quarta-feira, 28 de março de 2012

balelas de escritores

A boa escrita, diz por aí quem julga fazê-la, exige imensa leitura. Conclusão minha: coitadinhos dos escritores antigos, que nem leram uma centésima parte do que eu, paupérrimo leitor e escritor contemporâneo, já li. São todos piores do que eu e mil vezes piores do que essa catrefa de bons escritores que anda por aí a papar livros.

A boa escrita exige, isso sim, a leitura - atenta, apaixonada e na idade melhor - de meia dúzia de bons livros. Mas, acima de tudo, assenta numa incapacidade, com várias e complexas explicações, para  guardar segredos. Se depois se lê mais ou menos, isso já é coisa ao gosto de cada um.

Já nem falo da necessidade, também tão apontada, de viajar muito. Essa é outra balela que não resiste à análise de inúmeras biografias de grandes autores.

terça-feira, 27 de março de 2012

16.03.2012 - 26.03.2012

A mãe veio hoje para casa, depois de quase onze dias no hospital. A operação correu bem mas o recobro foi um pouco difícil, com muitos enjoos, vómitos e tonturas. Descobriram, depois, que se passava o que muitas vezes se passa depois de uma cirurgia: uma eliminação acentuada de ião potássio pelos rins. Assim que lhe começaram a repor aquele ião, ela começou a melhorar.

Não corri esta meia-maratona de março. Não me senti com força para tanto povo, embora há duas semanas tenha feito, num treino solitário como todos os meus, menos de duas horas em 21 quilómetros e meio, um terço deles em subida bem acentuada. Creio que na meia-maratona de ontem, toda plana e a descer, seria bem capaz de fazer menos da hora e cinquenta. Pois se na de Dezembro, mais difícil que esta, gastei uma hora e cinquenta e cinco sem qualquer treino... Ainda estavas aqui, lembras-te?

Tenho pensado muito no primeiro ano do nosso longo encontro, esse ano em que não soube cuidar de ti. Espero que os outros onze, e sobretudo os últimos oito, tenham deixado no teu coração a marca indelével do meu amor. E espero um dia poder sentir no meu o teu perdão.

Se estivesses aqui, fazia-te festas até adormeceres e mais festas depois que não te acordassem.

domingo, 25 de março de 2012

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um pardal entre pombas:
de olhos no chão e mãos nas costas
a patrulha da fome

terça-feira, 20 de março de 2012

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nós e o velho relógio:
entre os dois traços de uma hora
eram cinco os segundos

sexta-feira, 16 de março de 2012

03.03.2012 - 15.03.2012

Em 2011, não me passava pela cabeça que o teu 2012 viesse a ser tão pequeno. Vamos a meio de março e reparei que todas as datas me saem com um ano de vida: vou remendar agora as que puder.

A mãe foi internada hoje e desta vez parece que para operar. Diz que no Santa Maria passa uma grande seca, está num quarto com outra pessoa que não lhe liga nenhuma e parece que se ressente. Só agora reparo: sou mais parecido com o pai - tu não conheceste o pai, vieste viver comigo meio ano depois de ele morrer e por isso eu não pude ser logo teu amigo. O pai gostava de estar só, como eu. Espero é que não tenha sido pela mesma razão que a minha: uma culpa ancestral em ocupar o tempo e limitar o espaço dos outros.

Não sei, ninguém sabe o que se passa com o meu sistema circulatório: vive em tensão permanente, 17-10, e não sai daí nem com medicamentos. Mas creio que um dia se descobre, e digam o que disserem, a verdade será apenas uma: faltas-me..., não há noite, passados quase dois meses, em que não me acordem os pesadelos do teu fim.

Agora vou correr um pouco, muito devagarinho não me vá dar o badagaio numa altura tão pouco propícia, e durante uma ou duas horas: acontece até que, sempre que arranjo coragem para o fazer, a hipertensão se esconde por uns tempos e tu regressas ao meu sorriso.

Muitas festas na tua barriguinha branca, querido.

quarta-feira, 14 de março de 2012

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A vida é o prémio repetido do que já não somos. Quando penso em nós, já morreste e morri.

quinta-feira, 8 de março de 2012

L. C. - HAB. LIT. (08-03-2012)

Licenciatura: Um Pinguim na Garagem (2003, publicado em 2009);
Mestrado: (2008, romance, na gaveta, à procura de nome);
Doutoramento : (2011, romance, na gaveta, merece tanto como o anterior).

Entretanto, poesia. E essa é a vida.

domingo, 4 de março de 2012

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Dizem os físicos que andar é empurrar o planeta para trás. Por isso, anda. Corre mesmo. Talvez com a tua ajuda lhe possamos reverter o sentido.

sábado, 3 de março de 2012

23.02.2012 - 02.03.2012

Esta gripe lembra-me a de ano e meio atrás. Então foi quase um mês de cama, a de agora vai ainda na semana e pouco. Mas a outra não custou nada, estiveste sempre ao meu lado e aconchegavas o teu corpo quente e peludo à minha febre.

Não tenho corrido e creio bem que não vou cumprir a promessa que te fiz de melhorar os meus tempos no prazo de um ano...
Também não tenho lido, sou um leitor cada vez pior. Agora dizem muito por aí que é preciso ler muito para escrever bem. Balelas. É preciso ler muito para se estar actualizado mas não para se escrever bem. O Camões não deve ter posto os olhos em mais do que meia dúzia de bons livros. E o Platão, quanto terá lido? O que é preciso é ler duas ou três coisas muito boas e estar atento ao mundo.

A mãe não chegou a ser operada: chegaram à conclusão de que estava anémica e a operação era um risco. Agora, só quando os índices de hemoglobina subirem é que volta a ser internada.

A adopção por homossexuais chumbou no parlamento. Das duas, uma: ou a maior parte dos deputados considera a homossexualidade uma doença ou não tem coragem para ser impopular.

Até para a semana, querido.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

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Muita vez me diz minha mãe que mais vale cair em graça que ser engraçado. Mas nunca me tinha dito que, neste país, cair em graça não é fruto do acaso mas benesse de quem pode. E foram precisos 45 anos para eu o descobrir com todas as letras.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

um mês

Sem vontade nenhuma para viver. Será que isto se arrasta muito mais? Se o coração me não falhar antes, alguma coisa acontecerá a apressar o fim. Foi crescendo o esforço que toda a vida me susteve, abeiro-me da exaustão.
Ontem fez um mês que morreste, eras uma das minhas principais bengalas. Quantos suspiros de resignação, meu amor.
Por enquanto, a mãe ainda precisa de mim. Mas a imagem antiga em que aponto uma pistola à cabeça e disparo... repete-se agora várias vezes ao dia.

Não sei se vou acabar mal, mas sei que vou acabar em breve.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

15.02.2012 - 22.02.2012

Pensava que era precisa muita paciência para esperar a vez nos hospitais, mas muita paciência não chega. Na última semana, eu e a mãe fomos quatro ou cinco vezes ao Santa Maria - e em nenhuma das vezes esperámos menos de cinco horas. Hoje, apenas para mostrar um ecocardiograma ao médico: parece estar tudo menos mal no coração, o que é importante saber antes da operação ao cólon - ligeiros problemas na aorta e na mitral (a mitral parece andar a perseguir-nos), que pareceu-me serem comuns na sua idade.

Estou a tentar preparar-me para a meia-maratona de Lisboa mas sem muita ambição: só quero baixar da 1h50 e disseram-me que o meu objectivo está no papo se já fiz 1h55 em dezembro .

Sem ti, para que serve a minha mão esquerda? Agora levo-a sempre no bolso quando passeio o Bê-Dê.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

piegas

Luís Caminha é piegas
quando chora o desamor,
o adeus, as noites incertas
e este azar que se instalou.

Apara em paz as afrontas
e deixa ir tudo o que parte
sem levantar muitas ondas
nem queixa que aos grandes farte.

Luís Caminha não gosta
é que o chame de piegas
esse tipo da fatiota
que tanto o enterra na merda.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Corte nas calorias

Preocupada com a nossa saúde, a Mars, fabricante dos chocolates Mars e Snickers, vai cortar nas calorias. Como? Diminuindo-lhes o tamanho. Claro que ao apreciador que quiser dar o antigo número de dentadas, ficar-lhe-á mais cara a vontade. Digo eu, que já vou percebendo um pouco destas coisas.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

11.02.2012-14.02.2012

Chamava-se 1ª Corrida da Nauticampus, mas isso pouco importa, eu só queria estar acompanhado durante 10 quilómetros. Éramos 600 e fiquei no 229º lugar da geral, 12º entre as mulheres :). Com a falta de treino, a desmotivação, enfim, a tristeza em que ando, foi muito bom. Longe dos 46 minutos que cheguei a fazer antes da tua morte, mas  abaixo dos 50; e nesses menos de 50 nunca deixei de me repetir 'menos de 50 para ti, Barbinhas'. O último quilómetro foi a deitar os bofes por fora e quando a uns duzentos metros vi a meta, acelerei em pura fermentação. Foi muito, muito difícil, vale bem uma lambidela de agradecimento na minha cara também barbuda, não vale? Para o registo: 49m26s.

Ainda não te disse, mas anda à nora uma válvula do meu coração. Fui proibido de correr e aconselhado a ir à faca. Nada disso, eu sempre gostei de jogar no limite.

Tenho passado as manhãs com a mãe entre hospitais e centros de saúde. Mas as coisas parecem estar controladas. Depois de amanhã voltamos ao Santa Maria.

O Bê-Dê manda-te um latido grande, querido. Do coração.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

01.02.2012 - 10.02.2012

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Vou-me habituando a viver sem ti, umas vezes com um sorriso pelos dias bonitos em que me acompanhaste, outras com o arrependimento de nem sempre ter sido o melhor dos teus amigos. Cada vez me custa menos estar na cama porque a cama é o lugar onde te sinto mais próximo. Era aqui que nos demorávamos tantas horas da noite e tantas horas de sol, de calores encostados e longos abraços.

Aparentemente, a mãe não está tão mal como inicialmente pensámos. Em princípio na terça-feira vamos falar com o cirurgião que a vai operar.

Estou com hipertensão, excesso de colesterol, triglicéridos a mais. Não deixa de ser um pouco injusto para quem não come carne... Será do queijo. E da fruta. E do álcool. Enfim, será dos meus excessos.

Entretanto voltei a correr um pouco, na semana passada. Depois parei, perdi-lhe mesmo o gosto depois de teres partido. Mas amanhã, mesmo sem treino vou tentar fazer uma prova de 10 km. Se conseguir acordar a tempo. Custa-me acordar porque acordar é regressar à tua ausência.

Hoje fui a uma reunião para acertar a publicação do nosso segundo romance. Sem grandes expectativas, já não tenho idade para achar que tenho importância.

Tenho tantas saudades tuas, meu amor. Anteontem sonhei contigo e eras uma criança que me dava a mão.

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Ando à procura da minha mentira.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

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Morrer é só não ser visto, dizia o outro. Mas eu só tenho a certeza de que não ser visto é morrer.

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O homem acordou com vontade para mexer no dia. Mas não valia a pena: fora do seu eixo, a terra já corria desgovernada para longe do medo ao sol.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

24.01.2012 - 31.01.2012

Faz hoje uma semana. Telefonaram-me às 11h a dizer que pioraras e que o teu coração não resistira. Eu estava pronto para te ajudar a morrer, queria tanto que morresses nos meus braços, como a Bonita e o Piloto, quando o sofrimento era visível nos seus olhos e essa era a melhor solução. Mas convenceram-me de que ainda podias ser salvo, que ainda não tinha sido feito tudo para te salvar. E acabaste por morrer sozinho.

Ainda não é fácil viver em casa e não me apetece ir para a cama sem lá estares. Tento prender os olhos à secretária mas eles escapam-me pelo caminho que leva ao teu sofá preferido, aquele onde estendias a tua preguiça de gato e de onde controlavas os meus movimentos. Tento manter a mão esquerda presa sob o edredom mas passo a noite a soltá-la para te procurar. Tento encontrar-te no Bê-Dê mas lembro-me sempre dos ciúmes que tinhas quando as minhas carícias iam para ele na mesma medida que para ti. 

Não corria desde que adoeceste, queria passar contigo todo o tempo que pudesse. E ainda não voltei a correr. Sinto-me culpado por os meus rins funcionarem tão melhor que os teus. Mas daqui a uns tempos tenciono voltar à estrada para bater todos os recordes que me permitam a idade e o corpo. Ontem imaginei que o meu coração parava como o teu ao cruzar a meta de uma qualquer maratona e isso consolou-me: é um modo simples e pouco rebuscado de chegar ao que sempre quis. Por isso, por que não esticar os meus limites? Quero baixar dos 40 minutos nos 10 quilómetros, rondar a hora e trinta na meia-maratona, roçar as três horas e meia na maratona. Dás-me um ano para isso tudo?

Entretanto, e umas horas antes de morreres, pouco depois da última visita que te fiz na noite de segunda-feira, descobri que a mãe pode estar muito doente. Ainda não sabemos quanto, andamos de análise em análise e de esperança em esperança. Amanhã vou com ela ao médico para agendarmos os próximos passos.

Na sexta-feira passada, recebi mais uma daquelas cartas antigas a dizer que o nosso segundo romance foi analisado com todo o cuidado mas que não está na linha editorial de quem não o analisou; antes, já tinha recebido outra a dar-me os parabéns pelo texto e a manifestar-me o lamento pela sua ineditabilidade. Dei comigo a sorrir de como sou estúpido, de como por uns momentos e há pouco mais de dois anos pensei que coisas destas nunca me voltariam a acontecer.

Como sabes, sempre me aborreceram notícias sobre os poetas que ganham prémios graças à sua magnífica resistência em poetizar, sempre gozei com a ingenuidade dos prosadores que ganham prémios e dizem procurar a palavra certa para cada pensamento, sempre li algumas páginas dos livros que ganham prémios e cujo sucesso não consigo perceber.
Mas cada vez leio menos. Esta semana? Nada. Os escritores dizem que a leitura e a escrita são o seu refúgio. Talvez seja por isso que eu não sou um escritor a sério: quando não estou bem, mal leio; quando não estou bem, escrevo tão mal.

Do resto, tu já sabes. Há uns sete meses que não me pedem traduções e as últimas notas que tinha, gastei-as para pagar a tua última solidão no hospital veterinário. Mas não te sintas mal com isso; quando o banco vier buscar-me a casa, e embora não tenha outro remédio senão entregar-lha, vou ladrar-lhes até não conseguir mais. E em tua honra hei-de morder-lhes os calcanhares. Ah, se hei-de.

A Miúda e a Sereiazinha mandaram-te beijinhos há dias e olha que foram bem maiores e sentidos do que os que mandaram para mim. Recebe-os, está bem? Onde estiveres, recebe-os.

Até para a semana, meu querido Barbinhas.

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Por instantes, a minha passagem causou algum aborrimento. E, no entanto, não segurei nada que tivesse resistido à prova da chama. Fui estéril, não tive graça, muito menos caí em graça. Nalgum lugar ficará registado o dia 12 de Abril de 1967 para começo. Com que fim? O de ter fim.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ciclo

à hora em que de morte se beija a noite
a angústia faz-se pequena     tão longe do nome
     indício de adeus sobre o consolo das raízes

mas chegará de novo inteira ao espreitar da manhã

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

barbas (1996?-24.01.2012)

Vazio de ti como dos amores da minha vida. Todos os outros partiram por já me não quererem. Tu não: até ao fim, meu amigo, me deste o teu carinho e me prometeste futuro. Perdoa-me pelas vezes em que não te soube corresponder. Perdoa-me, meu amor.

domingo, 22 de janeiro de 2012

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Dedico o meu segundo romance Aos que traí.
Traí porque entreguei tudo - a vida, o amor, a alegria, mulheres, amigos.
Traí porque nunca me entreguei.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

o beijo

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Nem pestanejava; mesmo quando calmei a procura e me caiu um estrondo na cara, o gritinho no lugar do morto não soprou o seu lugar de esfinge.
A estrada corria-lhe silenciosa sob o artifício das mãos enquanto ao espelho da pala eu examinava se ardia.
Entretanto era Coimbra e a cem metros do fim um semáforo fechava. Olhei-a de lado, pesei quietude, concluí aquiescência, ajeitei-me para outro ensaio.
Já o carro arrancava, já eu dormia para não ter medo. Tentei despertar-lhe a boca. Sem resultado: não creio que tivesse havido beijo. A sua cabeça inclinou-se leve, é um facto, mas para que a avenida não fugisse; e o talvez respirado e húmido da viagem não indiciava luta nem abandono.
Voltei a encostar-me como se costuma, fixando o pára-brisas com perseverança, a dos mortos, a dela. No vaivém das escovas chovia como quando somos tristes.
Segundo estrondo, de novo sem arma. Largou-me à frente da porta, simpática como nunca, sorrindo, «adeus, até amanhã».


Uma semana depois, dentro do carro o silêncio continuava maior.
Imóveis. Carnudos. Procurei. Estrondo.
Chovia e já estávamos parados no semáforo triste. Foi, então, que percebi: os beijos não se roubam, negoceiam-se. Assim, arranquei o braço direito antes de sair e pu-lo no banco traseiro, «Guardas-mo?».


O braço faz falta mas eu quero muito encontrar o beijo. Além disso, há dias deu-se um pequeno desenvolvimento: ajudou-me a enganchar o cinto de segurança e até roçou a mão na minha.
Virei-me para o banco traseiro a espreitar se trazia o braço. Não, talvez estivesse na mala; portanto, só procurei o beijo ao pressentimento do semáforo.
Novo estrondo.
Chovia e eu era maneta. À despedida, pensei que não estava a dar o máximo. Por isso, arranquei a perna esquerda. «Guardas-ma?»
Chovia muito, estava triste como nunca, tinha pena de ainda não ter encontrado o beijo. Encostei-me à parede e fiquei a ver o carro afastar-se: parecia menos vermelho do que habitualmente, talvez por a chuva cair com muita força sobre o tejadilho.
Saltitei.


Ontem estive todo o dia à espera. Telefonei-lhe várias vezes mas só me responde uma voz a dizer que o número não está atribuído.
Que bom, ela ter subido comigo há duas semanas, antes de eu lhe ter entregado a outra perna.
Há pouco, faltou-me bexiga para mais uma gota. Apesar de já não ser tão difícil como a princípio, ainda custa muito arrastar-me até ao quarto de banho e sentar-me na sanita.
Daqui a pouco, deveria ir trabalhar. Mas ainda preciso de uns dias de repouso. Desconfio, também, que é mais fácil encontrar o beijo se ficar em casa, à espera de que ela mo venha entregar.
Chove imenso.
Ainda é noite.
Tenho medo.
(Publicado no jornal universitário A Cabra de 20-10-2011:

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

da própria cicuta


Eu hoje olhei para trás
como quem olhasse em frente

e senti que era capaz
de ter feito bem diferente.

Podia ter sobrevoado
este abismo em estar de menos,
não ter ido assim cansado
por caminhos tão pequenos.

Podia que à flor da pele
me doesse a dor impoluta
de quem por taça fiel
beba da própria cicuta.

domingo, 4 de dezembro de 2011

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Decadência - s. f. tendência patológica para deprimir durante uma década após perda traumática, sobretudo amorosa ETIM. década

terça-feira, 27 de setembro de 2011

o caminho da estupidez


Os animais têm o objectivo de servir os nossos interesses e satisfazer as nossas necessidades. Em suma: algum deus os criou para embelezar o nosso mundo. É que, "até prova em contrário, as pessoas 'raciocionam' mais que os animais". Daí pouco importar o sofrimento que lhes possamos causar em face do respeito pelas tradições.

Proibir os touros de morte é o equivalente a proibir a Casa dos Segredos, os combates de pugilismo ou as corridas de automóveis. Porque, toda a gente sabe, o touro se quisesse também poderia optar por não estar ali. Se lá está é porque assim quer.

E todos aqueles pintores que pintavam touradas? Que bonito! Se as pintavam é porque elas são importantes. Só de coisas bonitas se fazem coisas bonitas.

Ademais, se não houvesse touros de morte não se criariam os touros para matar. É o preço da vida: a morte sádica e violenta.

De toda esta enorme capacidade de raciocínio a que conclusão chego?
Que pena, Miguel, que pena terem-te dado poder para fazer opinião.

sábado, 16 de julho de 2011

desencontro


Via passar essa mulher de luto
pelo marido morto o ano passado
- e ela e eu, escondendo o choro, lado a lado,
éramos menos sós por um minuto.

Aprendi a esperá-la, resoluto,
e ela a fazer-me o aceno recatado
da bela que sem sonho nem pecado
um pouco se detém no olhar do bruto.

Mas há três dias que ela traz a cor
do futuro - e nas minhas tardes frias
lentamente esmorece o nosso dueto.

Como pôr um sorriso, como pôr
na minha cara as novas alegrias
se eu cá por dentro continuo preto?

sábado, 14 de maio de 2011

rima fácil

quando disseram que lhe restava a vida de um cão
ele fez ão ão ão

e tudo estava bem porque rimava ainda

quarta-feira, 11 de maio de 2011

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Vós que já tanto chupais
deste pouquinho que amealho,
se quiserdes chupar mais
ainda aqui tendes caralho.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

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Entre os labores da lua
vai a viagem das marés,
que não sendo coisa tua
explica tanto do que és.

sábado, 7 de maio de 2011

desasado

ainda no século xv     joam roiz de castel blanco escrevia assim     numa das quatro composições com que garcia de rezende lhe ofereceu a posteridade:

Senhora, partem tão tristes
Meus olhos, por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.


de entre os pré-camonianos são os versos que prefiro     pelo que têm de meu e de português sem os arrevesamentos que hoje vemos nos seus contemporâneos
diga-se para dizer tudo que vivesse eu na altura e por acaso os lesse teria morrido de inveja ou coisa pior

nunca fui grande aluno a português     creio que a minha nota maior foi um imerecido quatro-em-cinco no ciclo preparatório
mas lembro-me de     nos meus dezoito anos     me ter sido oferecida uma oportunidade para ultrapassar a timidez quando a professora me pediu que lesse em voz alta aqueles mesmíssimos versos

li-os como sempre os lia em casa     o sentimento fundo e o coração nas mãos de uma rapariga chamada susana que nunca veio a saber que nas mãos mo teve durante anos
a seguir fez-se um breve silêncio que não entendi logo mas que a reacção da professora logo justificou:

não era preciso ler assim antónio
agora tu joão     mas lê como gente grande

ali se acabava o meu teatro

terça-feira, 3 de maio de 2011

último conto

era uma vez um amor criança de colo
veio a desistência dos braços e ele caiu ao chão
o que se fez então? como se calmou o choro? quanto se esperou para ensiná-lo a gatinhar?

perguntas estúpidas: o amor estava morto

sexta-feira, 29 de abril de 2011

labor perverso

o pior é que muitas vezes escrevo
para prolongar a palha dos dias
para renascer o fim e acarinhar as derrotas

para lembrar o que já esqueceu aos que um dia estiveram aqui

é para não morrer que morro

quinta-feira, 28 de abril de 2011

quarta-feira, 27 de abril de 2011

pressa

quando ele chegou a casa     a sua mulher era qualquer mulher
não estranhou o beijo que ela não procurou e era-lhe impossível recordar se algum dia se tinham querido
falou com os filhos mas um deus movimentava a noite numa daquelas impaciências antigas

teve a certeza de que esse deus era invejoso quando a mulher que era qualquer mulher se aproximou
antónio temos de falar

não era preciso     ele já sabia

terça-feira, 26 de abril de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

descoordenadas

não me ponho à esquerda     que não sinto bondade nos homens
não me ponho à direita     que ninguém é mais do que eu
não quero saber do centro     que gosto de cantos
e não fico em cima e não fico em baixo     que a minha vida é cambalhota

segunda-feira, 18 de abril de 2011

por falar em cuidado

disse o diogo infante no cuidado com a língua:
é engraçado só agora é que eu realizei...
avisam-no: realizei diogo?
diogo: desculpa... só agora é que eu me
apercebi que estes movimentos...

não sei qual prefiro: se o anglicismo se a falta do de...
bem para ser sincero prefiro o anglicismo
sintaxe é a mulher que me resta

domingo, 17 de abril de 2011

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Se alma for esse caminho
por onde tu já não vais
quem andará mais vizinho
de onde na alma aquece mais?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

ao

duas mulheres
ele nunca tinha visto nada assim e estava a gostar espetou os olhos no ecrã e não conseguia desligar não queria desligar
era o espetador da noite

este breve texto foi escrito de acordo com o acordo

terça-feira, 12 de abril de 2011

clarividência

no dia em que fez 121 o homem pressentiu que era a sua última capicua
e não é que foi mesmo?

segunda-feira, 11 de abril de 2011

se tanto

o dionísio reapareceu com a sua última
alta mas alta mesmo_____se não tem dois metros pouco há-de faltar
e pagou um copo a todos os que estavam a ver a bola

pessoal esta é a hannelore a minha namorada
é alemã

o dionísio tem um metro e setenta mais coisa menos coisa_____mas sentados pouco se notava a diferença

pediu uma água de meio litro para ela e bebeu a sua cerveja pela garrafa parecia um pouco irrequieto e exprimia-se numa salganhada inglesa

partiram com um sorriso_____ela baixando a cabeça para controlar melhor a altura da porta_____ele alçando a mão para lhe cingir a cintura

uma cumplicidade baixou sobre as cervejas pagas

ninguém lhes dá uma semana

um sonho qualquer

o estuga     como eu lhe chamo     passa por mim todas as manhãzinhas    de guarda-chuva e pasta na mão
mas só há alguns meses é que reparei: quando o semáforo para peões está fechado     ele repete o quarteirão          e se isso é impossível por algum motivo     refaz a calçada em sentido contrário e retorna

há dias troquei-lhe as voltas e     do outro lado da rua     sempre sem ser visto     acompanhei-lhe o percurso
descobri assim que ele vai até à praça do comércio     vira à esquerda quando já não não pode ir em frente e segue na direcção da gare de santa apolónia com as necessárias repetições de quarteirão

depois de ali chegar     estuga ainda mais o passo     ou assim me pareceu    e campo das cebolas rua da madalena regressa à rua da palma para finalmente entrar na pastelaria a eira     já na rua de angola

aqui     sem se sentar     bebe um garoto e um copo de água     isto pelas nove e meia      a hora precisa dependerá da exigência dos quarteirões
de seguida sai e vira à esquerda pela rua do forno do tijolo          agora cabisbaixo     pé que espera pé     mão deslizando pela calva pensativa

ontem respirei coragem e pus-me de amigo com o seu derrotado andar das dez          perguntei-lhe:
porquê?

ele deteve-se para me encarar
nos seus olhos brilhava um sonho que talvez ninguém possa entender

e desatou a correr

domingo, 10 de abril de 2011

herói

entrou manso e escolheu um canto
mas a nossa amizade dera um par de voltas ao mundo e ele precisava de cumprir a promessa
foi por isso que mandou vir o que se chamava filósofo

o que se chamava filósofo apareceu com o sorriso de sempre     os gestos abertos e o olhar um pouco mais à direita

o que é? quis saber

é isto

o meu amigo espetou-lhe     então     o unicórnio na garganta com toda a força e rodou a cabeça para um e outro lado
um minuto depois afastou-se e recebeu os aplausos como se nada tivesse acontecido


dirigiu-se à saída e levantou voo

sexta-feira, 8 de abril de 2011

? - 8 de abril

sentiu uma picada na asinha direita e começou a perder altura
via tudo à roda e um ou dois segundos depois embateu violentamente contra a parede

o senhor da casa apanhou-a do chão com muito cuidado e acomodou-a numa caixinha de fósforos vazia
foi à procura de ajuda

mas ela viria a falecer pouco antes do meio-dia: todos os bons entomiatras tinham escapado à cidade

terça-feira, 5 de abril de 2011

ruptura

no meu décimo ano levei uma descasca da professora de noções básicas de saúde por ter escrito     imagine-se     ruptura da membrana celular em vez de rotura da membrana celular
escreveu ela no quadro e em letras garrafais a minha criminosa grafia ruptura e confessou que havia erros tão graves que a tiravam do sério
no meu cantinho eu corava de embaraço e fervia ante a injustiça

nunca encontrei necessidade ou coragem para voltar a tirar a professora do sério com a página do dicionário onde o erro se exibia mas afeiçoei-me à palavra como símbolo da minha timidez e das doenças que um dia me hão-de matar por sempre esconder o que sinto

hoje tropecei com ela e dei por mim a substitui-la por rutura numa tentativa de acompanhar o tempo

senti lágrimas à espera

antes a rotura professora

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

.

A tal ponto ruiu a obra
que ruiu com ela o passado:
já nem a memória sobra
do amor que nos foi jurado.

o hábito da ausência

no dia em que eu conseguir viver da tua ideia em mim teremos um caso sério
talvez eu concorra para presidente da assembleia da república ou quem sabe talvez ponha uma bomba sob o assento de um audi

talvez fosse melhor desistirmos das ideias

talvez fosse melhor estares aqui

in vino veritas

o antónio é que parece fixe
qual antónio?
aquele o luís do pinguim
não consegui ler
nem tentei mas ele parece fixe
sim para dizer olá
e para que mais podia ser?
sei lá tu é que disseste que ele parecia fixe
parece não disse que é
ah bom eu cá acho-o um pouco feioso
sim claro mas parece fixe é só isso que eu quero dizer
pois estou a perceber a mim nem isso
se calhar não é
pois se calhar isto é a gente a falar
é pena é ser um pouco foleiro
mas se fosse fixe
sim se fosse fixe mas não deve ser
pois nãoo antónio é que parece fixe
qual antónio? aquele o luís do pinguim não consegui ler nem tentei mas ele parece fixe sim para dizer olá e para que mais podia ser? sei lá tu é que disseste que ele parecia fixe parece não disse que é ah bom eu cá acho-o um pouco feioso sim claro mas parece fixe é só isso que eu quero dizer pois estou a perceber a mim nem isso se calhar não é pois se calhar isto é a gente a falar é pena é ser um pouco foleiro mas se fosse fixe sim se fosse fixe mas não deve ser pois não

cão

hoje pus-me à janela
e só vi merda na calçada

peões que deitam papéis ao chão
automobilistas que estacionam em cima do passeio de tal modo que nem os peões que deitam papéis ao chão podem passar
a madame que sai com o animal à rua e boceja sem mãos enquanto ele descarrega o cilindro
a pitinha que chama a avó de estúpida entre balões de pastilha e mensagens telemóveis

não vi diferença entre mulheres e homens como por aí se apregoa
apenas todos muito cheios de si     todos no pico da merda     todos muito valiosos

foi um minuto     se tanto
que logo voltei a ser cão

sábado, 8 de janeiro de 2011

chá

no encanto de um chá breve
silêncio e confissão

eu desaprendi o alfabeto do amor quando me ensinaste o do fim

antónio

olha     maria
podes chamar-me de luís
que lembra camões e por isso
não está nada mal

mas também podes insistir no tó
ou no dionísio
ou até no luís antónio
que não tem muito que ver mas enfim

arrancar-me-ias um sorriso se me pusesses anto
e estou à vontade com tânio
eu sei     é estranho
mas garante maalouf que é o mesmo que antónio

eu não gosto é de inhos
nem de toinos tonis ou tonecas
e muito menos de juniores
também não gosto que me chames de imbecil
como no dia em que fui mais humilde

entretanto e enquanto não te decides
faz de mim o que sou:
antónio simplesmente
e um pouco parvo até

.

Dizem as notícias que o douro está a recuar aos poucos para o seu leito. Ao menos, os rios têm leito.

outubro

fui feliz
e não entendi que aquele dia
estava entre os teus piores

agora que tens o mundo a teus pés
quem dera que me pudesses perdoar

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ressaca

ofereceram o martini     três quartos de litro do melhor
e a macieira também
e eu vinha para casa com tanto por escrever     uma história por metro sem exagero

mas agora estou invejoso     ressentido     triste e desistente
traiçoeiro e desatento     instalado     imensamente perdido

o que mais e sempre aborrirá ao espelho do que nunca fui
é viver com esta vertigem e sem o ouvido fácil do meu pai

dizem os psicólogos que a palavra tem efeitos duradoiros
e tem
só é pena é serem sempre negativos

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

nova iorque - lisboa

olha antónio
tu lembras-te daquela vez
em que arrancaste a cabeça ao homem-aranha
lembras-te pois
e a seguir eu comecei a rir muito e tu disseste
eh pá este gajo não é de lisboa

foi ao homem-aranha foi
e depois a cabeça desapareceu e não conseguíamos encontrá-la
e tu dizias que tinha sido eu que a tinha escondido
e eu quase a chorar      que não     que tinhas sido tu
lembras-te pois
alturas tantas começámos a chamar a cabeça de cabecinha
e andámos pela casa toda à procura dela
lembras-te lembras-te
que eu ria muito quando tu repetias
eh pá     este gajo não é mesmo de lisboa

pois olha     aqui tens a cabecinha e o resto
não havia fantasmas como concluímos então
encontrei-a ontem debaixo do tapete e colei-a
é que sabes     antónio
afinal o homem-aranha é de lisboa

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

sons vocálicos em português

garantem vários sítios na rede que a língua portuguesa tem doze sons vocálicos    e nunca me dizem quais são
ponho-me a pensar:

1)
á de casa
2)
é de cela
3)
i de bica
4)
ó de bola
5)
u de muro

6)
â de cada
7)
ê de cedo
8)
ô de bolo

9)  
ã de canto
10)
(~e) de vento
11)
(~i) de cinto
12)
õ de monte
13) õ' de ontem
14)
(~u) de mundo

15)
(e) de pequeno

quinze se não contarmos com o ü madeirense