terça-feira, 31 de janeiro de 2012

24.01.2012 - 31.01.2012

Faz hoje uma semana. Telefonaram-me às 11h a dizer que pioraras e que o teu coração não resistira. Eu estava pronto para te ajudar a morrer, queria tanto que morresses nos meus braços, como a Bonita e o Piloto, quando o sofrimento era visível nos seus olhos e essa era a melhor solução. Mas convenceram-me de que ainda podias ser salvo, que ainda não tinha sido feito tudo para te salvar. E acabaste por morrer sozinho.

Ainda não é fácil viver em casa e não me apetece ir para a cama sem lá estares. Tento prender os olhos à secretária mas eles escapam-me pelo caminho que leva ao teu sofá preferido, aquele onde estendias a tua preguiça de gato e de onde controlavas os meus movimentos. Tento manter a mão esquerda presa sob o edredom mas passo a noite a soltá-la para te procurar. Tento encontrar-te no Bê-Dê mas lembro-me sempre dos ciúmes que tinhas quando as minhas carícias iam para ele na mesma medida que para ti. 

Não corria desde que adoeceste, queria passar contigo todo o tempo que pudesse. E ainda não voltei a correr. Sinto-me culpado por os meus rins funcionarem tão melhor que os teus. Mas daqui a uns tempos tenciono voltar à estrada para bater todos os recordes que me permitam a idade e o corpo. Ontem imaginei que o meu coração parava como o teu ao cruzar a meta de uma qualquer maratona e isso consolou-me: é um modo simples e pouco rebuscado de chegar ao que sempre quis. Por isso, por que não esticar os meus limites? Quero baixar dos 40 minutos nos 10 quilómetros, rondar a hora e trinta na meia-maratona, roçar as três horas e meia na maratona. Dás-me um ano para isso tudo?

Entretanto, e umas horas antes de morreres, pouco depois da última visita que te fiz na noite de segunda-feira, descobri que a mãe pode estar muito doente. Ainda não sabemos quanto, andamos de análise em análise e de esperança em esperança. Amanhã vou com ela ao médico para agendarmos os próximos passos.

Na sexta-feira passada, recebi mais uma daquelas cartas antigas a dizer que o nosso segundo romance foi analisado com todo o cuidado mas que não está na linha editorial de quem não o analisou; antes, já tinha recebido outra a dar-me os parabéns pelo texto e a manifestar-me o lamento pela sua ineditabilidade. Dei comigo a sorrir de como sou estúpido, de como por uns momentos e há pouco mais de dois anos pensei que coisas destas nunca me voltariam a acontecer.

Como sabes, sempre me aborreceram notícias sobre os poetas que ganham prémios graças à sua magnífica resistência em poetizar, sempre gozei com a ingenuidade dos prosadores que ganham prémios e dizem procurar a palavra certa para cada pensamento, sempre li algumas páginas dos livros que ganham prémios e cujo sucesso não consigo perceber.
Mas cada vez leio menos. Esta semana? Nada. Os escritores dizem que a leitura e a escrita são o seu refúgio. Talvez seja por isso que eu não sou um escritor a sério: quando não estou bem, mal leio; quando não estou bem, escrevo tão mal.

Do resto, tu já sabes. Há uns sete meses que não me pedem traduções e as últimas notas que tinha, gastei-as para pagar a tua última solidão no hospital veterinário. Mas não te sintas mal com isso; quando o banco vier buscar-me a casa, e embora não tenha outro remédio senão entregar-lha, vou ladrar-lhes até não conseguir mais. E em tua honra hei-de morder-lhes os calcanhares. Ah, se hei-de.

A Miúda e a Sereiazinha mandaram-te beijinhos há dias e olha que foram bem maiores e sentidos do que os que mandaram para mim. Recebe-os, está bem? Onde estiveres, recebe-os.

Até para a semana, meu querido Barbinhas.

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Por instantes, a minha passagem causou algum aborrimento. E, no entanto, não segurei nada que tivesse resistido à prova da chama. Fui estéril, não tive graça, muito menos caí em graça. Nalgum lugar ficará registado o dia 12 de Abril de 1967 para começo. Com que fim? O de ter fim.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ciclo

à hora em que de morte se beija a noite
a angústia faz-se pequena     tão longe do nome
     indício de adeus sobre o consolo das raízes

mas chegará de novo inteira ao espreitar da manhã

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

barbas (1996?-24.01.2012)

Vazio de ti como dos amores da minha vida. Todos os outros partiram por já me não quererem. Tu não: até ao fim, meu amigo, me deste o teu carinho e me prometeste futuro. Perdoa-me pelas vezes em que não te soube corresponder. Perdoa-me, meu amor.

domingo, 22 de janeiro de 2012

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Dedico o meu segundo romance Aos que traí.
Traí porque entreguei tudo - a vida, o amor, a alegria, mulheres, amigos.
Traí porque nunca me entreguei.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

o beijo

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Nem pestanejava; mesmo quando calmei a procura e me caiu um estrondo na cara, o gritinho no lugar do morto não soprou o seu lugar de esfinge.
A estrada corria-lhe silenciosa sob o artifício das mãos enquanto ao espelho da pala eu examinava se ardia.
Entretanto era Coimbra e a cem metros do fim um semáforo fechava. Olhei-a de lado, pesei quietude, concluí aquiescência, ajeitei-me para outro ensaio.
Já o carro arrancava, já eu dormia para não ter medo. Tentei despertar-lhe a boca. Sem resultado: não creio que tivesse havido beijo. A sua cabeça inclinou-se leve, é um facto, mas para que a avenida não fugisse; e o talvez respirado e húmido da viagem não indiciava luta nem abandono.
Voltei a encostar-me como se costuma, fixando o pára-brisas com perseverança, a dos mortos, a dela. No vaivém das escovas chovia como quando somos tristes.
Segundo estrondo, de novo sem arma. Largou-me à frente da porta, simpática como nunca, sorrindo, «adeus, até amanhã».


Uma semana depois, dentro do carro o silêncio continuava maior.
Imóveis. Carnudos. Procurei. Estrondo.
Chovia e já estávamos parados no semáforo triste. Foi, então, que percebi: os beijos não se roubam, negoceiam-se. Assim, arranquei o braço direito antes de sair e pu-lo no banco traseiro, «Guardas-mo?».


O braço faz falta mas eu quero muito encontrar o beijo. Além disso, há dias deu-se um pequeno desenvolvimento: ajudou-me a enganchar o cinto de segurança e até roçou a mão na minha.
Virei-me para o banco traseiro a espreitar se trazia o braço. Não, talvez estivesse na mala; portanto, só procurei o beijo ao pressentimento do semáforo.
Novo estrondo.
Chovia e eu era maneta. À despedida, pensei que não estava a dar o máximo. Por isso, arranquei a perna esquerda. «Guardas-ma?»
Chovia muito, estava triste como nunca, tinha pena de ainda não ter encontrado o beijo. Encostei-me à parede e fiquei a ver o carro afastar-se: parecia menos vermelho do que habitualmente, talvez por a chuva cair com muita força sobre o tejadilho.
Saltitei.


Ontem estive todo o dia à espera. Telefonei-lhe várias vezes mas só me responde uma voz a dizer que o número não está atribuído.
Que bom, ela ter subido comigo há duas semanas, antes de eu lhe ter entregado a outra perna.
Há pouco, faltou-me bexiga para mais uma gota. Apesar de já não ser tão difícil como a princípio, ainda custa muito arrastar-me até ao quarto de banho e sentar-me na sanita.
Daqui a pouco, deveria ir trabalhar. Mas ainda preciso de uns dias de repouso. Desconfio, também, que é mais fácil encontrar o beijo se ficar em casa, à espera de que ela mo venha entregar.
Chove imenso.
Ainda é noite.
Tenho medo.
(Publicado no jornal universitário A Cabra de 20-10-2011:

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

da própria cicuta


Eu hoje olhei para trás
como quem olhasse em frente

e senti que era capaz
de ter feito bem diferente.

Podia ter sobrevoado
este abismo em estar de menos,
não ter ido assim cansado
por caminhos tão pequenos.

Podia que à flor da pele
me doesse a dor impoluta
de quem por taça fiel
beba da própria cicuta.

domingo, 4 de dezembro de 2011

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Decadência - s. f. tendência patológica para deprimir durante uma década após perda traumática, sobretudo amorosa ETIM. década

terça-feira, 27 de setembro de 2011

o caminho da estupidez


Os animais têm o objectivo de servir os nossos interesses e satisfazer as nossas necessidades. Em suma: algum deus os criou para embelezar o nosso mundo. É que, "até prova em contrário, as pessoas 'raciocionam' mais que os animais". Daí pouco importar o sofrimento que lhes possamos causar em face do respeito pelas tradições.

Proibir os touros de morte é o equivalente a proibir a Casa dos Segredos, os combates de pugilismo ou as corridas de automóveis. Porque, toda a gente sabe, o touro se quisesse também poderia optar por não estar ali. Se lá está é porque assim quer.

E todos aqueles pintores que pintavam touradas? Que bonito! Se as pintavam é porque elas são importantes. Só de coisas bonitas se fazem coisas bonitas.

Ademais, se não houvesse touros de morte não se criariam os touros para matar. É o preço da vida: a morte sádica e violenta.

De toda esta enorme capacidade de raciocínio a que conclusão chego?
Que pena, Miguel, que pena terem-te dado poder para fazer opinião.

sábado, 16 de julho de 2011

desencontro


Via passar essa mulher de luto
pelo marido morto o ano passado
- e ela e eu, escondendo o choro, lado a lado,
éramos menos sós por um minuto.

Aprendi a esperá-la, resoluto,
e ela a fazer-me o aceno recatado
da bela que sem sonho nem pecado
um pouco se detém no olhar do bruto.

Mas há três dias que ela traz a cor
do futuro - e nas minhas tardes frias
lentamente esmorece o nosso dueto.

Como pôr um sorriso, como pôr
na minha cara as novas alegrias
se eu cá por dentro continuo preto?

sábado, 14 de maio de 2011

rima fácil

quando disseram que lhe restava a vida de um cão
ele fez ão ão ão

e tudo estava bem porque rimava ainda

quarta-feira, 11 de maio de 2011

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Vós que já tanto chupais
deste pouquinho que amealho,
se quiserdes chupar mais
ainda aqui tendes caralho.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

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Entre os labores da lua
vai a viagem das marés,
que não sendo coisa tua
explica tanto do que és.

sábado, 7 de maio de 2011

desasado

ainda no século xv     joam roiz de castel blanco escrevia assim     numa das quatro composições com que garcia de rezende lhe ofereceu a posteridade:

Senhora, partem tão tristes
Meus olhos, por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.


de entre os pré-camonianos são os versos que prefiro     pelo que têm de meu e de português sem os arrevesamentos que hoje vemos nos seus contemporâneos
diga-se para dizer tudo que vivesse eu na altura e por acaso os lesse teria morrido de inveja ou coisa pior

nunca fui grande aluno a português     creio que a minha nota maior foi um imerecido quatro-em-cinco no ciclo preparatório
mas lembro-me de     nos meus dezoito anos     me ter sido oferecida uma oportunidade para ultrapassar a timidez quando a professora me pediu que lesse em voz alta aqueles mesmíssimos versos

li-os como sempre os lia em casa     o sentimento fundo e o coração nas mãos de uma rapariga chamada susana que nunca veio a saber que nas mãos mo teve durante anos
a seguir fez-se um breve silêncio que não entendi logo mas que a reacção da professora logo justificou:

não era preciso ler assim antónio
agora tu joão     mas lê como gente grande

ali se acabava o meu teatro

terça-feira, 3 de maio de 2011

último conto

era uma vez um amor criança de colo
veio a desistência dos braços e ele caiu ao chão
o que se fez então? como se calmou o choro? quanto se esperou para ensiná-lo a gatinhar?

perguntas estúpidas: o amor estava morto

sexta-feira, 29 de abril de 2011

labor perverso

o pior é que muitas vezes escrevo
para prolongar a palha dos dias
para renascer o fim e acarinhar as derrotas

para lembrar o que já esqueceu aos que um dia estiveram aqui

é para não morrer que morro

quinta-feira, 28 de abril de 2011

quarta-feira, 27 de abril de 2011

pressa

quando ele chegou a casa     a sua mulher era qualquer mulher
não estranhou o beijo que ela não procurou e era-lhe impossível recordar se algum dia se tinham querido
falou com os filhos mas um deus movimentava a noite numa daquelas impaciências antigas

teve a certeza de que esse deus era invejoso quando a mulher que era qualquer mulher se aproximou
antónio temos de falar

não era preciso     ele já sabia

terça-feira, 26 de abril de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

descoordenadas

não me ponho à esquerda     que não sinto bondade nos homens
não me ponho à direita     que ninguém é mais do que eu
não quero saber do centro     que gosto de cantos
e não fico em cima e não fico em baixo     que a minha vida é cambalhota

segunda-feira, 18 de abril de 2011

por falar em cuidado

disse o diogo infante no cuidado com a língua:
é engraçado só agora é que eu realizei...
avisam-no: realizei diogo?
diogo: desculpa... só agora é que eu me
apercebi que estes movimentos...

não sei qual prefiro: se o anglicismo se a falta do de...
bem para ser sincero prefiro o anglicismo
sintaxe é a mulher que me resta

domingo, 17 de abril de 2011

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Se alma for esse caminho
por onde tu já não vais
quem andará mais vizinho
de onde na alma aquece mais?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

ao

duas mulheres
ele nunca tinha visto nada assim e estava a gostar espetou os olhos no ecrã e não conseguia desligar não queria desligar
era o espetador da noite

este breve texto foi escrito de acordo com o acordo

terça-feira, 12 de abril de 2011

clarividência

no dia em que fez 121 o homem pressentiu que era a sua última capicua
e não é que foi mesmo?

segunda-feira, 11 de abril de 2011

se tanto

o dionísio reapareceu com a sua última
alta mas alta mesmo_____se não tem dois metros pouco há-de faltar
e pagou um copo a todos os que estavam a ver a bola

pessoal esta é a hannelore a minha namorada
é alemã

o dionísio tem um metro e setenta mais coisa menos coisa_____mas sentados pouco se notava a diferença

pediu uma água de meio litro para ela e bebeu a sua cerveja pela garrafa parecia um pouco irrequieto e exprimia-se numa salganhada inglesa

partiram com um sorriso_____ela baixando a cabeça para controlar melhor a altura da porta_____ele alçando a mão para lhe cingir a cintura

uma cumplicidade baixou sobre as cervejas pagas

ninguém lhes dá uma semana

um sonho qualquer

o estuga     como eu lhe chamo     passa por mim todas as manhãzinhas    de guarda-chuva e pasta na mão
mas só há alguns meses é que reparei: quando o semáforo para peões está fechado     ele repete o quarteirão          e se isso é impossível por algum motivo     refaz a calçada em sentido contrário e retorna

há dias troquei-lhe as voltas e     do outro lado da rua     sempre sem ser visto     acompanhei-lhe o percurso
descobri assim que ele vai até à praça do comércio     vira à esquerda quando já não não pode ir em frente e segue na direcção da gare de santa apolónia com as necessárias repetições de quarteirão

depois de ali chegar     estuga ainda mais o passo     ou assim me pareceu    e campo das cebolas rua da madalena regressa à rua da palma para finalmente entrar na pastelaria a eira     já na rua de angola

aqui     sem se sentar     bebe um garoto e um copo de água     isto pelas nove e meia      a hora precisa dependerá da exigência dos quarteirões
de seguida sai e vira à esquerda pela rua do forno do tijolo          agora cabisbaixo     pé que espera pé     mão deslizando pela calva pensativa

ontem respirei coragem e pus-me de amigo com o seu derrotado andar das dez          perguntei-lhe:
porquê?

ele deteve-se para me encarar
nos seus olhos brilhava um sonho que talvez ninguém possa entender

e desatou a correr

domingo, 10 de abril de 2011

herói

entrou manso e escolheu um canto
mas a nossa amizade dera um par de voltas ao mundo e ele precisava de cumprir a promessa
foi por isso que mandou vir o que se chamava filósofo

o que se chamava filósofo apareceu com o sorriso de sempre     os gestos abertos e o olhar um pouco mais à direita

o que é? quis saber

é isto

o meu amigo espetou-lhe     então     o unicórnio na garganta com toda a força e rodou a cabeça para um e outro lado
um minuto depois afastou-se e recebeu os aplausos como se nada tivesse acontecido


dirigiu-se à saída e levantou voo

sexta-feira, 8 de abril de 2011

? - 8 de abril

sentiu uma picada na asinha direita e começou a perder altura
via tudo à roda e um ou dois segundos depois embateu violentamente contra a parede

o senhor da casa apanhou-a do chão com muito cuidado e acomodou-a numa caixinha de fósforos vazia
foi à procura de ajuda

mas ela viria a falecer pouco antes do meio-dia: todos os bons entomiatras tinham escapado à cidade

terça-feira, 5 de abril de 2011

ruptura

no meu décimo ano levei uma descasca da professora de noções básicas de saúde por ter escrito     imagine-se     ruptura da membrana celular em vez de rotura da membrana celular
escreveu ela no quadro e em letras garrafais a minha criminosa grafia ruptura e confessou que havia erros tão graves que a tiravam do sério
no meu cantinho eu corava de embaraço e fervia ante a injustiça

nunca encontrei necessidade ou coragem para voltar a tirar a professora do sério com a página do dicionário onde o erro se exibia mas afeiçoei-me à palavra como símbolo da minha timidez e das doenças que um dia me hão-de matar por sempre esconder o que sinto

hoje tropecei com ela e dei por mim a substitui-la por rutura numa tentativa de acompanhar o tempo

senti lágrimas à espera

antes a rotura professora

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

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A tal ponto ruiu a obra
que ruiu com ela o passado:
já nem a memória sobra
do amor que nos foi jurado.

o hábito da ausência

no dia em que eu conseguir viver da tua ideia em mim teremos um caso sério
talvez eu concorra para presidente da assembleia da república ou quem sabe talvez ponha uma bomba sob o assento de um audi

talvez fosse melhor desistirmos das ideias

talvez fosse melhor estares aqui

in vino veritas

o antónio é que parece fixe
qual antónio?
aquele o luís do pinguim
não consegui ler
nem tentei mas ele parece fixe
sim para dizer olá
e para que mais podia ser?
sei lá tu é que disseste que ele parecia fixe
parece não disse que é
ah bom eu cá acho-o um pouco feioso
sim claro mas parece fixe é só isso que eu quero dizer
pois estou a perceber a mim nem isso
se calhar não é
pois se calhar isto é a gente a falar
é pena é ser um pouco foleiro
mas se fosse fixe
sim se fosse fixe mas não deve ser
pois nãoo antónio é que parece fixe
qual antónio? aquele o luís do pinguim não consegui ler nem tentei mas ele parece fixe sim para dizer olá e para que mais podia ser? sei lá tu é que disseste que ele parecia fixe parece não disse que é ah bom eu cá acho-o um pouco feioso sim claro mas parece fixe é só isso que eu quero dizer pois estou a perceber a mim nem isso se calhar não é pois se calhar isto é a gente a falar é pena é ser um pouco foleiro mas se fosse fixe sim se fosse fixe mas não deve ser pois não

cão

hoje pus-me à janela
e só vi merda na calçada

peões que deitam papéis ao chão
automobilistas que estacionam em cima do passeio de tal modo que nem os peões que deitam papéis ao chão podem passar
a madame que sai com o animal à rua e boceja sem mãos enquanto ele descarrega o cilindro
a pitinha que chama a avó de estúpida entre balões de pastilha e mensagens telemóveis

não vi diferença entre mulheres e homens como por aí se apregoa
apenas todos muito cheios de si     todos no pico da merda     todos muito valiosos

foi um minuto     se tanto
que logo voltei a ser cão

sábado, 8 de janeiro de 2011

chá

no encanto de um chá breve
silêncio e confissão

eu desaprendi o alfabeto do amor quando me ensinaste o do fim

antónio

olha     maria
podes chamar-me de luís
que lembra camões e por isso
não está nada mal

mas também podes insistir no tó
ou no dionísio
ou até no luís antónio
que não tem muito que ver mas enfim

arrancar-me-ias um sorriso se me pusesses anto
e estou à vontade com tânio
eu sei     é estranho
mas garante maalouf que é o mesmo que antónio

eu não gosto é de inhos
nem de toinos tonis ou tonecas
e muito menos de juniores
também não gosto que me chames de imbecil
como no dia em que fui mais humilde

entretanto e enquanto não te decides
faz de mim o que sou:
antónio simplesmente
e um pouco parvo até

.

Dizem as notícias que o douro está a recuar aos poucos para o seu leito. Ao menos, os rios têm leito.

outubro

fui feliz
e não entendi que aquele dia
estava entre os teus piores

agora que tens o mundo a teus pés
quem dera que me pudesses perdoar

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ressaca

ofereceram o martini     três quartos de litro do melhor
e a macieira também
e eu vinha para casa com tanto por escrever     uma história por metro sem exagero

mas agora estou invejoso     ressentido     triste e desistente
traiçoeiro e desatento     instalado     imensamente perdido

o que mais e sempre aborrirá ao espelho do que nunca fui
é viver com esta vertigem e sem o ouvido fácil do meu pai

dizem os psicólogos que a palavra tem efeitos duradoiros
e tem
só é pena é serem sempre negativos

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

nova iorque - lisboa

olha antónio
tu lembras-te daquela vez
em que arrancaste a cabeça ao homem-aranha
lembras-te pois
e a seguir eu comecei a rir muito e tu disseste
eh pá este gajo não é de lisboa

foi ao homem-aranha foi
e depois a cabeça desapareceu e não conseguíamos encontrá-la
e tu dizias que tinha sido eu que a tinha escondido
e eu quase a chorar      que não     que tinhas sido tu
lembras-te pois
alturas tantas começámos a chamar a cabeça de cabecinha
e andámos pela casa toda à procura dela
lembras-te lembras-te
que eu ria muito quando tu repetias
eh pá     este gajo não é mesmo de lisboa

pois olha     aqui tens a cabecinha e o resto
não havia fantasmas como concluímos então
encontrei-a ontem debaixo do tapete e colei-a
é que sabes     antónio
afinal o homem-aranha é de lisboa

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

sons vocálicos em português

garantem vários sítios na rede que a língua portuguesa tem doze sons vocálicos    e nunca me dizem quais são
ponho-me a pensar:

1)
á de casa
2)
é de cela
3)
i de bica
4)
ó de bola
5)
u de muro

6)
â de cada
7)
ê de cedo
8)
ô de bolo

9)  
ã de canto
10)
(~e) de vento
11)
(~i) de cinto
12)
õ de monte
13) õ' de ontem
14)
(~u) de mundo

15)
(e) de pequeno

quinze se não contarmos com o ü madeirense


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

sereia

confessou uma vez eduardo prado coelho algo que me faz todo o sentido e torce o nariz a muitos:    que não escreveria se não houvesse mulheres
como o entendo     que há muitos     muitos anos     a mulher és tu

mas hoje sei que és tão muito     tão tanto     tão mais e de mais
estrela além e sereia noutro mar
e estou exausto
exausto de me atar ao mastro para me não perder
exausto de sentir que o meu grito aborrece já

vou experimentar uma nova demanda:
a do vazio

domingo, 2 de janeiro de 2011

ao teu lado

.
agora que de novo sabemos como pertences aqui
guarda-me em silêncio     não passes o resto das nossas vidas
a lembrar-me e ao mundo que um dia me distraí

há-de ser outro o sofá que nos senta     outra a mesa que nos recupera     outra a cama que nos entrega
pode vir a ser outro o carro para nos conduzir e outra a cidade     quem sabe     que nos venha a inventar
mas em nenhum minuto morreremos de nós

e se um dia o meu coração quis partir
nunca te esqueça     meu amor     que estou aqui
que na verdade nunca saí daqui
que não quero mais
do que estar aqui     sempre     ao teu lado

sábado, 1 de janeiro de 2011

2011

está combinado entre muitos de nós que a terra acaba de completar a elipse na sua brincadeira de pião

mas a brincadeira continua     e na outra volta que agora começa
muitas propensões me agradam e outras enfim

instalar a ambição de ter cada vez menos     diminuir     por exemplo     a biblioteca     vender a casa     investir ainda mais na desaprendizagem do trânsito
agrada-me

diminuir a capacidade para fazer amigos e continuar a perder os muito poucos que me restam
apurar a tristeza e a angústia que orientam o meu caos
quem sabe morrer
enfim

de resto é quase tudo desejar-vos uma volta por nuvens de algodão
mas     por favor     sem consensos exagerados

.

hoje tive a certeza de que eras feliz
e isso foi de longe o melhor que te fiz

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

desconstrução

O Júri do Prémio LeYa reuniu esta tarde na sede da editora, em Alfragide, para deliberar sobre a atribuição do Prémio relativo a 2010.
Perante originais que, apesar de algumas potencialidades, se apresentam prejudicados por limitações na composição narrativa e por fragilidades estilísticas, o Júri entendeu que as obras a concurso não correspondem à importância e ao prestígio do Prémio LeYa no âmbito das literaturas de língua portuguesa. Em consequência, e de acordo com a alínea f) do art.º 9 do respectivo Regulamento, decidiu por unanimidade não atribuir o Prémio LeYa referente ao ano de 2010.

1) neste comunicado de 29 de novembro passado     o júri esqueceu-se de referir que apenas leu 4 originais     escolhidos por uma comissão de leitura de entre 325 obras concorrentes          esquecimento grave porque há-de pensar quem não o souber que a argumentação exposta se refere a todas as obras


2) de qualquer texto     com boa ou má vontade     critério assim ou critério assado     se pode concluir que apresenta limitações na composição narrativa e fragilidades estilísticas          estas são expressões que     pela sua universalidade     dizem tudo e não dizem nada e tenho a certeza de que também encaixariam bem os textos premiados no par de anos anterior


3) o prémio leya ainda não tem a importância e o prestígio que o comunicado garante          é muito recente para isso     ainda falta perceber se os seus premiados anteriores realmente o distinguirão         por enquanto     o prémio leya     e parafraseando o que se costuma dizer do prémio nobel     vale o que vale: 100 000 euros


4) eu concorri          não sei se o meu texto está entre os 4 com limitações narrativo-estilísticas ou se faz parte dos 321 que foram directamente para o lixo     mas cada vez mais me convenço que o comunicado do júri é indelicado e mesmo desrespeitoso no seu conteúdo para quem     como eu     pensa um pouco o mundo          ficou apenas por dizer o mais importante:     o júri ou grande parte do júri não gostou de nenhuma das 4 obras que leu