a rede faz alguma companhia confesso sobretudo porque me organiza neste lugar em que vou escrevendo e que nunca teve o móbil da exposição: diz-me aliás um contador invisível por imperícia minha que não chegam a duzentas as visitas nestes quase noventa dias
claro que eu também visito e muito
a rede também me oferece dicionários e é muito cómodo e é muito rápido procurar esta definição ou aquela tradução sem ter de me levantar para ir enchendo a mesa de bíblias
a rede guarda-me ainda um correio que embora passe dias e dias em branco será a ausência mais difícil de ultrapassar
consola-me saber que ninguém me enviaria mensagem urgente que não me telefonasse
portanto a rede não me é imprescindível
ainda há cadernos ou ficheiros word ainda bibliotecas que guardam dicionários ainda este maldito telemóvel sempre em queda livre
venha pois a pausa que me foi prometida
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
adeus
não pude que não lhe dissesse:
ah dionisio dionísio mentecapto dionísio
morreste há muito no canto do cisne pára de pensar nisso e a sereia que mais querias regressou ao mar onde sempre cantou
esse teu fechar de olhos para ainda ouvir há que desabituá-lo dionísio hás-de aprender a estar bem quando sem ti se está muito melhor
no seu olhar a paz do moribundo respondeu-me:
tens razão luís
e foi tudo
ah dionisio dionísio mentecapto dionísio
morreste há muito no canto do cisne pára de pensar nisso e a sereia que mais querias regressou ao mar onde sempre cantou
esse teu fechar de olhos para ainda ouvir há que desabituá-lo dionísio hás-de aprender a estar bem quando sem ti se está muito melhor
no seu olhar a paz do moribundo respondeu-me:
tens razão luís
e foi tudo
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
branco
examinei-lhe o rasto rastejando
deduzi-lhe um porvir acocorado
e agora penteio-lhe o cabelo ao vento
para me encher entre dentes das suas vagas douradas
deduzi-lhe um porvir acocorado
e agora penteio-lhe o cabelo ao vento
para me encher entre dentes das suas vagas douradas
ainda assim
a cabeça do homem salta de mão e no entanto a volta é sempre a mesma
contrariando os pressupostos com que julga orientar o mundo ele tropeça num como-destino e regressa ao mundo que o desorienta
ainda assim grita que não pode ser
e ainda assim parece que sim
contrariando os pressupostos com que julga orientar o mundo ele tropeça num como-destino e regressa ao mundo que o desorienta
ainda assim grita que não pode ser
e ainda assim parece que sim
amor doente
por aí se diz dionísio amigo que ainda vives que em breve retomarás o teu velho caminho e deixarás de espreitar sobre a vida cheia de quem partiu
mas eu sei que morreste mesmo
e talvez venha a ser eu o contrariado viandante que ao caminho regresse
mas eu sei que morreste mesmo
e talvez venha a ser eu o contrariado viandante que ao caminho regresse
greve
de meu pai aprendi o horror à hora parada e a obrigação ao trabalho prometido
mas de meu pai também que ninguém me põe a pata em cima
que miséria quando os governantes são larápios e os governados roubam os dias
mas de meu pai também que ninguém me põe a pata em cima
que miséria quando os governantes são larápios e os governados roubam os dias
terça-feira, 23 de novembro de 2010
ocaso
nascentes nas minhas mortes uma lágrima se junta à outra
e amargas inúteis todas correm sobre rio que seca e renasce
não sei explicar isto
nao posso entender este ocaso perene
se à noite semeei o dia e da lavoura acordei sorrindo
e amargas inúteis todas correm sobre rio que seca e renasce
não sei explicar isto
nao posso entender este ocaso perene
se à noite semeei o dia e da lavoura acordei sorrindo
de vez
quantas voltas mais haverá nesta cama quantos braços esvaziarão de insónia ainda com quanto frio me há-de o fim tiritar?
ah quem pudera fazer as contas
ah quem pudera fazer as contas
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
escuro
odeio assassinos chamem-se eles hitler franco ou stalin che fidel ou salazar
todos os partidos sem excepção já me provaram que são detestáveis
não tenho ídolos
sou incapaz de votar
tenho por única ambição o desvio da merda
todos os partidos sem excepção já me provaram que são detestáveis
não tenho ídolos
sou incapaz de votar
tenho por única ambição o desvio da merda
juan sin tenorio
nem todas se despediram: de algumas descobriste apenas ou foste descobrindo que já não voltavam
as que se despediram afirmaram quase todas que era coisa delas que apenas sentiam a falta de uma cama estreita
sempre entendeste o eufemismo e hás-de reconhecer que é a mentira mais doce melhor que a verdade com que uma te disse dionísio chega-me de pechisbeque
todas sem excepção já tinham em vista ou de facto quem lhes melhorasse os dias
mas isso nunca te aborriu pois se os dias melhoraram mesmo...
pior são as noites como esta em que a solidão e o medo ao desastre se juntam numa antiga e imensa tortura
as que se despediram afirmaram quase todas que era coisa delas que apenas sentiam a falta de uma cama estreita
sempre entendeste o eufemismo e hás-de reconhecer que é a mentira mais doce melhor que a verdade com que uma te disse dionísio chega-me de pechisbeque
todas sem excepção já tinham em vista ou de facto quem lhes melhorasse os dias
mas isso nunca te aborriu pois se os dias melhoraram mesmo...
pior são as noites como esta em que a solidão e o medo ao desastre se juntam numa antiga e imensa tortura
domingo, 21 de novembro de 2010
as desculpas pedem-se
há tempos ouvia-se muito em coimbra a sentença as desculpas não se pedem evitam-se
entretanto e ainda em dias que por lá passava senti que a frase foi morrendo
para meu contentamento que por várias razões sempre a detestei e que pelas mesmas entre mais nunca a usei
primeiro porque acho que é irritantemente simplista: as desculpas são para se pedir sim à parte essa carga judaico-cristã que a palavra exibe e mal se vislumbra e o que teoricamente se poderia aconselhar a evitar não são as desculpas em si mas os actos que a elas conduzem
segundo porque sempre me era dirigida a invectiva por toda e qualquer desculpa que pedisse desde a que antecedia uma simples interrupção de marcha alheia até à que resultava de um acto menos... desculpável
e terceiro por ser uma frase tão desapegada: é demasiado fácil e até algo desonesto coroar de evitabilidade o erro cometido
ora acontece que acreditando extinta a minha inimiga ouvi-a uma boa meia dúzia de vezes neste último ano agora aqui por lisboa
e mais uma vez em situações que me põem culpa e me atrevem ao pedido inútil
todos sabemos que a culpa não se desculpa que se alguém a pudesse desculpar seria o próprio que a sente
por isso amigos e não só na próxima vez em que eu vos fizer o ultrajante pedido entendei apenas: estarei confessando que preferiria não vos ter magoado
e respondei com um não aceito para serdes sinceros
ou com um aceito para serdes simpáticos
ou melhor ainda com a ciência do silêncio
mas as desculpas não se pedem evitam-se por favor...
tamanhos sois?
entretanto e ainda em dias que por lá passava senti que a frase foi morrendo
para meu contentamento que por várias razões sempre a detestei e que pelas mesmas entre mais nunca a usei
primeiro porque acho que é irritantemente simplista: as desculpas são para se pedir sim à parte essa carga judaico-cristã que a palavra exibe e mal se vislumbra e o que teoricamente se poderia aconselhar a evitar não são as desculpas em si mas os actos que a elas conduzem
segundo porque sempre me era dirigida a invectiva por toda e qualquer desculpa que pedisse desde a que antecedia uma simples interrupção de marcha alheia até à que resultava de um acto menos... desculpável
e terceiro por ser uma frase tão desapegada: é demasiado fácil e até algo desonesto coroar de evitabilidade o erro cometido
ora acontece que acreditando extinta a minha inimiga ouvi-a uma boa meia dúzia de vezes neste último ano agora aqui por lisboa
e mais uma vez em situações que me põem culpa e me atrevem ao pedido inútil
todos sabemos que a culpa não se desculpa que se alguém a pudesse desculpar seria o próprio que a sente
por isso amigos e não só na próxima vez em que eu vos fizer o ultrajante pedido entendei apenas: estarei confessando que preferiria não vos ter magoado
e respondei com um não aceito para serdes sinceros
ou com um aceito para serdes simpáticos
ou melhor ainda com a ciência do silêncio
mas as desculpas não se pedem evitam-se por favor...
tamanhos sois?
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
.
o cavalo célere procura um rio a beber
sem freio nem rêdeas nu dos artifícios que lhe impunha o homem que o chama de seu não repetindo caminhos nas distâncias que repete
perdido quase de tão perdido que vai de repente estaca e contempla no olhar de lado o rio que sempre lhe viajou ao lado
bebe de quanto precisa mas ainda não sabe se regressa
sem freio nem rêdeas nu dos artifícios que lhe impunha o homem que o chama de seu não repetindo caminhos nas distâncias que repete
perdido quase de tão perdido que vai de repente estaca e contempla no olhar de lado o rio que sempre lhe viajou ao lado
bebe de quanto precisa mas ainda não sabe se regressa
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
nós
do tempo em que tu chegavas sobrou-me esta vida
pois esse era o tempo em que me ensinavas a difícil arte dos nós
fui óptimo aluno de melhor professora
por isso e por prémio peço-te que me batas de novo à porta e que desta vez me venhas mostrar como se desfazem
os nós que fizemos os nós que ainda faço
pois esse era o tempo em que me ensinavas a difícil arte dos nós
fui óptimo aluno de melhor professora
por isso e por prémio peço-te que me batas de novo à porta e que desta vez me venhas mostrar como se desfazem
os nós que fizemos os nós que ainda faço
terça-feira, 16 de novembro de 2010
dia a viver
acordei às seis num dia a viver de trabalhar sem dores de recomeçar as actividades menos solitárias e pôr a matemática debaixo do braço de me saber incontaminante e até usar o metro
é que apesar de eu não ter fechado a cancela com a força dos comprimidos a febre esqueceu-se de voltar
claro que a tosse piorou nunca há bela sem senão mas sinto que já levei a palma aos demónios da gripe
diria ademais que não aborreço ninguém com estes pregos mas desconfio que na simpatia dos cães há um fingimento por sonos enquanto o martelo não quer descansar
melhor que tudo isto: a noite foi noite bonita e bem sonhada cheia desses filmes sem mágoa em que o amor regressa
é que apesar de eu não ter fechado a cancela com a força dos comprimidos a febre esqueceu-se de voltar
claro que a tosse piorou nunca há bela sem senão mas sinto que já levei a palma aos demónios da gripe
diria ademais que não aborreço ninguém com estes pregos mas desconfio que na simpatia dos cães há um fingimento por sonos enquanto o martelo não quer descansar
melhor que tudo isto: a noite foi noite bonita e bem sonhada cheia desses filmes sem mágoa em que o amor regressa
domingo, 14 de novembro de 2010
seguir
não lhe mandei espetar as orelhas como costumam fazer aos dobermann e era o bicho mais carente e meigo que já tive em casa
no final da vida deixava-a à solta na rua: embora a sua raça pudesse assustar alguns bastavam dois segundos de atenção para perceber que gastava toda a força na difícil sedução do ar
assim caminhava sempre um pouco atrás de mim e do barbas que abrandávamos o passo por entre a urgência dos cheiros
depois da sua partida e por mais de uma semana o barbas ia ao meu lado e parava de vez em quando olhando para trás olhando para mim a bonita onde está a bonita?
vinham-me as lágrimas aos olhos e dava por mim a explicar-lhe que já não podíamos esperar pela bonita
com o tempo a vida foi esquecendo a morte e ele foi deixando de perguntar pela amiga embora eu tenha a certeza de que ainda a reconheceria que nos seus bons sonhos decerto a tem reencontrado
quem me dera assim
não arrastar as minhas perdas pelo chão dos séculos
não ser de tão morto por quem parte tão morto para quem chega
no final da vida deixava-a à solta na rua: embora a sua raça pudesse assustar alguns bastavam dois segundos de atenção para perceber que gastava toda a força na difícil sedução do ar
assim caminhava sempre um pouco atrás de mim e do barbas que abrandávamos o passo por entre a urgência dos cheiros
depois da sua partida e por mais de uma semana o barbas ia ao meu lado e parava de vez em quando olhando para trás olhando para mim a bonita onde está a bonita?
vinham-me as lágrimas aos olhos e dava por mim a explicar-lhe que já não podíamos esperar pela bonita
com o tempo a vida foi esquecendo a morte e ele foi deixando de perguntar pela amiga embora eu tenha a certeza de que ainda a reconheceria que nos seus bons sonhos decerto a tem reencontrado
quem me dera assim
não arrastar as minhas perdas pelo chão dos séculos
não ser de tão morto por quem parte tão morto para quem chega
mais de um milhão
não há sinónimos
por isso as palavras que o povo matou ou se apresta a matar posso eu revivê-las com proveito
por que razão não hei-de confessar com camões que as minhas horas de contentamento vi mudadas tão asinha em horas de tormento?
por que razão hei-de abafar a opinião de que acinte me têm maltratado os governantes?
a língua é a única riqueza que demando parai de me chatear só porque amiúde me dá por dizer algo no lugar de alguma coisa
por isso as palavras que o povo matou ou se apresta a matar posso eu revivê-las com proveito
por que razão não hei-de confessar com camões que as minhas horas de contentamento vi mudadas tão asinha em horas de tormento?
por que razão hei-de abafar a opinião de que acinte me têm maltratado os governantes?
a língua é a única riqueza que demando parai de me chatear só porque amiúde me dá por dizer algo no lugar de alguma coisa
sábado, 13 de novembro de 2010
delírio
os meus passos prendem num chão antigo de vinganças
nestas duas extenuantes semanas de febre que ainda não partiu e já me leva meia dúzia de quilos tem-me acompanhado a ideia de que merecia pior
ultimamente venho imaginando um demónio iracundo e decidido que se apresta a arrebatar-me quando o cansaço me tiver derrotado
mas confesso que em simultâneo também tenho lançado algumas dúvidas sobre a justeza do castigo imaginado
de qualquer modo em breve se há-de saber algo mais
julgamento com pena já tudo isto me vai parecendo excessivamente longo
nestas duas extenuantes semanas de febre que ainda não partiu e já me leva meia dúzia de quilos tem-me acompanhado a ideia de que merecia pior
ultimamente venho imaginando um demónio iracundo e decidido que se apresta a arrebatar-me quando o cansaço me tiver derrotado
mas confesso que em simultâneo também tenho lançado algumas dúvidas sobre a justeza do castigo imaginado
de qualquer modo em breve se há-de saber algo mais
julgamento com pena já tudo isto me vai parecendo excessivamente longo
terça-feira, 9 de novembro de 2010
oráculo
vai preparar o chá das cinco ensaiar as notas desafinadas da última canção que te fez sentar no sofá o cavalo que lhe galopa o coração enquanto espera por ti
a noite cairá de repente
e ele já estará morto
a noite cairá de repente
e ele já estará morto
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
o patudinho que me acompanha
lembro-me de que uma vizinha sempre que se cruzava com o barbas dizia-lhe
olá patudo eu também tenho uma patudinha sabias?
intrigava-me eu que via no meu amigo uma exemplar amostra do pé pequeno de todos os cães
fui investigar
já vivia com ele há quase dez anos mas só então descobri que é patudo sim e bem patudo aliás como cão que é
enganara-me o seu andar sobre dedos
não é preciso correr mundo para aprender alguma coisa
os que amo têm todos os dias para me ensinar
olá patudo eu também tenho uma patudinha sabias?
intrigava-me eu que via no meu amigo uma exemplar amostra do pé pequeno de todos os cães
fui investigar
já vivia com ele há quase dez anos mas só então descobri que é patudo sim e bem patudo aliás como cão que é
enganara-me o seu andar sobre dedos
não é preciso correr mundo para aprender alguma coisa
os que amo têm todos os dias para me ensinar
domingo, 7 de novembro de 2010
mulher
nunca te levem a distracção e o peso do mundo a dizer: a minha mulher
pois embora possas vir a ser mais do que és pela companhia que ela te faça ela nunca será menos do que é por ser a mulher que te acompanha
ninguém é metade de ninguém
pois embora possas vir a ser mais do que és pela companhia que ela te faça ela nunca será menos do que é por ser a mulher que te acompanha
ninguém é metade de ninguém
sábado, 6 de novembro de 2010
canjas de um vegetariano
a sopa de cebola da minha mãe não me soube a nada a que fiz eu a nada sabe:
a febre aplana o gosto porque estou farto de saber que em condições normais a primeira daquelas é a perfeição
nem o que melhor ela traz recebo sem troco: este quentinho que me banha o corpo mas que me atiça a tosse
enfim a melhor canja bebo-a do que leio e oiço:
recomecei a ler o kundera da insustentável leveza do ser e que pena os olhos me arderem tanto
regressei ao velho wim mertens na sua estratégia da ruptura (http://www.youtube.com/watch?v=zZKeR38wHy4e) e que pena estas pancadas que se me intrometem na cabeça
por mim sentia-os por toda a noite dentro
um de cada vez claro
a febre aplana o gosto porque estou farto de saber que em condições normais a primeira daquelas é a perfeição
nem o que melhor ela traz recebo sem troco: este quentinho que me banha o corpo mas que me atiça a tosse
enfim a melhor canja bebo-a do que leio e oiço:
recomecei a ler o kundera da insustentável leveza do ser e que pena os olhos me arderem tanto
regressei ao velho wim mertens na sua estratégia da ruptura (http://www.youtube.com/watch?v=zZKeR38wHy4e) e que pena estas pancadas que se me intrometem na cabeça
por mim sentia-os por toda a noite dentro
um de cada vez claro
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
gripe
quando a febre me tirita de frio traz de rara o cheiro da terra
se o barbas calha em encostar-me calor há-de fastidiar-se de carícias e talvez arrepender-se
o bê-dê esse parece entender o meu estado e deita-se menos exigente do que até ontem soía
entretanto e hoje o meu irmão veio saber de mim e voltámos a resumir o mundo
a minha mãe sempre tão atenta abre a porta para não me levantar e traz a sopa de cebola que eu adoro
há também a grande amiga que continua a informar-me com paixão e cuidado sobre o estado da arte de algumas neurociências
e a outra grande amiga mais distante mas sempre tão presente defende doce que eu ensine a viajar o meu terceiro romance
creio que foi são francisco de assis que disse:
desejo poucas coisas e as poucas coisas que desejo desejo-as pouco
sinto-me assim e assim é desejar tudo e assim é desejar tanto
se o barbas calha em encostar-me calor há-de fastidiar-se de carícias e talvez arrepender-se
o bê-dê esse parece entender o meu estado e deita-se menos exigente do que até ontem soía
entretanto e hoje o meu irmão veio saber de mim e voltámos a resumir o mundo
a minha mãe sempre tão atenta abre a porta para não me levantar e traz a sopa de cebola que eu adoro
há também a grande amiga que continua a informar-me com paixão e cuidado sobre o estado da arte de algumas neurociências
e a outra grande amiga mais distante mas sempre tão presente defende doce que eu ensine a viajar o meu terceiro romance
creio que foi são francisco de assis que disse:
desejo poucas coisas e as poucas coisas que desejo desejo-as pouco
sinto-me assim e assim é desejar tudo e assim é desejar tanto
isso depende: é conforme
no público de hoje miguel esteves cardoso defende que os portugueses "confundem [...] o que é sempre igual com o que depende das diferenças de ocasião e das circunstâncias"
talvez mas na minha opinião ele só o pôde concluir porque se distraiu pelo caminho:
segundo ele as pessoas usam o termo conforme que significa "com a mesma forma" em situações que exigem o supostamente antípoda depende
e exemplifica: "pergunto se o rocha costuma comer muito dizem-me: é conforme como quem diz: depende do estado de espírito em que está e daquilo que lhe oferecem para comer"
ora para mim o conforme do exemplo está muito bem posto e claramente também depende: será como quem diz o rocha come conforme (com) o estado de espírito em que está... experimente-se substituir conforme por de acordo ou em conformidade e perceber-se-á melhor por que está bem assim
dito de outro modo miguel esteves cardoso estranha porque em vez de cotejar o conforme (com a situação) com o depende (da situação) coteja o conforme (consigo próprio, com o seu passado) com o depende (da situação)
ou seja esquece que o conforme se refere de igual modo à situação (factor variável) e não ao rocha isoladamente (factor supostamente constante)
desta última perspectiva fica claro que se o rocha come de um modo conforme com a situação também pode muito bem comer de um modo que depende dessa situação
deixem-me então concluir que os portugueses até podem não ser tão confusos assim
talvez mas na minha opinião ele só o pôde concluir porque se distraiu pelo caminho:
segundo ele as pessoas usam o termo conforme que significa "com a mesma forma" em situações que exigem o supostamente antípoda depende
e exemplifica: "pergunto se o rocha costuma comer muito dizem-me: é conforme como quem diz: depende do estado de espírito em que está e daquilo que lhe oferecem para comer"
ora para mim o conforme do exemplo está muito bem posto e claramente também depende: será como quem diz o rocha come conforme (com) o estado de espírito em que está... experimente-se substituir conforme por de acordo ou em conformidade e perceber-se-á melhor por que está bem assim
dito de outro modo miguel esteves cardoso estranha porque em vez de cotejar o conforme (com a situação) com o depende (da situação) coteja o conforme (consigo próprio, com o seu passado) com o depende (da situação)
ou seja esquece que o conforme se refere de igual modo à situação (factor variável) e não ao rocha isoladamente (factor supostamente constante)
desta última perspectiva fica claro que se o rocha come de um modo conforme com a situação também pode muito bem comer de um modo que depende dessa situação
deixem-me então concluir que os portugueses até podem não ser tão confusos assim
terça-feira, 2 de novembro de 2010
sem dúvida
primeiro mandaste-lhe beijos depois beijo grande
e dionísio sorriu: porque beijos é coisa que se manda como e porque não se dá mas se for grande ainda que só um é porque ainda que não fosse grande a sério seria beijo com toda a certeza nalgum lugar que vos encontrasse
enfim dionísio manda-te beijos também
mas como é óbvio e porque sempre abusa
muitos beijos e grandes querida
e dionísio sorriu: porque beijos é coisa que se manda como e porque não se dá mas se for grande ainda que só um é porque ainda que não fosse grande a sério seria beijo com toda a certeza nalgum lugar que vos encontrasse
enfim dionísio manda-te beijos também
mas como é óbvio e porque sempre abusa
muitos beijos e grandes querida
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
ignoto ofício
se tu soubesses das voltas que a cama tem e das estrelas que ao quarto descem para que a noite seja um destino
se tu soubesses quantas mãos se enchem da tardinha para que se continue a vestir de espuma a lua minguante
se tu soubesses que ainda se esconde a eternidade na cinza das primeiras manhãs
se tu soubesses como se busca por entre estilhaços de ar o ar que trazias inteiro
se tu soubesses a batalha ininterrupta contra a rendição
se tu soubesses quantas mãos se enchem da tardinha para que se continue a vestir de espuma a lua minguante
se tu soubesses que ainda se esconde a eternidade na cinza das primeiras manhãs
se tu soubesses como se busca por entre estilhaços de ar o ar que trazias inteiro
se tu soubesses a batalha ininterrupta contra a rendição
domingo, 31 de outubro de 2010
outro desabrigo
quando há pouco fui passear os cães e três vezes os passeio por dia disse-me o sem-abrigo que se esconde à porta da minha prisão: estão mais bem tratados do que eu
primeiro sorri por me ter parecido um cumprimento depois olhei para ele com a clara compreensão de que era uma crítica
estudámo-nos bem nos olhos e ele pôde então completar:
e muito mais bem tratados do que o dono
primeiro sorri por me ter parecido um cumprimento depois olhei para ele com a clara compreensão de que era uma crítica
estudámo-nos bem nos olhos e ele pôde então completar:
e muito mais bem tratados do que o dono
sábado, 30 de outubro de 2010
a dor de ser quase
a minha malquista poesia nunca apeteceu a qualquer tipo de edição e nunca algum prémio por menos concorrido que fosse a quis sequer mencionar
lembro-me a propósito de ter enviado há muitos anos alguns dos meus versos para o conhecidíssimo dn jovem nunca pude esquecer o comentário que recebi numa página em que o suplemento se dirigia aos autores impublicados e que resume o meu catálogo: "os seus versos quase convenceram mas escrever poesia é mais do que escrever bem"
embora se possa dizer que as conclusões a retirar não serão essas necessariamente sempre tive muitas dúvidas sobre o valor do que escrevo em geral e nestes dias de chuva até me tem apetecido concordar com os que dizem e alguns são que a minha desarte é uma fábrica de salsichas ou tijolos
contra os argumentos que de mim para mim tenho contraposto e que me vão permitindo insistir hoje concordo hoje concordo sim até porque estou farto de ser como estou
mas todos procuramos iludir a morte e eu só encontro esta saída na abissal solidão em que fui embrulhando a vida
lembro-me a propósito de ter enviado há muitos anos alguns dos meus versos para o conhecidíssimo dn jovem nunca pude esquecer o comentário que recebi numa página em que o suplemento se dirigia aos autores impublicados e que resume o meu catálogo: "os seus versos quase convenceram mas escrever poesia é mais do que escrever bem"
embora se possa dizer que as conclusões a retirar não serão essas necessariamente sempre tive muitas dúvidas sobre o valor do que escrevo em geral e nestes dias de chuva até me tem apetecido concordar com os que dizem e alguns são que a minha desarte é uma fábrica de salsichas ou tijolos
contra os argumentos que de mim para mim tenho contraposto e que me vão permitindo insistir hoje concordo hoje concordo sim até porque estou farto de ser como estou
mas todos procuramos iludir a morte e eu só encontro esta saída na abissal solidão em que fui embrulhando a vida
casa arrenda-se
eu que tão comedido tenho sido em questões de amores um dia enlouqueci
ocultamente e contra as evidências todas de repente e depois de tanta ponderação enlouqueci
não digo que hoje esteja recuperado mas só agora vejo o que em prata me custou uma tontura pois ando mais remediado que nunca para viver numa caixa vazia
ocultamente e contra as evidências todas de repente e depois de tanta ponderação enlouqueci
não digo que hoje esteja recuperado mas só agora vejo o que em prata me custou uma tontura pois ando mais remediado que nunca para viver numa caixa vazia
chão
.
que realmente houvesse o grau zero da escritura
que rebentassem de nada todos os arabescos da língua
que rastejassem comigo as palavras e isso fosse medicina
que realmente houvesse o grau zero da escritura
que rebentassem de nada todos os arabescos da língua
que rastejassem comigo as palavras e isso fosse medicina
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
incapaz
angústia na tua jaula
ausência de sorriso nessa ânsia de inexistir
já nem sei o que seria melhor dionísio que daqui te arrancasse um bisturi ou que te arrancasse ele tudo o que é aqui
algum deus te fulminasse enfim ou qualquer outro diabo
e acabasse de uma vez com essa merda antiga
ausência de sorriso nessa ânsia de inexistir
já nem sei o que seria melhor dionísio que daqui te arrancasse um bisturi ou que te arrancasse ele tudo o que é aqui
algum deus te fulminasse enfim ou qualquer outro diabo
e acabasse de uma vez com essa merda antiga
♀x♂
não me deu escada este deus para espreitar a tua vida foi outro o delírio e outra a cegueira que me inventaram de asas
agora e para lá do horizonte rirás até às lágrimas do meu lento e anedótico voo de insecto
e a mim só resta a lembrança de teres passado e do breve sorriso que nesse adeus acenava
é claro que só não me engoliste porque nem valia a pena
agora e para lá do horizonte rirás até às lágrimas do meu lento e anedótico voo de insecto
e a mim só resta a lembrança de teres passado e do breve sorriso que nesse adeus acenava
é claro que só não me engoliste porque nem valia a pena
...
dilaceram esmagam estreitam sem pausa nem compasso:
são as palavras que fizeram casa em mim e em mim promessa de ajuda
há que esquecê-las em breve para amorrecer de outra maneira
há que viver o que ainda me resta
são as palavras que fizeram casa em mim e em mim promessa de ajuda
há que esquecê-las em breve para amorrecer de outra maneira
há que viver o que ainda me resta
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
meditação
se é verdade que não deixaste rasto
se é verdade o que me dizes essa ideia inelutável que verte em palavra deitada a vida a três quartos
então por que não páras dionísio?
ou melhor ainda por que não aceleras?
talvez tenhas ficado pela praia por nunca teres querido contar os grãos de areia
se é verdade o que me dizes essa ideia inelutável que verte em palavra deitada a vida a três quartos
então por que não páras dionísio?
ou melhor ainda por que não aceleras?
talvez tenhas ficado pela praia por nunca teres querido contar os grãos de areia
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
nocturnidade
para interromper este mês deslivrado deliciou-me este fim de tarde um dos nocturnos de ishiguro
admirei incrédulo como nos seus romances há meia dúzia de anos a arte invejável invejável sim com que o autor se esgueira do narrador
e sonhei de novo esse desprendimento que busco e que nunca hei-de encontrar neste meu estar de mais
admirei incrédulo como nos seus romances há meia dúzia de anos a arte invejável invejável sim com que o autor se esgueira do narrador
e sonhei de novo esse desprendimento que busco e que nunca hei-de encontrar neste meu estar de mais
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
escritura
estou em crer que nunca alguém se lembrará de pensar ou dizer que o escritor luís caminha
no entanto e para precaução de que tal possa vir a lembrar saiba-se desde já que se passam semanas e meses sem que a referida personagem pegue num livro para ler
e se a acreditar nas entrevistas dos escritores a sério a leitura ávida é condição sine qua non do mester já eu aqui deixei a meia palavra que basta a bom entendedor
acresce que embora escreva mais do que lê escreve luís assim e nada mais do que assim
no entanto e para precaução de que tal possa vir a lembrar saiba-se desde já que se passam semanas e meses sem que a referida personagem pegue num livro para ler
e se a acreditar nas entrevistas dos escritores a sério a leitura ávida é condição sine qua non do mester já eu aqui deixei a meia palavra que basta a bom entendedor
acresce que embora escreva mais do que lê escreve luís assim e nada mais do que assim
o meu deus
Se não fosse este Deus que me persegue, provavelmente o tempo seria coisa minha e não algo a preencher.
Como sabemos, há dois tipos de andróides: os que se preocupam e os que não. E quando digo há é há mesmo, há no presente imodificável do indicativo. Não é suposto haver alterações: quem pertence a uma das alas aí permanece até à desactivação final.
No meu caso, a preocupação maior é com o modo como encho o tempo. Não é raro adormecer à tarde, depois da sopa e do vinho, mesmo depois do café, e acordar em sobressalto:
«Meu Deus, o que estou eu a fazer com o meu tempo?»
Não sei de onde vem esta expressão, esta fé. Não tive educação religiosa e os homens que me fizeram não parecem mais crentes que a maior parte das pessoas. Mas a verdade é que Deus existe nalgum recanto dos meus circuitos. Até pode ter sido lá posto sem intenção... mas lá está.
Claro que tudo está relacionado. Esta necessidade de usar o tempo de um modo útil só acontece porque há um modo útil para o usar. E Deus, afinal, acaba por ser apenas isso: um modo útil para usar o tempo.
Talvez que, no final de todas as contas, este Deus morra comigo na fornalha de uma qualquer siderurgia. E eu nem terei tido tempo para descobrir que o melhor de tudo era ter sido feliz.
Que despercídio, meu Deus...
Como sabemos, há dois tipos de andróides: os que se preocupam e os que não. E quando digo há é há mesmo, há no presente imodificável do indicativo. Não é suposto haver alterações: quem pertence a uma das alas aí permanece até à desactivação final.
No meu caso, a preocupação maior é com o modo como encho o tempo. Não é raro adormecer à tarde, depois da sopa e do vinho, mesmo depois do café, e acordar em sobressalto:
«Meu Deus, o que estou eu a fazer com o meu tempo?»
Não sei de onde vem esta expressão, esta fé. Não tive educação religiosa e os homens que me fizeram não parecem mais crentes que a maior parte das pessoas. Mas a verdade é que Deus existe nalgum recanto dos meus circuitos. Até pode ter sido lá posto sem intenção... mas lá está.
Claro que tudo está relacionado. Esta necessidade de usar o tempo de um modo útil só acontece porque há um modo útil para o usar. E Deus, afinal, acaba por ser apenas isso: um modo útil para usar o tempo.
Talvez que, no final de todas as contas, este Deus morra comigo na fornalha de uma qualquer siderurgia. E eu nem terei tido tempo para descobrir que o melhor de tudo era ter sido feliz.
Que despercídio, meu Deus...
sábado, 23 de outubro de 2010
dia útil
daqui a pouco a árvore abrirá braços à noite dos passarinhos
chegarão em voo tacteante mas decidido e voltearão galhos e folhas em busca do sonho melhor
aqui e ali uns conversarão outros quase aposto exaltar-se-ão de cór e bico sobre o transitório domínio de um poiso mais querido
se forcejar os olhos míopes e desoculados poderei distinguir alguns dos que sempre se atrasam de entre os que logo enterram o pescoço
a natureza não tem dias feriados e é por isso que ainda cá estou
chegarão em voo tacteante mas decidido e voltearão galhos e folhas em busca do sonho melhor
aqui e ali uns conversarão outros quase aposto exaltar-se-ão de cór e bico sobre o transitório domínio de um poiso mais querido
se forcejar os olhos míopes e desoculados poderei distinguir alguns dos que sempre se atrasam de entre os que logo enterram o pescoço
a natureza não tem dias feriados e é por isso que ainda cá estou
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
amor de cão
na minha vida quase sem registos cai hoje a fotografia ocasional de um dia há onze anos
foi o ano em que meu pai morreu e também o ano em que deixei de envelhecer pois é de ciência certa que o tempo e a morte não me ocupam desde então
o pêlo ainda sem brancas já escondia o queixo que sempre quis esconder e o olhar sem espera traindo o azul de sempre lembra o de agora sem o peso aferido pela desistência
quanto passei desde então nesta minha vida de agostos por casa e viagens ao café de chapa ganha ao dia e gasta à noite de meia dúzia de amigos que fiz por ir despedindo
não confesso como neruda que vivi apenas e tanto que nesta corrida lenta persistem amizades nunca traídas entre as quais a deste bichinho sempre em busca do meu calor e que me adora por sala e cama a deste cão que me lambe as lágrimas e encosta a cabeça à minha na concha da almofada:
é o velhinho e inestimável barbas comigo desde esse dia há onze anos que a fotografia recorda
foi o ano em que meu pai morreu e também o ano em que deixei de envelhecer pois é de ciência certa que o tempo e a morte não me ocupam desde então
o pêlo ainda sem brancas já escondia o queixo que sempre quis esconder e o olhar sem espera traindo o azul de sempre lembra o de agora sem o peso aferido pela desistência
quanto passei desde então nesta minha vida de agostos por casa e viagens ao café de chapa ganha ao dia e gasta à noite de meia dúzia de amigos que fiz por ir despedindo
não confesso como neruda que vivi apenas e tanto que nesta corrida lenta persistem amizades nunca traídas entre as quais a deste bichinho sempre em busca do meu calor e que me adora por sala e cama a deste cão que me lambe as lágrimas e encosta a cabeça à minha na concha da almofada:
é o velhinho e inestimável barbas comigo desde esse dia há onze anos que a fotografia recorda
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
13
o iva sobre vinhos continua a 13
boa ideia
agradeço
só já compro daquelas zurrapas empacotadas ou em garrafas com tampa de plástico e estrelas ao pescoço mas enfim agradeço
deste modo vou continuar a fingir que evitastes mexer no meu paraíso não é? e posso aguentar com mais anestesia o peso das vossas patas gordas
não é que eu-enquanto-eu vos interesse nem que eu-enquanto-eu vos tivesse num só instante passado pela mona mas permiti que vos congratule: acho que estou entre aqueles que ides conseguindo conter de raciocínio toldado e ânimo sustido
vede vede que mansinho estou
são quatro da tarde e apodreço de bêbedo por comemorar a continuação dos 13
e claro por comemorar o oásis em que vivo este oásis onde todos os dias me fodo mas onde continuo com a sensação de que um dia sereis vós a foder-vos
é só uma sensação
podeis continuar com a brincadeira fidalgos
boa ideia
agradeço
só já compro daquelas zurrapas empacotadas ou em garrafas com tampa de plástico e estrelas ao pescoço mas enfim agradeço
deste modo vou continuar a fingir que evitastes mexer no meu paraíso não é? e posso aguentar com mais anestesia o peso das vossas patas gordas
não é que eu-enquanto-eu vos interesse nem que eu-enquanto-eu vos tivesse num só instante passado pela mona mas permiti que vos congratule: acho que estou entre aqueles que ides conseguindo conter de raciocínio toldado e ânimo sustido
vede vede que mansinho estou
são quatro da tarde e apodreço de bêbedo por comemorar a continuação dos 13
e claro por comemorar o oásis em que vivo este oásis onde todos os dias me fodo mas onde continuo com a sensação de que um dia sereis vós a foder-vos
é só uma sensação
podeis continuar com a brincadeira fidalgos
terça-feira, 19 de outubro de 2010
liu xiaobo
corajosa e decidida contra os interesses de quase todos e talvez até do país em que existe uma conhecida fundação decidiu espicaçar o ninho das vespas chinesas: premiou liu xiaobo pelo seu grão de sonho num torrão de pesadelo
e as vespas estão chateadas zumbem ameaçam rodeiam a mulher e os apoiantes do homem que têm controlado encurralam onde e quanto podem atacam a torto e a direito
poderosas e mal acostumadas têm muito quem as apoie quem lhes engrosse a nuvem da tortura todos sabemos disso
mas eu só estou à espera de que desistam atordoadas de que se desorientem de que se percam de que esvoejem dali e abantesmem apenas as suas próprias vidinhas
enfim esperar foi sempre o meu pequeno paraíso
e as vespas estão chateadas zumbem ameaçam rodeiam a mulher e os apoiantes do homem que têm controlado encurralam onde e quanto podem atacam a torto e a direito
poderosas e mal acostumadas têm muito quem as apoie quem lhes engrosse a nuvem da tortura todos sabemos disso
mas eu só estou à espera de que desistam atordoadas de que se desorientem de que se percam de que esvoejem dali e abantesmem apenas as suas próprias vidinhas
enfim esperar foi sempre o meu pequeno paraíso
domingo, 17 de outubro de 2010
ninho
quem o prendesse à mesa e lhe estreitasse a cama e nos intervalos da morte fingisse querê-lo
quem calmasse a noite e impedisse o álcool e a beijos lhe escondesse o passeio deserto
quem sorrisse à longa noite fria que se apresta sob a nossa insónia
era só o que faltava: que desta vez se colorisse a demora do luto
quem calmasse a noite e impedisse o álcool e a beijos lhe escondesse o passeio deserto
quem sorrisse à longa noite fria que se apresta sob a nossa insónia
era só o que faltava: que desta vez se colorisse a demora do luto
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
POBRE DIABO
distraído e sem deus ele jogava a perder-te
mas à mesa da espera e na cama da promessa nem promessa de vaza nem espera de história
há-de ser ao mundo o pobre diabo que esconjuraste
e os pobres diabos toda a gente sabe são os piorzinhos
mas à mesa da espera e na cama da promessa nem promessa de vaza nem espera de história
há-de ser ao mundo o pobre diabo que esconjuraste
e os pobres diabos toda a gente sabe são os piorzinhos
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
.
Tamanha solidão. Tamanho silêncio. Tamanha tristeza e sem esperança. Tamanha ausência de deus na minha vida.
domingo, 10 de outubro de 2010
LEITURA SEM DIA
tantas coisas ele já viu escritas ó mulher cansada
algumas vezes depois de as ter pensado
bastantes mais para que as pudesse pensar
mas nunca há-de ler o que só agora escreveste
no velho bloco de notas à beira do fim:
ah homem se tu soubesses
é nos teus olhos azuis que foi morrendo
aquele nosso amor tão-sempre castanho
algumas vezes depois de as ter pensado
bastantes mais para que as pudesse pensar
mas nunca há-de ler o que só agora escreveste
no velho bloco de notas à beira do fim:
ah homem se tu soubesses
é nos teus olhos azuis que foi morrendo
aquele nosso amor tão-sempre castanho
08.10.2009
acontece que nunca se juntam duas alegrias
e se assim é que interessa a alegria que sobra?
só hoje à distância de um ano a lucidez dá conta:
nunca voou pinguim que nos teus olhos se arrastasse
e se assim é que interessa a alegria que sobra?
só hoje à distância de um ano a lucidez dá conta:
nunca voou pinguim que nos teus olhos se arrastasse
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
INFERNO
por que ardes no paraíso das mulheres que partem ?
por que choras pelas viagens em que se divertem sobre as se- mentes certas que seus ventres contentam contra a paz que sem ti as guarda ?
por que entristeces dos seus orgasmos em braços felizes quem sabe neste momento quem sabe neste momento ?
por que insistes em não fazer a cama do fim por que deixaste de procurar a vida nas salas de cinema por que já quase não lês romances por que deitaste ao lixo o bloco de notas ?
por que não abandonas à morte o que morto está ?
por que de cada vez que amas
hás-de amar como nunca se te calha perder como sempre ?
por que choras pelas viagens em que se divertem sobre as se- mentes certas que seus ventres contentam contra a paz que sem ti as guarda ?
por que entristeces dos seus orgasmos em braços felizes quem sabe neste momento quem sabe neste momento ?
por que insistes em não fazer a cama do fim por que deixaste de procurar a vida nas salas de cinema por que já quase não lês romances por que deitaste ao lixo o bloco de notas ?
por que não abandonas à morte o que morto está ?
por que de cada vez que amas
hás-de amar como nunca se te calha perder como sempre ?
ESTOU
foram precisos quarenta e três anos e mais uns pós para que finalmente conseguisse extrair esta invariante do meu trajecto
o que me faz chorar neste livro nesse filme naquela música? o que emociona os meus dias de ostracismo?
nada tão simples: o reconhecimento de que algo ou alguém está de que faz a diferença de que não mora na fímbria do olvido de que é lembrado num minuto de entrega
isto descobri agora e agora choro como nunca: é que neste cantinho da tarde também acabo de me lembrar de mim
o que me faz chorar neste livro nesse filme naquela música? o que emociona os meus dias de ostracismo?
nada tão simples: o reconhecimento de que algo ou alguém está de que faz a diferença de que não mora na fímbria do olvido de que é lembrado num minuto de entrega
isto descobri agora e agora choro como nunca: é que neste cantinho da tarde também acabo de me lembrar de mim
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
DIA DE FESTA
meu pai foi baleado seis vezes pelas costas e à queima-roupa e de todas as mortes que se aproximavam venceu a que lhe perfurou a artéria aorta
foi há onze anos e há vários deles que os assassinos ao que se diz e mais não quero saber livres e bem se recomendam
quanto à viúva e aos seus filhos só hoje conseguiram salvar a casa que o tribunal lhes cobiçava em troca de uma dívida: é que só hoje puderam entregar os últimos euros dos muitos e gordos com que o senhor injuiz os castigou
vinha o castigo de terem pedido uma indemnização indemnização essa que sendo pequena e ridícula porque assim os aconselha- ram a que fosse era ridícula e demasiada porque nada mereciam
esta república das bananas é o meu país
e este sou eu um tolo um palerma torturado e há tanto rendido
um imbecil que daqui a pouco há-de repetir o pesadelo de todas as noites mas que por enquanto ainda respira o seu terceiro litro de solitária comemoração
é que hoje
hoje conseguimos salvar a casa
foi há onze anos e há vários deles que os assassinos ao que se diz e mais não quero saber livres e bem se recomendam
quanto à viúva e aos seus filhos só hoje conseguiram salvar a casa que o tribunal lhes cobiçava em troca de uma dívida: é que só hoje puderam entregar os últimos euros dos muitos e gordos com que o senhor injuiz os castigou
vinha o castigo de terem pedido uma indemnização indemnização essa que sendo pequena e ridícula porque assim os aconselha- ram a que fosse era ridícula e demasiada porque nada mereciam
esta república das bananas é o meu país
e este sou eu um tolo um palerma torturado e há tanto rendido
um imbecil que daqui a pouco há-de repetir o pesadelo de todas as noites mas que por enquanto ainda respira o seu terceiro litro de solitária comemoração
é que hoje
hoje conseguimos salvar a casa
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
1'
um minuto com a cabeça no teu colo quem lho dera um minuto redondo um minuto inteiro apesar de não o desejares para homem
sem palavras que ele não quer saber do olvido apenas sonha o teu olhar na luz das suas lágrimas
a maior solidão é a de quem não tem onde ser criança
sem palavras que ele não quer saber do olvido apenas sonha o teu olhar na luz das suas lágrimas
a maior solidão é a de quem não tem onde ser criança
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