sábado, 14 de agosto de 2010
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
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A quadra cai sempre a mesma
na cabeça do poetastro:
segue à dízima da resma
esta mancha em que eu alastro.
na cabeça do poetastro:
segue à dízima da resma
esta mancha em que eu alastro.
c major ii
Eu ando exausto de mim,
das minhas noites vazias,
de ter fracassado assim,
de acordar todos os dias;
de um sol que nada me traz
e de ouvir sempre esta voz
gritar "eh pá, nem és capaz
de conjugar somos nós".
Os meus versos são apenas
um chorrilho de ais e eus
que, ai!, eu vomito às centenas
no bailarico do adeus.
das minhas noites vazias,
de ter fracassado assim,
de acordar todos os dias;
de um sol que nada me traz
e de ouvir sempre esta voz
gritar "eh pá, nem és capaz
de conjugar somos nós".
Os meus versos são apenas
um chorrilho de ais e eus
que, ai!, eu vomito às centenas
no bailarico do adeus.
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Quem nunca esperou por nada,
cego e surdo, inerte e mudo,
pode numa só golpada
começar a querer tudo.
cego e surdo, inerte e mudo,
pode numa só golpada
começar a querer tudo.
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Ao tonto de alma penada
não lhe pagues um café
que ele só quer não querer nada
por uma hora que nada é.
não lhe pagues um café
que ele só quer não querer nada
por uma hora que nada é.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
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Depois do banho que lhe dou, o Barbas é feliz como nunca eu. Ainda dizem que os tristes não sabem mais que entristecer...
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Clássica é a escrita de eu pedir ajuda. Moderna seria a surdez de quem ma lesse. Contemporânea sempre foi a minha ignorância.
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Um dos caminhos em frente
há-de ser e tanto faz:
por mais que a vida me invente
nunca a vida volta atrás.
há-de ser e tanto faz:
por mais que a vida me invente
nunca a vida volta atrás.
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O passado foi o único caminho até aqui - e é futuro do futuro vir a ser passado. Só o presente é uma encruzilhada.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
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Chora ainda em mim menor
esta vida ao nosso ouvido
mas agora eu sei de cor
o amor em ti sustenido.
esta vida ao nosso ouvido
mas agora eu sei de cor
o amor em ti sustenido.
domingo, 8 de agosto de 2010
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Não consigo perceber o sucesso de "O velho e o mar", de Hemingway. A avaliar pela tradução, o texto nunca levanta voo; e o tema casa bem com um amante das touradas, da caça pela caça e de quejandos: a luta de um velho para não permitir que um infeliz e torturado atum lhe escape com vida.
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Tourada do CDS a 24 de Julho. Pela boçalidade e pela barbárie, o partido dos betinhos-mores dá o exemplo. Atento na Catalunha e tenho vergonha de Portugal.
sábado, 7 de agosto de 2010
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Para a equipa do F.C. do Porto funcionar bem, é preciso, diz o seu treinador, "determinado tipo de tempo". Chiça, o homem deve perceber de Física como ninguém. Ou de Metafísica...
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
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Pronuncia-se b'jeca. Muitos escrevem bejeca. Para mim, e pouco me importa se com razão, sempre foi bojeca, de bojo. Aos quarenta e três, o bojo instalou-se. Só podia.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
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Em agosto, o pinguim é já criatura extinta, até nos lugares por onde mais se passeava. Ou será que os pinguins estivam?
terça-feira, 3 de agosto de 2010
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Confias que é grande coisa
ter bom nome de bons pais
quando a mosca também poisa
na merda que brilha mais.
ter bom nome de bons pais
quando a mosca também poisa
na merda que brilha mais.
elegia
recordo que há tempos me disseste
que tinhas atravessado o mundo
e espreitado o papel das trevas
e dá-se que provavelmente não voltaste
- também recordo agora que não és o mesmo
e eu muito menos do que isso
vamos ter saudades de atum em lata
que tinhas atravessado o mundo
e espreitado o papel das trevas
e dá-se que provavelmente não voltaste
- também recordo agora que não és o mesmo
e eu muito menos do que isso
vamos ter saudades de atum em lata
domingo, 1 de agosto de 2010
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Não há dinossáurios em Portugal. Foram extintos pelos dinossauros, que, como o nome indica, não são lagartos: são lagatos.
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Segundo o comentador, estou a assistir na televisão a uns minutos de rêiguebi. Não confundir com outro desporto muito popular na Inglaterra e que talvez nunca tenha existido entre nós: o râguebi.
sábado, 31 de julho de 2010
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Mais caloria, menos caloria, preciso de duas mil por dia. Não posso distrair-me com as minhas escrituras.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
quinta-feira, 29 de julho de 2010
FAZ-TE À VIDA
Em miúdo, tive de assistir algumas vezes à matança do porco. E, não bastando, também me levaram um par de vezes à tourada. Talvez o primeiro desses actos seja inevitável; mas são evitáveis os requintes de malvadez e a festa que geralmente o acompanham. E que definem as touradas.
Com o tempo, fui descobrindo que ser bípede e desasado nunca foi critério de humanidade. Nesse sentido, já ouvi muitos toureiros pronunciarem-se com menos inteligência que a de um porco; e, entendidos como vêm no dicionário, bacoradas e grunhidos - eu só os tenho encontrado entre os primeiros, boçais contabilistas de orelhas e falsos argumentos.
Isto a propósito de uma notícia que traz duas. As touradas serão proibidas na Catalunha a partir de 1 de Janeiro de 2012 e a minha felicidade só não é completa porque, até lá, é bem provável que aumente o rasto do crime. A horda de bárbaros afluirá a "anular o sofrimento do touro e dignificar a sua morte na arena", segundo as palavras macaqueadas de um tipo a quem deram o nome de Pedrito de Portugal.
É o sofrimento, estúpido, é o sofrimento que começa por estar mal. E quem tem de se dignificar és tu. Faz-te à vida.
Com o tempo, fui descobrindo que ser bípede e desasado nunca foi critério de humanidade. Nesse sentido, já ouvi muitos toureiros pronunciarem-se com menos inteligência que a de um porco; e, entendidos como vêm no dicionário, bacoradas e grunhidos - eu só os tenho encontrado entre os primeiros, boçais contabilistas de orelhas e falsos argumentos.
Isto a propósito de uma notícia que traz duas. As touradas serão proibidas na Catalunha a partir de 1 de Janeiro de 2012 e a minha felicidade só não é completa porque, até lá, é bem provável que aumente o rasto do crime. A horda de bárbaros afluirá a "anular o sofrimento do touro e dignificar a sua morte na arena", segundo as palavras macaqueadas de um tipo a quem deram o nome de Pedrito de Portugal.
É o sofrimento, estúpido, é o sofrimento que começa por estar mal. E quem tem de se dignificar és tu. Faz-te à vida.
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Também da preguiça, e em mim sobretudo da preguiça, se alimenta a maldade. Valha-me em sorte não ser rico.
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À luz do candeeiro, redonda e quieta, a pomba amorrece. No seu pescoço arrepiado levanta-se o temor de que eu a obrigue a desenredar-se. O bom do Barbas afasta-me: ajuda-a, não lhe contamines a espera.
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Assim esvazia e enche a lua,
assim e sempre, aonde eu for,
lembrarei que, mão na tua,
te segredei: «Meu amor...»
assim e sempre, aonde eu for,
lembrarei que, mão na tua,
te segredei: «Meu amor...»
terça-feira, 27 de julho de 2010
0,5
Todo o sono é princípio
do sonho em que um dia foste,
toda a vigília é caminho
para o adeus no teu nome.
Nunca se completa, pois,
a arte antiga de eu perder,
que já nunca chega a dois
quem já nem um pode ser.
Portanto, se ao teu sinal
eu não olhar para ti -
mulher, não leves a mal:
é que eu já não moro aqui.
do sonho em que um dia foste,
toda a vigília é caminho
para o adeus no teu nome.
Nunca se completa, pois,
a arte antiga de eu perder,
que já nunca chega a dois
quem já nem um pode ser.
Portanto, se ao teu sinal
eu não olhar para ti -
mulher, não leves a mal:
é que eu já não moro aqui.
domingo, 25 de julho de 2010
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Tourada a sério é aquela
em que se baralha a sorte
e o carrasco cai da sela
sobre os dois cornos da morte.
em que se baralha a sorte
e o carrasco cai da sela
sobre os dois cornos da morte.
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Perdi quem me reinvente,
quem ao menos me conforte,
já não espero que o teu ventre
me volte a guardar da morte.
quem ao menos me conforte,
já não espero que o teu ventre
me volte a guardar da morte.
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O tempo trota a cavalo,
sem batalha nem contraste,
pois se em jovem quis gastá-lo
já só quero que ele me gaste.
sem batalha nem contraste,
pois se em jovem quis gastá-lo
já só quero que ele me gaste.
sábado, 24 de julho de 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
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Que nos teus braços se acoite
o último sonho de um louco:
já não suporto outra noite
em que me ofereças tão pouco.
o último sonho de um louco:
já não suporto outra noite
em que me ofereças tão pouco.
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Há muito que deixei cair o princípio da parcimónia, se alguma vez tive de o deixar cair... Parafraseando Einstein, as coisas têm de ser simples, sim - mas não mais simples do que isso.
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De tanta grávida de. Da-des dados de barato, é erro ou machismo, do tempo em que era tudo semente do homem. Grávida com, sim: A Ana está grávida com o Manel. E, já agora, também: o Manel está grávido com a Ana, a Ana e o Manel estão grávidos. Toda a gente sabe que é da Ana o maior milagre. E já agora, parabéns!
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Se não sei cortar o fio
com que mata o meu passado,
ao menos cortem-me o pio
e ponham-me noutro lado.
com que mata o meu passado,
ao menos cortem-me o pio
e ponham-me noutro lado.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
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Exausto do seu papel de co-insone, o Barbas saiu da sala e atravessou-se na cama. Afinal são meus, apenas meus, os pesadelos do quarto.
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Vou derramar todo o vinho
sobre o meu mundo pequeno
a ver se ainda me adivinho
nas névoas do teu aceno.
sobre o meu mundo pequeno
a ver se ainda me adivinho
nas névoas do teu aceno.
APRENDIZ DE DON JUAN
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Tenho andado com uma citação de Saramago na cabeça: «Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo.»
Estas e outras frases de diferentes escritores levam-me, em primeiro lugar, a pensar que há autores de dois tipos: os que se acham autores de invenção e pretendem recombinar o mundo; e os que se acreditam autores de exposição e dizem descobrir a vida aos distraídos. Deuses criadores os primeiros, deuses omniscientes os segundos - para que eu possa viver em paz estão todos errados, a não ser que entendamos por "invenção" e "levantar uma pedra" actos muito mais ligeiros e bem menos importantes do que provavelmente aqueles dois tipos de autores gostariam.
Eu, para ser sincero, nem com o termo autor concordo. Prefiro sedutor, que é, afinal, o que todos eles são e que eu, muito provavelmente, ainda não aprendi a ser.
Tenho andado com uma citação de Saramago na cabeça: «Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo.»
Estas e outras frases de diferentes escritores levam-me, em primeiro lugar, a pensar que há autores de dois tipos: os que se acham autores de invenção e pretendem recombinar o mundo; e os que se acreditam autores de exposição e dizem descobrir a vida aos distraídos. Deuses criadores os primeiros, deuses omniscientes os segundos - para que eu possa viver em paz estão todos errados, a não ser que entendamos por "invenção" e "levantar uma pedra" actos muito mais ligeiros e bem menos importantes do que provavelmente aqueles dois tipos de autores gostariam.
Eu, para ser sincero, nem com o termo autor concordo. Prefiro sedutor, que é, afinal, o que todos eles são e que eu, muito provavelmente, ainda não aprendi a ser.
terça-feira, 20 de julho de 2010
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«Já não vou à Ericeira, olhe... isto para não ser aldrabão, já lá não vou há pelo menos uns cinco anos. Não tenho lá nada, percebe? Só lá estão os meus pais e os meus irmãos.», «Percebo, percebo. Quando é assim...»
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Tem medo à facilidade,
ao que te dão, ao que se herda:
é sempre daí que te há-de
aparecer toda a merda.
ao que te dão, ao que se herda:
é sempre daí que te há-de
aparecer toda a merda.
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Como diz a praia ao mar
se o mar dela se aborrece,
eu hei-de sempre esperar
por quem sempre me aparece.
se o mar dela se aborrece,
eu hei-de sempre esperar
por quem sempre me aparece.
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O pó das estrelas beijou-me
de tantas, tantas maneiras,
e ofereceu-me no teu nome
a esperança de que me queiras.
de tantas, tantas maneiras,
e ofereceu-me no teu nome
a esperança de que me queiras.
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Este fantasma da posse... Sonhei-te grávida com quem amas e acordei no abismo. Contudo, tarde ou cedo isso acontecerá. Escondam-mo. Esperem que eu volte a sonhar o mesmo com sorriso e desprendimento.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
o espaço em que não estás
Subo ao nosso comboio
na gaveta de outros dias
quando eu ainda era antónio
e ainda tu me querias.
Quando o silvo da partida
trazia a hora da chegada
e uma esperança perdida
junto ao cais te segurava.
Teu corpo em tão pouca terra
nunca seria feliz:
foste à vida que te espera
e enferrujam os carris.
na gaveta de outros dias
quando eu ainda era antónio
e ainda tu me querias.
Quando o silvo da partida
trazia a hora da chegada
e uma esperança perdida
junto ao cais te segurava.
Teu corpo em tão pouca terra
nunca seria feliz:
foste à vida que te espera
e enferrujam os carris.
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Tanto que te quero! Apesar disso, ser-nos-emos cada vez mais estranhos. Claro que um de nós morrerá primeiro, daqui a alguns anos; e o outro, se for avisado, ficará em casa a recordar o silêncio: estaria a mais no funeral.
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Tu és a moça que cora,
eu sou o gajo que espuma,
tu fai l'amore a toda a hora,
eu há anos que não dou uma.
eu sou o gajo que espuma,
tu fai l'amore a toda a hora,
eu há anos que não dou uma.
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Estes comentadores da bola fazem sempre com que o jogador a recepcione. Então a bola já não se recebe? Ou receber a bola é só para as peladinhas entre amigos?
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Abomino a arrogância e o amor superficial às cadeiras - muito do que vejo no engenhoso, tudo o que vejo no coelho em passos de senhor. Um dia destes vou para a Nova Zelândia, que já estou farto de vomitar.
domingo, 18 de julho de 2010
sábado, 17 de julho de 2010
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Estou exausto do 'r' lisboeta, que é como quem diz: francês. No outro dia, a Roja, vencedora deste Mundial, era Joja e feria-me os ouvidos... Claro que muitos lisboetas não fazem a mínima ideia do que é que eu estou a falar.
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Se é adeus que delas espero,
adeus, então, às mulheres,
e direi que não te quero
por mais que tu me quiseres.
adeus, então, às mulheres,
e direi que não te quero
por mais que tu me quiseres.
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Que sentido faz um post-scriptum numa mensagem electrónica? Talvez nenhum, à parte o meu gosto e a minha vida.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
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Minhas palavras ao lado
nunca pretendem magoar-te:
tudo o que tenho falhado
é por mera ausência de arte.
nunca pretendem magoar-te:
tudo o que tenho falhado
é por mera ausência de arte.
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Fui perdendo todo o empenho,
toda a ânsia em mim se refreia:
eu já nunca me entretenho
a erguer castelos na areia.
toda a ânsia em mim se refreia:
eu já nunca me entretenho
a erguer castelos na areia.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
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Não sendo o Casillas, namorasse eu a Sara - e ela não teria gostado nada do beijo subtraído à frente de todos e no seu posto de trabalho. Também se dá a forte hipótese de eu nunca ter tido namorada.
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«Carrega no erre, filho», disse-me um dia a minha mãe, tinha eu três ou quatro anitos, «não é caro, é carro». Aprendi logo ali, que muito atento respondi: «Carralho.» E, escusado será dizer, ainda hoje se conta a história.
terça-feira, 13 de julho de 2010
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Gastar em audi's para ostentar os milhões a mais roubados ultimamente = actualizar o inventário de veículos à disposição. São os enriquecimentos do vocabulário socratoso.
domingo, 11 de julho de 2010
POLVO
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1:
No jogo das meias-finais entre as selecções holandesa e uruguaia, e apesar de nenhum comentador ter tocado no assunto, o lance do primeiro golo da selecção holandesa foi precedido de falta grave, para vermelho, de um holandês sobre um uruguaio. E o segundo golo da mesma selecção só existiu porque um jogador holandês, em posição irregular, não só dificultou a visibilidade do guarda-redes uruguaio como se fez ao lance, tentando desviar a bola.
2:
A selecção espanhola foi beneficiada pela arbitragem e pela sorte em, pelo menos, dois jogos: contra as selecções portuguesa e paraguaia. Acresce ainda que noutro jogo, contra a selecção chilena, um tal de David Villa festejou o primeiro golo, contra a corrente do jogo, em postura de torturador, vulgo torero.
3:
Snijder, da selecção da holandesa, e Villa, da selecção espanhola, estão entre os melhores artilheiros, com 5 golos cada.
4:
Paul, o Polvo, garante que a selecção espanhola vai ganhar o jogo da final, daqui a pouco.
Então:
a:
Que ganhe a Espanha. Mas que, seja qual for o cenário, Villa não marque nenhum golo: não o quero a gabar-se de ser o melhor artilheiro. Ideal era que Snijder marcasse pelo menos um...
b:
Já terei tudo o que espero deste dia, entre tantos dias em que nada espero.
c:
Que fique coxo das três patas quem se atrever a matar o polvo e maneta ademais quem dele se alimentar.
1:
No jogo das meias-finais entre as selecções holandesa e uruguaia, e apesar de nenhum comentador ter tocado no assunto, o lance do primeiro golo da selecção holandesa foi precedido de falta grave, para vermelho, de um holandês sobre um uruguaio. E o segundo golo da mesma selecção só existiu porque um jogador holandês, em posição irregular, não só dificultou a visibilidade do guarda-redes uruguaio como se fez ao lance, tentando desviar a bola.
2:
A selecção espanhola foi beneficiada pela arbitragem e pela sorte em, pelo menos, dois jogos: contra as selecções portuguesa e paraguaia. Acresce ainda que noutro jogo, contra a selecção chilena, um tal de David Villa festejou o primeiro golo, contra a corrente do jogo, em postura de torturador, vulgo torero.
3:
Snijder, da selecção da holandesa, e Villa, da selecção espanhola, estão entre os melhores artilheiros, com 5 golos cada.
4:
Paul, o Polvo, garante que a selecção espanhola vai ganhar o jogo da final, daqui a pouco.
Então:
a:
Que ganhe a Espanha. Mas que, seja qual for o cenário, Villa não marque nenhum golo: não o quero a gabar-se de ser o melhor artilheiro. Ideal era que Snijder marcasse pelo menos um...
b:
Já terei tudo o que espero deste dia, entre tantos dias em que nada espero.
c:
Que fique coxo das três patas quem se atrever a matar o polvo e maneta ademais quem dele se alimentar.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
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Diz-se fila quando se devia dizer bicha. Bicha é cobra, é serpente, é a palavra certa e mais bonita para pessoas atrás de pessoas e carros atrás de carros. Os brasileiros talvez vissem outra coisa neste pessoas atrás de pessoas, não sei. Só sei que nos tiraram da bicha e puseram na fila. E eu continuo a dizer: «Desculpe, está na bicha?» Porque assim está melhor.
terça-feira, 29 de junho de 2010
MACARRONICES
Quando alguém me pede uma informação em inglês, tenho um primeiro tique de má vontade. Se me parecer que, para essa pessoa, é suposto eu percebê-la e responder-lhe na mesma língua, já me aconteceu mandá-la passear com um não sei. Mas se ela começar com porrr favorrr: do you speak english, puxo do mapa com um a little bit e descarrego-o straight ahead, apesar das limitações e do sotaque.
O preço da ecumenicidade da língua inglesa é mesmo esse: o de ser maltratada. Se todos somos obrigados a usá-la, no mínimo todos podemos torpedeá-la. Aliás, o que me faz rir é precisamente o contrário: um português com todos os maneirismos e toada típicos dos ingleses.
Mas o que me faz rir ainda mais é um português sem ponto de equilíbrio. Ultimamente, que me lembre, vi três na televisão, cujas motivações não consegui perceber. Há uns tempos surgiu Sócrates-o-do-ministério a tropeçar em castelhano. Foi tão confrangedor que, entre os risos, deixei-me envergonhar no enterro do meu sofá. O mesmo aconteceu ontem, quando Carlos Queiroz maltratou a mesma língua. E o mesmo, ainda, quando o escritor António Lobo Antunes se pôs a falar um português-de-perfume-postiço ao responder a um conjunto de jornalistas brasileiros.
Os espanhóis e os brasileiros percebem muito bem o nosso português. Pronunciem-se as palavras à nossa maneira, devagar e completamente como eles deveriam fazer com as suas. O esforço não tem de ser só nosso, não sejamos ridículos.
O preço da ecumenicidade da língua inglesa é mesmo esse: o de ser maltratada. Se todos somos obrigados a usá-la, no mínimo todos podemos torpedeá-la. Aliás, o que me faz rir é precisamente o contrário: um português com todos os maneirismos e toada típicos dos ingleses.
Mas o que me faz rir ainda mais é um português sem ponto de equilíbrio. Ultimamente, que me lembre, vi três na televisão, cujas motivações não consegui perceber. Há uns tempos surgiu Sócrates-o-do-ministério a tropeçar em castelhano. Foi tão confrangedor que, entre os risos, deixei-me envergonhar no enterro do meu sofá. O mesmo aconteceu ontem, quando Carlos Queiroz maltratou a mesma língua. E o mesmo, ainda, quando o escritor António Lobo Antunes se pôs a falar um português-de-perfume-postiço ao responder a um conjunto de jornalistas brasileiros.
Os espanhóis e os brasileiros percebem muito bem o nosso português. Pronunciem-se as palavras à nossa maneira, devagar e completamente como eles deveriam fazer com as suas. O esforço não tem de ser só nosso, não sejamos ridículos.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
HOMO ICAROS
Grandes correntes, grandes descobertas, grandes invenções, grandes actos assentam, muitas vezes, na facilidade que alguns têm para, considerando menos do que meia dúzia de variáveis, avançar. Quando têm consciência dessa facilidade, esse avanço é desonestidade intelectual. Quando não, é mesmo, e só, limitação. Em ambos os casos é arrogância. E em ambos os casos há, quase sempre, outros que pensaram o mesmo mas não deram o passo. Ou porque o soubessem em cama de erro ou porque o soubessem mal fundamentado.
Concluindo e resumindo, se subimos tão alto devemo-lo a um conjunto de filósofos e cientistas, políticos e artistas que se julgaram mais importantes e/ou mais inteligentes do que na realidade eram. Os verdadeiros pensadores nunca poderiam ter chegado a quaisquer conclusões sobre este mundo: sabiam que os 'dados' eram exíguos; que era estreita a capacidade humana; que, no fundo, o homem é, apenas e ao mesmo tempo, mais uma das teorias da-e-sobre-a-natureza.
Não se me derretam em vida as asas deste Ícaro.
Concluindo e resumindo, se subimos tão alto devemo-lo a um conjunto de filósofos e cientistas, políticos e artistas que se julgaram mais importantes e/ou mais inteligentes do que na realidade eram. Os verdadeiros pensadores nunca poderiam ter chegado a quaisquer conclusões sobre este mundo: sabiam que os 'dados' eram exíguos; que era estreita a capacidade humana; que, no fundo, o homem é, apenas e ao mesmo tempo, mais uma das teorias da-e-sobre-a-natureza.
Não se me derretam em vida as asas deste Ícaro.
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Bem contado, há-de ficar
que tive tudo o que pude:
na minha concha, afinal,
quis muito e quis amiúde.
que tive tudo o que pude:
na minha concha, afinal,
quis muito e quis amiúde.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
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Um bocado não chega, um bocado é apenas o que da colher recebe esta boca. No mínimo, que se repita a viagem.
terça-feira, 15 de junho de 2010
O MAIOR DOS ISMOS
Lembro-me de ter lido o «Pauis» do Fernando Pessoa e rir-me de assim se ter fundado o Paulismo… Provavelmente era uma incapacidade minha – que se mantém –, mas a verdade é que ainda tenho aversão aos ismos, brotem eles de um poema ou de um conjunto mais integrado de pensamentos e obras de vários autores.
Isto a propósito do maior dos ismos, o que serve mesmo para tudo sem servir para nada: o pós-modernismo. Confesso que nunca me dediquei a ler uma daquelas obras tipo «O que é o Pós-Modernismo?», e que começam por dizer que definir a coisa… é coisa muito, muito complicada. Por isso, o que acontece é que, na minha inculta humildade, apenas vou apanhando uma afirmação aqui, uma negação ali, daquilo que vão dizendo os que se dizem pós-modernistas… ( A propósito, parece-me que detestam as reticências: é que toda a palavra já tem as suas reticências........................)
Neste apanha-aqui-apanha-ali, tenho lobrigado, ultimamente, um conceito que me parece ser-lhes muito querido. Usando uma imagem que neste mês de Junho até faz algum sentido, garantem que um criador tem de meter a bola do lado do leitor/espectador: que este é que tem de construir o significado, blá-blá-blá, blá-blá-blá. À parte o aspecto irritante de as auto-catalogadas obras pós-modernistas exagerarem na auto-referenciação, auto-promoção, auto-etc., o que se me oferece dizer é simples:
E não foi sempre assim? Desde quando o significado construído por cada leitor (e os vários leitores que é um mesmo leitor, consoante o dia e a hora do dia…), desde quando esse significado é igual ao do autor? Se nem este, quando lê o que escreveu, o entende como entendeu! E se nem este chegou a escrever o que pensou... Se este, muitas vezes, apenas escreveu para pensar…
O pós-modernismo, sinceramente, parece-me ser coisa de sempre. Um autor, ainda quando o negue, apenas quer seduzir com e para o texto/espectáculo. O resto são balelas, multiplicação de etiquetas para invariantes, ruído.
Isto a propósito do maior dos ismos, o que serve mesmo para tudo sem servir para nada: o pós-modernismo. Confesso que nunca me dediquei a ler uma daquelas obras tipo «O que é o Pós-Modernismo?», e que começam por dizer que definir a coisa… é coisa muito, muito complicada. Por isso, o que acontece é que, na minha inculta humildade, apenas vou apanhando uma afirmação aqui, uma negação ali, daquilo que vão dizendo os que se dizem pós-modernistas… ( A propósito, parece-me que detestam as reticências: é que toda a palavra já tem as suas reticências........................)
Neste apanha-aqui-apanha-ali, tenho lobrigado, ultimamente, um conceito que me parece ser-lhes muito querido. Usando uma imagem que neste mês de Junho até faz algum sentido, garantem que um criador tem de meter a bola do lado do leitor/espectador: que este é que tem de construir o significado, blá-blá-blá, blá-blá-blá. À parte o aspecto irritante de as auto-catalogadas obras pós-modernistas exagerarem na auto-referenciação, auto-promoção, auto-etc., o que se me oferece dizer é simples:
E não foi sempre assim? Desde quando o significado construído por cada leitor (e os vários leitores que é um mesmo leitor, consoante o dia e a hora do dia…), desde quando esse significado é igual ao do autor? Se nem este, quando lê o que escreveu, o entende como entendeu! E se nem este chegou a escrever o que pensou... Se este, muitas vezes, apenas escreveu para pensar…
O pós-modernismo, sinceramente, parece-me ser coisa de sempre. Um autor, ainda quando o negue, apenas quer seduzir com e para o texto/espectáculo. O resto são balelas, multiplicação de etiquetas para invariantes, ruído.
sábado, 12 de junho de 2010
UM JOGADOR DIFERENTE
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Um jogador coxo e, naturalmente, em péssima forma, foi seleccionado para o África do Sul 2010. Ao teclado, vou bicando hipóteses:
1) Mesmo coxo ou em má forma, Pepe é o maior na posição em que o seleccionador o quer pôr a jogar. O único inconveniente é que precisa de descansar dois joguinhos, para ganhar a confiança e a forma que os jogadores comuns ganham em campo, minuto agora, minuto depois, treinando com bola e competindo contra equipas acessíveis. No caso dele, enquanto não chega o jogo a sério com o Brasil, há um outro jogador que se oferece para rodar: Pedro Mendes vai substituí-lo, temporária e solidariamente.
2) Pepe não está bom para jogatanas, isso não. Mas é imprescindível para o espírito de grupo. Conta anedotas como ninguém e sabe dar aquela forcinha aos jogadores que estão em campo. E como já não precisa de muletas para andar, não pegou muito mal levá-lo. A decisão foi camuflada de processo difícil, aturado e justo com a ajuda de um outro jogador, José Castro, compincha e peras, jovem suficiente para joguete de diplomacias (na altura certa, foi dispensado). Claro que Pepe podia ter ido à África do Sul apenas como convidado, sem tirar o lugar a outro – mas não estava para isso.
3) Seria uma grande injustiça não convocar uma pessoa de origem brasileira que se naturalizou português para poder jogar na selecção. Ainda amuava e nunca mais queria voltar. Isso abriria um grave precedente e seria mau exemplo para futuros brasileiros integráveis na selecção.
Surgia-me agora outra hipótese: que também seria injusto não convocar alguém que fez parte da campanha de qualificação. Mas não colhe, porque haverá outros jogadores nessa situação e que não foram convocados (João Moutinho, para dar só um exemplo).
Enfim, pode ser que, rola-rolando o campeonato, outra hipótese surja, menos azeda que estas, para me surpreender. Ou mesmo a verdade... Nesse caso, sabê-la-ei pelos jornais, claro, e prometo dar o braço a torcer. Desde que possa continuar a escrever.
Um jogador coxo e, naturalmente, em péssima forma, foi seleccionado para o África do Sul 2010. Ao teclado, vou bicando hipóteses:
1) Mesmo coxo ou em má forma, Pepe é o maior na posição em que o seleccionador o quer pôr a jogar. O único inconveniente é que precisa de descansar dois joguinhos, para ganhar a confiança e a forma que os jogadores comuns ganham em campo, minuto agora, minuto depois, treinando com bola e competindo contra equipas acessíveis. No caso dele, enquanto não chega o jogo a sério com o Brasil, há um outro jogador que se oferece para rodar: Pedro Mendes vai substituí-lo, temporária e solidariamente.
2) Pepe não está bom para jogatanas, isso não. Mas é imprescindível para o espírito de grupo. Conta anedotas como ninguém e sabe dar aquela forcinha aos jogadores que estão em campo. E como já não precisa de muletas para andar, não pegou muito mal levá-lo. A decisão foi camuflada de processo difícil, aturado e justo com a ajuda de um outro jogador, José Castro, compincha e peras, jovem suficiente para joguete de diplomacias (na altura certa, foi dispensado). Claro que Pepe podia ter ido à África do Sul apenas como convidado, sem tirar o lugar a outro – mas não estava para isso.
3) Seria uma grande injustiça não convocar uma pessoa de origem brasileira que se naturalizou português para poder jogar na selecção. Ainda amuava e nunca mais queria voltar. Isso abriria um grave precedente e seria mau exemplo para futuros brasileiros integráveis na selecção.
Surgia-me agora outra hipótese: que também seria injusto não convocar alguém que fez parte da campanha de qualificação. Mas não colhe, porque haverá outros jogadores nessa situação e que não foram convocados (João Moutinho, para dar só um exemplo).
Enfim, pode ser que, rola-rolando o campeonato, outra hipótese surja, menos azeda que estas, para me surpreender. Ou mesmo a verdade... Nesse caso, sabê-la-ei pelos jornais, claro, e prometo dar o braço a torcer. Desde que possa continuar a escrever.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
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Ah, grande Camões, que alegria estares morto. Assim não há como desiludir-me, assim não há por que odiar-te. Assim, pertences-me.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
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Poucas ideias me fazem temer a morte. Mas espero estar de novo indiferente em finais de outubro: à terceira serpentina, ao terceiro universo, ao terceiro romance.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
E É GOLO
Por mais voltas que se dê, uns hão-de sempre ser mais iguais que os outros. Lembra-me disto a notícia no CM que envolve Nani, futebolista da selecção, à frente O Fintas, e um guarda agora famoso, à frente O Porreiraço.
Diz a notícia que, às oito e meia da manhã, O Fintas foi apanhado a conduzir o seu bólide na berma, expediente para escapar à bicha que entretanto se formara. Começo por imaginar que tenha ficado aflito: ali parado, toda a gente a olhar... Mas não: com a dinheirama que gastou no popó, acho pouco crível que alguém o conseguisse ver através dos vidros fumados.
O facto é que O Porreiraço não autuou. Talvez porque, se autuasse, O Fintas deixaria de poder fintar com o seu belo popó por uns tempos (a não ser que, na prática, viesse a fintar a teoria). Ou, então, talvez porque O Porreiraço tivesse recebido a promessa: em campo, O Fintas só vai fazer as fintas necessárias.
Agora a parte dos outros iguais. Aqui há uns anos, ainda eu gostava de conduzir, ia com a família na bicha da A5 quando me rebentou o pneu do carro. Encostei. Mas não gosto de estar parado na berma em situações destas: por causa da confusão, confesso, e porque penso sempre que pode passar uma ambulância com pressa. Por isso, e porque estava apenas a uns cinquenta metros da estação de serviço, arrisquei a saúde do carro e comecei a rolar na sua direcção.
Com a sorte que sempre me cabe, um bigodudo mal-encarado mandou-me parar. Chamou-me espertalhão, como se pudesse, passou-me a multa, que podia e devia, e disse-me para me meter na estação de serviço, que, enfim, sendo ele a mandar a coisa piava diferente... Alguns dias depois, fui obrigado a entregar a carta de condução: inibiram-me de conduzir durante dois meses.
Resumindo: se alguns são mais iguais que os outros é porque os outros são menos iguais que alguns... Ou iguais a sério. Mas quem não sabe disso?
Diz a notícia que, às oito e meia da manhã, O Fintas foi apanhado a conduzir o seu bólide na berma, expediente para escapar à bicha que entretanto se formara. Começo por imaginar que tenha ficado aflito: ali parado, toda a gente a olhar... Mas não: com a dinheirama que gastou no popó, acho pouco crível que alguém o conseguisse ver através dos vidros fumados.
O facto é que O Porreiraço não autuou. Talvez porque, se autuasse, O Fintas deixaria de poder fintar com o seu belo popó por uns tempos (a não ser que, na prática, viesse a fintar a teoria). Ou, então, talvez porque O Porreiraço tivesse recebido a promessa: em campo, O Fintas só vai fazer as fintas necessárias.
Agora a parte dos outros iguais. Aqui há uns anos, ainda eu gostava de conduzir, ia com a família na bicha da A5 quando me rebentou o pneu do carro. Encostei. Mas não gosto de estar parado na berma em situações destas: por causa da confusão, confesso, e porque penso sempre que pode passar uma ambulância com pressa. Por isso, e porque estava apenas a uns cinquenta metros da estação de serviço, arrisquei a saúde do carro e comecei a rolar na sua direcção.
Com a sorte que sempre me cabe, um bigodudo mal-encarado mandou-me parar. Chamou-me espertalhão, como se pudesse, passou-me a multa, que podia e devia, e disse-me para me meter na estação de serviço, que, enfim, sendo ele a mandar a coisa piava diferente... Alguns dias depois, fui obrigado a entregar a carta de condução: inibiram-me de conduzir durante dois meses.
Resumindo: se alguns são mais iguais que os outros é porque os outros são menos iguais que alguns... Ou iguais a sério. Mas quem não sabe disso?
quarta-feira, 2 de junho de 2010
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Se não fosse o bem-estar do Barbas, abandonava tudo este fim-de-semana: ia passear a caneta ao Porto e desabrigava-me definitivamente. Sem remorsos nem retrocessos: o regresso ao lar nunca foi tema que me vibrasse.
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Cansa-me estar sempre a ouvir: isso é completamente diferente; eles são completamente opostos; etc. Qualquer dia já não consigo dizer que uma coisa é diferente da outra sem sentir a falta do completamente... E quando assim for, resta-me variar, substituindo-o por outra monstruosidade. Absolutamente.
terça-feira, 1 de junho de 2010
quarta-feira, 26 de maio de 2010
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Únicas testemunhas do bárbaro assassínio de meu pai - a Bonita morreu há ano e meio, o Piloto morreu hoje. Era nas suas retinas a nossa casa.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
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De todo este absolutamente: absolutamente diferente, absolutamente maravilhoso, absolutamente inegável, absolutamente ímpar, absolutamente improvável. Se me disserem que não há mal nenhum, então deixem-me responder que fico muito desiludíssimo.
sábado, 22 de maio de 2010
CONVERSAS
Há muitos anos, li um antigo provérbio de que desconheço a origem e de que logo esqueci os pormenores. De qualquer modo, guardo na memória o essencial do que aconselhava: de entre os seus pretendentes, uma rapariga deve escolher o melhor conversador; desse modo, estará em boa companhia quando não houver mais nada do que palavras. Não sei que mulheres (e homens...) poderiam, na Antiguidade, ter essa liberdade de escolha; é provável que o provérbio fizesse parte dos parlapiés paternos e raramente fosse tido em conta. À parte estas dúvidas, sempre associei aquele mais nada à impotência sexual.
Mas, embora eu seja mau conversador, nunca nada disto me preocupou. Por um lado, porque fui deixando de prestar atenção à maior parte dos problemas antes de eles o serem; e, por outro, porque também fui percebendo que, muitas vezes, os problemas são bem mais manuseáveis quando chegam à casa certa. Acrescente-se que se vai tornando cada vez mais reduzida a probabilidade de envelhecer acompanhado – e conclua-se que, embora saiba da invenção do Viagra e quejandos, não me vale a pena dedicar ao tema um minuto do meu tempo.
E é neste oceano de sossego que me colhem as últimas notícias, segundo as quais aqueles medicamentos miraculosos estão associados a uma tendência bastante acrescida de surdez. Sendo assim, está decidido: vou transformar em improbabilidade a probablidade reduzida de envelhecer acompanhado – porque, enfim, prefiro viver de amores platónicos e continuar a ouvir conversas, ainda que sejam de outros. Quanto aos que sabem conversar e não querem prescindir de amores a sério, aconselhá-los-ia a aprenderem a ler nos lábios. E a habituarem-se aos discursos sem aplauso.
Mas, embora eu seja mau conversador, nunca nada disto me preocupou. Por um lado, porque fui deixando de prestar atenção à maior parte dos problemas antes de eles o serem; e, por outro, porque também fui percebendo que, muitas vezes, os problemas são bem mais manuseáveis quando chegam à casa certa. Acrescente-se que se vai tornando cada vez mais reduzida a probabilidade de envelhecer acompanhado – e conclua-se que, embora saiba da invenção do Viagra e quejandos, não me vale a pena dedicar ao tema um minuto do meu tempo.
E é neste oceano de sossego que me colhem as últimas notícias, segundo as quais aqueles medicamentos miraculosos estão associados a uma tendência bastante acrescida de surdez. Sendo assim, está decidido: vou transformar em improbabilidade a probablidade reduzida de envelhecer acompanhado – porque, enfim, prefiro viver de amores platónicos e continuar a ouvir conversas, ainda que sejam de outros. Quanto aos que sabem conversar e não querem prescindir de amores a sério, aconselhá-los-ia a aprenderem a ler nos lábios. E a habituarem-se aos discursos sem aplauso.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
terça-feira, 18 de maio de 2010
SERVIÇO DE URGÊNCIAS
Sete da manhã. Cada sorvo de ar faz-me um rasgão do peito ao pescoço, estende-se – ou imagino que se estende? – pelo braço esquerdo: acordo com falta de ar. O Barbas salta da cama assim que se apercebe dos meus olhos abertos. «Ainda faltam duas horas, Barbas»; mas qual quê, não deslate enquanto o não passeio.
Levanto-me, preparo-me, levo-o como posso. A seguir, lenta-lentamente, dirijo-me ao hospital. Oito horas, triagem de Manchester, uma fita vermelha à volta do braço. Vermelha de caso emergente: duas horas de espera, que é quando o meu nome soa, associado a uma sala onde um médico escrevinha.
– Então diga lá.
E lá lhe digo. Nunca chega a levantar os olhos, nem quando se levanta para me auscultar. A seguir, volta a sentar-se e atende um telefonema: que não pode ir ao futebol, é uma pena mas está de banco. Quando desliga tento estreitar laços. Enfim, é mais outro que gosta da bola.
– Vamos lá ver se é desta que o Benfica… – começo.
– Passe aqui ao lado e entregue esta folha – completa.
– O que é?
Já não me ouve: outro telefonema. Ali ao lado, tiram-me sangue, fazem-me um ECG e encaminham-me para outra sala, onde espero durante uma hora que me chamem para a radiografia torácica. As dores são as mesmas.
Radiografia despachada, hora e meia na sala de espera. Chamam-me à primeira sala, reencontro o médico “envergonhado”.
– Não é nada – sintetiza o médico, sempre cabisbaixo, enquanto rabisca qualquer coisa. – Entregue isto aqui na sala da esquerda.
– O que é?
– Vai acalmá-lo.
Na sala da esquerda dão-me um líquido qualquer num copo de plástico:
– Tome isto. Amarga um pouco.
– O que é?
Um colega chama-o e já não responde.
Pago, saio do hospital e, lentamente, dirijo-me para casa. Deito o copo fora, com todo o seu conteúdo, no primeiro caixote de lixo que encontro.
Levanto-me, preparo-me, levo-o como posso. A seguir, lenta-lentamente, dirijo-me ao hospital. Oito horas, triagem de Manchester, uma fita vermelha à volta do braço. Vermelha de caso emergente: duas horas de espera, que é quando o meu nome soa, associado a uma sala onde um médico escrevinha.
– Então diga lá.
E lá lhe digo. Nunca chega a levantar os olhos, nem quando se levanta para me auscultar. A seguir, volta a sentar-se e atende um telefonema: que não pode ir ao futebol, é uma pena mas está de banco. Quando desliga tento estreitar laços. Enfim, é mais outro que gosta da bola.
– Vamos lá ver se é desta que o Benfica… – começo.
– Passe aqui ao lado e entregue esta folha – completa.
– O que é?
Já não me ouve: outro telefonema. Ali ao lado, tiram-me sangue, fazem-me um ECG e encaminham-me para outra sala, onde espero durante uma hora que me chamem para a radiografia torácica. As dores são as mesmas.
Radiografia despachada, hora e meia na sala de espera. Chamam-me à primeira sala, reencontro o médico “envergonhado”.
– Não é nada – sintetiza o médico, sempre cabisbaixo, enquanto rabisca qualquer coisa. – Entregue isto aqui na sala da esquerda.
– O que é?
– Vai acalmá-lo.
Na sala da esquerda dão-me um líquido qualquer num copo de plástico:
– Tome isto. Amarga um pouco.
– O que é?
Um colega chama-o e já não responde.
Pago, saio do hospital e, lentamente, dirijo-me para casa. Deito o copo fora, com todo o seu conteúdo, no primeiro caixote de lixo que encontro.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
DESGRAÇA
mal chegados e bem armados___eles são mais altos mais gordos mais fortes___enfim: tombalobos_____desancam a estalo e pontapé o homem rendido e passam-lhe um sermão que não consigo ouvir da minha varanda
amigos___grito eu___o que é que o homem fez para estarem a bater-lhe assim?
dois deles olham para cima___um manda-me calar e não interferir na ordem pública enquanto outro se diverte a murro nas costas do alvo
o homem rendido deixa-se cair no chão e enrola-se debaixo dos pontapés
lembro-me de chamar a polícia___olhem que eu chamo a...
só então percebo que a polícia são eles e que se o homem não estava a oferecer resistência não lhes devia ser permitido agredirem-no assim
é a polícia que temos_____a fortuna me dê nunca lhes cair em graça
amigos___grito eu___o que é que o homem fez para estarem a bater-lhe assim?
dois deles olham para cima___um manda-me calar e não interferir na ordem pública enquanto outro se diverte a murro nas costas do alvo
o homem rendido deixa-se cair no chão e enrola-se debaixo dos pontapés
lembro-me de chamar a polícia___olhem que eu chamo a...
só então percebo que a polícia são eles e que se o homem não estava a oferecer resistência não lhes devia ser permitido agredirem-no assim
é a polícia que temos_____a fortuna me dê nunca lhes cair em graça
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