da tarde VI


O mapa antecipava menos inóspita
a nossa vereda vicinal
mas o pior no seu trânsito tem sido
este hábito de a percorrermos sem guardas
contra zoeiras e aguilhões.

Se o ardor nos endomingou,
e isso deveria ter sido evitado,
a complicação maior é, no entanto,
quem bate à porta do outro já o fazer exausto
e descobrindo-se iluso.
Perene se foi fazendo o desencontro
das nossas febres terçãs.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

primeiro café da tarde X


Grande e pontual é o cuidado
com que disseco os cadáveres da vida,
durante a lua toda, todas as noites,
com o deciso bisturi do teu não.
Ignoro outra maneira de sobrevoar a morte,
outra arte mais justa que a deste delongado corte
com que busco a madrugada,
esse prenúncio de luz para lançar a espera
à terra sempre fértil da partida.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

primeiro café da tarde III

Havia, como há, que ser acrítico
para traduzir o coração.
Mais confiante do que agora,
em jovem fazia o trabalho em cima da mesa
com a ajuda de meia dúzia de glossários e outra meia
de rudimentos gramaticais.

Mas não tinha, como não tenho, competência.
É óbvio que neste tão pouco saber de quase nada
ainda não descobrira a perene
intraduzibilidade cardíaca.

Já nem recordo se ao cardiograma inútil
e imperfeito
lhe chamava poema,
se ao percurso da caneta
sobre a sua espera.

Só hoje vislumbro que o poema é sempre
a inesperada arritmia do sol ao nascer.

sábado, 1 de junho de 2019

primeiro café da tarde II

Não sei por que me dizes que sou um mau cidadão
quando critico este inacreditável
sistema que me suga a alma,
não sei por que me chamas de categórico
quando na minha deprimida dicotomia
opino que a prosperidade não se exibe.

Não sei por que me vincas a desistência
quando lamento o assassínio da figueira
sem nunca ter lutado por ela,
não sei por que garantes que o meu receio
é merecido em face dos crimes que cometi.

Não sei por que me tiras a cama
quando bebo em taça de vinho,
não sei por que nunca reconheces
que estou aqui,
não sei por que nunca arranjaste piedade
para admirar em mim um gesto que fosse.

Não sei por que nunca entendeste
que a falha me persegue e o elogio
é o meu ponto fraco.
Não sei por que ainda estás aqui.
Não sei por que te amo ainda.



terça-feira, 9 de abril de 2019

primeiro café da tarde I


No mapa das nossas almas
deverias ter estudado as fronteiras menos dúbias:
talvez se traçasse nelas a promessa.
Foi pouco avisada essa tua metáfora
que fez de nós verdades como o sábado,
certeza de nós como as primaveras com que minto.

Mas, para te ser franco,
também não está mal assim: agora
é óbvio que a nossa tontura serôdia
não tinha futuro.
Se há dias em que ainda somos
também há esta nova história
de que nunca fomos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

por medo ao céu o voo abortado (IV)


O tempo não é sólido na sua totalidade,
há curvas fracturadas
para quem as procure,
ou por sorte as encontre,
onde se deixa atravessar
pelas mãos.

Nalgumas dessas viagens líquidas
que agora aprendi a fazer com elas
tenho por destino as tantas vezes que te chamei amor
e, ao lado desse, outro mais extenso e cheio de horizontes
desimpedidos
onde acreditei amar-te.
Digo acreditei porque não estou certo
de que tenha sido assim,
apenas  de que nunca estive mais próximo
de ter sido assim.

Quando regresso as mãos
ao estranho torpor destes dias
sei um pouco mais sobre a minha cobardia.
A tragédia maior
na minha vida foi
por medo ao céu o voo abortado.


Leceia, 18 fev 2019

domingo, 20 de janeiro de 2019

o edifício desta ausência (V)


Creio que o inicio de tudo
foi no café solitário
os que tomámos a meias,
que nalgum desses
dez mil ou quase percursos
num gesto se construíram toda a espera e os seus impulsos.

De algum modo, o meu cansaço
e as suas noites ergueram
o edifício desta ausência.
Nos alicerces
é habitual dar por mim
contando milagres para que o nosso não tenha fim.