Este amor?
Simples inércia
de retiro,
um só resíduo
de alma atenta que o disseque.
À luz fátua da solécia,
sempre vão, sempre decíduo,
parece ouro.
É pechisbeque.
(António Rodrigues dos Santos Júnior)
Este amor?
Simples inércia
de retiro,
um só resíduo
de alma atenta que o disseque.
À luz fátua da solécia,
sempre vão, sempre decíduo,
parece ouro.
É pechisbeque.
em agosto não te chateio por isso não te chateies
seria de bastante mentecapto aos nossos anos
eu não ter ainda entendido que em agosto
mudas de mundo e deixas em espera este mundo tão
desagostoso
que é o nosso e que por definição
te azucrina os miolos
quando regressares no início do longo
desagosto
que te é pausa de vida e inverno por inteiro
pensarás como sempre sóis e eu bem sei que sempre sóis
trezentos e trinta e quatro
são os sóis por que se estende
esta peça de teatro
que já nada surpreende
cansa-me a tua presença
antóneo ah quanto me cansa
quanto me deixa hipertensa
essa tua pose mansa
não me dês cabo da mona
se o bom senso to permite
estou farta assim não funciona
estou para lá do limite
há já vinte anos que agosto
é a ausência do teu rosto
e eu maria já não farei o que sempre fiz pois de
existir persistir insistir
me cansei
desta vez hei de oferecer-te agosto depois de agosto
acabou-se o teu desagosto
é hora de eu desistir
tu não te ponhas tão séria a pensar no que é preciso fazer
podes fechar os olhos isso podes calcular a média por alto
não tem de ser ponderada nem tem de ser
com a emoliente e estorvante atenção que minimize o erro
não te martirizes com decimais negligencia até a importância
do algarismo das unidades
podes aproveitar isto sem ser aluna exemplar sabes? basta que te lembre
de quando em vez a aferição da distância essa distância em que
não te vejas tão de perto
como diria o outro isso é uma tragédia
nem te vejas tão de longe
como costumo dizer eu isso não é nada
antes possas apreciar a diluição da lágrima no sorriso e deste no riso
enquanto como diria aquele mesmo outro se precipita
a comédia
não é por baquetas os meus dedos tamborilarem o tampo da mesa
que a gata deixa de ser gata
no insolente âmbar dos seus olhos arde
o fascínio que prepara o rebate
tu não estás quem há pouco ronronava
murmuro em decassílabo perfeito
quando atento na cena e me distraio
no labor digital de outro soneto
não há problema ó lia ultimamente
não sei porquê malbaratei o ritmo
e a precisão das sílabas no verso
já só os dedos podem confirmar-ma
ela desvia o olhar pela primeira vez
e eu pela segunda liberto os dedos
um dois três quatro seis sete oito dez
um dois três quatro seis sete oi to dez
em busca de outros modos e melhores
de ensinar o que nunca pratiquei
eis senão quando o rebate se dá
a unhada o mio
deixa-te disso poeta malandro estás a irritar-me
e o sangue mancha-me o último terceto
e a dor lancina-me os versos restantes
ah ingrata estragaste-me o soneto
estraguei-te o soneto?
mas tu não percebeste nada antóneo?
a contagem era péssima e à parte isso o soneto
era uma porcaria
o que me lembra do primeiro café da tarde
no tempo em que o tomávamos quando eu te visitava
estou cá em baixo hoje podes?
ou tu me procuravas em me eu arredando
por onde tens andado meu amigo?
e as visitas e as procuras soíam enredar mais
do que indubitáveis chegadas e longas travessias
o que me lembra e todos os dias me lembra desse café embarcado
na lenta clepsidra do teu olhar no meu olhar no teu olhar
o que me lembra desse café não caberá à justa nestes que nisto se fez
ah pois é estou certo de que hoje seria impossível ou no mínimo complicado
acondicionar na mesma embalagem estes que nisto se fez
as rugas não são apenas à superfície como é óbvio o que já por si dificultaria
o ajuste de esperas avanços retrocessos
acresce aliás que embora o hábito no-lo renegue a geometria
impecável dos homens não se compadece
do aqui que ali se dilatou do ali que aqui se contraiu
amorfámo-nos amiga é o que é espatifámo-nos na curva
de que estávamos avisados e que ainda assim quisemos inventar
mas de que outra maneira havia de ser a vida?
Se há pouquinho aquele teu gesto
não esperava nada em troca,
se foi por gosto e de resto
nada de meu te sufoca,
dirás, quando eu fizer de anjo
e esconder o meu demónio:
«Pára com isso, marmanjo,
basta-me seres António.»
(Isso ao menos me asseveras
quando te confesso que antes
dedicava as primaveras
ao sufoco das amantes.)
Soy este
que va a mi lado sin yo verlo,
que, a veces, voy a ver,
y que, a veces olvido.
El que calla, sereno, cuando hablo,
desmaio s.m. finais de maio, tendo em mente, sobretudo, os dias de estio que se adivinham, quentes e por vezes infernais; fig. final de um período sereno e aprazível. (de maio)
EX: mais um desmaio
Decadência - s. f. tendência patológica para deprimir durante uma década após perda traumática, sobretudo amorosa ETIM. década
O averiguador consultava a ocorrência num papel. Responda-me só a uma coisa, senhor...
Pergunte, respondeu o senhor, sem se incomodar com as reticências.
Vejo que está calmo. Não se preocupa?
Com quê?
Com o que pode vir a acontecer-lhe. Sobretudo, com o que pode vir a acontecer à sua mulher.
Bastante.
Não parece. Talvez não saiba que pode ter de cá passar esta noite. Esta e outras... Que pensa disso?
É como disse. Preocupo-me.
Sim, claro. Preocupa-se. Já agora, pode explicar-me melhor com quê?
Com tudo. Com o que possa ter feito. Com o que os outros possam pensar de mim. Sobretudo, com a passagem do tempo.
O averiguador não queria acreditar. O meu amigo não pode dizer isso. É óbvio que não se preocupa. Está a esquecer-se da razão por que devia preocupar-se a sério.
Beijei a minha mulher, não é?
Ó meu amigo, beijou-a quando ela estava desprevenida e beijou-a à moda antiga. Sem um contrato prévio e sem máscara osculatória. É óbvio que não se preocupa com a opinião dos outros. É ainda mais óbvio que não se preocupa com a saúde dela. E, claro, não se preocupa nada com a lei.
Se eu lhe disser que provavelmente estava a dormir? Que estava no meio de um sonho quando o fiz?
Dormia, pois então. Acordemos em que dormia. Mas o que fez ao certo, enquanto dormia?
Aproximei-me dela, está visto. Só isso.
Só isso? Só isso seria muito. Mas parece-me que não foi só isso, pois não?
Recordo-me de que ela acordou aos gritos.
E de que se recorda mais quando ela acordou aos gritos?
Os meus lábios confundiam-se com os dela. Mas num primeiro instante...
A frase ficou presa porque nos lábios do averiguador se desenhou uma breve mas indesmentível onda de repulsa, que tentou disfarçar com um incentivo a que o outro continuasse. Num primeiro instante?
Num primeiro instante, os lábios dela pareciam dançar com os meus. Senti como antigamente a humidade da sua boca, o veludo da sua língua. No princípio estranhei. Éramos de novo aprendizes. Não beijávamos há... Não nos beijávamos desde a proibição.
À palavra proibição, sem espera nem disfarce, o averiguador olhou para o averiguado com o sorriso largo de quem obtinha por fim o que desejava. A sua mulher está em choque pelo crime cometido.
Mas ela parecia corresponder.
Ela estava a dormir. De qualquer modo...
De qualquer modo parecia corresponder.
Não é essa a informação que temos. A sua mulher não concordou com o beijo. Acordou aos gritos, apresentou queixa de imediato e a informação que tenho do centro de quarentena é de que vive em sobressalto com receio de estar contaminada. Não está arrependido?
O averiguado soltou um suspiro e, pela primeira vez, pareceu reconhecer o seu erro. É a minha mulher. Estávamos a sonhar.
Isso para mim são pormenores que só no julgamento serão tidos em conta. O que eu sei e o que apenas me interessa é que a beijou sem o seu consentimento, o que significa que ela é vítima de um crime e não cúmplice, como tem querido fazer-me crer.
Crime...
Sim. Há mais de uma década que os beijos estão proibidos e há mais de meia que foi agravada a moldura penal para quem os dá. Existem, como sabe, certos procedimentos obrigatórios para quem opta por gestos afectuosos. No mínimo são necessários um contrato escrito entre os osculantes e o uso de máscaras osculatórias por ambos.
Eu sei, mas...
Mas estava a dormir.
O averiguado baixou a cabeça e desistiu da defesa. Talvez não estivesse.
Aliviado, o averiguador deixou que um silêncio crescesse sobre as lágrimas que começavam a escorrer no rosto do outro. Vamos, não esteja assim. Toda a gente comete erros. O passo principal já foi dado ao reconhecer o crime. Agora é pagar por ele e seguir em frente. Retocou a máscara para se certificar de que estava bem colada ao nariz, levantou-se e mandou vir o carcereiro. Passa cá a noite e amanhã é apresentado ao juiz.
Já se faziam choro largo as lágrimas do criminoso. Enquanto o carcereiro o encaminhava para a cela, apenas pôde pronunciar, entre soluços, Por favor, avisem a minha mulher...