quinta-feira, 30 de setembro de 2010

NUMA NOITE COM OS MINUTOS DESTA

sabe     sempre soube     que não tem cama bastante para ti
e não sonha a casa que te aprisionaria     tudo o que tu não queres ele contigo enjeita

é por isso que não estranha o vazio do teu cabelo nas mãos que ainda lembram     e é também por isso que sempre conjuga os tempos da ausência na tua voz

numa noite com os minutos desta     descobre que já se habituou ao silencioso adeus com que foi morrendo na memória do teu ventre

numa noite com os minutos desta     apenas se consolaria do brevíssimo sorriso     do sopro de ontem     do pó sem futuro     que num cantinho de coração tu lhe tivesses guardado

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Alguns dizem estar desertos por chegar a casa e eu continuo deserto dela.

REDONDILHA MENOS

és desequilibrista     digo-lhe eu     andas sempre à procura do voo picado que te esqueça
mas a vida não é isso     dionísio     a vida faz-se de vivê-la

ele nem ouve
pega no portátil e deixa-se cair outra vez          o milionésimo raide à rede     em busca de um nome     uma cara     um vestígio das novidades que perdeu

quando     por fim     se apeia no meu relógio     é só para despir as lágrimas     e vestir de sorriso     e sussurrar-me um ou dois pedidos:

luís     por que não te calas?
cala-te e volta a ajudar-me com as tuas malditas redondilhas     repõe o sonho     arredonda as arestas da minha queda

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ANGÚSTIA

nesse ilhéu que tu habitas     não há telefones nem correios     dionísio     nem sequer o vento     que levanta as palavras quando os homens querem

que te resta senão explodir?

sábado, 25 de setembro de 2010

PELA ABOLIÇÃO DAS TOURADAS

paulo borges lançou há tempos uma petição pela abolição das touradas e dos espectáculos de touros com os argumentos que aqui se podem ver: http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=010BASTA

lesado por esta bem fundamentada petição     tão lesado que chega a fazer-nos pensar que a mesma é um acto de terrorismo     pôs-se de bespinhas o presidente da câmara de santarém      que se diz franciscano e aficionista sem imaginar sequer que há aqui uma contradição nos termos e     pior do que isso     usando o seu bizarro franciscanismo como argumento de autoridade
num texto pejado de incongruências     raciocínios dicotómicos e simplistas e ataques ad hominem     chega a chamar de talibãs e histéricos     entre outras injúrias     aqueles que apelam à abolição das touradas e que     por isso     também constituem uma horda de analfabetos
fica aqui      já agora     o endereço deste chorrilho     que ilustra na perfeição como não se deve defender uma causa e que se coaduna     esse sim     com a mais conhecida acepção de histerismo:
http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2010N2951

incrédulo ante as barbaridades e os disparates     e nem que fosse para manter apenas a higiene mental     já me preparava eu para alinhavar     neste cantinho que me organiza     um humilde comentário à salada de pseudices com que moita flores pretende defender a chamada festa brava
mas começava a fazê-lo quando alguém me mostrou que não era preciso:     o próprio paulo borges se encarregou disso     e bem melhor do que eu faria     na sua resposta aberta:
http://triplov.com/triplo2/2010/09/23/carta-aberta-de-paulo-borges-a-moita-flores-sobre-as-touradas

coteje-se para que não restem dúvidas

RESSACA

no primeiro dia prometeu que nunca mais se avinhava     no segundo garantiu que o copo vinha apenas ao almoço

só que hoje viu-te passar ao longe     talvez tivesse imaginado?
não pôde que não subisse a escada com as ânsias em volta     e torceu a pata     e arrastou-se até à cama     e de novo se meteu na jaula

enfim     urge a garrafa do esquecimento


alguém me diz como dionísio acaba?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

DOENÇA FATAL

garantiu-lhe quem sabe     que não se ama ao longe     que o amor é sempre a mais do que um

só agora parece entender que as suas escolhas sempre o levaram a menos do que dois

isto que tanto lhe dói não será amor     não:     é a-mor-te

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

justiça

olhai como esse homem cabisbaixa     como sobre um copo de amargura já desiste do que está por vir
olhai como ele hipoteca o passado e injustiça os que decidiram partir
olhai e aprendei     meus amigos     e aprendei também para mim:

que todo o sorriso guarde as despedidas se também pela morte se mede a vida

MIÚDA

eu peço a cerveja     ela o café com perna-de-pau     é o nosso encontro à sexta

às vezes trocamos as minhas escrituras pelos estudos que a apaixonam     mas esta voz     que tantas vezes apago     açambarca a maior parte do nosso tempo
claro que as novidades são dela e eu apenas me esforço por limar arestas de histórias antigas
antes ainda me avisava     já disseste isso na semana passada          talvez seja a poeira dos anos que me obriga a juntar pormenores noutros tons das mesmas cores          é por isso que ela agora sorri quando eu me repito e que eu me repito ainda mais porque a vejo sorrir

outras vezes     no entanto     como anteontem     eu passo demasiado rente ao solo e ela parece exausta
guardamos silêncio     então     que não sei de quem melhor lide com a minha tristeza     e só me importa adivinhar o sabor do gelado     e sentir o aroma do café     e perceber que ela dormiu tão pouco

será que a convenço para hoje?           fiquei tão só da semana que trazia...

domingo, 19 de setembro de 2010

INVERNO

dionísio já não quer saber de cinemas e outros teatros     as patacas mal chegam para a zurrapa do consolo
digamos     à guisa de resumo     que abocanhou o anzol do fim e foi apanhado na rede          é aí que     rechiflao en su tristeza     gardel lhe esmurra a espera e os mariachi lhe atiram culpas

há também     ao que parece     um correio sempre vazio e o silêncio dos telefones
entretanto e no entanto     ele ainda suspira e chora quando na caixa dos possíveis desatam dois a querer-se
nessa mesmíssima caixa     e para sermos completos     já não há socratice     nem coelhos à solta nem novas alçadas que possam voltar a fazê-lo casquinar

dionísio     enfim     esfriou demais     nenhum outono quer receber a coroa do  tão-estio que agora morre

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

DESAMPARO APRENDIDO

quantas dessas lágrimas     quanto desse coração apertado nas urgências do hospital     quanta morte deixaram os que partiram sem adeus?
quanta mágoa abafas dos olás que te proibiram?
quantas vezes     quantas     calcas esse tão sentido amo-te que mal te adormece já te desperta?

quanto guardas      prescindível dionísio     da vida que nunca foi tua?

SONETO ANCESTRAL

um vórtice de febre me devora às vezes     um imenso mar de cinza     que esbate os tímpanos     que grita ao rasto da minha pele entre algas de silêncio

uma náusea inquieta que me afunda     um dilúvio de plástico e alcatrão     que as fronteiras desfaz     que cega as vozes na densidade destes peixes podres

sorri-me     então     um vago tiritar     um saber e de cór as cefaleias da côr     essas que esgueiram em camisa     por entre as horas     os invernos todos


quando assim acontece     tudo é dentro          e quando não     é porque tudo é fora

OBSTINAÇÃO

dionísio esqueceu que o assassinaste     que a vossa última cama era já o seu enterro     que estes aparentes bons-dias apenas são as missas obrigatórias

é por isso que abre a porta e guarda a casa:    para que o dia em que regresses repita os dias em que ficavas

mais rara foi essa vez em que lisboa nevou

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A TUA CASA

todas as noites o homem te espera     olhar posto onde por onde chegarás     convicto de que em deus e outros demónios tu lhe pertences
pescoço guerreiro e vertical     um cíclico lamber de pestanas na luva do sono     assevera que o vosso encontro vem de outras carnes

cumprimenta-me já sol     que é quando me vê passar      e pergunta-me por que histórias nunca mais quiseste

sei lá eu     caro amigo     sei lá eu dela e de quem dela sabe

também não importa     garante o silêncio do homem     porque um dia     ninguém duvida     tu hás-de vir por quem te espera sempre

nesse dia     pedir-lhe-ás que entre
e será esse o teu primeiro pé dentro da casa

QUE DE RARO

que de raro tem dom joão destruir os alarmes     navegar plano e piano sob as ondas que passaram    saber que anteontem se extinguiu o futuro?
que de raro tem que     apesar de tudo     agora sejas a deusa única e serena     essa que a um tempo lhe liberta o sonho e angustia a espera?
que de raro tem o amor sem fim após o fim dos amores?

que de raro     ó maravilha     que de raro     se ainda e sempre dom joão te quer tanto?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

VENDE-SE

pôs uma casa sobre caboucos de lama quando a lama ainda era promessa
e diga-se     por que não se esqueça     ergueu pintou entreteve as mãos com tontura antiga e vertigem recente
durante meses     juro-to     inventou que tudo aquilo ainda viria a ser um lar

e é cobardia isto agora?

sabe-se lá     que importa o que é...          verdade é que a casa não lhe apetece e que lisboa junto aos anjos também se vende

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

DAS NUVENS PELO AR

todos se instalaram no teu sorriso largo e sonharam entre a sopa e o pudim
depois veio o brinde     o desejo de que estejas sempre
e     quase por fim     muito quietinho     o sofá sentou os sonos que foram chegando

tu e eu somos este milagre mesmo     o tempo que em nossos corpos a rotina sempre junta

domingo, 12 de setembro de 2010

DIVÓRCIO

jamais te oferecerei a flor que pedes     não sou de fazer a morte com as minhas mãos
e se reparares bem nos dias que gasto      também não sei proteger o viço da rosa à custa de outras seivas

parece tão simples     não parece?     tão ultrapassável

e     no entanto     continuamente nos obstinamos na incompreensão do outro

deixemos     pois     cair este nosso exagero a que chamas amor

sábado, 11 de setembro de 2010

isso de amores

passa pela noite sem fotografias mas exibe-se ao espelho na tasca da uma
é lá que esconde a saudade pelo que nunca teve e doura num sorriso os deuses paralelos

já ia larga a viagem de ontem quando a única fêmea lhe pôs num sussurro     como vai isso de amores?
uma merda     e sabe-se que assim é
não sei por que mais     também lhe quis ela perguntar     e tu és dos que são de mulheres?

da garrafa     dionísio engoliu mais de meia anestesia e disse tudo          não     eu sou dos que são de nada     a perda dos teus minutos     um vazio na cama

e nessa madrugada     isso de amores foi a merda do costume

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

e tu

talvez as melhores contas acabem no treze     como a dos animais que estimei e estimo     com ninho aos meus pés e coração na cabeça:

o branco e a riquita     cães em angola que a minha infância maltratava e que     ainda assim     me quiseram

três coelhinhos
o primeiro de todos     o terrífico     sempre pelos arcanos da casa     à espreita da vigilância esquecida
depois      esses que antónio chamei     à distância de um lustro: o de orelhas pelo chão     e o de orelhas como as orelhas são

o sapo-concho     em que nunca pensei com nome porque ele nunca mo quis     de meu pai ao lago roubado     um dia ao lago devolvido

o piloto     tão dono do meu destino

a bonita     tão ávida nas minhas mãos

a pombinha que no armário convalesceu e que     de ave já     se fez ao céu

o mais pequeno     mais raquítico porquinho     que roubei à morte na ninhada mas que trouxe a morte ao meu quarto

o barbas     velho amante     incondicional admirador do meu passado

o bê-dê     esse grande e meigo café com leite     feliz agora e tapete decidido na investigação dos meus passos

e tu     meu amor

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

JÁ NÃO HÁ CARCAÇAS SALGADAS

o sal agride-me o palato na maioria das sopas          mas     nos últimos tempos     já o avaliava no pão em justa medida
desconfio     por isso     que a lei há pouco saída     impedindo mais de 0,55g de sódio por 100g de produto final     está apenas a proibir gambozinos

lei séria promoveria melhor informação sobre os malefícios do sal em excesso    e não só          lei séria imporia a todos os alimentos a indicação da quantidade de sal     e não só          lei séria realçaria em todas as embalagens os valores diários aconselhados     de sal e não só

cada um deveria poder fazer as contas e decidir por si
exemplificando     quase todos os queijos são salgados e às vezes até me apeteceria neles um naco de insulsez          assim como     outras vezes     me poderia alegrar uma carcaça salgada
agora sei que isso é impossível

que obrigado estou por continuarem a decidir por mim!          eles bem sabem: o estúpido sou eu

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

sakineh


não consigo imaginar     sakineh      por que torturas a mentira se fez verdade

talvez já não esperes a clemência dos bandidos     talvez estejas convicta de que nem a mereces de tanto deus que te falta
sim     porque deus é só quando os homens querem     e os homens que governam o teu país são poços vazios das almas que sugam

não consigo imaginar     sakineh     a vida castigada no látego insensível
que mão atormentou as tuas procuras?     com que cega cobardia comanda ela os destinos do teu corpo?     como pode ela decidir o fim dos teus dias?

só encontro na minha perplexidade os olhos vazios e fundos com que se preparam para te apedrejar

a estupidez é o seu castigo          mas por que razão hás-de tu pagar por ela?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

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A quadra cai sempre a mesma
na cabeça do poetastro:
segue à dízima da resma
esta mancha em que eu alastro.

c major ii

Eu ando exausto de mim,
das minhas noites vazias,
de ter fracassado assim,
de acordar todos os dias;

de um sol que nada me traz
e de ouvir sempre esta voz
gritar "eh pá, nem és capaz
de conjugar
somos nós
".

Os meus versos são apenas
um chorrilho de ais e eus
que, ai!, eu vomito às centenas
no bailarico do adeus.

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Quem nunca esperou por nada,
cego e surdo, inerte e mudo,
pode numa só golpada
começar a querer tudo.

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Esta máquina voraz
que em redondilha capricha
por minuto é bem capaz
de fazer uma salsicha.

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Ao tonto de alma penada
não lhe pagues um café
que ele só quer não querer nada
por uma hora que nada é.

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Vejo mais nesta mulher
que a mulher que mal me vê
e venha o tempo que vier
nunca saberei porquê.

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Entusiasmo é para quem tem deus dentro; não para mim, que sempre estive fora.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

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Depois do banho que lhe dou, o Barbas é feliz como nunca eu. Ainda dizem que os tristes não sabem mais que entristecer...

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Clássica é a escrita de eu pedir ajuda. Moderna seria a surdez de quem ma lesse. Contemporânea sempre foi a minha ignorância.

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Um dos caminhos em frente
há-de ser e tanto faz:
por mais que a vida me invente
nunca a vida volta atrás.

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O passado foi o único caminho até aqui - e é futuro do futuro vir a ser passado. Só o presente é uma encruzilhada.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

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Chora ainda em mim menor
esta vida ao nosso ouvido
mas agora eu sei de cor
o amor em ti sustenido.

domingo, 8 de agosto de 2010

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Não consigo perceber o sucesso de "O velho e o mar", de Hemingway. A avaliar pela tradução, o texto nunca levanta voo; e o tema casa bem com um amante das touradas, da caça pela caça e de quejandos: a luta de um velho para não permitir que um infeliz e torturado atum lhe escape com vida.

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Demasiadas vezes se controla contornando.

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Tourada do CDS a 24 de Julho. Pela boçalidade e pela barbárie, o partido dos betinhos-mores dá o exemplo. Atento na Catalunha e tenho vergonha de Portugal.

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Ainda não sei se infelizmente, a minha vida tem sido faltares-me.

sábado, 7 de agosto de 2010

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Para a equipa do F.C. do Porto funcionar bem, é preciso, diz o seu treinador, "determinado tipo de tempo". Chiça, o homem deve perceber de Física como ninguém. Ou de Metafísica...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

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Pronuncia-se b'jeca. Muitos escrevem bejeca. Para mim, e pouco me importa se com razão, sempre foi bojeca, de bojo. Aos quarenta e três, o bojo instalou-se. Só podia.

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O amigo de há vinte anos morreu como tu. O amigo há vinte anos tem vindo a morrer contigo.

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Como é possível
serem tantos os mundos
com o teu nome?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

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Em agosto, o pinguim é já criatura extinta, até nos lugares por onde mais se passeava. Ou será que os pinguins estivam?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

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Confias que é grande coisa
ter bom nome de bons pais
quando a mosca também poisa
na merda que brilha mais.

elegia

recordo que há tempos me disseste
que tinhas atravessado o mundo
e espreitado o papel das trevas

e dá-se que provavelmente não voltaste
- também recordo agora que não és o mesmo
e eu muito menos do que isso

vamos ter saudades de atum em lata

domingo, 1 de agosto de 2010

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Não há dinossáurios em Portugal. Foram extintos pelos dinossauros, que, como o nome indica, não são lagartos: são lagatos.

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Segundo o comentador, estou a assistir na televisão a uns minutos de rêiguebi. Não confundir com outro desporto muito popular na Inglaterra e que talvez nunca tenha existido entre nós: o râguebi.

sábado, 31 de julho de 2010

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Mais caloria, menos caloria, preciso de duas mil por dia. Não posso distrair-me com as minhas escrituras.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

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Só agora me interrogo
por que em certos sonhos meus
pronuncias "até logo"
em resposta ao nosso "adeus".

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Um escritor diz ter paranóia por algo que o apaixona - e nem sequer tem a dúvida que leva ao dicionário.

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Tanta gente a despoletar querendo espoletar...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

FAZ-TE À VIDA

Em miúdo, tive de assistir algumas vezes à matança do porco. E, não bastando, também me levaram um par de vezes à tourada. Talvez o primeiro desses actos seja inevitável; mas são evitáveis os requintes de malvadez e a festa que geralmente o acompanham. E que definem as touradas.

Com o tempo, fui descobrindo que ser bípede e desasado nunca foi critério de humanidade. Nesse sentido, já ouvi muitos toureiros pronunciarem-se com menos inteligência que a de um porco; e, entendidos como vêm no dicionário, bacoradas e grunhidos - eu só os tenho encontrado entre os primeiros, boçais contabilistas de orelhas e falsos argumentos.

Isto a propósito de uma notícia que traz duas. As touradas serão proibidas na Catalunha a partir de 1 de Janeiro de 2012 e a minha felicidade só não é completa porque, até lá, é bem provável  que aumente o rasto do crime. A horda de bárbaros afluirá a "anular o sofrimento do touro e dignificar a sua morte na arena", segundo as palavras macaqueadas de um tipo a quem deram o nome de Pedrito de Portugal.

É o sofrimento, estúpido, é o sofrimento que começa por estar mal. E quem tem de se dignificar és tu. Faz-te à vida
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O já gasto melodrama
é que a minha vida alterna
entre o amor à tua cama
e o rastilho da taberna.

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Também da preguiça, e em mim sobretudo da preguiça, se alimenta a maldade. Valha-me em sorte não ser rico.

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Por que tanto se insiste nos detalhes quando há pormenores em que insistir?

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À luz do candeeiro, redonda e quieta, a pomba amorrece. No seu pescoço arrepiado levanta-se o temor de que eu a obrigue a desenredar-se. O bom do Barbas afasta-me: ajuda-a, não lhe contamines a espera.

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Assim esvazia e enche a lua,
assim e sempre, aonde eu for,
lembrarei que, mão na tua,
te segredei: «Meu amor...»

terça-feira, 27 de julho de 2010

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Dizem que no mês de agosto não há novidades. Mas há: eu ainda aposto no canto das aves.

0,5

Todo o sono é princípio
do sonho em que um dia foste,
toda a vigília é caminho
para o adeus no teu nome.

Nunca se completa, pois,
a arte antiga de eu perder,
que já nunca chega a dois
quem já nem um pode ser.

Portanto, se ao teu sinal
eu não olhar para ti -
mulher, não leves a mal:
é que eu já não moro aqui.

domingo, 25 de julho de 2010

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Tourada a sério é aquela
em que se baralha a sorte
e o carrasco cai da sela
sobre os dois cornos da morte.

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Perdi quem me reinvente,
quem ao menos me conforte,
já não espero que o teu ventre
me volte a guardar da morte.

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O tempo trota a cavalo,
sem batalha nem contraste,
pois se em jovem quis gastá-lo
já só quero que ele me gaste.

sábado, 24 de julho de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

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Um brinde a todas as pequenas mortes quotidianas de que vivemos. Um brinde até morrermos de vez.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

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Que nos teus braços se acoite
o último sonho de um louco:
já não suporto outra noite
em que me ofereças tão pouco.

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Sonolentalentalisboamente.

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Há muito que deixei cair o princípio da parcimónia, se alguma vez tive de o deixar cair... Parafraseando Einstein, as coisas têm de ser simples, sim - mas não mais simples do que isso.

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Doutores são os mortos: eles é que já aprenderam tudo.

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De tanta grávida de. Da-des dados de barato, é erro ou machismo, do tempo em que era tudo semente do homem. Grávida com, sim: A Ana está grávida com o Manel. E, já agora, também: o Manel está grávido com a Ana, a Ana e o Manel estão grávidos. Toda a gente sabe que é da Ana o maior milagre. E já agora, parabéns!

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Se não sei cortar o fio
com que mata o meu passado,
ao menos cortem-me o pio
e ponham-me noutro lado.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

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Exausto do seu papel de co-insone, o Barbas saiu da sala e atravessou-se na cama. Afinal são meus, apenas meus, os pesadelos do quarto.

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Vou derramar todo o vinho
sobre o meu mundo pequeno
a ver se ainda me adivinho
nas névoas do teu aceno.

APRENDIZ DE DON JUAN

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Tenho andado com uma citação de Saramago na cabeça: «Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo.»

Estas e outras frases de diferentes escritores levam-me, em primeiro lugar, a pensar que há autores de dois tipos: os que se acham autores de invenção e pretendem recombinar o mundo; e os que se acreditam autores de exposição e dizem descobrir a vida aos distraídos. Deuses criadores os primeiros, deuses omniscientes os segundos - para que eu possa viver em paz estão todos errados, a não ser que entendamos por "invenção" e "levantar uma pedra" actos muito mais ligeiros e bem menos importantes do que provavelmente aqueles dois tipos de autores gostariam.

Eu, para ser sincero, nem com o termo
autor concordo. Prefiro sedutor, que é, afinal, o que todos eles são e que eu, muito provavelmente, ainda não aprendi a ser.

terça-feira, 20 de julho de 2010

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Porta entreaberta:
o mundo e a casa toda
à tua espera.

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O ponteiro das horas
talvez pareça mais a vida
mas eu sou o segundo.

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Ao perdedor o nojo.

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«Já não vou à Ericeira, olhe... isto para não ser aldrabão, já lá não vou há pelo menos uns cinco anos. Não tenho lá nada, percebe? Só lá estão os meus pais e os meus irmãos.», «Percebo, percebo. Quando é assim...»

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Tem medo à facilidade,
ao que te dão, ao que se herda:
é sempre daí que te há-de
aparecer toda a merda.

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Como diz a praia ao mar
se o mar dela se aborrece,
eu hei-de sempre esperar
por quem sempre me aparece.

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O pó das estrelas beijou-me
de tantas, tantas maneiras,
e ofereceu-me no teu nome
a esperança de que me queiras.

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Este fantasma da posse... Sonhei-te grávida com quem amas e acordei no abismo. Contudo, tarde ou cedo isso acontecerá. Escondam-mo. Esperem que eu volte a sonhar o mesmo com sorriso e desprendimento.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

o espaço em que não estás

Subo ao nosso comboio
na gaveta de outros dias
quando eu ainda era antónio
e ainda tu me querias.

Quando o silvo da partida
trazia a hora da chegada
e uma esperança perdida
junto ao cais te segurava.

Teu corpo em tão pouca terra
nunca seria feliz:
foste à vida que te espera
e enferrujam os carris.

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Tudo passa: quando não passa por ti, passa para ti.

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Tanto que te quero! Apesar disso, ser-nos-emos cada vez mais estranhos. Claro que um de nós morrerá primeiro, daqui a alguns anos; e o outro, se for avisado, ficará em casa a recordar o silêncio: estaria a mais no funeral.

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Tu és a moça que cora,
eu sou o gajo que espuma,
tu 
fai l'amore
a toda a hora,
eu há anos que não dou uma.

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Estes comentadores da bola fazem sempre com que o jogador a recepcione. Então a bola já não se recebe? Ou receber a bola é só para as peladinhas entre amigos?

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Abomino a arrogância e o amor superficial às cadeiras - muito do que vejo no engenhoso, tudo o que vejo no coelho em passos de senhor. Um dia destes vou para a Nova Zelândia, que já estou farto de vomitar.

domingo, 18 de julho de 2010

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Com a tua sombra ao meu lado,
vou-me arrastando pelos dias,
meu amor, já tão cansado
de trazer as mãos vazias.

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Quando o Barbas for tão velhinho que não consiga subir ao catre, voltaremos a dormir no chão. Espero que, até lá, o IRS não se lembre de me levar o colchão.

sábado, 17 de julho de 2010

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Estou exausto do 'r' lisboeta, que é como quem diz: francês. No outro dia, a Roja, vencedora deste Mundial, era Joja e feria-me os ouvidos... Claro que muitos lisboetas não fazem a mínima ideia do que é que eu estou a falar.

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Se é adeus que delas espero,
adeus, então, às mulheres,
e direi que não te quero
por mais que tu me quiseres.

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No passeio solitário
deste difícil vaivém,
há sempre um mal necessário
que nos vai fazendo bem.

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Que sentido faz um post-scriptum numa mensagem electrónica? Talvez nenhum, à parte o meu gosto e a minha vida.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

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Minhas palavras ao lado
nunca pretendem magoar-te:
tudo o que tenho falhado
é por mera ausência de arte.

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Fui perdendo todo o empenho,
toda a ânsia em mim se refreia:
eu já nunca me entretenho
a erguer castelos na areia.

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Vale sempre a pena saber onde estão as balizas: para cada proibição, infinitas transgressões.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

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Agora, proíbam-me. Façam com que isto ainda valha a pena.

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Eu de homem menos de meio,
tu sempre essa mulher cheia,
que nunca bicho tão feio
quis tanto amor de sereia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

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Que esqueçam a minha passagem as flores que pisei, que o sol as beije melhor do que antes.

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Não sendo o Casillas, namorasse eu a Sara - e ela não teria gostado nada do beijo subtraído à frente de todos e no seu posto de trabalho. Também se dá a forte hipótese de eu nunca ter tido namorada.

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«Carrega no erre, filho», disse-me um dia a minha mãe, tinha eu três ou quatro anitos, «não é caro, é carro». Aprendi logo ali, que muito atento respondi: «Carralho.» E, escusado será dizer, ainda hoje se conta a história.

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Em Lisboa nunca faz frio, apenas friu.

terça-feira, 13 de julho de 2010

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Gastar em audi's para ostentar os milhões a mais roubados ultimamente = actualizar o inventário de veículos à disposição. São os enriquecimentos do vocabulário socratoso.

domingo, 11 de julho de 2010

POLVO

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1:
No jogo das meias-finais entre as selecções holandesa e uruguaia, e apesar de nenhum comentador ter tocado no assunto, o lance do primeiro golo da selecção holandesa foi precedido de falta grave, para vermelho, de um holandês sobre um uruguaio. E o segundo golo da mesma selecção só existiu porque um jogador holandês, em posição irregular, não só dificultou a visibilidade do guarda-redes uruguaio como se fez ao lance, tentando desviar a bola.
2:
A selecção espanhola foi beneficiada pela arbitragem e pela sorte em, pelo menos, dois jogos: contra as selecções portuguesa e paraguaia. Acresce ainda que noutro jogo, contra a selecção chilena, um tal de David Villa festejou o primeiro golo, contra a corrente do jogo, em postura de torturador, vulgo
torero
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3:
Snijder, da selecção da holandesa, e Villa, da selecção espanhola, estão entre os melhores artilheiros, com 5 golos cada.
4:
Paul, o Polvo, garante que a selecção espanhola vai ganhar o jogo da final, daqui a pouco.

Então:

a:
Que ganhe a Espanha. Mas que, seja qual for o cenário, Villa não marque nenhum golo: não o quero a gabar-se de ser o melhor artilheiro. Ideal era que Snijder marcasse pelo menos um...
b:
Já terei tudo o que espero deste dia, entre tantos dias em que nada espero.
c:
Que fique coxo das três patas quem se atrever a matar o polvo e maneta ademais quem dele se alimentar.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

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Pudesses ler no meu rosto
os futuros que perdi
e terias o desgosto
de quem já morreu por ti.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

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Nos meus olhos sem os teus
morre toda a primavera
enquanto nos diz adeus
o futuro que ontem era.

sábado, 3 de julho de 2010

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Diz-se fila quando se devia dizer bicha. Bicha é cobra, é serpente, é a palavra certa e mais bonita para pessoas atrás de pessoas e carros atrás de carros. Os brasileiros talvez vissem outra coisa neste pessoas atrás de pessoas, não sei. Só sei que nos tiraram da bicha e puseram na fila. E eu continuo a dizer: «Desculpe, está na bicha?» Porque assim está melhor.

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No teu retrato
moram todos os dias
que não terei

terça-feira, 29 de junho de 2010

MACARRONICES

Quando alguém me pede uma informação em inglês, tenho um primeiro tique de má vontade. Se me parecer que, para essa pessoa, é suposto eu percebê-la e responder-lhe na mesma língua, já me aconteceu mandá-la passear com um não sei. Mas se ela começar com porrr favorrr: do you speak english, puxo do mapa com um a little bit e descarrego-o straight ahead, apesar das limitações e do sotaque.

O preço da ecumenicidade da língua inglesa é mesmo esse: o de ser maltratada. Se todos somos obrigados a usá-la, no mínimo todos podemos torpedeá-la. Aliás, o que me faz rir é precisamente o contrário: um português com todos os maneirismos e toada típicos dos ingleses.

Mas o que me faz rir ainda mais é um português sem ponto de equilíbrio. Ultimamente, que me lembre, vi três na televisão, cujas motivações não consegui perceber. Há uns tempos surgiu Sócrates-o-do-ministério a tropeçar em castelhano. Foi tão confrangedor que, entre os risos, deixei-me envergonhar no enterro do meu sofá. O mesmo aconteceu ontem, quando Carlos Queiroz maltratou a mesma língua. E o mesmo, ainda, quando o escritor António Lobo Antunes se pôs a falar um português-de-perfume-postiço ao responder a um conjunto de jornalistas brasileiros.

Os espanhóis e os brasileiros percebem muito bem o nosso português. Pronunciem-se as palavras à nossa maneira, devagar e completamente como eles deveriam fazer com as suas. O esforço não tem de ser só nosso, não sejamos ridículos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

HOMO ICAROS

Grandes correntes, grandes descobertas, grandes invenções, grandes actos assentam, muitas vezes, na facilidade que alguns têm para, considerando menos do que meia dúzia de variáveis, avançar. Quando têm consciência dessa facilidade, esse avanço é desonestidade intelectual. Quando não, é mesmo, e só, limitação. Em ambos os casos é arrogância. E em ambos os casos há, quase sempre, outros que pensaram o mesmo mas não deram o passo. Ou porque o soubessem em cama de erro ou porque o soubessem mal fundamentado.

Concluindo e resumindo, se subimos tão alto devemo-lo a um conjunto de filósofos e cientistas, políticos e artistas que se julgaram mais importantes e/ou mais inteligentes do que na realidade eram. Os verdadeiros pensadores nunca poderiam ter chegado a quaisquer conclusões sobre este mundo: sabiam que os 'dados' eram exíguos; que era estreita a capacidade humana; que, no fundo, o homem é, apenas e ao mesmo tempo, mais uma das teorias da-e-sobre-a-natureza.

Não se me derretam em vida as asas deste Ícaro.