sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

.

A tal ponto ruiu a obra
que ruiu com ela o passado:
já nem a memória sobra
do amor que nos foi jurado.

o hábito da ausência

no dia em que eu conseguir viver da tua ideia em mim teremos um caso sério
talvez eu concorra para presidente da assembleia da república ou quem sabe talvez ponha uma bomba sob o assento de um audi

talvez fosse melhor desistirmos das ideias

talvez fosse melhor estares aqui

in vino veritas

o antónio é que parece fixe
qual antónio?
aquele o luís do pinguim
não consegui ler
nem tentei mas ele parece fixe
sim para dizer olá
e para que mais podia ser?
sei lá tu é que disseste que ele parecia fixe
parece não disse que é
ah bom eu cá acho-o um pouco feioso
sim claro mas parece fixe é só isso que eu quero dizer
pois estou a perceber a mim nem isso
se calhar não é
pois se calhar isto é a gente a falar
é pena é ser um pouco foleiro
mas se fosse fixe
sim se fosse fixe mas não deve ser
pois nãoo antónio é que parece fixe
qual antónio? aquele o luís do pinguim não consegui ler nem tentei mas ele parece fixe sim para dizer olá e para que mais podia ser? sei lá tu é que disseste que ele parecia fixe parece não disse que é ah bom eu cá acho-o um pouco feioso sim claro mas parece fixe é só isso que eu quero dizer pois estou a perceber a mim nem isso se calhar não é pois se calhar isto é a gente a falar é pena é ser um pouco foleiro mas se fosse fixe sim se fosse fixe mas não deve ser pois não

cão

hoje pus-me à janela
e só vi merda na calçada

peões que deitam papéis ao chão
automobilistas que estacionam em cima do passeio de tal modo que nem os peões que deitam papéis ao chão podem passar
a madame que sai com o animal à rua e boceja sem mãos enquanto ele descarrega o cilindro
a pitinha que chama a avó de estúpida entre balões de pastilha e mensagens telemóveis

não vi diferença entre mulheres e homens como por aí se apregoa
apenas todos muito cheios de si     todos no pico da merda     todos muito valiosos

foi um minuto     se tanto
que logo voltei a ser cão

sábado, 8 de janeiro de 2011

chá

no encanto de um chá breve
silêncio e confissão

eu desaprendi o alfabeto do amor quando me ensinaste o do fim

antónio

olha     maria
podes chamar-me de luís
que lembra camões e por isso
não está nada mal

mas também podes insistir no tó
ou no dionísio
ou até no luís antónio
que não tem muito que ver mas enfim

arrancar-me-ias um sorriso se me pusesses anto
e estou à vontade com tânio
eu sei     é estranho
mas garante maalouf que é o mesmo que antónio

eu não gosto é de inhos
nem de toinos tonis ou tonecas
e muito menos de juniores
também não gosto que me chames de imbecil
como no dia em que fui mais humilde

entretanto e enquanto não te decides
faz de mim o que sou:
antónio simplesmente
e um pouco parvo até

.

Dizem as notícias que o douro está a recuar aos poucos para o seu leito. Ao menos, os rios têm leito.

outubro

fui feliz
e não entendi que aquele dia
estava entre os teus piores

agora que tens o mundo a teus pés
quem dera que me pudesses perdoar

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ressaca

ofereceram o martini     três quartos de litro do melhor
e a macieira também
e eu vinha para casa com tanto por escrever     uma história por metro sem exagero

mas agora estou invejoso     ressentido     triste e desistente
traiçoeiro e desatento     instalado     imensamente perdido

o que mais e sempre aborrirá ao espelho do que nunca fui
é viver com esta vertigem e sem o ouvido fácil do meu pai

dizem os psicólogos que a palavra tem efeitos duradoiros
e tem
só é pena é serem sempre negativos

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

nova iorque - lisboa

olha antónio
tu lembras-te daquela vez
em que arrancaste a cabeça ao homem-aranha
lembras-te pois
e a seguir eu comecei a rir muito e tu disseste
eh pá este gajo não é de lisboa

foi ao homem-aranha foi
e depois a cabeça desapareceu e não conseguíamos encontrá-la
e tu dizias que tinha sido eu que a tinha escondido
e eu quase a chorar      que não     que tinhas sido tu
lembras-te pois
alturas tantas começámos a chamar a cabeça de cabecinha
e andámos pela casa toda à procura dela
lembras-te lembras-te
que eu ria muito quando tu repetias
eh pá     este gajo não é mesmo de lisboa

pois olha     aqui tens a cabecinha e o resto
não havia fantasmas como concluímos então
encontrei-a ontem debaixo do tapete e colei-a
é que sabes     antónio
afinal o homem-aranha é de lisboa

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

sons vocálicos em português

garantem vários sítios na rede que a língua portuguesa tem doze sons vocálicos    e nunca me dizem quais são
ponho-me a pensar:

1)
á de casa
2)
é de cela
3)
i de bica
4)
ó de bola
5)
u de muro

6)
â de cada
7)
ê de cedo
8)
ô de bolo

9)  
ã de canto
10)
(~e) de vento
11)
(~i) de cinto
12)
õ de monte
13) õ' de ontem
14)
(~u) de mundo

15)
(e) de pequeno

quinze se não contarmos com o ü madeirense


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

sereia

confessou uma vez eduardo prado coelho algo que me faz todo o sentido e torce o nariz a muitos:    que não escreveria se não houvesse mulheres
como o entendo     que há muitos     muitos anos     a mulher és tu

mas hoje sei que és tão muito     tão tanto     tão mais e de mais
estrela além e sereia noutro mar
e estou exausto
exausto de me atar ao mastro para me não perder
exausto de sentir que o meu grito aborrece já

vou experimentar uma nova demanda:
a do vazio

domingo, 2 de janeiro de 2011

ao teu lado

.
agora que de novo sabemos como pertences aqui
guarda-me em silêncio     não passes o resto das nossas vidas
a lembrar-me e ao mundo que um dia me distraí

há-de ser outro o sofá que nos senta     outra a mesa que nos recupera     outra a cama que nos entrega
pode vir a ser outro o carro para nos conduzir e outra a cidade     quem sabe     que nos venha a inventar
mas em nenhum minuto morreremos de nós

e se um dia o meu coração quis partir
nunca te esqueça     meu amor     que estou aqui
que na verdade nunca saí daqui
que não quero mais
do que estar aqui     sempre     ao teu lado

sábado, 1 de janeiro de 2011

2011

está combinado entre muitos de nós que a terra acaba de completar a elipse na sua brincadeira de pião

mas a brincadeira continua     e na outra volta que agora começa
muitas propensões me agradam e outras enfim

instalar a ambição de ter cada vez menos     diminuir     por exemplo     a biblioteca     vender a casa     investir ainda mais na desaprendizagem do trânsito
agrada-me

diminuir a capacidade para fazer amigos e continuar a perder os muito poucos que me restam
apurar a tristeza e a angústia que orientam o meu caos
quem sabe morrer
enfim

de resto é quase tudo desejar-vos uma volta por nuvens de algodão
mas     por favor     sem consensos exagerados

.

hoje tive a certeza de que eras feliz
e isso foi de longe o melhor que te fiz

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

desconstrução

O Júri do Prémio LeYa reuniu esta tarde na sede da editora, em Alfragide, para deliberar sobre a atribuição do Prémio relativo a 2010.
Perante originais que, apesar de algumas potencialidades, se apresentam prejudicados por limitações na composição narrativa e por fragilidades estilísticas, o Júri entendeu que as obras a concurso não correspondem à importância e ao prestígio do Prémio LeYa no âmbito das literaturas de língua portuguesa. Em consequência, e de acordo com a alínea f) do art.º 9 do respectivo Regulamento, decidiu por unanimidade não atribuir o Prémio LeYa referente ao ano de 2010.

1) neste comunicado de 29 de novembro passado     o júri esqueceu-se de referir que apenas leu 4 originais     escolhidos por uma comissão de leitura de entre 325 obras concorrentes          esquecimento grave porque há-de pensar quem não o souber que a argumentação exposta se refere a todas as obras


2) de qualquer texto     com boa ou má vontade     critério assim ou critério assado     se pode concluir que apresenta limitações na composição narrativa e fragilidades estilísticas          estas são expressões que     pela sua universalidade     dizem tudo e não dizem nada e tenho a certeza de que também encaixariam bem os textos premiados no par de anos anterior


3) o prémio leya ainda não tem a importância e o prestígio que o comunicado garante          é muito recente para isso     ainda falta perceber se os seus premiados anteriores realmente o distinguirão         por enquanto     o prémio leya     e parafraseando o que se costuma dizer do prémio nobel     vale o que vale: 100 000 euros


4) eu concorri          não sei se o meu texto está entre os 4 com limitações narrativo-estilísticas ou se faz parte dos 321 que foram directamente para o lixo     mas cada vez mais me convenço que o comunicado do júri é indelicado e mesmo desrespeitoso no seu conteúdo para quem     como eu     pensa um pouco o mundo          ficou apenas por dizer o mais importante:     o júri ou grande parte do júri não gostou de nenhuma das 4 obras que leu

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

tão simples

o grito é como as coisas muito complicadas     que exigem palavra certa em rotina impossível

mas um dia entenderás
que sempre a melhor arte é a do silêncio
que o amor nasce e vive entre sussurros
que só puxa pela garganta quem já perdeu o futuro

setenta e três do quilo

como sempre     hoje enfeitei desistências instaladas com sorrisos breves mas largos
comi tudo o que havia no prato a ver se recupero os quilos que me regressem ao mal-estar antigo     e também chorei qual prostituta bonitinha quando ao cabo de meia hora um homem a sério veio fazer de mim princesa

num dos blogues que sigo     li rasgados consensuais aflitivos elogios de autora e comentadores a um dos livros que mais detestei          sabe quem me conhece que me refiro a o velho e o mar de hemingway e que nunca fui capaz de ler outra coisa desse bronco

já no jornal de letras     sempre tão intelectualóide     constatei mais uma vez que de entre os escritores finitrintões apenas me vai interessando um que se apelida mãe e pai se quer

também no mesmo jornal     o meu luxo de fim de ano     descobri o autor esquecido do primeiro romance histórico português         chamava-se guilherme centazzi     e pareceu-me em duas ou três citações bem melhor que o fraquinho do almeida garrett     o seu desde sempre sobrestimado contemporâneo

acabo estes desabafos precisamente com uma passagem do centazzi     porque foi nela o momento alto do meu dia     o momento em que desfiz o sorriso inocente para me desfazer no riso da inveja:

meus escritos (...) não são engendrados à custa das óperas de são carlos; nem meus versos recheados de belos pensamentos alheios, alinhavados com palavras doces como torrões de açúcar (...)
eu cá sou assim...
bom ou mau quero chamar-lhe meu.

nem mais

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

um homem melhor (lhasa de sela - el deserto)

primeiro consolo:     desistir ele de procurar     desistir tanto e de tal maneira...     mas que procura foi essa mesmo?

segundo consolo:     não ressentir a tua procura     essa procura que o exclui     e que ainda há pouco tanto lhe doía

a medida justa?
o repetido filme nocturno em que tu esperas um filho que não é dele
e isso já o não despertar
e isso não amarrotar a vida
e as suas mãos estarem vazias porque vazias são

a partir de agora esse homem deixa de sonhar

.

dizem que     vai fazer um ano no dia 1     lhasa de sela partiu
mas quem acredita nisso?

sábado, 25 de dezembro de 2010

friu

no terceiro ano do meu curso de psicologia     um docente da casa que vinha de alguns anos a ensinar na universidade do minho informou-nos que em lisboa nunca se constipava porque em lisboa não havia frio     o que havia era friu

à parte a brincadeira que nem todos perceberam     e que se explica por muitos lisboetas se referirem ao rio como quem dele sempre se riu     a verdade é que eu já não sei que mais fazer para aguentar o gelo da casa

às vezes apetecia-me largar esta vida sentada ao computador     e pôr-me a viver sem destino     livre da cabeça e de pulmão cheio
às vezes sonho deixar que o tempo corra por mim e me apanhe desprevenido num mundo que gire sem o meu peso

que bom seria poder constipar-me a sério

il ne faut pas devenir amer

as únicas férias que tive     levou-me nelas a sophie
fazia verão em noventa e três e então como hoje
eu não era grande espingarda

daquelas duas semanas e meia de portugal lembro algumas alegrias e muitos castelos     mas sobre tudo a tristeza por mais uma paixão em solilóquio

os anos apuram e nos temperos do fracasso me fui requintando
só tenho pena de ter perdido olhos para as coisas simples
e não poderia lamentar mais ter amargado tanto

ela já temia que tudo isto poderia acabar assim     que ao caldeirão da minha centésima desistência não se cansava de soprar:
ah mon cher tozinho     il ne faut pas
devenir amer

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

a mais certinha das ciências

chegada pela manhã e para o café     trazia olheiras na mais recente confissão dos astros
planetas quase tudo     recordo bem     mas ó luís
há mais que sol para nome de estrela

logologo inquiria e tu?     e sempre me gritigriticriticava
esta rota de carneiro em rotina de balança

até que um dia nos perdemos de tanto nos termos perperdido
o que só prova     pó com pó
que a astrologia é patranha maior ou mesmo até
a mais certinha das ciências

sem

a partir daqui os dias crescem
e talvez tenha sido este o último solstício

a deus e a marx      esses que tanto hipócrita junta nas capelinhas de hoje     só peço que de algum modo se me dê o próximo equinócio

de resto     que se foda o meu futuro

canto do sencisne

quem vertigem fosse em garrafa de-----pode ser cerveja pode-----e sobrevivesse ao futuro durante o escorrega da fronteira castanha-----e cuspisse desprezo sobre os antirreticentistas da moda-----
e fizesse isto ... ... ... ... isto ... ... ... e mais isto ... ... ... até à náusea
                                                                   
eu já sei que perdi
-----agora quero mais é andar à roda

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

meio dom da natura

de bocage o desprendimento     o negócio impossível     e     claro     a penca
de tolentino a ânsia por mama     o auto-empequenecimento     e     claro     mais nada

de atitudes malconciliáveis comportamentos cambaiados
e amorrece por transes da ventura
o mísero cavalo lazarento

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

tão inverno

dezembro fez-se tão inverno que se eu pudesse
metia a vida no quarto

talvez então dormisse muito
_____quente dos cobertores e da flanela nos lençóis novos
_____e do cão que suspira e aconchega e encaracola
talvez e nesse caso os sonhos filtrassem a tristeza
como água nas paredes que a espera rachou

talvez e também nesse caso
durante muitos anos me escondesse a vida
e só me despertasse quando também eu já fosse inverno

bem pior vão as primaveras de que me tens falado

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

crónica

experimentei palavra a palavra
com pronúncia cheia e dias de permeio

havia as que eram nomes como os nomes que nos demos
e também as que eram tarde se foi tarde que nos quisemos
mas a maior parte nascia da morte
e palavra com palavra a morte veio mesmo
pela esquina esperada

ainda assim passou imenso tempo
como quem no abismo trabalhasse
e não trabalhasse mais que o regresso

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

pelas pessoas felizes

1. deixa partir em ti quem já de ti partiu          sobretudo      e se não o conseguires      abafa esse estúpido e repisado grito de ajuda com que aborreces as pessoas felizes

2. mente bem     mente muito e contra todos os puristas que só vêem mentiras nas mentiras dos outros          mente acima de tudo para fugir às longas e aborrecidas conversas sobre o binário dos automóveis          e mente ainda mais     muito mais     nos gestos e palavras com que garantes estar bem às pessoas felizes

3. investe na arte da ausência     aprende-a melhor     não desistas mesmo que      por hipótese     ta ponham à prova          nunca te esqueça que não há melhor presente que a tua ausência para as pessoas felizes

4. podes escrever muito     se quiseres     mas escreve para ti          evita o mais que puderes esta coisa dos blogues e dos livros     que as tuas queixas não agradam nada nos escaparates das pessoas felizes

5. e já agora     se não for pedir muito     morre mais rápido           não seria grande a alegria      posto que és insignificante      mas sempre abririas o champanhe de algumas pessoas felizes

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

pausa

a rede faz alguma companhia     confesso     sobretudo porque me organiza neste lugar em que vou escrevendo e que nunca teve o móbil da exposição:          diz-me aliás um contador     invisível por imperícia minha     que não chegam a duzentas as visitas nestes quase noventa dias
claro que eu também visito e muito

a rede também me oferece dicionários     e é muito cómodo e é muito rápido procurar esta definição ou aquela tradução sem ter de me levantar para ir enchendo a mesa de bíblias

a rede guarda-me ainda um correio     que     embora passe dias e dias em branco     será a ausência mais difícil de ultrapassar
consola-me saber que ninguém me enviaria mensagem urgente que não me telefonasse

portanto     a rede não me é imprescindível
ainda há cadernos ou ficheiros word     ainda bibliotecas que guardam dicionários     ainda este maldito telemóvel sempre em queda livre

venha     pois     a pausa que me foi prometida

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

adeus

não pude que não lhe dissesse:
ah dionisio     dionísio     mentecapto dionísio
morreste há muito no canto do cisne     pára de pensar nisso     e a sereia que mais querias regressou ao mar onde sempre cantou
esse teu fechar de olhos para ainda ouvir     há que desabituá-lo     dionísio     hás-de aprender a estar bem quando sem ti se está muito melhor

no seu olhar a paz do moribundo     respondeu-me:
tens razão     luís

e foi tudo

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

branco

examinei-lhe o rasto rastejando
deduzi-lhe um porvir acocorado

e agora penteio-lhe o cabelo ao vento
para me encher entre dentes das suas vagas douradas

ainda assim

a cabeça do homem salta de mão e     no entanto     a volta é sempre a mesma
contrariando os pressupostos com que julga orientar o mundo     ele tropeça num como-destino e regressa ao mundo que o desorienta

ainda assim grita que não pode ser

e ainda assim parece que sim

amor doente

por aí se diz     dionísio amigo     que ainda vives     que em breve retomarás o teu velho caminho e deixarás de espreitar sobre a vida cheia de quem partiu

mas eu sei que morreste mesmo
e talvez venha a ser eu o contrariado viandante que ao caminho regresse

greve

de meu pai aprendi o horror à hora parada e a obrigação ao trabalho prometido
mas de meu pai     também     que ninguém me põe a pata em cima

que miséria quando os governantes são larápios e os governados roubam os dias

terça-feira, 23 de novembro de 2010

ocaso

nascentes nas minhas mortes     uma lágrima se junta à outra
e amargas     inúteis     todas correm sobre rio que seca e renasce

não sei explicar isto

nao posso entender este ocaso perene
se à noite semeei o dia e da lavoura acordei sorrindo

de vez

quantas voltas mais haverá nesta cama     quantos braços esvaziarão de insónia ainda     com quanto frio me há-de o fim tiritar?

ah quem pudera fazer as contas

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

escuro

odeio assassinos     chamem-se eles hitler franco ou stalin     che fidel ou salazar
todos os partidos     sem excepção     já me provaram que são detestáveis
não tenho ídolos
sou incapaz de votar

tenho por única ambição o desvio da merda

juan sin tenorio

nem todas se despediram:     de algumas descobriste apenas     ou foste descobrindo     que já não voltavam

as que se despediram      afirmaram     quase todas     que era coisa delas     que apenas sentiam a falta de uma cama estreita
sempre entendeste o eufemismo e hás-de reconhecer que é a mentira mais doce     melhor que a verdade com que uma te disse dionísio chega-me de pechisbeque

todas     sem excepção     já tinham     em vista ou de facto     quem lhes melhorasse os dias
mas isso nunca te aborriu     pois se os dias melhoraram mesmo...

pior são as noites como esta     em que a solidão e o medo ao desastre se juntam numa antiga e imensa tortura

domingo, 21 de novembro de 2010

as desculpas pedem-se

há tempos ouvia-se muito em coimbra a sentença     as desculpas não se pedem     evitam-se

entretanto     e ainda em dias que por lá passava     senti que a frase foi morrendo
para meu contentamento     que por várias razões sempre a detestei e que     pelas mesmas entre mais     nunca a usei
primeiro     porque acho que é irritantemente simplista:          as desculpas são para se pedir    sim     à parte essa carga judaico-cristã que a palavra exibe e mal se vislumbra          e o que teoricamente se poderia aconselhar a evitar não são as desculpas em si mas os actos que a elas conduzem
segundo     porque sempre me era dirigida a invectiva por toda e qualquer desculpa que pedisse     desde a que antecedia uma simples interrupção de marcha alheia até à que resultava de um acto menos... desculpável
e terceiro     por ser uma frase tão desapegada:     é demasiado fácil e até algo desonesto coroar de evitabilidade o erro cometido

ora     acontece que      acreditando extinta a minha inimiga     ouvi-a uma boa meia dúzia de vezes neste último ano     agora aqui por lisboa
e mais uma vez em situações que me põem culpa e me atrevem ao pedido inútil

todos sabemos que a culpa não se desculpa     que se alguém a pudesse desculpar seria o próprio que a sente
por isso    amigos e não só     na próxima vez em que eu vos fizer o ultrajante pedido     entendei apenas:     estarei confessando que preferiria não vos ter magoado
e respondei com um não aceito     para serdes sinceros
ou com um aceito     para serdes simpáticos
ou     melhor ainda     com a ciência do silêncio

mas     as desculpas não se pedem     evitam-se          por favor...
tamanhos sois?