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quinta-feira, 21 de novembro de 2019
SONETO DEL HOMBRE SORPRESO
Me gusta tu manera inteligente
de buscar poco a poco lo que pienso
con hechizos y trampas que suspenso
me retienen en ti ahora y siempre.
Me gusta en nuestra casa tu caliente
mirada que es hogar, me gusta el viento
de tu habla que a veces no comprendo
cuando te enteras que la vida miente.
Si te abrazo me gusta, si te beso,
si tu cuerpo se va hacía el mio,
si parece que quieres como quiero.
Tu tan mujer, yo hombre tan sorpreso,
me gusta si en verano tengo frío
y mi amor es todo el amor que espero.
Lisboa y 1983
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Hoje Adrianus fica em casa
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| Van Gogh, Worn Out (At Eternity's Gate) Imagem Wikipedia |
nessa paz de quem tem fé,
sem chorar o jovem que era
nem lembrar o velho que é.
O final já não o aterra
(na verdade é sonho até),
que foi larga a sua guerra
e entre apuros feita a pé.
No limiar da eternidade,
espera a noite em fim de tarde,
na alma um Deus de almas serenas.
Não se adianta nem se atrasa:
hoje Adrianus fica em casa,
hoje Adrianus espera apenas.
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
SONETO DA CONSTRUTORA DO MEU PASSADO
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| Imagem Photosearch |
Não consigo inibir-me de um sorriso
no momento em que dizes, rapariga,
que a nossa história foi bem sucedida,
que não há que chorar qualquer prejuízo.
Agarras-me na mão com um suspiro,
pões o teu ar mais sério e rejubilas,
«Eu sempre fui, Antóneo, tua amiga,
tu foste sempre, Antóneo, meu amigo.»
E atestas esse invento e bom prenúncio
com uma lista de episódios nossos
que são notáveis mas que não recordo.
Até na despedida investes fundo
nesse modo sincero e despojado
com que vais construindo o meu passado.
soneto pubentíssimo II
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| Botticelli: O nascimento de Vénus |
estavas aqui,
linda, tão linda,
ao pé de mim.
Mas na ânsia infinda
cheio de ti,
não entendi
que a noite finda.
Agora, só,
choro a lembrança,
crio a ilusão.
crio a ilusão.
E tenho dó
da sem-razão
que é ter esperança.
1978*
*Agora que chamo sonetos a sonetilhos e quejandos, este é de facto o mais antigo dos meus sonetos sobreviventes. Tinha eu 10 ou 11 anos e acabava de conhecer Afrodite num livro de História comprado a alfarrabista. Entretanto, a palavra 'linda', da primeira quadra, foi caindo bastante no meu dicionário literário. A segunda quadra sofreu um pequeno ajuste pouco depois e já não me recordo daquela que a antecedeu. Quanto aos tercetos, torço o nariz à rima pobre, de que hoje fujo a sete pés. A mantê-la, a última estrofe merecia um bom retoque. Mas para que há de um homem com mais de meio século alterar os sonhos da criança que foi?
1978*
*Agora que chamo sonetos a sonetilhos e quejandos, este é de facto o mais antigo dos meus sonetos sobreviventes. Tinha eu 10 ou 11 anos e acabava de conhecer Afrodite num livro de História comprado a alfarrabista. Entretanto, a palavra 'linda', da primeira quadra, foi caindo bastante no meu dicionário literário. A segunda quadra sofreu um pequeno ajuste pouco depois e já não me recordo daquela que a antecedeu. Quanto aos tercetos, torço o nariz à rima pobre, de que hoje fujo a sete pés. A mantê-la, a última estrofe merecia um bom retoque. Mas para que há de um homem com mais de meio século alterar os sonhos da criança que foi?
sábado, 26 de outubro de 2019
SONETO DO MEU FANTASMA EGOÍSTA
eras tu quase menina,
ao meu lado caminhando
com essa pose magrebina.
E há um fantasma nefando
nessa foto clandestina
ansioso de que, chorando,
lhe incendeies a rotina.
que por vãos de pesadelo
se alenta em chama tardia.
Um fantasma que imagina
oportuno o seu desvelo,
eras tu quase menina.
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
SONETO DOS TRANSPARENTES
![]() |
| Imagem Wikipedia |
O cão que toda a vida acorrentado,
a rosa que hoje à noite assassinada,
a pomba moribunda que na estrada,
o deus que sem futuro nem passado,
o grito súbito que desprezado,
a mão que de verdugos decepada,
a lágrima que a meio da piada,
o verso que na estrofe sem cuidado,
a vítima que há muito amortalhada,
o beijo que dos beijos desgastado,
a cabeça que à espera de almofada,
o ex-abrigo que em ruínas ao meu lado,
este homem de ambições que desde sempre
tem sido aos vossos olhos transparente.
Leceia e 2015
sábado, 17 de agosto de 2019
SONETO DO CÃO ACORRENTADO
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| Imagem Canal Ciências Criminais |
Black arrasta a corrente à procura de um naco
de céu caído. Em vão. Apenas morde,
neste tão derradeiro ano disto que é morte,
os repisados vãos do seu metro quadrado.
Passa os dias assim apesar de cansado
de outros dias assim apesar da má sorte
que lhe impõe a renúncia apesar do transporte
aos cuidados da mãe apesar de passados.
Um minuto à tardinha, o carcereiro vem
renovar a ração, saber da água também,
tratar da merda no ar que chateia o vizinho.
Black quer-lhe bem. Pele e osso, a cabeça vergada,
fica a vê-lo partir e nunca pede nada,
aprisionado já no seu próprio latido.
fica a vê-lo partir e nunca pede nada,
aprisionado já no seu próprio latido.
Leceia e 2015
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
SONETO DA VELHA TENTAÇÃO
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| van Gogh,Kop van een skelet met brandende sigaret |
Retirou desinquieto
o que tinha na algibeira,
pendurou a corda ao tecto,
pôs-se em cima da cadeira.
Tinha aquilo todo o aspecto
de tolice passageira
e, no entanto, circunspecto,
avançou com a brincadeira.
Desde então, de olhar vazio
no meu passo de inseguro,
tem-me feito o desafio
de acabar com o futuro.
Desde então, a minha vida
é viver a minha vida.
é viver a minha vida.
Leceia e 2014*
*as duas primeiras estrofes,
pouco menos velhas do que eu.
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
SONETO PUBENTÍSSIMO
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| J.-J.-F. Le Barbier, Cupido numa Árvore (1795-1805) |
de encontro às rochas ou beijando a areia
e enfim ao astro ardente sucediam
os encantos da noite e a lua cheia,
oh quantas vezes houve que se ouviam
ao longe, ao longe, em som de melopeia,
tão sentidas canções que pareciam
de deusa, de nereida ou de sereia.
E embora em tua voz não encontrasse
timbre que fosse assim dulcissonante
nem conseguisse ver em tua face
a beleza, o candor desconcertante
que naquelas acaso imaginasse,
não há ninguém que como tu me encante.
Lisboa, 1980 *
* O mais antigo dos sonetos sobreviventes.
SONETO DA CONFERÊNCIA DOS PARDAIS
e eu passo a noite de janela aberta,
às cinco e muito pouco me desperta
a longa conferência dos pardais.
Ao coro dos meus dias sempre iguais
esse coro se junta. E bem alerta,
olhos no tecto, escuto à descoberta
de mundos que não vêm nos jornais:
A feitura dos ninhos ainda ignora
qualquer licença. A ocupação veloz
sucede sem aviso de última hora.
Cada ramo é futuro de uma voz.
E de sono e alva se constrói a aurora,
apesar de ontem, apesar de nós.
Lisboa e 2011
Lisboa e 2011
terça-feira, 13 de agosto de 2019
SONETO DO ESCRITOR MENOR
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| van Gogh, O par de sapatos (1886) |
Dou três explicações, bastam-me três,
para o baldão que foi a minha vida,
e não ponho de parte que talvez
concorram todas em igual medida.
A tunda no toutiço, vez traz vez,
pela mínima falta cometida;
os piolhos de que a casa se desfez
afogando-me em spray insecticida;
e o ter nascido no lugar errado
um século depois da época certa:
tudo se conjurou neste meu estado.
Nunca tentei sequer saber de cór
o momento do rogo, a hora da oferta
que dissimulam um escritor menor.
Leceia e 1016
domingo, 11 de agosto de 2019
SONETO DO POETA EM BANHO-MARIA
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| Jacob Peter Gowy (1635-37) The Flight of Icarus |
Talvez nunca de vós fosse entendida
a extensão da fogueira que, secreta,
me devorava quando fui poeta,
quando, poeta, eu devorava a vida.
A rara obstinação que da partida
supostamente falsa até a meta
me dirigia o voo em linha recta,
talvez nunca de vós fosse entendida.
Nunca de vós o extinto ruflo dessa
minha asa espatifada em céu rasante,
fatal desastre para quem duvida.
Nunca de vós o ocaso da promessa,
qual a lasciva chama que ofegante
falece na matéria consumida.
Leceia e 2016
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
SONETO DOS JOVENS RETÓRICOS
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| Lecomte du Nouÿ, «Démosthène s'exerçant à la parole» (1870) |
Parecia haver sempre uma palavra
com o peso certo, fosse clandestina
no relato ordinário da rotina,
fosse remanso em estrépito de aldraba.
Éramos jovens, pouco se nos dava
com que régua o futuro se media
e ainda menos quão válida e precisa
era a sua leitura, quão exacta.
Para sermos sinceros, e apesar
de não o termos querido confessar,
nunca a verdade foi a nossa presa.
Mesmo hoje que o silêncio nos contém,
indústrias há que nos parecem bem
apenas pelo efeito da surpresa.
Leceia e 2016
sábado, 3 de agosto de 2019
SONETO DE FACTO
De facto, o giradiscos ainda risca
os cansados vinis de Jacques Brel
e no cinzeiro jaz a última prisca
com o carmesim do teu adeus cruel.
De facto, a Lady continua arisca:
quando tento fazer o teu papel
sem ronrons me gadanha, segue à risca
a intolerância com que te é fiel.
De facto, é tudo como prometias
e enche cada escaninho dos meus dias
a memória do dia em que partiste.
De facto, hoje como ontem ao teu lado
cumpro a pena de um homem condenado
a esta triste alegria de ser triste.
Leceia e 2015
domingo, 28 de julho de 2019
SONETO DO CHICORONHO
![]() |
| Cristo-Rei Lubango Imagem Wikipedia |
o tempo há que isso foi. Sei todavia
do seu costume em acabar o dia
com dois paus imitando o Cristo-Rei.
Descalço no quintal, junto à capoeira,
alheio sempre à chuva e à cacimba,
com um fio os malcruza, o fio ainda
que usa para ordenar a vida inteira.
com dois paus imitando o Cristo-Rei.
Descalço no quintal, junto à capoeira,
alheio sempre à chuva e à cacimba,
com um fio os malcruza, o fio ainda
que usa para ordenar a vida inteira.
Pudesse ver-me quem pudesse vê-lo:
mora já o doutor da mula ruça
nesse canhestro ruço de mau pêlo
que sobre o seu brinquedo se debruça.
Resumir-me-á quem me quiser num esboço:
«Ó homem, tu foi tudo a traço grosso.»
Leceia e 2017
sábado, 20 de julho de 2019
SONETO UMA DÉCADA PASSADA
Alguma vez olhaste para trás?
Distraída que fosse, alguma vez
te deu para espreitar como se fez
o caminho que leva aonde estás?
Já suspeitaste acaso que talvez
alguém te siga o rasto? Que o fugaz
sopro das horas nunca foi capaz
de varrer toda a poeira em que não crês?
Imaginas sequer que lá atrás,
ao largo, bem ao largo do que vês,
obstinado te segue esse rapaz
de que em mim nunca o tempo se desfez?
Tens ideia do rumo que lhe dás
por menos importância que lhe dês?
Leceia e 2017
domingo, 14 de julho de 2019
SONETO DO PASSADO QUE ME TRAÍA
No tempo das princesas eras essa
de caracóis compridos e sardinhas
em cujo colo se extinguia a pressa
de que todas as horas fossem minhas.
Pouco pontual e nada assídua, vinhas
no gesto de quem sempre recomeça,
sem lastro de lembranças comezinhas
nem o veneno oculto da promessa.
Sendo assim, ainda hoje me pergunto
por que razão fui eu puxar o assunto
do teu passado de feitiçarias,
por que razão me pus insatisfeito
para tornar a cama onde me deito
patíbulo do bem que me fazias.
Lisboa e 2014
(A primeira quadra desponta noutros
sonetos bem mais antigos e que a merecem
menos.)
sonetos bem mais antigos e que a merecem
menos.)
segunda-feira, 8 de julho de 2019
SONETO DA MINHA FÉ INESPERADA
Cheio de pressa em perceber ao certo
se havia solução para o teu mal,
eu teria acorrido ao hospital
onde entraste de urgência, aqui tão perto.
A mão na tua, para ver que tal
ias da operação a peito aberto,
do cirurgião teria descoberto
que a morte, no teu caso, era o normal.
E em pranto junto à cama derradeira
onde convalescias do conserto
da tua velha aorta rebentada,
dir-te-ia então: "Talvez desta maneira
Deus e tu se conheçam", e, ao dizer-to,
quão grande a minha fé inesperada.
Lisboa e 2014
domingo, 23 de junho de 2019
SONETO DO QUE FUI
Quando surgiste sem aviso nem
paninhos quentes, eu nem ai nem ui
optei por ser cortês. Já tu? Que bem
refastelado estás, ó tu que fui.
Que bem refastelado no sofá,
sempre a mandar bitaites com esse ar
incomplacente, armado em marajá
do espaço em volta no meu novo lar.
Quem diabo és tu, ó tu que fui, quem és
para me atrapalhar a vida assim
e me cansar e me atirar aos pés
do fantasma escondido no jardim?
Com que empáfia me impões a tua missa,
com que lata, ó criatura empatadiça!
Leceia e 2016
sexta-feira, 14 de junho de 2019
SONETO DO MEU INFERNO
Quando auspiciaste que seria gorda
a minha sorte aqui por estes lados,
fizeste-o no suposto de que eu sou da
cidade como a chuva cai no asfalto.
E um par de anos depois, eis-me nas lonas,
amigo António. Estavas enganado
nisso de que eu poderia encontrar outra
vida no ramerrame do povoado.
Se um dia destes viesses visitar-me,
compreenderias que não estou mais perto
de mim, que o mesmo excesso me rebate.
Se viesses visitar-me saberias
que não deixei de ser o meu inferno
por ter variado a guerra dos meus dias.
Leceia e 2016
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