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domingo, 31 de março de 2013

le pingouin (n. fraissinet)


Não passo de um pinguinzinho
Em banquisa distante
Sempre só no meu banho
Nesta imensa piscina
Oceânica e salina

Não passo de um pinguinzinho
Que não tem nada, nada
Nunca terei filhotes
Enfim, imagino eu,
Que nem das 'pinguinas' sei

     Queria tanto pensar

     Que um dia o futuro
     Me trará um navio
     Queria tanto partir
     Do meu tão pobre império
     Onde agora apodreço
     Não tenho outro desejo


Não passo de um pinguinzinho
De banquisa em bacia
Sofrendo em solidão
Sou sempre eu que cozinho
E são sempre sardinhas

Não passo de um pinguinzinho
Sem qualquer paixão
Nem sequer um amigo tenho
Em tão fina banquisa
Só eu me posso mexer

     Refrão

Aventurei-me um dia
Crendo-me já grandinho
Sobre um tubarão branco
Que parecia mais receptivo
Mas não lhe havia visto os dentes

    
Refrão

Eu era um pinguinzinho
Em busca de companhia
Mas só testemunharam
O meu anseio de amor
Aqueles cinquenta caninos

     Queria tanto pensar
     Que um dia o futuro
     Me traria um navio
     Queria tanto partir
     Do meu tão pobre império
     Onde apodrecia
     Não tinha outro desejo

quarta-feira, 27 de março de 2013

inventário (joaquín sabina)

 
As coisas que me dizes quando calas,
os pássaros que aninhas entre as mãos,
a falta do teu corpo nos lençóis,
o tempo que gastámos a insultar-nos,
o temor à velhice, os almanaques,
os táxis que corriam espavoridos,
a dignidade entregue em qualquer parte,
o violinista louco, os agasalhos,
as luas que beijei eu nos teus olhos,
o denso olor a sémen derramado,
a chacota da história à nossa volta,
as cuecas que esqueceste no armário,
o espaço que preenches na minha alma,
a boneca escapada ao incêndio,
a loucura espreitando atrás da porta,
a batalha diária entre dois corpos,
a minha indignação contra as touradas,
o pranto nas esquinas do olvido,
a cinza ainda à vista, os despojos,
o filho que jamais pudemos ter,
o tempo para a dor, as depressões,
o gato que miava no telhado,
o passado ladrando como um cão,
o exílio, a fortuna, os retratos,
a chuva, o desamparo, os discursos,
as convenções que nunca nos uniram,
a redenção que busco no teu corpo,
o teu nome na capa do caderno,
sempre o meu coração no teu respiro,
a cela que ocupaste na prisão,
minha barca à deriva, esta canção,
o bramido do vento no arvoredo,
o silêncio que esgrimes como um muro,
tantas coisas bonitas hoje mortas,
o tirânico império do absurdo,
os obscuros recantos do desejo,
o teu pai, que morreu eras menina,
o beijo apodrecido em nossos lábios,
as paredes caiadas, a indolência,
a luz dos pirilampos sobre a praia,
o naufrágio de todas as certezas,
o derrube de deuses e de mitos,
a escuridão em volta como um túnel,
a cama navegando no vazio,
o tugúrio que um dia veio abaixo,
o sexo resgatando-nos do tédio,
o grito interrompido, a madrugada,
a fogueira do amor que nos queimava,
a insónia, a sorte, as pontas dos cigarros,
a árdua aprendizagem do respeito,
as feridas que já nem Deus nos tira,
a merda que arrastamos sem remédio,
tudo o que nos foi dado e retirado,
os anos que passaram tão depressa,
o pão que partilhámos, as carícias,
o peso transportado em nossas mãos.
 

sexta-feira, 8 de março de 2013

porque lisboa mora aqui (2003)


Eis onde se encontram os caminhos,
onde o rio é o mar que ontem perdi
onde sempre aparece o fugitivo
porque Lisboa mora aqui.

Onde viaja o desejo em ascensores
e um esconderijo tenho para mim,
onde entreguei a  vida aos meus amores
porque Lisboa mora aqui.

Meninas já não querem ser princesas
e há homens que preferem perseguir
o mar dentro de um copo de cerveja
porque Lisboa mora aqui.

Os pássaros visitam o psiquiatra
e há estrelas que se esquecem de sair,
a morte passa em ambulâncias brancas
porque Lisboa mora aqui.

O sol já só aquece a gás butano,
a vida é metro quase de partida
e deixaste a seringa no lavabo
porque Lisboa mora aqui.

Quando quiser a morte visitar-me
não me despertes, deixa-me dormir,
aqui lavrei a minha última tarde
porque Lisboa mora aqui.

hoje o meu dever era


Hoje o meu dever era cantar a pátria, içar a bandeira, assomar à praça. Hoje era o momento de ser optimista, um renascimento, um sol de conquista.

Mas fazes-me falta há já tantos dias que quero e não posso sentir alegrias. Estoira o teu cabelo na minha almofada e estou que não posso dar outra batalha.

Hoje eu, que devia juntar-me ao coro, escondo-me do dia, sussurro este solo. Que faço tão longe, dando mais motivos a esta tortura cruel dos sentidos?

Tua boca pequena dentro do meu beijo, conquista, governa, não toca a recesso. Teu corpo no meu, cantando suores, trinados possessos, violentos tremores.

Hoje o meu dever era cantar a pátria, içar a bandeira, assomar à praça; e creio, afinal, que foi o que fiz, sonhando o teu abraço, voando ao teu lado.

sábado, 7 de junho de 2008

VOGAIS (Rimbaud)

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
De vós direi um dia as origens latentes:
A, corpete sem luz de moscardos luzentes
Que volteiam zumbindo entre odores fatais,

Penumbras; E, candor de vapores e tendas,
Lança em glaciar altivo, alvo rei, fraca umbela;
I, saliva com sangue e riso em boca bela
Sob a ira ou o torpor de quem procura emenda.

U, ciclos, mar de verde em seu vaivém sublime,
A paz do pasto cheio, a paz que sempre e tanto
Nas rugas do estudioso a alquimia imprime;

O, supremo Clarim de silvos ruidosos,
Silêncios penetrados por Mundos e Anjos:
O de ómega, este roxo a raiar em Seus Olhos.

domingo, 6 de abril de 2008

DORMINDO NO VALE (Rimbaud)

Era espuma de luz esse pequeno vale
Onde brilhava o sol sobre a montanha altiva,
Que em delírios de prata entre as ervas corria
Por um troço de verde um riacho a cantar.

E era um jovem soldado estendido na relva,
Banhando a nuca exposta nas águas de azul:
Já sem inquietações, a boca meio aberta,
Branco em seu leito verde encharcado de luz.

Qual criança doente, ele sonhava sorrindo
Ao colo do universo enquanto a tarde esfria:
Nos gladíolos os pés, finalmente dormia.

Não sentindo o perfume em redor, só dormindo:
Ao sol, tranquilo, a mão deitada sobre o peito,
e dois furos carmins no seu lado direito.

terça-feira, 31 de julho de 2007

o meu soneto de Arvers

.
De amor guardo um segredo, um mistério na vida,
tão perene é a hora em que nos conhecemos.
Não posso querer mais: o sonho em que lho diga
há-de ser o pior de entre os meus pesadelos.

Estarei sempre só nesta viagem sofrida
porque estar ao seu lado é todo o meu desejo.
E quando enfim chegar o meu último dia
nem saberá que foi demasiado cedo.

É doce o gesto, é terno o olhar que ela oferece
ao longo do caminho... E porém desconhece
o murmúrio de amor que a minha espera traz;

fiel à sua escolha, em seu dever austera,
destes versos dirá, que apenas falam dela:
«Quem é esta mulher?» E não compreenderá.

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Mon âme a son secret, ma vie a son mystère:
Un amour éternel en un moment conçu.
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas ! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour élevé sur ses pas;

A l’austère devoir, pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
" Quelle est donc cette femme ?" et ne comprendra pas.


....................................................................Félix Arvers (1806-1850)