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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

amiga

Klara é Amiga Artificial: 'vive' para sê-lo, sonha sê-lo na loja onde espera pelo objecto do seu amor: ora na montra, mais directamente sob a luz do seu Sol e a curiosidade dos que passam; ora mais escondida, para que outros Amigos Artificiais, talvez mais brilhantes, talvez menos humanos, tenham a sua vez.

Em breve, nada mais lhe interessará do que compreender e ajudar Josie, que foi quem a quis para si e convenceu a mãe a comprar-lha. A sua competência é tal que chega a pedir a intervenção do Sol, essa poderosa e ocupadíssima entidade que todos os dias a revigora. Pede-lhe, com humildade e fervor, que dê um futuro à sua amiga, que a cure. Sim, porque Josie, ao ter sido 'elevada' ['lifted' no original], tornou-se uma criança muito frágil. Não te preocupes, leitor, aos poucos irás descobrindo o que é isto de ela ter sido 'elevada'.

Ishiguro, suave e genial construtor de mundos, hábil construtor de possíveis futuros e inesperados passados, obriga o leitor a viver, sorrir e folhear, sem reviravoltas, fogos de artifício, soluções ou recursos espalhafatosos. Ishiguro, como sempre, não intervém com as suas opiniões na história e nos ambientes que cria. Estes são, por inteiro, de quem os narra e de quem os vive. E de quem os lê.


- Klara and the Sun
- Kazuo Ishiguro
- Faber & Faber (2021)
- Lido em setembro de 2021, na versão inglesa [há tradução portuguesa, pela Gradiva, 'Klara e o Sol', trad. Maria de Fátima Carmo]

sábado, 23 de janeiro de 2021

um destino prometido


Naquela que Romain Gary dizia ser a primeira das autobiografias que escreveu, La promesse de l'aube,  é-nos contada a sua vida desde a infância, na Polónia, até o final da Segunda Guerra Mundial. Judeu russo nascido em Vilnius, marca a sua escrita uma capacidade incomum para expor sem pejo nem rebuço todas as ânsias que o impeliram desde criança.

Um profundo e correspondido amor o une à mãe, ex-actriz que não se poupa a esforços para dar ao filho a oportunidade de ele cumprir um destino importante. Um destino que para ela é inevitável e de que todos os actos do jovem são uma promessa. Assim, sem pausa o incentiva a fazer o que é preciso para ser grande: um grande escritor, um grande embaixador, um grande artista, um grande homem. Sem pausa o defende de tudo e de todos. Sem pausa mostra ao mundo que o filho é diferente. Quanto a ele, por amá-la ao ponto de não querer desiludi-la nem nas suas expectativas mais megalómanas, desde cedo torna seu o sonho de satisfazer os sonhos da mãe.

Mesmo depois de morrer, essa mulher forte e capaz de tudo para amparar o filho continuará a ser a bússola no percurso deste, um percurso pautado pelo fino sentido de humor dos que são capazes de rir de si próprios, por um desconcertante à-vontade para confessar os actos mais insensatos e por uma assombrosa incapacidade para desesperar.

A Promessa
Romain Gary
Livros do Brasil, 2019
Ed. original: La promesse de l'aube (1960)
Trad.: Augusto Abelaira (cap. XXII: Manuel Reis)
Rev.: Susana Baeta

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

epifanias




Representante do que uns designam de realismo sujo e outros apenas de escrita minimalista, Raymond Carver aborda o quotidiano, numa linguagem quotidiana, com uma sobriedade quotidiana.

A proposta é a de uma ausência de literatura. Mas é uma proposta mal sucedida: os doze episódios do livro são percorridos por desempregados, alcoólicos, divorciados e desentendidos, gente fazendo pela vida sob uma pena que, além de dominar os segredos do diálogo e da narrativa, detém a mestria da sua conjugação.

Acresce que resultam epifanias e redenções de pequenas quebras de rotina, de frases simples, de gestos previsíveis. E também aqui há literatura.


Catedral
Raymond Carver
Trad.: João Tordo
2010 (original: 1983)

domingo, 8 de novembro de 2020

para ser maior




Raskólnikov leva uma vida de extrema pobreza: abandona os estudos por falta de dinheiro, encosta o sono numa almofada de roupa velha, deve já várias rendas do cubículo que habita, come quando calha. Talvez seja tudo isto o alimento para a lição que retira da História: vários grandes homens, como ele crê ser, tiveram de cometer crimes no início da vida para poder cumprir o seu destino. E fizeram-no sem hesitações nem remorsos.

Decide seguir o exemplo e assassinar uma velha agiota, um ser menor, desnecessário, prejudicial à sociedade (um piolho, nas suas palavras) e cujo dinheiro pode ser usado em seu proveito e dos outros. Já de início, no entanto, hesita. E quando finalmente se decide, comete vários erros. O maior dos quais o de assassinar também a irmã da agiota, que entretanto surge na cena do crime, a casa onde ambas vivem. A atrapalhação é tanta que, embora retire da casa algumas jóias e uma carteira, decide escondê-las até de si próprio.

A obra é uma longa viagem pela mente de Raskólnikov, os temores e as dúvidas que antecedem e, sobretudo, se sucedem ao crime. Talvez, afinal, ele não seja o grande homem que imaginou ser. Talvez por isso mereça o castigo que merecem os homens menores. E é ele próprio que vai de encontro, aos poucos, desse castigo. O seu percurso é, no fundo, o de descobrir que também é um piolho. E a redenção só acontece no momento em que percebe que um homem banal também pode ser amado.

Crime e Castigo
Dostoiévski
Trad.: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editorial Presença, 2001

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

piccolino

 


«Se conheço bem o meu senhor, ele não poderá passar muito tempo sem o seu anão». Quem o diz é o próprio anão, que vai descrevendo no seu diário o ódio e o nojo que sente pela espécie humana, incluindo ele próprio e os outros anões. No fundo, é o desprezo pela vulnerabilidade que perpassa este grande livro de Pär Lagerkvist (1891-1974).

Num dos antigos principados da actual Itália e numa época do Renascimento onde grassavam a fome, a guerra e a peste, o anão Piccolino é a personificação do mal. A publicação do livro em 1944 e o nosso próprio auto-conhecimento levam-nos a perceber que esse mal é intemporal. O mal é intrínseco à espécie humana.

Com Piccolino percebemos como cada um de nós tem a tendência, por mais longínqua que nos pareça, para comparar e catalogar. Para odiar o melhor porque é melhor. Para odiar o pior porque é pior. Para odiar o igual porque nos repete. Quem não tem um Piccolino dentro de si? Devemos estar sempre vigilantes para que ele não se manifeste.



O Anão
Pär Lagerkvist
Trad.: João Pedro de Andrade (original de 1944: Dvärgen)
Ed.: Antígona

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

a transparência do essencial

Ainda antes de O Perfume (1985) e A Pomba (1987), Patrick Süskind encetava com este O Contrabaixo (1981) a sua análise do poder de pequenos pormenores e acontecimentos na vida das pessoas.

Pela posição, pela visibilidade e pela função, o contrabaixo dir-se-ia transparente. E, no entanto, é o único instrumento imprescindível, aquele sem o qual todos falhariam numa orquestra. Ele vinca e simboliza a existência do seu intérprete.

Talvez tenha de ser assim com muitos. São sempre necessários aqueles que acendem as luzes com que outros se iluminam. O drama é que não sejam e talvez não possam ser reconhecidos. Como as notas graves com que um contrabaixo constrói o caminho.


El Contrabajo
Patrick Süskind
Trad.: Pilar Giralt Gorina (original de 1981: Der Kontrabass)
Ed.: Seix Barral

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

quase tudo isto


Durante alguns anos, Bill Bryson decidiu compreender melhor a "história" do universo, desde o Big Bang até o aparecimento e evolução do homem. E como tinha dificuldade em compreender a literatura sobre os temas em causa, decidiu ser ele a abordá-los.

O resultado é o seu A Short History of Nearly Everything. Escrito por um leigo, é de leitura fácil e estimulante. Também não parece conter grandes incorrecções: as que se encontram são as da própria ciência, que de 2003 para cá, como não podia deixar de ser, as foi actualizando.

A narração das ideias e descobertas que nos ajudam a compreender o mundo é feita sempre com o foco nas personalidades e contradições, generosidades e ódios, ambições e desapegos dos seus protagonistas. E talvez o maior interesse deste livro esteja mesmo nesta verdadeira história, a"pequena história" dos homens que vêm aumentando o nosso conhecimento de quase tudo.

A Short History of Nearly Everything
Bill Bryson
Black Swan
2004 (1.ª ed.: 2003)

terça-feira, 3 de novembro de 2020

adolescência roubada



Quatro de agosto de 1944. Vinte e cinco meses após se terem escondido num anexo secreto dos escritórios da Opekta, Anne Frank e mais sete pessoas, entre as quais os pais e a irmã, são descobertos e presos pelos nazis. Com excepção de Otto, o seu pai, todos morreriam nos campos de extermínio para onde foram enviados. Anne Frank e a irmã Margot sucumbiriam ao tifo que alastrou em Bergen-Belsen no inverno de 1944/1945.

Mas não caiu nas mãos dos nazis um pedaço da vida de Anne: o diário que ela manteve entre 12 de junho de 1942, data do seu décimo-terceiro aniversário, e 1 de agosto de 1944. Esquecido no anexo e recuperado mais tarde pelo pai, é o testemunho de uma adolescência roubada. Nele, Anne vai dando conta dos conflitos entre os habitantes confinados ao anexo; das discussões acerca de temas tão díspares como a política, a guerra, as refeições; do uso cuidadoso do autoclismo para não chamar a atenção dos funcionários em baixo; dos sonhos adiados; dos planos para o futuro; da impossibilidade de ter um espaço para si; da tristeza e da esperança; do medo e do alívio. Kitty, a personagem que ela inventa por trás das páginas do diário, é quem que lhe permite lidar com tudo isto.

Na primavera de 1944, Anne Frank começa a rever o seu diário. Tem a intenção de dá-lo a conhecer ao mundo depois da guerra. Esta é a versão dita definitiva, sem os cortes e correcções a que o pai o sujeitaria antes de o publicar em 1947. A descoberta da sexualidade; a atracção por Peter, outro dos habitantes do anexo; a relação difícil com a mãe – tudo aqui volta a ser confessado a Kitty. Tudo aqui é revivido por esta infeliz rapariga que nos retratos nos aparece sempre com um sorriso, um suave e contido sorriso, e cujas palavras nunca desistem da vida.


The Diary of a Young Girl
Anne Frank
Eds. Otto J. Frank, Mirjam Pressler
Trad. Susan Massotty
2012
Original: Het Achterhuis [O Anexo Secreto]

domingo, 1 de novembro de 2020

descendente de barão





Eulálio d'Assumpção, centenário orgulhoso e descendente de barão, derrama as suas memórias no leito do hospital onde a morte o espera. Repisa-as para não se esquecer de quem é: «Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço de alma, é por esmero. É para si próprio que um velho repete sempre a mesma história, como se assim tirasse cópias dela, para a hipótese de a história se extraviar.»

À medida que a medicação e a proximidade do fim lhe vão retirando lucidez, as memórias confundem-se, assim como se confundem aqueles com quem as partilha: a enfermeira que melhor o trata, os outros enfermeiros e os médicos mal-humorados, a filha, alguém que toma pelo pai assassinado há muito. Mas uma dessas memórias serve sempre de esteio a todas as outras: a do inesperado e repentino desaparecimento da sua mulher, a exuberante Matilde de «pele castanha», pouco depois do nascimento da filha de ambos.

O texto de Chico Buarque foge de um modo exímio à narrativa linear, plasmando o pensamento reinventado e confuso do velho moribundo e fixando de um modo natural o preconceito e a arrogância de um homem que se orgulha de descender de gente nobre e importante e que, apesar de tudo, não resiste aos encantos de uma bela mulata.

Leite Derramado
Chico Buarque
2009
D. Quixote

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Adolf e Gustl


August Kubizek e Adolf Hitler conhecem-se, ainda adolescentes, quando assistem a uma ópera em Linz. Estamos no final de 1904 e é o início de uma amizade assimétrica, assente no amor de ambos pela música e numa complementaridade feliz: Adolf precisa de alguém com quem partilhar as suas ideias e fantasias, August é bom ouvinte e admira o espírito crítico e a confiança em si próprio que o outro demonstra.

No início de 1908, pouco depois de Adolf ter sido rejeitado pela Academia de Belas Artes de Viena e de a sua mãe ter morrido, ele consegue convencer o pai de August a deixá-lo prestar provas no Conservatório em Viena. August é bem-sucedido e inicia os seus estudos musicais. Vivem juntos durante cinco meses num quarto infestado e escuro da capital austro-húngara, August seguindo uma educação formal, Adolf estudando e interessando-se literalmente por tudo, apesar de as suas paixões maiores serem a arquitectura e a política. As leituras ávidas, nos livros e na sociedade vienense, apuram o pensamento do futuro Führer.

A aversão a que o contradigam, as dificuldades económicas crescentes, talvez algum mal-estar face ao sucesso de August no Conservatório, precipitam a separação: durante uma ausência deste, Adolf abandona o quarto que ambos partilham. O reencontro dá-se apenas trinta anos depois, após a anexação austríaca e às portas da Grande Guerra. As ideias e fantasias que Adolf erguera em jovem para o povo germânico estão em vias de concretização. E apesar de August nos garantir não concordar com muitas delas, é inegável ao longo do texto a amizade e a admiração que nunca deixou de sentir por Adolf Hitler.

The Young Hitler I Knew
August Kubizek
2011
Frontline Books
(Obra Original: Adolf Hitler, Mein Jugenfreund, 1953)

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

a primeira maratona de um poeta




Turb(i)-, pode ver-se no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa, é um "elemento de formação de palavras que exprime a ideia de agitação, desordem". À entrada do seu primeiro romance, Chico Buarque apresenta-nos algumas palavras que esse elemento integra. Entre elas: estorvo, distúrbio, perturbação, turvo, turbulência, turbilhão, trovão, atropelo, tropel, torpor, estupor, estropiar.

Um homem bate à porta. Quem será? Lembra alguém. Tem barba. Talvez o protagonista "já tenha visto aquele rosto sem barba, mas a barba é tão sólida e rigorosa que parece anterior ao rosto". Num exercício onírico em que a escrita sobressai face ao enredo, o protagonista vagueia a partir daí, em fuga ou não, em busca ou não, desistente ou não, num mundo estranho. Ou talvez apenas num mundo que é um estorvo porque estorvo são os outros, ele próprio, a vida.

O texto é o da primeira maratona de um poeta: senhora da narração, a linguagem não dá tréguas ao leitor. Nesse sentido, aqui e ali, a surpresa de me ter evocado uma outra obra cuja filigrana me enredou há uns tempos: "um pinguim na garagem" de um tal de luís caminha.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

o poder desnudado



O jovem D. Filipe, IV de Espanha, III de Portugal, encontra o paraíso nos braços da cortesã Marfisa. Saber-se-á por palavras desta que o soberano não o é em amores e que ao quarto ensaio nem chegou a arrancar. Mas também se saberá que tem potencial e que com mais uns tantos encontros aprenderia a agradar mulheres.

Seja como for, a perfeição para o rei foi o corpo nu da cortesã adormecida. De regresso ao palácio e guloso de beleza, faz saber à rainha que deseja vê-la nua. A novidade tem pavio curto e em breve todo o reino a comenta. E se o povo não acha nisso nada de mais, já na corte soa o alarme para as consequências que tamanho pecado teria nos destinos de Espanha. Deus não perdoa desaforos.

Com fina ironia, vocabulário original e narrativa escorreita, Ballester apresenta-nos os argumentos e enredos com que clero e nobreza pretendem evitar ou promover o que para uns é pecado e para outros o simples cumprimento da natureza. As lutas de bastidores, as intrigas, a ânsia de poder, as solicitações de autos de fé são os mesmíssimos na corte dos Áustrias como em qualquer grupelho político desses em que hoje votamos.

Cronica del Rey Pasmado
Gonzalo Torrente Ballester
1989

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

dois modos de passar por aqui




Narciso, amante das catalogações, cientista, pensador. Goldmund, amante da natureza, sedutor, artista. Estes dois homens tão diferentes, opostos no jogo de artifício de Hermann Hesse (1877-1962), completam-se e atraem-se.

O beijo de uma cigana e um conselho de Narciso encetam a errância de Goldmund na busca de si através dos sentidos, da sensualidade e da arte, da relação com os outros e da forma que os materiais adquirem sob o trabalho das suas mãos.

É Goldmund quem encontra a mãe primordial, essa que sempre procurou e que nunca conseguiu representar, essa que dá um sentido à sua existência e que o chama de novo para dentro de si. No fim, pergunta ao amigo: «Como poderás morrer um dia, Narciso, se não tens Mãe? Sem Mãe não é possível amar. Sem Mãe não é possível morrer.» Não morre quem nunca viveu.

Narciso y Goldmundo
Hermann Hesse
Editorial Sudamericana
Luis Tobío [trad.]

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Também Asperger




Em homenagem aos seus estudos de psicopatia autista, Hans Asperger (1906-1980) tem hoje o nome associado a uma síndrome pertencente ao espectro do autismo: a síndrome de Asperger. Mas este famoso psiquiatra infantil, director da Clínica de Educação Curativa da Universidade de Viena no período da anexação alemã, mostrava-se no início da carreira avesso a diagnósticos e acreditava que a atenção e o cuidado necessários davam oportunidades de desenvolvimento a qualquer criança.

Entretanto, e num intervalo temporal bastante curto, as ideias nacional-socialistas foram-se tornando manifestas no conteúdo e na retórica dos seus textos. A partir de certa altura começou a defender que algumas crianças, pela sua associabilidade, eram casos perdidos e um fardo para a comunidade germânica (Volk). Hoje sabe-se que Asperger contribuiu para o programa de 'eutanásia' infantil levado a cabo no Terceiro Reich, tendo enviado, directa e indirectamente, várias crianças para a clínica de Spiegelgrund, onde algumas eram "educadas" e outras eram sujeitas a experiências científicas e paulatinamente debilitadas com barbitúricos até morrerem.

Há quem defenda que Asperger não teve opção e que muitas das suas decisões foram até no sentido contrário, de proteger crianças em perigo. Mas isso não justifica as que ele tomou com base no seu diagnóstico de "criança não educável". Asperger, que teve mesmo a coragem de não se inscrever no partido nazi nem de abandonar a prática católica durante todo o Terceiro Reich, nunca pôs em causa o regime e agiu sempre por moto próprio. Várias funções a que se foi candidatando exigiam uma atitude eugenista e ele sabia-o.

Título: Asperger's Children - The origins of autism in nazi Vienna
Autor: Edith Sheffer
Data: 2018
Editora: W. W. Norton & Company

domingo, 19 de outubro de 2014

a incomensurabilidade das vidas


Daniel Oliveira é o escandalizado interveniente do programa 'Eixo do Mal' que há dias descarregou a sua diarreia verbal sobre todos aqueles que defenderam Excalibur, o cão recentemente assassinado em Espanha.

Espanha tinha meios suficientes para ter posto o animal de quarentena e investigado a hipótese de ele ser portador do vírus ébola. Espanha também perdeu uma oportunidade de tentar perceber se o vírus se consegue alojar e desenvolver em cães e, desse modo, ser um potencial perigo para o homem. Mas Espanha preferiu matar o familiar de Javier e Teresa, casal que não precisava de maior sofrimento do que aquele por que já passa.

Eu costumava concordar com Daniel Oliveira noutras questões. E concordo. Só que o seu antropocentrismo/especismo já me levaram a retirar-lhe tempo de antena há uns tempos (sim, já teve outras intervenções do mesmo teor): não posso confiar em alguém que tem a atitude que ele tem para com os animais. Daniel Oliveira, o valor das vidas é incomensurável. E para mim, um tipo que põe o homem no centro de tudo e não tem respeito pela vida dos outros animais não é, simplesmente, um homem bom. Isso é coisa do século passado. O mundo evolui e, felizmente, as suas perplexidades são, cada vez mais, as perplexidades que trago de menino.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

.

"Hoje o me dever era cantar a pátria, alçar a bandeira, sair à praça [..] Mas tu faltas-me há tantos dias [...]  e estou que não posso dar outra batalha."

Silvio Rodríguez sempre foi um dos meus poetas preferidos e ao som do seu canto percorri boa parte da minha vida. Esta é uma das canções a que uso regressar e fico sempre sem palavras ante o engenho com que o amor a outra pessoa e o amor à liberdade de um país se entretecem neste modo tão conseguido.

Isto à parte discordar das posturas políticas do homem, acérrimo e acrítico fidelista. Mas a obra deixa de ser o homem quando passa a ser de todos.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

4. Amor escreve-se sem 'h' - Enrique Jardiel Poncela

autor: E. Jardiel Poncela
págs.: 336
ed.: Editorial Século
trad.; Manuel Neves
1945 (1928)
Em guerra pelo sempre tão volátil e variado interesse de Lady Sylvia Brums, Zambombo usa todos os estratagemas para a impressionar, incluindo o da simulação de um suicídio que se transforma quase em suicídio. E perante um vaivém constante contra a extinção do desejo, o leitor descobre, se ainda o não sabia, que se ama de igual modo em Madrid, Paris, Roterdão, Londres. Talvez, até, no recato de uma ilha deserta.

Enrique Jardiel Poncela morreu esquecido. Dramaturgo espanhol em pleno franquismo e com um gosto pelo absurdo em contracorrente, põe nesta romance a medida justa daquilo em que hoje se põe excesso: autorreferenciação, jogo de sons e conceitos, provocação, surpresa... Injusto é o seu humor, que me fez gargalhar mais do que nestes dias devia.

A obra em papel - encontrei-a num alfarrábio perto de mim e custou-me 50 cêntimos. Em formato digital e no castelhano original, talvez a alguns custe menos: como o autor é morto há tanto que a obra pertence a todos, encontra-se na rede e gratuito numa caterva de páginas.





quarta-feira, 24 de abril de 2013

2. Crónica dos bons malandros - Mário Zambujal

autor: Mário Zambujal
págs.; 152
ed.: Quetzal
1980/2006
A quadrilha de Renato, o Pacífico, é formada por sete bons malandros que preparam o  passo para o lado de cá, ou, talvez melhor, de lá..., da sociedade. O roubo de vinte e duas peças da colecção Lalique, em exposição na Calouste-Gulbenkian, será o início de uma vida nova.

Lêem-se de um fôlego, e pensam-se com muitos, os trabalhos e tropelias que foram preparando, desde a infância ao assalto libertador, o encontro de Renato, Marlene, Flávio, Silvino, Arnaldo, Pedro e Adelaide,  inseparáveis das respectivas alcunhas e idiossincrasias.

Mário Zambujal, apresentador à época do Domingo Desportivo, aquele programa com dois bons pares de horas e que arranjava tema para conversa a partir do que para mim eram tristonhas banalidades, escreveu este livro despojado e polvilhado de ironia e humor, em que as palavras coabitam com um quase contínuo sorriso do leitor, desde o crime inaugural de Pedro, o Justiceiro, às picadas de um assalto talvez demasiado bem-sucedido, onde Silvino Bitoque tem um papel fulcral.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

maratona de boston 2013

Richard  estava cansado e, tenho a certeza, satisfeito com o sucesso: não há maratona sem cansaço, a meta de uma prova destas é sempre uma grande meta de quem a cruza. Martin, o filho de oito anos, poisou o cartaz em que pedia paz no mundo, veio abraçá-lo, regressou para junto da irmã e da mãe.

E a bomba explodiu. Martin, morreu. A menina, de seis anos, e a mulher estão no hospital: a primeira sem uma perna, a segunda com uma grave lesão cerebral.

Era dia de festa.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

1. Homer & Langley - E. L. Doctorow

Homer & Langley
autor: E. L. Doctorow
trad.: Tânia Ganho
págs: 176
ed.: Porto Editora
2009/2013
A crescente auto-exclusão dos irmãos Collyer (Homer e Langley), contada e explicada pelo primeiro, Homer, numa longa carta a uma jornalista francesa. Atravessando uma boa parte do século XX americano, da Primeira Grande Guerra aos assassínios dos Kennedy e de Luther King e ao movimento hippie, a carta de Homer descreve como Langley se vai enclausurando, e ao irmão, na casa que habitam: atafulhando-a de jornais de onde espera extrair as grandes invariantes da História; enchendo-a de objectos recolhidos e invenções próprias que supostamente promovem a sua autonomia; protegendo-a com armadilhas contra os invasores; enfim, afastando tudo o que os rodeia.

Os verdadeiros irmãos Collyer morreram em 1947, mas, à parte as liberdades narrativas de Doctorow, sobretudo para conseguir atribuir à sua ficção maior verosimilhança do que a da realidade, este é um belíssimo exercício sobre o modo como as nossas vidas são orientadas pelo nosso mundo de significados.

Pouquíssimas gralhas. A tradução, óptima e num português quase irrepreensível: apenas uma ou duas vezes senti que me faltava um "de" a acompanhar verbos que o exigem (o que revela que Tânia Ganho sabe escrever melhor do que muitos monstros sagrados da literatura portuguesa actual); e, só porque percebo um pouco de assunto, torci o nariz ao ver rods traduzido por hastes: quando estamos a falar de olhos, encontro sempre bastonetes nos livros de anatomia. Pormenores menores mesmo e que não beliscam esta certeza: Tânia Ganho é uma tradutora maravilhosa que soube reconstruir a partir do original um texto cuja leitura se torna compulsiva.