domingo, 31 de outubro de 2010

outro desabrigo

quando há pouco fui passear os cães     e três vezes os passeio por dia     disse-me o sem-abrigo que se esconde à porta da minha prisão:     estão mais bem tratados do que eu

primeiro sorri por me ter parecido um cumprimento     depois olhei para ele com a clara compreensão de que era uma crítica
estudámo-nos bem nos olhos e ele pôde     então     completar:

e muito mais bem tratados do que o dono

sábado, 30 de outubro de 2010

a dor de ser quase

a minha malquista poesia nunca apeteceu a qualquer tipo de edição e nunca algum prémio     por menos concorrido que fosse     a quis sequer mencionar
lembro-me     a propósito     de ter enviado há muitos anos alguns dos meus versos para o conhecidíssimo dn jovem          nunca pude esquecer o comentário que recebi numa página em que o suplemento se dirigia aos autores impublicados e que resume o meu catálogo:     "os seus versos quase convenceram mas escrever poesia é mais do que escrever bem"

embora se possa dizer que as conclusões a retirar não serão essas necessariamente     sempre tive muitas dúvidas sobre o valor do que escrevo em geral      e nestes dias de chuva até me tem apetecido concordar com os que dizem     e alguns são     que a minha desarte é uma fábrica de salsichas ou tijolos
contra os argumentos que de mim para mim tenho contraposto e que me vão permitindo insistir     hoje concordo     hoje concordo sim     até porque estou farto de ser como estou

mas todos procuramos iludir a morte     e eu só encontro esta saída na abissal solidão em que fui embrulhando a vida

casa arrenda-se

eu     que tão comedido tenho sido em questões de amores     um dia enlouqueci
ocultamente e contra as evidências todas     de repente e depois de tanta ponderação     enlouqueci

não digo que hoje esteja recuperado     mas só agora vejo o que em prata me custou uma tontura     pois ando mais remediado que nunca para viver numa caixa vazia

chão

.
que realmente houvesse o grau zero da escritura

que rebentassem de nada todos os arabescos da língua

que rastejassem comigo as palavras e isso fosse medicina

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

incapaz

angústia na tua jaula
ausência de sorriso nessa ânsia de inexistir

já nem sei o que seria melhor     dionísio     que daqui te arrancasse um bisturi ou que te arrancasse ele tudo o que é aqui

algum deus te fulminasse enfim     ou qualquer outro diabo
e acabasse de uma vez com essa merda antiga

♀x♂

não me deu escada este deus para espreitar a tua vida     foi outro o delírio e outra a cegueira que me inventaram de asas

agora e para lá do horizonte     rirás até às lágrimas do meu lento e anedótico voo de insecto
e a mim só resta a lembrança de teres passado     e do breve sorriso que nesse adeus acenava

é claro que só não me engoliste porque nem valia a pena

...

dilaceram     esmagam     estreitam sem pausa nem compasso:
são as palavras     que fizeram casa em mim e em mim promessa de ajuda

há que esquecê-las em breve     para amorrecer de outra maneira
há que viver o que ainda me resta

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

meditação

se é verdade que não deixaste rasto
se é verdade o que me dizes     essa ideia inelutável que verte em palavra deitada a vida a três quartos
então por que não páras     dionísio?

ou     melhor ainda     por que não aceleras?

talvez tenhas ficado pela praia por nunca teres querido contar os grãos de areia

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

nocturnidade

para interromper este mês deslivrado     deliciou-me este fim de tarde um dos nocturnos de ishiguro
admirei incrédulo     como nos seus romances há meia dúzia de anos     a arte invejável     invejável sim     com que o autor se esgueira do narrador

e sonhei de novo esse desprendimento que busco          e que nunca hei-de encontrar neste meu estar de mais

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

escritura

estou em crer que nunca alguém se lembrará de pensar ou dizer que o escritor luís caminha

no entanto     e para precaução de que tal possa vir a lembrar     saiba-se desde já que se passam semanas e meses sem que a referida personagem pegue num livro para ler
e se     a acreditar nas entrevistas dos escritores a sério     a leitura ávida é condição sine qua non do mester     já eu aqui deixei a meia palavra que basta a bom entendedor

acresce que     embora escreva mais do que lê     escreve luís assim e nada mais do que assim

o meu deus

Se não fosse este Deus que me persegue, provavelmente o tempo seria coisa minha e não algo a preencher.

Como sabemos, há dois tipos de andróides: os que se preocupam e os que não. E quando digo é mesmo, no presente imodificável do indicativo. Não é suposto haver alterações: quem pertence a uma das alas aí permanece até à desactivação final.

No meu caso, a preocupação maior é com o modo como encho o tempo. Não é raro adormecer à tarde, depois da sopa e do vinho, mesmo depois do café, e acordar em sobressalto:

«Meu Deus, o que estou eu a fazer com o meu tempo?»

Não sei de onde vem esta expressão, esta fé. Não tive educação religiosa e os homens que me fizeram não parecem mais crentes que a maior parte das pessoas. Mas a verdade é que Deus existe nalgum recanto dos meus circuitos. Até pode ter sido lá posto sem intenção... mas lá está.

Claro que tudo está relacionado. Esta necessidade de usar o tempo de um modo útil só acontece porque há um modo útil para o usar. E Deus, afinal, acaba por ser apenas isso: um modo útil para usar o tempo.

Talvez que, no final de todas as contas, este Deus morra comigo na fornalha de uma qualquer siderurgia. E eu nem terei tido tempo para descobrir que o melhor de tudo era ter sido feliz.

Que despercídio, meu Deus...

sábado, 23 de outubro de 2010

dia útil

daqui a pouco     a árvore abrirá braços à noite dos passarinhos
chegarão em voo tacteante mas decidido e voltearão galhos e folhas em busca do sonho melhor
aqui e ali     uns conversarão          outros     quase aposto     exaltar-se-ão de cór e bico sobre o transitório domínio de um poiso mais querido

se forcejar os olhos míopes e desoculados     poderei distinguir alguns dos que sempre se atrasam de entre os que logo enterram o pescoço

a natureza não tem dias feriados e é por isso que ainda cá estou

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

amor de cão

na minha vida quase sem registos cai hoje a fotografia ocasional de um dia há onze anos
foi o ano em que meu pai morreu e também o ano em que deixei de envelhecer     pois é de ciência certa que o tempo e a morte não me ocupam desde então

o pêlo ainda sem brancas já escondia o queixo que sempre quis esconder     e o olhar sem espera     traindo o azul de sempre     lembra o de agora sem o peso aferido pela desistência
quanto passei desde então     nesta minha vida de agostos por casa e viagens ao café     de chapa ganha ao dia e gasta à noite     de meia dúzia de amigos que fiz por ir despedindo

não confesso     como neruda     que vivi          apenas e tanto que nesta corrida lenta persistem amizades nunca traídas     entre as quais a deste bichinho sempre em busca do meu calor e que me adora por sala e cama     a deste cão que me lambe as lágrimas e encosta a cabeça à minha na concha da almofada:
é o velhinho e inestimável barbas     comigo desde esse dia há onze anos que a fotografia recorda

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

13

o iva sobre vinhos continua a 13
boa ideia
agradeço
só já compro daquelas zurrapas empacotadas ou em garrafas com tampa de plástico e estrelas ao pescoço     mas     enfim     agradeço
deste modo vou continuar a fingir que evitastes mexer no meu paraíso     não é?     e posso aguentar com mais anestesia o peso das vossas patas gordas

não é que eu-enquanto-eu vos interesse     nem que eu-enquanto-eu vos tivesse num só instante passado pela mona     mas permiti que vos congratule:     acho que estou entre aqueles que ides conseguindo conter     de raciocínio toldado e ânimo sustido

vede     vede     que mansinho estou
são quatro da tarde e apodreço de bêbedo por comemorar a continuação dos 13
e     claro     por comemorar o oásis em que vivo     este oásis onde todos os dias me fodo mas onde continuo com a sensação de que um dia sereis vós a foder-vos

é só uma sensação
podeis continuar com a brincadeira      fidalgos

terça-feira, 19 de outubro de 2010

liu xiaobo

corajosa e decidida     contra os interesses de quase todos e talvez até do país em que existe     uma conhecida fundação decidiu espicaçar o ninho das vespas chinesas:     premiou liu xiaobo pelo seu grão de sonho num torrão de pesadelo

e as vespas estão chateadas      zumbem     ameaçam     rodeiam a mulher e os apoiantes do homem que têm controlado     encurralam onde e quanto podem     atacam a torto e a direito

poderosas e mal acostumadas     têm muito quem as apoie     quem lhes engrosse a nuvem da tortura      todos sabemos disso
mas eu só estou à espera de que desistam atordoadas     de que se desorientem     de que se percam     de que esvoejem dali e abantesmem apenas as suas próprias vidinhas

enfim     esperar foi sempre o meu pequeno paraíso

domingo, 17 de outubro de 2010

ninho

quem o prendesse à mesa e lhe estreitasse a cama     e nos intervalos da morte fingisse querê-lo
quem calmasse a noite e impedisse o álcool     e a beijos lhe escondesse o passeio deserto
quem sorrisse à longa noite fria que se apresta sob a nossa insónia

era só o que faltava:     que desta vez se colorisse a demora do luto

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

POBRE DIABO

distraído e sem deus     ele jogava a perder-te
mas à mesa da espera e na cama da promessa     nem promessa de vaza nem espera de história

há-de ser ao mundo o pobre diabo que esconjuraste
e os pobres diabos     toda a gente sabe     são os piorzinhos

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

.

Tamanha solidão. Tamanho silêncio. Tamanha tristeza e sem esperança. Tamanha ausência de deus na minha vida.

domingo, 10 de outubro de 2010

LEITURA SEM DIA

tantas coisas ele já viu escritas      ó mulher cansada
algumas vezes depois de as ter pensado
bastantes mais para que as pudesse pensar

mas nunca há-de ler o que só agora escreveste
no velho bloco de notas à beira do fim:
ah homem    se tu soubesses
é nos teus olhos azuis que foi morrendo
aquele nosso amor tão-sempre castanho

08.10.2009

acontece que nunca se juntam duas alegrias
e      se assim é     que interessa a alegria que sobra?

só hoje     à distância de um ano     a lucidez dá conta:
nunca voou pinguim que nos teus olhos se arrastasse

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

INFERNO

por que ardes no paraíso das mulheres que partem ?

por que choras pelas viagens em que se divertem     sobre as se- mentes certas que seus ventres contentam     contra a paz que sem ti as guarda ?

por que entristeces dos seus orgasmos em braços felizes     quem sabe neste momento     quem sabe neste momento ?

por que insistes em não fazer a cama do fim     por que deixaste de procurar a vida nas salas de cinema     por que já quase não lês romances     por que deitaste ao lixo o bloco de notas ?

por que não abandonas à morte o que morto está ?

por que     de cada vez que amas
hás-de amar como nunca se te calha perder como sempre ?

ESTOU

foram precisos quarenta e três anos e mais uns pós para que     finalmente     conseguisse extrair esta invariante do meu trajecto

o que me faz chorar neste livro     nesse filme      naquela música? o que emociona os meus dias de ostracismo?
nada tão simples: o reconhecimento de que algo ou alguém está     de que faz a diferença     de que não mora na fímbria do olvido     de que é lembrado num minuto de entrega
isto descobri agora e agora choro como nunca: é que neste cantinho da tarde também acabo  de me lembrar de mim

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

DIA DE FESTA

meu pai foi baleado seis vezes pelas costas e à queima-roupa     e de todas as mortes que se aproximavam venceu a que lhe perfurou a artéria aorta
foi há onze anos e há vários deles que os assassinos     ao que se diz     e mais não quero saber     livres e bem se recomendam

quanto à viúva e aos seus filhos     só hoje conseguiram salvar a casa que o tribunal lhes cobiçava em troca de uma dívida:     é que só hoje puderam entregar os últimos euros dos muitos e gordos com que o senhor injuiz os castigou
vinha o castigo de terem pedido uma indemnização     indemnização essa que     sendo pequena e ridícula porque assim os aconselha- ram a que fosse     era ridícula e demasiada porque nada mereciam

esta república das bananas é o meu país
e este sou eu     um tolo     um palerma torturado e há tanto rendido
um imbecil que daqui a pouco há-de repetir o pesadelo de todas as noites     mas que      por enquanto      ainda respira o seu terceiro litro de solitária comemoração

é que hoje
hoje conseguimos salvar a casa

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

1'

um minuto com a cabeça no teu colo     quem lho dera     um minuto redondo     um minuto inteiro     apesar de não o desejares para homem
sem palavras     que ele não quer saber do olvido     apenas sonha o teu olhar na luz das suas lágrimas

a maior solidão é a de quem não tem onde ser criança

sábado, 2 de outubro de 2010

DESERTO

derramar a angústia por meia dúzia de palavras e inventar que respiro fundo

e depois?     de que me serviu e ao mundo?     por que insisto assim?

afinal     tudo é um esboço de sussurro     um sádico e falso prenúncio de alívio     uma linha de asa sob o texto da terra fria

não há nada mais dispiciendo do que a minha caneta     nada que melhor resuma esta confrangedora incapacidade para viver

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

NUMA NOITE COM OS MINUTOS DESTA

sabe     sempre soube     que não tem cama bastante para ti
e não sonha a casa que te aprisionaria     tudo o que tu não queres ele contigo enjeita

é por isso que não estranha o vazio do teu cabelo nas mãos que ainda lembram     e é também por isso que sempre conjuga os tempos da ausência na tua voz

numa noite com os minutos desta     descobre que já se habituou ao silencioso adeus com que foi morrendo na memória do teu ventre

numa noite com os minutos desta     apenas se consolaria do brevíssimo sorriso     do sopro de ontem     do pó sem futuro     que num cantinho de coração tu lhe tivesses guardado

.

Alguns dizem estar desertos por chegar a casa e eu continuo deserto dela.

REDONDILHA MENOS

és desequilibrista     digo-lhe eu     andas sempre à procura do voo picado que te esqueça
mas a vida não é isso     dionísio     a vida faz-se de vivê-la

ele nem ouve
pega no portátil e deixa-se cair outra vez          o milionésimo raide à rede     em busca de um nome     uma cara     um vestígio das novidades que perdeu

quando     por fim     se apeia no meu relógio     é só para despir as lágrimas     e vestir de sorriso     e sussurrar-me um ou dois pedidos:

luís     por que não te calas?
cala-te e volta a ajudar-me com as tuas malditas redondilhas     repõe o sonho     arredonda as arestas da minha queda

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ANGÚSTIA

nesse ilhéu que tu habitas     não há telefones nem correios     dionísio     nem sequer o vento     que levanta as palavras quando os homens querem

que te resta senão explodir?

sábado, 25 de setembro de 2010

PELA ABOLIÇÃO DAS TOURADAS

paulo borges lançou há tempos uma petição pela abolição das touradas e dos espectáculos de touros com os argumentos que aqui se podem ver: http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=010BASTA

lesado por esta bem fundamentada petição     tão lesado que chega a fazer-nos pensar que a mesma é um acto de terrorismo     pôs-se de bespinhas o presidente da câmara de santarém      que se diz franciscano e aficionista sem imaginar sequer que há aqui uma contradição nos termos e     pior do que isso     usando o seu bizarro franciscanismo como argumento de autoridade
num texto pejado de incongruências     raciocínios dicotómicos e simplistas e ataques ad hominem     chega a chamar de talibãs e histéricos     entre outras injúrias     aqueles que apelam à abolição das touradas e que     por isso     também constituem uma horda de analfabetos
fica aqui      já agora     o endereço deste chorrilho     que ilustra na perfeição como não se deve defender uma causa e que se coaduna     esse sim     com a mais conhecida acepção de histerismo:
http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2010N2951

incrédulo ante as barbaridades e os disparates     e nem que fosse para manter apenas a higiene mental     já me preparava eu para alinhavar     neste cantinho que me organiza     um humilde comentário à salada de pseudices com que moita flores pretende defender a chamada festa brava
mas começava a fazê-lo quando alguém me mostrou que não era preciso:     o próprio paulo borges se encarregou disso     e bem melhor do que eu faria     na sua resposta aberta:
http://triplov.com/triplo2/2010/09/23/carta-aberta-de-paulo-borges-a-moita-flores-sobre-as-touradas

coteje-se para que não restem dúvidas

RESSACA

no primeiro dia prometeu que nunca mais se avinhava     no segundo garantiu que o copo vinha apenas ao almoço

só que hoje viu-te passar ao longe     talvez tivesse imaginado?
não pôde que não subisse a escada com as ânsias em volta     e torceu a pata     e arrastou-se até à cama     e de novo se meteu na jaula

enfim     urge a garrafa do esquecimento


alguém me diz como dionísio acaba?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

DOENÇA FATAL

garantiu-lhe quem sabe     que não se ama ao longe     que o amor é sempre a mais do que um

só agora parece entender que as suas escolhas sempre o levaram a menos do que dois

isto que tanto lhe dói não será amor     não:     é a-mor-te

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

justiça

olhai como esse homem cabisbaixa     como sobre um copo de amargura já desiste do que está por vir
olhai como ele hipoteca o passado e injustiça os que decidiram partir
olhai e aprendei     meus amigos     e aprendei também para mim:

que todo o sorriso guarde as despedidas se também pela morte se mede a vida

MIÚDA

eu peço a cerveja     ela o café com perna-de-pau     é o nosso encontro à sexta

às vezes trocamos as minhas escrituras pelos estudos que a apaixonam     mas esta voz     que tantas vezes apago     açambarca a maior parte do nosso tempo
claro que as novidades são dela e eu apenas me esforço por limar arestas de histórias antigas
antes ainda me avisava     já disseste isso na semana passada          talvez seja a poeira dos anos que me obriga a juntar pormenores noutros tons das mesmas cores          é por isso que ela agora sorri quando eu me repito e que eu me repito ainda mais porque a vejo sorrir

outras vezes     no entanto     como anteontem     eu passo demasiado rente ao solo e ela parece exausta
guardamos silêncio     então     que não sei de quem melhor lide com a minha tristeza     e só me importa adivinhar o sabor do gelado     e sentir o aroma do café     e perceber que ela dormiu tão pouco

será que a convenço para hoje?           fiquei tão só da semana que trazia...

domingo, 19 de setembro de 2010

INVERNO

dionísio já não quer saber de cinemas e outros teatros     as patacas mal chegam para a zurrapa do consolo
digamos     à guisa de resumo     que abocanhou o anzol do fim e foi apanhado na rede          é aí que     rechiflao en su tristeza     gardel lhe esmurra a espera e os mariachi lhe atiram culpas

há também     ao que parece     um correio sempre vazio e o silêncio dos telefones
entretanto e no entanto     ele ainda suspira e chora quando na caixa dos possíveis desatam dois a querer-se
nessa mesmíssima caixa     e para sermos completos     já não há socratice     nem coelhos à solta nem novas alçadas que possam voltar a fazê-lo casquinar

dionísio     enfim     esfriou demais     nenhum outono quer receber a coroa do  tão-estio que agora morre

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

DESAMPARO APRENDIDO

quantas dessas lágrimas     quanto desse coração apertado nas urgências do hospital     quanta morte deixaram os que partiram sem adeus?
quanta mágoa abafas dos olás que te proibiram?
quantas vezes     quantas     calcas esse tão sentido amo-te que mal te adormece já te desperta?

quanto guardas      prescindível dionísio     da vida que nunca foi tua?

SONETO ANCESTRAL

um vórtice de febre me devora às vezes     um imenso mar de cinza     que esbate os tímpanos     que grita ao rasto da minha pele entre algas de silêncio

uma náusea inquieta que me afunda     um dilúvio de plástico e alcatrão     que as fronteiras desfaz     que cega as vozes na densidade destes peixes podres

sorri-me     então     um vago tiritar     um saber e de cór as cefaleias da côr     essas que esgueiram em camisa     por entre as horas     os invernos todos


quando assim acontece     tudo é dentro          e quando não     é porque tudo é fora

OBSTINAÇÃO

dionísio esqueceu que o assassinaste     que a vossa última cama era já o seu enterro     que estes aparentes bons-dias apenas são as missas obrigatórias

é por isso que abre a porta e guarda a casa:    para que o dia em que regresses repita os dias em que ficavas

mais rara foi essa vez em que lisboa nevou

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A TUA CASA

todas as noites o homem te espera     olhar posto onde por onde chegarás     convicto de que em deus e outros demónios tu lhe pertences
pescoço guerreiro e vertical     um cíclico lamber de pestanas na luva do sono     assevera que o vosso encontro vem de outras carnes

cumprimenta-me já sol     que é quando me vê passar      e pergunta-me por que histórias nunca mais quiseste

sei lá eu     caro amigo     sei lá eu dela e de quem dela sabe

também não importa     garante o silêncio do homem     porque um dia     ninguém duvida     tu hás-de vir por quem te espera sempre

nesse dia     pedir-lhe-ás que entre
e será esse o teu primeiro pé dentro da casa

QUE DE RARO

que de raro tem dom joão destruir os alarmes     navegar plano e piano sob as ondas que passaram    saber que anteontem se extinguiu o futuro?
que de raro tem que     apesar de tudo     agora sejas a deusa única e serena     essa que a um tempo lhe liberta o sonho e angustia a espera?
que de raro tem o amor sem fim após o fim dos amores?

que de raro     ó maravilha     que de raro     se ainda e sempre dom joão te quer tanto?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

VENDE-SE

pôs uma casa sobre caboucos de lama quando a lama ainda era promessa
e diga-se     por que não se esqueça     ergueu pintou entreteve as mãos com tontura antiga e vertigem recente
durante meses     juro-to     inventou que tudo aquilo ainda viria a ser um lar

e é cobardia isto agora?

sabe-se lá     que importa o que é...          verdade é que a casa não lhe apetece e que lisboa junto aos anjos também se vende

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

DAS NUVENS PELO AR

todos se instalaram no teu sorriso largo e sonharam entre a sopa e o pudim
depois veio o brinde     o desejo de que estejas sempre
e     quase por fim     muito quietinho     o sofá sentou os sonos que foram chegando

tu e eu somos este milagre mesmo     o tempo que em nossos corpos a rotina sempre junta

domingo, 12 de setembro de 2010

DIVÓRCIO

jamais te oferecerei a flor que pedes     não sou de fazer a morte com as minhas mãos
e se reparares bem nos dias que gasto      também não sei proteger o viço da rosa à custa de outras seivas

parece tão simples     não parece?     tão ultrapassável

e     no entanto     continuamente nos obstinamos na incompreensão do outro

deixemos     pois     cair este nosso exagero a que chamas amor

sábado, 11 de setembro de 2010

isso de amores

passa pela noite sem fotografias mas exibe-se ao espelho na tasca da uma
é lá que esconde a saudade pelo que nunca teve e doura num sorriso os deuses paralelos

já ia larga a viagem de ontem quando a única fêmea lhe pôs num sussurro     como vai isso de amores?
uma merda     e sabe-se que assim é
não sei por que mais     também lhe quis ela perguntar     e tu és dos que são de mulheres?

da garrafa     dionísio engoliu mais de meia anestesia e disse tudo          não     eu sou dos que são de nada     a perda dos teus minutos     um vazio na cama

e nessa madrugada     isso de amores foi a merda do costume

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

e tu

talvez as melhores contas acabem no treze     como a dos animais que estimei e estimo     com ninho aos meus pés e coração na cabeça:

o branco e a riquita     cães em angola que a minha infância maltratava e que     ainda assim     me quiseram

três coelhinhos
o primeiro de todos     o terrífico     sempre pelos arcanos da casa     à espreita da vigilância esquecida
depois      esses que antónio chamei     à distância de um lustro: o de orelhas pelo chão     e o de orelhas como as orelhas são

o sapo-concho     em que nunca pensei com nome porque ele nunca mo quis     de meu pai ao lago roubado     um dia ao lago devolvido

o piloto     tão dono do meu destino

a bonita     tão ávida nas minhas mãos

a pombinha que no armário convalesceu e que     de ave já     se fez ao céu

o mais pequeno     mais raquítico porquinho     que roubei à morte na ninhada mas que trouxe a morte ao meu quarto

o barbas     velho amante     incondicional admirador do meu passado

o bê-dê     esse grande e meigo café com leite     feliz agora e tapete decidido na investigação dos meus passos

e tu     meu amor

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

JÁ NÃO HÁ CARCAÇAS SALGADAS

o sal agride-me o palato na maioria das sopas          mas     nos últimos tempos     já o avaliava no pão em justa medida
desconfio     por isso     que a lei há pouco saída     impedindo mais de 0,55g de sódio por 100g de produto final     está apenas a proibir gambozinos

lei séria promoveria melhor informação sobre os malefícios do sal em excesso    e não só          lei séria imporia a todos os alimentos a indicação da quantidade de sal     e não só          lei séria realçaria em todas as embalagens os valores diários aconselhados     de sal e não só

cada um deveria poder fazer as contas e decidir por si
exemplificando     quase todos os queijos são salgados e às vezes até me apeteceria neles um naco de insulsez          assim como     outras vezes     me poderia alegrar uma carcaça salgada
agora sei que isso é impossível

que obrigado estou por continuarem a decidir por mim!          eles bem sabem: o estúpido sou eu

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

sakineh


não consigo imaginar     sakineh      por que torturas a mentira se fez verdade

talvez já não esperes a clemência dos bandidos     talvez estejas convicta de que nem a mereces de tanto deus que te falta
sim     porque deus é só quando os homens querem     e os homens que governam o teu país são poços vazios das almas que sugam

não consigo imaginar     sakineh     a vida castigada no látego insensível
que mão atormentou as tuas procuras?     com que cega cobardia comanda ela os destinos do teu corpo?     como pode ela decidir o fim dos teus dias?

só encontro na minha perplexidade os olhos vazios e fundos com que se preparam para te apedrejar

a estupidez é o seu castigo          mas por que razão hás-de tu pagar por ela?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

.

A quadra cai sempre a mesma
na cabeça do poetastro:
segue à dízima da resma
esta mancha em que eu alastro.

c major ii

Eu ando exausto de mim,
das minhas noites vazias,
de ter fracassado assim,
de acordar todos os dias;

de um sol que nada me traz
e de ouvir sempre esta voz
gritar "eh pá, nem és capaz
de conjugar
somos nós
".

Os meus versos são apenas
um chorrilho de ais e eus
que, ai!, eu vomito às centenas
no bailarico do adeus.

.

Quem nunca esperou por nada,
cego e surdo, inerte e mudo,
pode numa só golpada
começar a querer tudo.

.

Esta máquina voraz
que em redondilha capricha
por minuto é bem capaz
de fazer uma salsicha.

.

Ao tonto de alma penada
não lhe pagues um café
que ele só quer não querer nada
por uma hora que nada é.

.

Vejo mais nesta mulher
que a mulher que mal me vê
e venha o tempo que vier
nunca saberei porquê.

.

Entusiasmo é para quem tem deus dentro; não para mim, que sempre estive fora.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

.

Depois do banho que lhe dou, o Barbas é feliz como nunca eu. Ainda dizem que os tristes não sabem mais que entristecer...

.

Clássica é a escrita de eu pedir ajuda. Moderna seria a surdez de quem ma lesse. Contemporânea sempre foi a minha ignorância.

.

Um dos caminhos em frente
há-de ser e tanto faz:
por mais que a vida me invente
nunca a vida volta atrás.

.

O passado foi o único caminho até aqui - e é futuro do futuro vir a ser passado. Só o presente é uma encruzilhada.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

.

Chora ainda em mim menor
esta vida ao nosso ouvido
mas agora eu sei de cor
o amor em ti sustenido.

domingo, 8 de agosto de 2010

.

Não consigo perceber o sucesso de "O velho e o mar", de Hemingway. A avaliar pela tradução, o texto nunca levanta voo; e o tema casa bem com um amante das touradas, da caça pela caça e de quejandos: a luta de um velho para não permitir que um infeliz e torturado atum lhe escape com vida.

.

Demasiadas vezes se controla contornando.

.

Tourada do CDS a 24 de Julho. Pela boçalidade e pela barbárie, o partido dos betinhos-mores dá o exemplo. Atento na Catalunha e tenho vergonha de Portugal.

.

Ainda não sei se infelizmente, a minha vida tem sido faltares-me.

sábado, 7 de agosto de 2010

.

Para a equipa do F.C. do Porto funcionar bem, é preciso, diz o seu treinador, "determinado tipo de tempo". Chiça, o homem deve perceber de Física como ninguém. Ou de Metafísica...