Mostrar mensagens com a etiqueta antes da guitarra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta antes da guitarra. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

cão fiel do nosso exagero


e nem por isso bebi
e nem às tantas de ti
pedaço de fantasia
em mesa de esquecimento
o corpo que percorria
a noite que percorrendo

e nem por sonos sonhei
e nem de buscas te sei
sussurros com pedra fria
palavras que à boca invento
digamos que não havia
mais tu do que não havendo

e nem por muito se quis
e nenhuma alma condiz
talvez como quem te queira
verdades como te quero
mentiras desta maneira
em tempos já fui sincero

e nem por tudo o que faz
furtivo artista capaz
de saltos sob a fogueira
em cinzas do meu desvelo
por brasas como se esgueira
cão fiel do nosso exagero

               Leceia e 27 de outubro em 2018

sábado, 31 de outubro de 2020

arrependimento


Aborreço o alvoroço à minha volta,
a TV, as conversas, o paciente
olhar dos outros para o meu desnorte,
o trabalho escusado sobre a porta,
as pantufas até de quem pretende
calmar ao fim da tarde o meu galope.

Mas o que mais aborreço
é este arrependimento,
rato sôfrego cá dentro:
amigo do meu amigo
gostaria de ter sido
na tormenta que me coube,
de ter travado em palavra
a hipocrisia que a trava
sempre que a vida ma trouxe.

Aborreço que todos os domingos
as melgas se organizem e por turnos
venham saber se continuo vivo,
aborreço que os espectros desavindos
no meu passado de animal nocturno
sempre me assombrem sem passar recibo.

Mas o que mais aborreço
é este arrependimento,
rato sôfrego cá dentro:
imune ao medo e ao perigo
de perder o já perdido,
quem me dera ter amado
as coisas simples da vida
sem a ânsia de quem precisa
nem o peso do passado.

               2018, outubro, Leceia

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

pouco me importa

Poema para Moliendo Café, de Hugo Blanco

Pouco me importa quantas vezes junto à sua porta
me apunhalou a sangue frio por ser eu quem sou,
pouco me importa e na verdade nem receio a hora
do riso a mais que ela desata nos meus funerais.

Se ainda me quer mal, pouco me importa:
a morte tem um quê de quase morta
se não acaba a manhã nem a noite é fatal.

               Leceia e 9 de julho em 2018

terça-feira, 27 de outubro de 2020

o regresso do soldado


Poema para a Serenata de Schubert D 950 n.º 4.
[Para substituir o poema de Ludwig Rellstab, "Leise flehen meine Lieder"]

Ninguém sabe em toda a aldeia
o que ele viu por lá,
quantos corpos nas trincheiras
tem a dor que traz.

Vem diferente, olha de lado,
já não diz olá;
mata ainda, corre o boato,
neste vão de paz.

Cabisbaixo, mãos nos bolsos,
cai de quando em vez,
destruído de remorsos
pelo mal que fez.

Os seus olhos entretanto
são rubis de dor,
sangue e choro mesmo quando
toda a luz se for.

É talvez herói de guerra,
desertor talvez,
morto como quem só espera
pela sua vez.


               Leceia e 2 de julho em 2018

sábado, 24 de outubro de 2020

porque arrulham e as rolas são aves


Pensei dar-lhes o nome de rolas
que nas nossas memórias ficasse:
têm a textura das aves em fuga
e o desejo de fuga das aves,
o arrulho das noites em espera
o aroma impreciso do que há-de.

Porque agora já tudo me sobra,
que faço eu do que nunca me cabe?
Pensei dar-lhes o nome de rolas
porque arrulham e as rolas são aves.

Quando o amor nesses dias poalhava
de mistérios teu corpo sem dono,
quis mantê-las em conchas de mão,
concebê-las em sonos de sonho,
percorrê-las enquanto houvesse onde
conhecê-las em quandos de outono.

Que faço eu do que nunca foi meu,
se hoje acabo e já nada me cabe?
Talvez dar-lhes o nome de rolas
porque arrulham e as rolas são aves.

                    Leceia e 25 de junho em 2018 (1.ª versão: Lisboa em 1991)

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

da própria cicuta


Eu hoje olhei para trás
como quem olhasse em frente
e senti que era capaz
de ter feito bem diferente.

Podia ter sobrevoado
este abismo em estar de menos,
não ter ido assim cansado
por caminhos tão pequenos.

Podia ser de combate
todo o peso no meu rosto
não tivesse posto a tarde
entre as tardes do sol-posto.

Podia que à flor da pele
me doesse a dor impoluta
de quem por taça fiel
beba da própria cicuta.

                         Leceia, 2018 [1.ª versão: Lisboa, 2011]

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

pó


Quanto caminho te falta
de sol antes da hora exacta
e essa hora que breu a faz?
No teu olhar quantas estrelas
se extinguirão e ao perdê-las
quanto pó te cobrirá?

Se eu não cair, por castigo,
antes de ti ou contigo,
com que arte serei de estar?
Se essa espera em corpo gasto
for sepulcro do teu rasto,
quanto pó me cobrirá?

E quando, como previsto,
tudo faltar a tudo isto,
que mais há para inventar?
O cadáver do que fomos
mais o cadáver em torno,
quanto pó os cobrirá?

Dará as cartas de novo
à mesa do mesmo jogo
o deus que de início as dá?
Ou também ele será nada
e, pó sobre pó, não tarda,
quanto pó nos cobrirá?

                              Leceia, 11 de maio de 2018