quando há pouco fui passear os cães e três vezes os passeio por dia disse-me o sem-abrigo que se esconde à porta da minha prisão: estão mais bem tratados do que eu
primeiro sorri por me ter parecido um cumprimento depois olhei para ele com a clara compreensão de que era uma crítica
estudámo-nos bem nos olhos e ele pôde então completar:
e muito mais bem tratados do que o dono
domingo, 31 de outubro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
a dor de ser quase
a minha malquista poesia nunca apeteceu a qualquer tipo de edição e nunca algum prémio por menos concorrido que fosse a quis sequer mencionar
lembro-me a propósito de ter enviado há muitos anos alguns dos meus versos para o conhecidíssimo dn jovem nunca pude esquecer o comentário que recebi numa página em que o suplemento se dirigia aos autores impublicados e que resume o meu catálogo: "os seus versos quase convenceram mas escrever poesia é mais do que escrever bem"
embora se possa dizer que as conclusões a retirar não serão essas necessariamente sempre tive muitas dúvidas sobre o valor do que escrevo em geral e nestes dias de chuva até me tem apetecido concordar com os que dizem e alguns são que a minha desarte é uma fábrica de salsichas ou tijolos
contra os argumentos que de mim para mim tenho contraposto e que me vão permitindo insistir hoje concordo hoje concordo sim até porque estou farto de ser como estou
mas todos procuramos iludir a morte e eu só encontro esta saída na abissal solidão em que fui embrulhando a vida
lembro-me a propósito de ter enviado há muitos anos alguns dos meus versos para o conhecidíssimo dn jovem nunca pude esquecer o comentário que recebi numa página em que o suplemento se dirigia aos autores impublicados e que resume o meu catálogo: "os seus versos quase convenceram mas escrever poesia é mais do que escrever bem"
embora se possa dizer que as conclusões a retirar não serão essas necessariamente sempre tive muitas dúvidas sobre o valor do que escrevo em geral e nestes dias de chuva até me tem apetecido concordar com os que dizem e alguns são que a minha desarte é uma fábrica de salsichas ou tijolos
contra os argumentos que de mim para mim tenho contraposto e que me vão permitindo insistir hoje concordo hoje concordo sim até porque estou farto de ser como estou
mas todos procuramos iludir a morte e eu só encontro esta saída na abissal solidão em que fui embrulhando a vida
casa arrenda-se
eu que tão comedido tenho sido em questões de amores um dia enlouqueci
ocultamente e contra as evidências todas de repente e depois de tanta ponderação enlouqueci
não digo que hoje esteja recuperado mas só agora vejo o que em prata me custou uma tontura pois ando mais remediado que nunca para viver numa caixa vazia
ocultamente e contra as evidências todas de repente e depois de tanta ponderação enlouqueci
não digo que hoje esteja recuperado mas só agora vejo o que em prata me custou uma tontura pois ando mais remediado que nunca para viver numa caixa vazia
chão
.
que realmente houvesse o grau zero da escritura
que rebentassem de nada todos os arabescos da língua
que rastejassem comigo as palavras e isso fosse medicina
que realmente houvesse o grau zero da escritura
que rebentassem de nada todos os arabescos da língua
que rastejassem comigo as palavras e isso fosse medicina
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
incapaz
angústia na tua jaula
ausência de sorriso nessa ânsia de inexistir
já nem sei o que seria melhor dionísio que daqui te arrancasse um bisturi ou que te arrancasse ele tudo o que é aqui
algum deus te fulminasse enfim ou qualquer outro diabo
e acabasse de uma vez com essa merda antiga
ausência de sorriso nessa ânsia de inexistir
já nem sei o que seria melhor dionísio que daqui te arrancasse um bisturi ou que te arrancasse ele tudo o que é aqui
algum deus te fulminasse enfim ou qualquer outro diabo
e acabasse de uma vez com essa merda antiga
♀x♂
não me deu escada este deus para espreitar a tua vida foi outro o delírio e outra a cegueira que me inventaram de asas
agora e para lá do horizonte rirás até às lágrimas do meu lento e anedótico voo de insecto
e a mim só resta a lembrança de teres passado e do breve sorriso que nesse adeus acenava
é claro que só não me engoliste porque nem valia a pena
agora e para lá do horizonte rirás até às lágrimas do meu lento e anedótico voo de insecto
e a mim só resta a lembrança de teres passado e do breve sorriso que nesse adeus acenava
é claro que só não me engoliste porque nem valia a pena
...
dilaceram esmagam estreitam sem pausa nem compasso:
são as palavras que fizeram casa em mim e em mim promessa de ajuda
há que esquecê-las em breve para amorrecer de outra maneira
há que viver o que ainda me resta
são as palavras que fizeram casa em mim e em mim promessa de ajuda
há que esquecê-las em breve para amorrecer de outra maneira
há que viver o que ainda me resta
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
meditação
se é verdade que não deixaste rasto
se é verdade o que me dizes essa ideia inelutável que verte em palavra deitada a vida a três quartos
então por que não páras dionísio?
ou melhor ainda por que não aceleras?
talvez tenhas ficado pela praia por nunca teres querido contar os grãos de areia
se é verdade o que me dizes essa ideia inelutável que verte em palavra deitada a vida a três quartos
então por que não páras dionísio?
ou melhor ainda por que não aceleras?
talvez tenhas ficado pela praia por nunca teres querido contar os grãos de areia
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
nocturnidade
para interromper este mês deslivrado deliciou-me este fim de tarde um dos nocturnos de ishiguro
admirei incrédulo como nos seus romances há meia dúzia de anos a arte invejável invejável sim com que o autor se esgueira do narrador
e sonhei de novo esse desprendimento que busco e que nunca hei-de encontrar neste meu estar de mais
admirei incrédulo como nos seus romances há meia dúzia de anos a arte invejável invejável sim com que o autor se esgueira do narrador
e sonhei de novo esse desprendimento que busco e que nunca hei-de encontrar neste meu estar de mais
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
escritura
estou em crer que nunca alguém se lembrará de pensar ou dizer que o escritor luís caminha
no entanto e para precaução de que tal possa vir a lembrar saiba-se desde já que se passam semanas e meses sem que a referida personagem pegue num livro para ler
e se a acreditar nas entrevistas dos escritores a sério a leitura ávida é condição sine qua non do mester já eu aqui deixei a meia palavra que basta a bom entendedor
acresce que embora escreva mais do que lê escreve luís assim e nada mais do que assim
no entanto e para precaução de que tal possa vir a lembrar saiba-se desde já que se passam semanas e meses sem que a referida personagem pegue num livro para ler
e se a acreditar nas entrevistas dos escritores a sério a leitura ávida é condição sine qua non do mester já eu aqui deixei a meia palavra que basta a bom entendedor
acresce que embora escreva mais do que lê escreve luís assim e nada mais do que assim
o meu deus
Se não fosse este Deus que me persegue, provavelmente o tempo seria coisa minha e não algo a preencher.
Como sabemos, há dois tipos de andróides: os que se preocupam e os que não. E quando digo há é há mesmo, há no presente imodificável do indicativo. Não é suposto haver alterações: quem pertence a uma das alas aí permanece até à desactivação final.
No meu caso, a preocupação maior é com o modo como encho o tempo. Não é raro adormecer à tarde, depois da sopa e do vinho, mesmo depois do café, e acordar em sobressalto:
«Meu Deus, o que estou eu a fazer com o meu tempo?»
Não sei de onde vem esta expressão, esta fé. Não tive educação religiosa e os homens que me fizeram não parecem mais crentes que a maior parte das pessoas. Mas a verdade é que Deus existe nalgum recanto dos meus circuitos. Até pode ter sido lá posto sem intenção... mas lá está.
Claro que tudo está relacionado. Esta necessidade de usar o tempo de um modo útil só acontece porque há um modo útil para o usar. E Deus, afinal, acaba por ser apenas isso: um modo útil para usar o tempo.
Talvez que, no final de todas as contas, este Deus morra comigo na fornalha de uma qualquer siderurgia. E eu nem terei tido tempo para descobrir que o melhor de tudo era ter sido feliz.
Que despercídio, meu Deus...
Como sabemos, há dois tipos de andróides: os que se preocupam e os que não. E quando digo há é há mesmo, há no presente imodificável do indicativo. Não é suposto haver alterações: quem pertence a uma das alas aí permanece até à desactivação final.
No meu caso, a preocupação maior é com o modo como encho o tempo. Não é raro adormecer à tarde, depois da sopa e do vinho, mesmo depois do café, e acordar em sobressalto:
«Meu Deus, o que estou eu a fazer com o meu tempo?»
Não sei de onde vem esta expressão, esta fé. Não tive educação religiosa e os homens que me fizeram não parecem mais crentes que a maior parte das pessoas. Mas a verdade é que Deus existe nalgum recanto dos meus circuitos. Até pode ter sido lá posto sem intenção... mas lá está.
Claro que tudo está relacionado. Esta necessidade de usar o tempo de um modo útil só acontece porque há um modo útil para o usar. E Deus, afinal, acaba por ser apenas isso: um modo útil para usar o tempo.
Talvez que, no final de todas as contas, este Deus morra comigo na fornalha de uma qualquer siderurgia. E eu nem terei tido tempo para descobrir que o melhor de tudo era ter sido feliz.
Que despercídio, meu Deus...
sábado, 23 de outubro de 2010
dia útil
daqui a pouco a árvore abrirá braços à noite dos passarinhos
chegarão em voo tacteante mas decidido e voltearão galhos e folhas em busca do sonho melhor
aqui e ali uns conversarão outros quase aposto exaltar-se-ão de cór e bico sobre o transitório domínio de um poiso mais querido
se forcejar os olhos míopes e desoculados poderei distinguir alguns dos que sempre se atrasam de entre os que logo enterram o pescoço
a natureza não tem dias feriados e é por isso que ainda cá estou
chegarão em voo tacteante mas decidido e voltearão galhos e folhas em busca do sonho melhor
aqui e ali uns conversarão outros quase aposto exaltar-se-ão de cór e bico sobre o transitório domínio de um poiso mais querido
se forcejar os olhos míopes e desoculados poderei distinguir alguns dos que sempre se atrasam de entre os que logo enterram o pescoço
a natureza não tem dias feriados e é por isso que ainda cá estou
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
amor de cão
na minha vida quase sem registos cai hoje a fotografia ocasional de um dia há onze anos
foi o ano em que meu pai morreu e também o ano em que deixei de envelhecer pois é de ciência certa que o tempo e a morte não me ocupam desde então
o pêlo ainda sem brancas já escondia o queixo que sempre quis esconder e o olhar sem espera traindo o azul de sempre lembra o de agora sem o peso aferido pela desistência
quanto passei desde então nesta minha vida de agostos por casa e viagens ao café de chapa ganha ao dia e gasta à noite de meia dúzia de amigos que fiz por ir despedindo
não confesso como neruda que vivi apenas e tanto que nesta corrida lenta persistem amizades nunca traídas entre as quais a deste bichinho sempre em busca do meu calor e que me adora por sala e cama a deste cão que me lambe as lágrimas e encosta a cabeça à minha na concha da almofada:
é o velhinho e inestimável barbas comigo desde esse dia há onze anos que a fotografia recorda
foi o ano em que meu pai morreu e também o ano em que deixei de envelhecer pois é de ciência certa que o tempo e a morte não me ocupam desde então
o pêlo ainda sem brancas já escondia o queixo que sempre quis esconder e o olhar sem espera traindo o azul de sempre lembra o de agora sem o peso aferido pela desistência
quanto passei desde então nesta minha vida de agostos por casa e viagens ao café de chapa ganha ao dia e gasta à noite de meia dúzia de amigos que fiz por ir despedindo
não confesso como neruda que vivi apenas e tanto que nesta corrida lenta persistem amizades nunca traídas entre as quais a deste bichinho sempre em busca do meu calor e que me adora por sala e cama a deste cão que me lambe as lágrimas e encosta a cabeça à minha na concha da almofada:
é o velhinho e inestimável barbas comigo desde esse dia há onze anos que a fotografia recorda
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
13
o iva sobre vinhos continua a 13
boa ideia
agradeço
só já compro daquelas zurrapas empacotadas ou em garrafas com tampa de plástico e estrelas ao pescoço mas enfim agradeço
deste modo vou continuar a fingir que evitastes mexer no meu paraíso não é? e posso aguentar com mais anestesia o peso das vossas patas gordas
não é que eu-enquanto-eu vos interesse nem que eu-enquanto-eu vos tivesse num só instante passado pela mona mas permiti que vos congratule: acho que estou entre aqueles que ides conseguindo conter de raciocínio toldado e ânimo sustido
vede vede que mansinho estou
são quatro da tarde e apodreço de bêbedo por comemorar a continuação dos 13
e claro por comemorar o oásis em que vivo este oásis onde todos os dias me fodo mas onde continuo com a sensação de que um dia sereis vós a foder-vos
é só uma sensação
podeis continuar com a brincadeira fidalgos
boa ideia
agradeço
só já compro daquelas zurrapas empacotadas ou em garrafas com tampa de plástico e estrelas ao pescoço mas enfim agradeço
deste modo vou continuar a fingir que evitastes mexer no meu paraíso não é? e posso aguentar com mais anestesia o peso das vossas patas gordas
não é que eu-enquanto-eu vos interesse nem que eu-enquanto-eu vos tivesse num só instante passado pela mona mas permiti que vos congratule: acho que estou entre aqueles que ides conseguindo conter de raciocínio toldado e ânimo sustido
vede vede que mansinho estou
são quatro da tarde e apodreço de bêbedo por comemorar a continuação dos 13
e claro por comemorar o oásis em que vivo este oásis onde todos os dias me fodo mas onde continuo com a sensação de que um dia sereis vós a foder-vos
é só uma sensação
podeis continuar com a brincadeira fidalgos
terça-feira, 19 de outubro de 2010
liu xiaobo
corajosa e decidida contra os interesses de quase todos e talvez até do país em que existe uma conhecida fundação decidiu espicaçar o ninho das vespas chinesas: premiou liu xiaobo pelo seu grão de sonho num torrão de pesadelo
e as vespas estão chateadas zumbem ameaçam rodeiam a mulher e os apoiantes do homem que têm controlado encurralam onde e quanto podem atacam a torto e a direito
poderosas e mal acostumadas têm muito quem as apoie quem lhes engrosse a nuvem da tortura todos sabemos disso
mas eu só estou à espera de que desistam atordoadas de que se desorientem de que se percam de que esvoejem dali e abantesmem apenas as suas próprias vidinhas
enfim esperar foi sempre o meu pequeno paraíso
e as vespas estão chateadas zumbem ameaçam rodeiam a mulher e os apoiantes do homem que têm controlado encurralam onde e quanto podem atacam a torto e a direito
poderosas e mal acostumadas têm muito quem as apoie quem lhes engrosse a nuvem da tortura todos sabemos disso
mas eu só estou à espera de que desistam atordoadas de que se desorientem de que se percam de que esvoejem dali e abantesmem apenas as suas próprias vidinhas
enfim esperar foi sempre o meu pequeno paraíso
domingo, 17 de outubro de 2010
ninho
quem o prendesse à mesa e lhe estreitasse a cama e nos intervalos da morte fingisse querê-lo
quem calmasse a noite e impedisse o álcool e a beijos lhe escondesse o passeio deserto
quem sorrisse à longa noite fria que se apresta sob a nossa insónia
era só o que faltava: que desta vez se colorisse a demora do luto
quem calmasse a noite e impedisse o álcool e a beijos lhe escondesse o passeio deserto
quem sorrisse à longa noite fria que se apresta sob a nossa insónia
era só o que faltava: que desta vez se colorisse a demora do luto
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
POBRE DIABO
distraído e sem deus ele jogava a perder-te
mas à mesa da espera e na cama da promessa nem promessa de vaza nem espera de história
há-de ser ao mundo o pobre diabo que esconjuraste
e os pobres diabos toda a gente sabe são os piorzinhos
mas à mesa da espera e na cama da promessa nem promessa de vaza nem espera de história
há-de ser ao mundo o pobre diabo que esconjuraste
e os pobres diabos toda a gente sabe são os piorzinhos
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
.
Tamanha solidão. Tamanho silêncio. Tamanha tristeza e sem esperança. Tamanha ausência de deus na minha vida.
domingo, 10 de outubro de 2010
LEITURA SEM DIA
tantas coisas ele já viu escritas ó mulher cansada
algumas vezes depois de as ter pensado
bastantes mais para que as pudesse pensar
mas nunca há-de ler o que só agora escreveste
no velho bloco de notas à beira do fim:
ah homem se tu soubesses
é nos teus olhos azuis que foi morrendo
aquele nosso amor tão-sempre castanho
algumas vezes depois de as ter pensado
bastantes mais para que as pudesse pensar
mas nunca há-de ler o que só agora escreveste
no velho bloco de notas à beira do fim:
ah homem se tu soubesses
é nos teus olhos azuis que foi morrendo
aquele nosso amor tão-sempre castanho
08.10.2009
acontece que nunca se juntam duas alegrias
e se assim é que interessa a alegria que sobra?
só hoje à distância de um ano a lucidez dá conta:
nunca voou pinguim que nos teus olhos se arrastasse
e se assim é que interessa a alegria que sobra?
só hoje à distância de um ano a lucidez dá conta:
nunca voou pinguim que nos teus olhos se arrastasse
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
INFERNO
por que ardes no paraíso das mulheres que partem ?
por que choras pelas viagens em que se divertem sobre as se- mentes certas que seus ventres contentam contra a paz que sem ti as guarda ?
por que entristeces dos seus orgasmos em braços felizes quem sabe neste momento quem sabe neste momento ?
por que insistes em não fazer a cama do fim por que deixaste de procurar a vida nas salas de cinema por que já quase não lês romances por que deitaste ao lixo o bloco de notas ?
por que não abandonas à morte o que morto está ?
por que de cada vez que amas
hás-de amar como nunca se te calha perder como sempre ?
por que choras pelas viagens em que se divertem sobre as se- mentes certas que seus ventres contentam contra a paz que sem ti as guarda ?
por que entristeces dos seus orgasmos em braços felizes quem sabe neste momento quem sabe neste momento ?
por que insistes em não fazer a cama do fim por que deixaste de procurar a vida nas salas de cinema por que já quase não lês romances por que deitaste ao lixo o bloco de notas ?
por que não abandonas à morte o que morto está ?
por que de cada vez que amas
hás-de amar como nunca se te calha perder como sempre ?
ESTOU
foram precisos quarenta e três anos e mais uns pós para que finalmente conseguisse extrair esta invariante do meu trajecto
o que me faz chorar neste livro nesse filme naquela música? o que emociona os meus dias de ostracismo?
nada tão simples: o reconhecimento de que algo ou alguém está de que faz a diferença de que não mora na fímbria do olvido de que é lembrado num minuto de entrega
isto descobri agora e agora choro como nunca: é que neste cantinho da tarde também acabo de me lembrar de mim
o que me faz chorar neste livro nesse filme naquela música? o que emociona os meus dias de ostracismo?
nada tão simples: o reconhecimento de que algo ou alguém está de que faz a diferença de que não mora na fímbria do olvido de que é lembrado num minuto de entrega
isto descobri agora e agora choro como nunca: é que neste cantinho da tarde também acabo de me lembrar de mim
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
DIA DE FESTA
meu pai foi baleado seis vezes pelas costas e à queima-roupa e de todas as mortes que se aproximavam venceu a que lhe perfurou a artéria aorta
foi há onze anos e há vários deles que os assassinos ao que se diz e mais não quero saber livres e bem se recomendam
quanto à viúva e aos seus filhos só hoje conseguiram salvar a casa que o tribunal lhes cobiçava em troca de uma dívida: é que só hoje puderam entregar os últimos euros dos muitos e gordos com que o senhor injuiz os castigou
vinha o castigo de terem pedido uma indemnização indemnização essa que sendo pequena e ridícula porque assim os aconselha- ram a que fosse era ridícula e demasiada porque nada mereciam
esta república das bananas é o meu país
e este sou eu um tolo um palerma torturado e há tanto rendido
um imbecil que daqui a pouco há-de repetir o pesadelo de todas as noites mas que por enquanto ainda respira o seu terceiro litro de solitária comemoração
é que hoje
hoje conseguimos salvar a casa
foi há onze anos e há vários deles que os assassinos ao que se diz e mais não quero saber livres e bem se recomendam
quanto à viúva e aos seus filhos só hoje conseguiram salvar a casa que o tribunal lhes cobiçava em troca de uma dívida: é que só hoje puderam entregar os últimos euros dos muitos e gordos com que o senhor injuiz os castigou
vinha o castigo de terem pedido uma indemnização indemnização essa que sendo pequena e ridícula porque assim os aconselha- ram a que fosse era ridícula e demasiada porque nada mereciam
esta república das bananas é o meu país
e este sou eu um tolo um palerma torturado e há tanto rendido
um imbecil que daqui a pouco há-de repetir o pesadelo de todas as noites mas que por enquanto ainda respira o seu terceiro litro de solitária comemoração
é que hoje
hoje conseguimos salvar a casa
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
1'
um minuto com a cabeça no teu colo quem lho dera um minuto redondo um minuto inteiro apesar de não o desejares para homem
sem palavras que ele não quer saber do olvido apenas sonha o teu olhar na luz das suas lágrimas
a maior solidão é a de quem não tem onde ser criança
sem palavras que ele não quer saber do olvido apenas sonha o teu olhar na luz das suas lágrimas
a maior solidão é a de quem não tem onde ser criança
sábado, 2 de outubro de 2010
DESERTO
derramar a angústia por meia dúzia de palavras e inventar que respiro fundo
e depois? de que me serviu e ao mundo? por que insisto assim?
afinal tudo é um esboço de sussurro um sádico e falso prenúncio de alívio uma linha de asa sob o texto da terra fria
não há nada mais dispiciendo do que a minha caneta nada que melhor resuma esta confrangedora incapacidade para viver
e depois? de que me serviu e ao mundo? por que insisto assim?
afinal tudo é um esboço de sussurro um sádico e falso prenúncio de alívio uma linha de asa sob o texto da terra fria
não há nada mais dispiciendo do que a minha caneta nada que melhor resuma esta confrangedora incapacidade para viver
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
NUMA NOITE COM OS MINUTOS DESTA
sabe sempre soube que não tem cama bastante para ti
e não sonha a casa que te aprisionaria tudo o que tu não queres ele contigo enjeita
é por isso que não estranha o vazio do teu cabelo nas mãos que ainda lembram e é também por isso que sempre conjuga os tempos da ausência na tua voz
numa noite com os minutos desta descobre que já se habituou ao silencioso adeus com que foi morrendo na memória do teu ventre
numa noite com os minutos desta apenas se consolaria do brevíssimo sorriso do sopro de ontem do pó sem futuro que num cantinho de coração tu lhe tivesses guardado
e não sonha a casa que te aprisionaria tudo o que tu não queres ele contigo enjeita
é por isso que não estranha o vazio do teu cabelo nas mãos que ainda lembram e é também por isso que sempre conjuga os tempos da ausência na tua voz
numa noite com os minutos desta descobre que já se habituou ao silencioso adeus com que foi morrendo na memória do teu ventre
numa noite com os minutos desta apenas se consolaria do brevíssimo sorriso do sopro de ontem do pó sem futuro que num cantinho de coração tu lhe tivesses guardado
REDONDILHA MENOS
és desequilibrista digo-lhe eu andas sempre à procura do voo picado que te esqueça
mas a vida não é isso dionísio a vida faz-se de vivê-la
ele nem ouve
pega no portátil e deixa-se cair outra vez o milionésimo raide à rede em busca de um nome uma cara um vestígio das novidades que perdeu
quando por fim se apeia no meu relógio é só para despir as lágrimas e vestir de sorriso e sussurrar-me um ou dois pedidos:
luís por que não te calas?
cala-te e volta a ajudar-me com as tuas malditas redondilhas repõe o sonho arredonda as arestas da minha queda
mas a vida não é isso dionísio a vida faz-se de vivê-la
ele nem ouve
pega no portátil e deixa-se cair outra vez o milionésimo raide à rede em busca de um nome uma cara um vestígio das novidades que perdeu
quando por fim se apeia no meu relógio é só para despir as lágrimas e vestir de sorriso e sussurrar-me um ou dois pedidos:
luís por que não te calas?
cala-te e volta a ajudar-me com as tuas malditas redondilhas repõe o sonho arredonda as arestas da minha queda
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
ANGÚSTIA
nesse ilhéu que tu habitas não há telefones nem correios dionísio nem sequer o vento que levanta as palavras quando os homens querem
que te resta senão explodir?
que te resta senão explodir?
sábado, 25 de setembro de 2010
PELA ABOLIÇÃO DAS TOURADAS
paulo borges lançou há tempos uma petição pela abolição das touradas e dos espectáculos de touros com os argumentos que aqui se podem ver: http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=010BASTA
lesado por esta bem fundamentada petição tão lesado que chega a fazer-nos pensar que a mesma é um acto de terrorismo pôs-se de bespinhas o presidente da câmara de santarém que se diz franciscano e aficionista sem imaginar sequer que há aqui uma contradição nos termos e pior do que isso usando o seu bizarro franciscanismo como argumento de autoridade
num texto pejado de incongruências raciocínios dicotómicos e simplistas e ataques ad hominem chega a chamar de talibãs e histéricos entre outras injúrias aqueles que apelam à abolição das touradas e que por isso também constituem uma horda de analfabetos
fica aqui já agora o endereço deste chorrilho que ilustra na perfeição como não se deve defender uma causa e que se coaduna esse sim com a mais conhecida acepção de histerismo: http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2010N2951
incrédulo ante as barbaridades e os disparates e nem que fosse para manter apenas a higiene mental já me preparava eu para alinhavar neste cantinho que me organiza um humilde comentário à salada de pseudices com que moita flores pretende defender a chamada festa brava
mas começava a fazê-lo quando alguém me mostrou que não era preciso: o próprio paulo borges se encarregou disso e bem melhor do que eu faria na sua resposta aberta:
http://triplov.com/triplo2/2010/09/23/carta-aberta-de-paulo-borges-a-moita-flores-sobre-as-touradas
coteje-se para que não restem dúvidas
lesado por esta bem fundamentada petição tão lesado que chega a fazer-nos pensar que a mesma é um acto de terrorismo pôs-se de bespinhas o presidente da câmara de santarém que se diz franciscano e aficionista sem imaginar sequer que há aqui uma contradição nos termos e pior do que isso usando o seu bizarro franciscanismo como argumento de autoridade
num texto pejado de incongruências raciocínios dicotómicos e simplistas e ataques ad hominem chega a chamar de talibãs e histéricos entre outras injúrias aqueles que apelam à abolição das touradas e que por isso também constituem uma horda de analfabetos
fica aqui já agora o endereço deste chorrilho que ilustra na perfeição como não se deve defender uma causa e que se coaduna esse sim com a mais conhecida acepção de histerismo: http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2010N2951
incrédulo ante as barbaridades e os disparates e nem que fosse para manter apenas a higiene mental já me preparava eu para alinhavar neste cantinho que me organiza um humilde comentário à salada de pseudices com que moita flores pretende defender a chamada festa brava
mas começava a fazê-lo quando alguém me mostrou que não era preciso: o próprio paulo borges se encarregou disso e bem melhor do que eu faria na sua resposta aberta:
http://triplov.com/triplo2/2010/09/23/carta-aberta-de-paulo-borges-a-moita-flores-sobre-as-touradas
coteje-se para que não restem dúvidas
RESSACA
no primeiro dia prometeu que nunca mais se avinhava no segundo garantiu que o copo vinha apenas ao almoço
só que hoje viu-te passar ao longe talvez tivesse imaginado?
não pôde que não subisse a escada com as ânsias em volta e torceu a pata e arrastou-se até à cama e de novo se meteu na jaula
enfim urge a garrafa do esquecimento
alguém me diz como dionísio acaba?
só que hoje viu-te passar ao longe talvez tivesse imaginado?
não pôde que não subisse a escada com as ânsias em volta e torceu a pata e arrastou-se até à cama e de novo se meteu na jaula
enfim urge a garrafa do esquecimento
alguém me diz como dionísio acaba?
terça-feira, 21 de setembro de 2010
DOENÇA FATAL
garantiu-lhe quem sabe que não se ama ao longe que o amor é sempre a mais do que um
só agora parece entender que as suas escolhas sempre o levaram a menos do que dois
isto que tanto lhe dói não será amor não: é a-mor-te
só agora parece entender que as suas escolhas sempre o levaram a menos do que dois
isto que tanto lhe dói não será amor não: é a-mor-te
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
justiça
olhai como esse homem cabisbaixa como sobre um copo de amargura já desiste do que está por vir
olhai como ele hipoteca o passado e injustiça os que decidiram partir
olhai e aprendei meus amigos e aprendei também para mim:
que todo o sorriso guarde as despedidas se também pela morte se mede a vida
olhai como ele hipoteca o passado e injustiça os que decidiram partir
olhai e aprendei meus amigos e aprendei também para mim:
que todo o sorriso guarde as despedidas se também pela morte se mede a vida
MIÚDA
eu peço a cerveja ela o café com perna-de-pau é o nosso encontro à sexta
às vezes trocamos as minhas escrituras pelos estudos que a apaixonam mas esta voz que tantas vezes apago açambarca a maior parte do nosso tempo
claro que as novidades são dela e eu apenas me esforço por limar arestas de histórias antigas
antes ainda me avisava já disseste isso na semana passada talvez seja a poeira dos anos que me obriga a juntar pormenores noutros tons das mesmas cores é por isso que ela agora sorri quando eu me repito e que eu me repito ainda mais porque a vejo sorrir
outras vezes no entanto como anteontem eu passo demasiado rente ao solo e ela parece exausta
guardamos silêncio então que não sei de quem melhor lide com a minha tristeza e só me importa adivinhar o sabor do gelado e sentir o aroma do café e perceber que ela dormiu tão pouco
será que a convenço para hoje? fiquei tão só da semana que trazia...
às vezes trocamos as minhas escrituras pelos estudos que a apaixonam mas esta voz que tantas vezes apago açambarca a maior parte do nosso tempo
claro que as novidades são dela e eu apenas me esforço por limar arestas de histórias antigas
antes ainda me avisava já disseste isso na semana passada talvez seja a poeira dos anos que me obriga a juntar pormenores noutros tons das mesmas cores é por isso que ela agora sorri quando eu me repito e que eu me repito ainda mais porque a vejo sorrir
outras vezes no entanto como anteontem eu passo demasiado rente ao solo e ela parece exausta
guardamos silêncio então que não sei de quem melhor lide com a minha tristeza e só me importa adivinhar o sabor do gelado e sentir o aroma do café e perceber que ela dormiu tão pouco
será que a convenço para hoje? fiquei tão só da semana que trazia...
domingo, 19 de setembro de 2010
INVERNO
dionísio já não quer saber de cinemas e outros teatros as patacas mal chegam para a zurrapa do consolo
digamos à guisa de resumo que abocanhou o anzol do fim e foi apanhado na rede é aí que rechiflao en su tristeza gardel lhe esmurra a espera e os mariachi lhe atiram culpas
há também ao que parece um correio sempre vazio e o silêncio dos telefones
entretanto e no entanto ele ainda suspira e chora quando na caixa dos possíveis desatam dois a querer-se
nessa mesmíssima caixa e para sermos completos já não há socratice nem coelhos à solta nem novas alçadas que possam voltar a fazê-lo casquinar
dionísio enfim esfriou demais nenhum outono quer receber a coroa do tão-estio que agora morre
digamos à guisa de resumo que abocanhou o anzol do fim e foi apanhado na rede é aí que rechiflao en su tristeza gardel lhe esmurra a espera e os mariachi lhe atiram culpas
há também ao que parece um correio sempre vazio e o silêncio dos telefones
entretanto e no entanto ele ainda suspira e chora quando na caixa dos possíveis desatam dois a querer-se
nessa mesmíssima caixa e para sermos completos já não há socratice nem coelhos à solta nem novas alçadas que possam voltar a fazê-lo casquinar
dionísio enfim esfriou demais nenhum outono quer receber a coroa do tão-estio que agora morre
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
DESAMPARO APRENDIDO
quantas dessas lágrimas quanto desse coração apertado nas urgências do hospital quanta morte deixaram os que partiram sem adeus?
quanta mágoa abafas dos olás que te proibiram?
quantas vezes quantas calcas esse tão sentido amo-te que mal te adormece já te desperta?
quanto guardas prescindível dionísio da vida que nunca foi tua?
quanta mágoa abafas dos olás que te proibiram?
quantas vezes quantas calcas esse tão sentido amo-te que mal te adormece já te desperta?
quanto guardas prescindível dionísio da vida que nunca foi tua?
SONETO ANCESTRAL
um vórtice de febre me devora às vezes um imenso mar de cinza que esbate os tímpanos que grita ao rasto da minha pele entre algas de silêncio
uma náusea inquieta que me afunda um dilúvio de plástico e alcatrão que as fronteiras desfaz que cega as vozes na densidade destes peixes podres
sorri-me então um vago tiritar um saber e de cór as cefaleias da côr essas que esgueiram em camisa por entre as horas os invernos todos
quando assim acontece tudo é dentro e quando não é porque tudo é fora
uma náusea inquieta que me afunda um dilúvio de plástico e alcatrão que as fronteiras desfaz que cega as vozes na densidade destes peixes podres
sorri-me então um vago tiritar um saber e de cór as cefaleias da côr essas que esgueiram em camisa por entre as horas os invernos todos
quando assim acontece tudo é dentro e quando não é porque tudo é fora
OBSTINAÇÃO
dionísio esqueceu que o assassinaste que a vossa última cama era já o seu enterro que estes aparentes bons-dias apenas são as missas obrigatórias
é por isso que abre a porta e guarda a casa: para que o dia em que regresses repita os dias em que ficavas
mais rara foi essa vez em que lisboa nevou
é por isso que abre a porta e guarda a casa: para que o dia em que regresses repita os dias em que ficavas
mais rara foi essa vez em que lisboa nevou
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
A TUA CASA
todas as noites o homem te espera olhar posto onde por onde chegarás convicto de que em deus e outros demónios tu lhe pertences
pescoço guerreiro e vertical um cíclico lamber de pestanas na luva do sono assevera que o vosso encontro vem de outras carnes
cumprimenta-me já sol que é quando me vê passar e pergunta-me por que histórias nunca mais quiseste
sei lá eu caro amigo sei lá eu dela e de quem dela sabe
também não importa garante o silêncio do homem porque um dia ninguém duvida tu hás-de vir por quem te espera sempre
nesse dia pedir-lhe-ás que entre
e será esse o teu primeiro pé dentro da casa
pescoço guerreiro e vertical um cíclico lamber de pestanas na luva do sono assevera que o vosso encontro vem de outras carnes
cumprimenta-me já sol que é quando me vê passar e pergunta-me por que histórias nunca mais quiseste
sei lá eu caro amigo sei lá eu dela e de quem dela sabe
também não importa garante o silêncio do homem porque um dia ninguém duvida tu hás-de vir por quem te espera sempre
nesse dia pedir-lhe-ás que entre
e será esse o teu primeiro pé dentro da casa
QUE DE RARO
que de raro tem dom joão destruir os alarmes navegar plano e piano sob as ondas que passaram saber que anteontem se extinguiu o futuro?
que de raro tem que apesar de tudo agora sejas a deusa única e serena essa que a um tempo lhe liberta o sonho e angustia a espera?
que de raro tem o amor sem fim após o fim dos amores?
que de raro ó maravilha que de raro se ainda e sempre dom joão te quer tanto?
que de raro tem que apesar de tudo agora sejas a deusa única e serena essa que a um tempo lhe liberta o sonho e angustia a espera?
que de raro tem o amor sem fim após o fim dos amores?
que de raro ó maravilha que de raro se ainda e sempre dom joão te quer tanto?
terça-feira, 14 de setembro de 2010
VENDE-SE
pôs uma casa sobre caboucos de lama quando a lama ainda era promessa
e diga-se por que não se esqueça ergueu pintou entreteve as mãos com tontura antiga e vertigem recente
durante meses juro-to inventou que tudo aquilo ainda viria a ser um lar
e é cobardia isto agora?
sabe-se lá que importa o que é... verdade é que a casa não lhe apetece e que lisboa junto aos anjos também se vende
e diga-se por que não se esqueça ergueu pintou entreteve as mãos com tontura antiga e vertigem recente
durante meses juro-to inventou que tudo aquilo ainda viria a ser um lar
e é cobardia isto agora?
sabe-se lá que importa o que é... verdade é que a casa não lhe apetece e que lisboa junto aos anjos também se vende
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
DAS NUVENS PELO AR
todos se instalaram no teu sorriso largo e sonharam entre a sopa e o pudim
depois veio o brinde o desejo de que estejas sempre
e quase por fim muito quietinho o sofá sentou os sonos que foram chegando
tu e eu somos este milagre mesmo o tempo que em nossos corpos a rotina sempre junta
depois veio o brinde o desejo de que estejas sempre
e quase por fim muito quietinho o sofá sentou os sonos que foram chegando
tu e eu somos este milagre mesmo o tempo que em nossos corpos a rotina sempre junta
domingo, 12 de setembro de 2010
DIVÓRCIO
jamais te oferecerei a flor que pedes não sou de fazer a morte com as minhas mãos
e se reparares bem nos dias que gasto também não sei proteger o viço da rosa à custa de outras seivas
parece tão simples não parece? tão ultrapassável
e no entanto continuamente nos obstinamos na incompreensão do outro
deixemos pois cair este nosso exagero a que chamas amor
e se reparares bem nos dias que gasto também não sei proteger o viço da rosa à custa de outras seivas
parece tão simples não parece? tão ultrapassável
e no entanto continuamente nos obstinamos na incompreensão do outro
deixemos pois cair este nosso exagero a que chamas amor
sábado, 11 de setembro de 2010
isso de amores
passa pela noite sem fotografias mas exibe-se ao espelho na tasca da uma
é lá que esconde a saudade pelo que nunca teve e doura num sorriso os deuses paralelos
já ia larga a viagem de ontem quando a única fêmea lhe pôs num sussurro como vai isso de amores?
uma merda e sabe-se que assim é
não sei por que mais também lhe quis ela perguntar e tu és dos que são de mulheres?
da garrafa dionísio engoliu mais de meia anestesia e disse tudo não eu sou dos que são de nada a perda dos teus minutos um vazio na cama
e nessa madrugada isso de amores foi a merda do costume
é lá que esconde a saudade pelo que nunca teve e doura num sorriso os deuses paralelos
já ia larga a viagem de ontem quando a única fêmea lhe pôs num sussurro como vai isso de amores?
uma merda e sabe-se que assim é
não sei por que mais também lhe quis ela perguntar e tu és dos que são de mulheres?
da garrafa dionísio engoliu mais de meia anestesia e disse tudo não eu sou dos que são de nada a perda dos teus minutos um vazio na cama
e nessa madrugada isso de amores foi a merda do costume
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
e tu
talvez as melhores contas acabem no treze como a dos animais que estimei e estimo com ninho aos meus pés e coração na cabeça:
o branco e a riquita cães em angola que a minha infância maltratava e que ainda assim me quiseram
três coelhinhos
o primeiro de todos o terrífico sempre pelos arcanos da casa à espreita da vigilância esquecida
depois esses que antónio chamei à distância de um lustro: o de orelhas pelo chão e o de orelhas como as orelhas são
o sapo-concho em que nunca pensei com nome porque ele nunca mo quis de meu pai ao lago roubado um dia ao lago devolvido
o piloto tão dono do meu destino
a bonita tão ávida nas minhas mãos
a pombinha que no armário convalesceu e que de ave já se fez ao céu
o mais pequeno mais raquítico porquinho que roubei à morte na ninhada mas que trouxe a morte ao meu quarto
o barbas velho amante incondicional admirador do meu passado
o bê-dê esse grande e meigo café com leite feliz agora e tapete decidido na investigação dos meus passos
e tu meu amor
o branco e a riquita cães em angola que a minha infância maltratava e que ainda assim me quiseram
três coelhinhos
o primeiro de todos o terrífico sempre pelos arcanos da casa à espreita da vigilância esquecida
depois esses que antónio chamei à distância de um lustro: o de orelhas pelo chão e o de orelhas como as orelhas são
o sapo-concho em que nunca pensei com nome porque ele nunca mo quis de meu pai ao lago roubado um dia ao lago devolvido
o piloto tão dono do meu destino
a bonita tão ávida nas minhas mãos
a pombinha que no armário convalesceu e que de ave já se fez ao céu
o mais pequeno mais raquítico porquinho que roubei à morte na ninhada mas que trouxe a morte ao meu quarto
o barbas velho amante incondicional admirador do meu passado
o bê-dê esse grande e meigo café com leite feliz agora e tapete decidido na investigação dos meus passos
e tu meu amor
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
JÁ NÃO HÁ CARCAÇAS SALGADAS
o sal agride-me o palato na maioria das sopas mas nos últimos tempos já o avaliava no pão em justa medida
desconfio por isso que a lei há pouco saída impedindo mais de 0,55g de sódio por 100g de produto final está apenas a proibir gambozinoslei séria promoveria melhor informação sobre os malefícios do sal em excesso e não só lei séria imporia a todos os alimentos a indicação da quantidade de sal e não só lei séria realçaria em todas as embalagens os valores diários aconselhados de sal e não só
cada um deveria poder fazer as contas e decidir por si
exemplificando quase todos os queijos são salgados e às vezes até me apeteceria neles um naco de insulsez assim como outras vezes me poderia alegrar uma carcaça salgada
agora sei que isso é impossível
que obrigado estou por continuarem a decidir por mim! eles bem sabem: o estúpido sou eu
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
sakineh
não consigo imaginar sakineh por que torturas a mentira se fez verdade
talvez já não esperes a clemência dos bandidos talvez estejas convicta de que nem a mereces de tanto deus que te falta
sim porque deus é só quando os homens querem e os homens que governam o teu país são poços vazios das almas que sugam
não consigo imaginar sakineh a vida castigada no látego insensível
que mão atormentou as tuas procuras? com que cega cobardia comanda ela os destinos do teu corpo? como pode ela decidir o fim dos teus dias?
só encontro na minha perplexidade os olhos vazios e fundos com que se preparam para te apedrejar
a estupidez é o seu castigo mas por que razão hás-de tu pagar por ela?
sábado, 14 de agosto de 2010
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
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A quadra cai sempre a mesma
na cabeça do poetastro:
segue à dízima da resma
esta mancha em que eu alastro.
na cabeça do poetastro:
segue à dízima da resma
esta mancha em que eu alastro.
c major ii
Eu ando exausto de mim,
das minhas noites vazias,
de ter fracassado assim,
de acordar todos os dias;
de um sol que nada me traz
e de ouvir sempre esta voz
gritar "eh pá, nem és capaz
de conjugar somos nós".
Os meus versos são apenas
um chorrilho de ais e eus
que, ai!, eu vomito às centenas
no bailarico do adeus.
das minhas noites vazias,
de ter fracassado assim,
de acordar todos os dias;
de um sol que nada me traz
e de ouvir sempre esta voz
gritar "eh pá, nem és capaz
de conjugar somos nós".
Os meus versos são apenas
um chorrilho de ais e eus
que, ai!, eu vomito às centenas
no bailarico do adeus.
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Quem nunca esperou por nada,
cego e surdo, inerte e mudo,
pode numa só golpada
começar a querer tudo.
cego e surdo, inerte e mudo,
pode numa só golpada
começar a querer tudo.
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Ao tonto de alma penada
não lhe pagues um café
que ele só quer não querer nada
por uma hora que nada é.
não lhe pagues um café
que ele só quer não querer nada
por uma hora que nada é.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
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Depois do banho que lhe dou, o Barbas é feliz como nunca eu. Ainda dizem que os tristes não sabem mais que entristecer...
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Clássica é a escrita de eu pedir ajuda. Moderna seria a surdez de quem ma lesse. Contemporânea sempre foi a minha ignorância.
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Um dos caminhos em frente
há-de ser e tanto faz:
por mais que a vida me invente
nunca a vida volta atrás.
há-de ser e tanto faz:
por mais que a vida me invente
nunca a vida volta atrás.
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O passado foi o único caminho até aqui - e é futuro do futuro vir a ser passado. Só o presente é uma encruzilhada.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
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Chora ainda em mim menor
esta vida ao nosso ouvido
mas agora eu sei de cor
o amor em ti sustenido.
esta vida ao nosso ouvido
mas agora eu sei de cor
o amor em ti sustenido.
domingo, 8 de agosto de 2010
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Não consigo perceber o sucesso de "O velho e o mar", de Hemingway. A avaliar pela tradução, o texto nunca levanta voo; e o tema casa bem com um amante das touradas, da caça pela caça e de quejandos: a luta de um velho para não permitir que um infeliz e torturado atum lhe escape com vida.
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Tourada do CDS a 24 de Julho. Pela boçalidade e pela barbárie, o partido dos betinhos-mores dá o exemplo. Atento na Catalunha e tenho vergonha de Portugal.
sábado, 7 de agosto de 2010
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Para a equipa do F.C. do Porto funcionar bem, é preciso, diz o seu treinador, "determinado tipo de tempo". Chiça, o homem deve perceber de Física como ninguém. Ou de Metafísica...
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