sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

soneto miau-miau-miau



Não têm sossego as noites desta casa
se a Lia insiste assim nos seus saraus,
chata chata rechata qual potassa,
reputante gabolas, carapau
de corrida. Não sei o que mais faça.
Já me indispus, mostrei cara de mau,
critiquei o mister da sua caça,
Vê se te acalmas, Lia, põe-te a pau,
um destes dias deixo de achar piada,
faz vista grossa aos musaranhos, mau-
-mau-mau, não sejas gata assim, senão
perdes o amigo, saio desta casa.
Penso chegar a acordo, miau-miau-miau,
mas ela só responde nhão-nhão-nhão.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

soneto ão-ão-ão


Confesso, agora quase nos sessenta,
contigo dos cinquenta a mais de meio,
que leve e em paz me extingo. Não receio
a última ausência, o fim não me apoquenta.

Costumas dizer, sempre tão atenta:
«Passaste pela vida, António, cheio
de adeus, falto de sonho ou devaneio.
A morte, para ti, já nada inventa.»

Posto que quase sempre assim tem sido,
concedo que talvez tenhas razão.
Isto antes de soltar, com um latido,

«Mas diz-me então, querida, diz-me então
por que nesta velhice tenho ardido
de a dentadas comer-te o coração?»


21/05/2024

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

quadra 118


Tudo em mim é desgoverno,
frenesi, amor esparso,
como quem trama no inverno
a esperta indústria de março.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Böhmen liegt am Meer (Ingeborg Bachmann)


BOÉMIA À BEIRA-MAR


Verdes sejam as casas por aqui e ainda terei casa onde entrar. 
Intactas sejam as pontes e prosseguirei em terra firme.
Perdido seja sempre o empenho no amor e aqui o perderei de bom grado.

A não ser eu, será alguém tão bom quanto eu.

Uma palavra se aproxime de mim e permitirei que o faça.
Continue a Boémia à beira-mar e regressará a minha crença nos mares.
Mantenha-se a minha crença no mar para a minha esperança de terra.

A não ser eu, será qualquer um, com o meu valor.
Nada quero para mim. Quero ir ao fundo.

Ao fundo é na direção do mar, onde reencontro a Boémia.
Se me afundar, será tranquilo o meu despertar.
No fundo agora sei – e encontro-me a salvo.

Vinde cá todos, boémios, marinheiros, putas do porto e navios
desancorados. Não quereis ser boémios, ilírios, veroneses
e venezianos? Representai as comédias que fazem rir.

Também as que buscam o choro. Errai uma centena de vezes
como eu errei, eu que nunca passei nas provações
mas sempre as superei, uma trás outra.

Como a Boémia as superou e de uma bela tarde
recebeu a bênção do mar para agora existir à beira da água.

Ainda me aproximo de uma palavra e de outra terra,
ainda me aproximo de tudo, por pouco que seja, cada vez mais,

um boémio, um errante que nada tem, que a nada se atém,
cujo único dom é ver, desde este disputado mar, a terra que escolheu.


Ingeborg Bachmann, Böhmen liegt am Meer  (traição de Luís Caminha)