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quinta-feira, 19 de março de 2026

Das ästhetische Wiesel (Christian Morgenstern)


A DONINHA ESTETA


No riacho a doninha

sentada numa pedrinha

escutava água-ia-água-vinha.


Deves querer

saber a razão.


Deu-ma há pouco

em segredo

o homem da lua:


Para o refina-

do animal

era uma questão de rima.


Christian Morgenstern, Das ästhetische Wiesel (traição de luís caminha)








quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Böhmen liegt am Meer (Ingeborg Bachmann)


BOÉMIA À BEIRA-MAR


Verdes sejam as casas por aqui e ainda terei casa onde entrar. 
Intactas sejam as pontes e prosseguirei em terra firme.
Perdido seja sempre o empenho no amor e aqui o perderei de bom grado.

A não ser eu, será alguém tão bom quanto eu.

Uma palavra se aproxime de mim e permitirei que o faça.
Continue a Boémia à beira-mar e regressará a minha crença nos mares.
Mantenha-se a minha crença no mar para a minha esperança de terra.

A não ser eu, será qualquer um, com o meu valor.
Nada quero para mim. Quero ir ao fundo.

Ao fundo é na direção do mar, onde reencontro a Boémia.
Se me afundar, será tranquilo o meu despertar.
No fundo agora sei – e encontro-me a salvo.

Vinde cá todos, boémios, marinheiros, putas do porto e navios
desancorados. Não quereis ser boémios, ilírios, veroneses
e venezianos? Representai as comédias que fazem rir.

Também as que buscam o choro. Errai uma centena de vezes
como eu errei, eu que nunca passei nas provações
mas sempre as superei, uma trás outra.

Como a Boémia as superou e de uma bela tarde
recebeu a bênção do mar para agora existir à beira da água.

Ainda me aproximo de uma palavra e de outra terra,
ainda me aproximo de tudo, por pouco que seja, cada vez mais,

um boémio, um errante que nada tem, que a nada se atém,
cujo único dom é ver, desde este disputado mar, a terra que escolheu.


Ingeborg Bachmann, Böhmen liegt am Meer  (traição de Luís Caminha)

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

OFERTA (Leonard Cohen)


Dizes que o silêncio
tem mais de paz que de poemas
mas se para oferecer-te
eu trouxesse o silêncio
(tão bem que o conheço)
devolver-mo-ias dizendo
    Aqui não há silêncio
    aqui apenas há outro poema

 
GIFT (Leonard Cohen)

You tell me that silence
is nearer to peace than poems
but if for my gift
I brought you silence
(for I know silence)
you would say
This is not silence
this is another poem
and you would hand it back to me

terça-feira, 6 de setembro de 2022

poesia vertical 1-14 (traição a roberto juarroz)


Há um lugar próprio para as mãos,
ao mesmo tempo maior e menor do que elas,
um lugar onde as mãos são tudo o que são
mas também algo mais.
É esse lugar onde não há
como eu esperava
outras mãos à espera das minhas.

- - - 

POESÍA VERTICAL 14 (ROBERTO JUARROZ)

He encontrado el lugar justo
donde se ponen las manos,
a la vez mayor y menor que ellas mismas.

He encontrado el lugar
donde las manos son todo lo que son
y también algo más.

Pero allí no he encontrado
algo que estaba seguro de encontrar:
otras manos esperando las mías.

domingo, 4 de setembro de 2022

eu não sou eu (traição a Juan Ramón Jiménez)



Eu não sou eu.
Sou quem
ao meu lado não vejo
mas que hei de ver de quando em quando
como de quando em quando esqueço,
quem, sereno, se cala quando falo,
quem, amável, perdoa quando odeio,
quem se passeia por onde não estou,
quem há de resistir no dia em que eu morrer...

- - -

EU NÃO SOU EU (JUAN RAMÓN JIMÉNEZ)

Yo no soy yo.

Soy este
que va a mi lado sin yo verlo,
que, a veces, voy a ver,
y que, a veces olvido.
El que calla, sereno, cuando hablo,

el que perdona, dulce, cuando odio,
el que pasea por donde no estoy,
el que quedará en pie cuando yo muera...


sábado, 3 de setembro de 2022

mulher-gato (traição a Enrique Jardiel Poncela)


    


    Tinha os olhos verdes dos gatos, tão dos gatos que até fosforesciam na escuridão.
    Como era fácil o meu amor por ela!
    À noite, e graças às felinas propriedades daqueles olhos, eu nunca acendia a luz para ver as horas no relógio. Nem para ler um livro quando estava com insónia. Bastava-me pedir: «Flérida, querida, podes focar os olhos no livro para eu ler um pouquinho?»
    Enfim, era a mulher ideal se esquecermos o espírito demasiado gatesco, pois adorava deitar-se dentro do braseiro, deliciava-se com peixe, feria-me com os seus arranhões.
    Para mim, nada disto era imperdoável.
    Imperdoável era ela sair da cama nas madrugadas de janeiro e subir ao telhado para os seus passeios ao luar.

- - -

    MUJER-GATO (ENRIQUE JARDIEL PONCELA)

    Aquella mujer tenía unos ojos verdes, como los de los gatos, y eran tan iguales a los de los gatos, que hasta fosforescían en la oscuridad.
    ¡Qué cómodo resultaba amarla!
    Porque gracias a las felinas propiedades de sus ojos, en la noche uno veía la hora del reloj, sin tener que encender la luz. Y para leer un libro en los momentos de insomnio, tampoco hacía falta encender la luz. Bastaba con decirle a ella:
    — Flérida, hija, haz el favor de enfocarme los ojos al libro, que voy a leer un ratito.
    En fin, era una mujer ideal. Lo malo estaba en que, a causa de su espíritu gatuno, le encantaba echarse en la tarima del brasero, y adoraba el pescado, y daba unos arañazos terribles. 
    Y aun esto podía perdonársele.
    Lo que ya no se le podía perdonar era el que en las noches de enero se levantase de madrugada y se subiese al tejado a dar paseítos bajo la luna.



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

perspectiva da alma (Mario Benedetti)


Meu irmão corpo     estás cansado
do cérebro à misericórdia
do paladar ao vale do desejo

quando me dizes     alma ajuda-me
a minha comoção visita a angústia
e até o próprio ar é vulnerável

meu irmão corpo     no trabalho pões
músculo e estômago     também os nervos
rins e brônquios     também o diafragma

quando me dizes     alma ajuda-me
sei que estás condenado     que és matéria
e a matéria é propensa a desfiar-se

meu irmão corpo     sei-te bem
fui hóspede e anfitriã das tuas dores
rampa modesta do teu sexo ávido

quando me pedes     alma ajuda-me
sinto que o frio me rebaixa
que magia e doçura se me vão

meu irmão corpo     tu és tão fugaz
conjuntural efémero brevíssimo
imóvel por efeito de um arquejo

e eu que tenho por uso ser a vida
acabarei estreitando os teus ossinhos
alma incompleta sem as tuas vísceras

                                                            Para Qh,
                                                            traição a 'Desde el alma' (Mario Benedetti),
                                                            Casarão e 2021, 11 de janeiro
                                                            

o silêncio do mar (Mario Benedetti)

O silêncio do mar
brama um juízo infinito,
mais concentrado que o de um cântaro,
mais implacável que duas gotas

quer aproxime o horizonte quer nos entregue
a morte azul das medusas
as nossas suspeitas não o deixam

o mar escuta como um surdo
é insensível como um deus
e sobrevive aos sobreviventes

Nunca saberei o que dele espero
nem o conjuro que deixa nos meus artelhos
mas quando estes olhos se cansam de ladrilhos
e esperam entre a planície e as colinas
ou em ruas que se fecham sobre mais ruas
então, sim, náufrago me sinto e só o mar
pode salvar-me

                                                            Para Qh.,
                                                            traição a 'El silencio del mar' 
                                                            (Mario Benedetti), 
                                                            Casarão e 2021, 11 de janeiro

domingo, 22 de março de 2020

não desistas (M. Benedetti)



Não desistas, há sempre tempo
para a chegada e o recomeço,
a aceitação das sombras, o enterro dos medos,
o lastro largado, o reinício do voo.

Não desistas porque a vida
é continuação da viagem,
perseguição dos sonhos,
desprendimento do tempo,
estudo dos escombros, descoberta do céu.

Queime-te o frio,
morda-te o medo,
o sol se esconda, cale-se o vento,
não vaciles, por favor.
Tens na alma fogo ainda,
vida ainda nos sonhos.
Porque a vida é tua, teu o desejo,
porque assim quiseste, porque assim te quero eu.

Porque o vinho existe. E o amor também.
Porque o tempo cura todas as feridas.
Abre as portas, retira os ferrolhos,
abandona as muralhas que te protegeram.

Vive a vida e aceita o desafio,
recupera o riso, faz-te ao canto,
baixa a guarda, estende as mãos,
abre as asas, tenta de novo.
Celebra a vida, recupera os céus.

Queime-te o frio,
morda-te o medo,
o sol se ponha, cale-se o vento,
não vaciles, por favor.
Tens na alma fogo ainda
porque é um começo cada dia,
porque esta é a hora, este o melhor momento.
Porque não estás só.
Porque eu te quero.


Para Kh., traição a 'No te rindas' (Mario Benedetti) em Leceia e 22, março de 2020

domingo, 31 de março de 2013

le pingouin (n. fraissinet)


Não passo de um pinguinzinho
Em banquisa distante
Sempre só no meu banho
Nesta imensa piscina
Oceânica e salina

Não passo de um pinguinzinho
Que não tem nada, nada
Nunca terei filhotes
Enfim, imagino eu,
Que nem das 'pinguinas' sei

     Queria tanto pensar

     Que um dia o futuro
     Me trará um navio
     Queria tanto partir
     Do meu tão pobre império
     Onde agora apodreço
     Não tenho outro desejo


Não passo de um pinguinzinho
De banquisa em bacia
Sofrendo em solidão
Sou sempre eu que cozinho
E são sempre sardinhas

Não passo de um pinguinzinho
Sem qualquer paixão
Nem sequer um amigo tenho
Em tão fina banquisa
Só eu me posso mexer

     Refrão

Aventurei-me um dia
Crendo-me já grandinho
Sobre um tubarão branco
Que parecia mais receptivo
Mas não lhe havia visto os dentes

    
Refrão

Eu era um pinguinzinho
Em busca de companhia
Mas só testemunharam
O meu anseio de amor
Aqueles cinquenta caninos

     Queria tanto pensar
     Que um dia o futuro
     Me traria um navio
     Queria tanto partir
     Do meu tão pobre império
     Onde apodrecia
     Não tinha outro desejo

quarta-feira, 27 de março de 2013

inventário (joaquín sabina)

 
As coisas que me dizes quando calas,
os pássaros que aninhas entre as mãos,
a falta do teu corpo nos lençóis,
o tempo que gastámos a insultar-nos,
o temor à velhice, os almanaques,
os táxis que corriam espavoridos,
a dignidade entregue em qualquer parte,
o violinista louco, os agasalhos,
as luas que beijei eu nos teus olhos,
o denso olor a sémen derramado,
a chacota da história à nossa volta,
as cuecas que esqueceste no armário,
o espaço que preenches na minha alma,
a boneca escapada ao incêndio,
a loucura espreitando atrás da porta,
a batalha diária entre dois corpos,
a minha indignação contra as touradas,
o pranto nas esquinas do olvido,
a cinza ainda à vista, os despojos,
o filho que jamais pudemos ter,
o tempo para a dor, as depressões,
o gato que miava no telhado,
o passado ladrando como um cão,
o exílio, a fortuna, os retratos,
a chuva, o desamparo, os discursos,
as convenções que nunca nos uniram,
a redenção que busco no teu corpo,
o teu nome na capa do caderno,
sempre o meu coração no teu respiro,
a cela que ocupaste na prisão,
minha barca à deriva, esta canção,
o bramido do vento no arvoredo,
o silêncio que esgrimes como um muro,
tantas coisas bonitas hoje mortas,
o tirânico império do absurdo,
os obscuros recantos do desejo,
o teu pai, que morreu eras menina,
o beijo apodrecido em nossos lábios,
as paredes caiadas, a indolência,
a luz dos pirilampos sobre a praia,
o naufrágio de todas as certezas,
o derrube de deuses e de mitos,
a escuridão em volta como um túnel,
a cama navegando no vazio,
o tugúrio que um dia veio abaixo,
o sexo resgatando-nos do tédio,
o grito interrompido, a madrugada,
a fogueira do amor que nos queimava,
a insónia, a sorte, as pontas dos cigarros,
a árdua aprendizagem do respeito,
as feridas que já nem Deus nos tira,
a merda que arrastamos sem remédio,
tudo o que nos foi dado e retirado,
os anos que passaram tão depressa,
o pão que partilhámos, as carícias,
o peso transportado em nossas mãos.
 

sexta-feira, 8 de março de 2013

porque lisboa mora aqui (2003)


Eis onde se encontram os caminhos,
onde o rio é o mar que ontem perdi
onde sempre aparece o fugitivo
porque Lisboa mora aqui.

Onde viaja o desejo em ascensores
e um esconderijo tenho para mim,
onde entreguei a  vida aos meus amores
porque Lisboa mora aqui.

Meninas já não querem ser princesas
e há homens que preferem perseguir
o mar dentro de um copo de cerveja
porque Lisboa mora aqui.

Os pássaros visitam o psiquiatra
e há estrelas que se esquecem de sair,
a morte passa em ambulâncias brancas
porque Lisboa mora aqui.

O sol já só aquece a gás butano,
a vida é metro quase de partida
e deixaste a seringa no lavabo
porque Lisboa mora aqui.

Quando quiser a morte visitar-me
não me despertes, deixa-me dormir,
aqui lavrei a minha última tarde
porque Lisboa mora aqui.

hoje o meu dever era


Hoje o meu dever era cantar a pátria, içar a bandeira, assomar à praça. Hoje era o momento de ser optimista, um renascimento, um sol de conquista.

Mas fazes-me falta há já tantos dias que quero e não posso sentir alegrias. Estoira o teu cabelo na minha almofada e estou que não posso dar outra batalha.

Hoje eu, que devia juntar-me ao coro, escondo-me do dia, sussurro este solo. Que faço tão longe, dando mais motivos a esta tortura cruel dos sentidos?

Tua boca pequena dentro do meu beijo, conquista, governa, não toca a recesso. Teu corpo no meu, cantando suores, trinados possessos, violentos tremores.

Hoje o meu dever era cantar a pátria, içar a bandeira, assomar à praça; e creio, afinal, que foi o que fiz, sonhando o teu abraço, voando ao teu lado.

sábado, 7 de junho de 2008

VOGAIS (Rimbaud)

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
De vós direi um dia as origens latentes:
A, corpete sem luz de moscardos luzentes
Que volteiam zumbindo entre odores fatais,

Penumbras; E, candor de vapores e tendas,
Lança em glaciar altivo, alvo rei, fraca umbela;
I, saliva com sangue e riso em boca bela
Sob a ira ou o torpor de quem procura emenda.

U, ciclos, mar de verde em seu vaivém sublime,
A paz do pasto cheio, a paz que sempre e tanto
Nas rugas do estudioso a alquimia imprime;

O, supremo Clarim de silvos ruidosos,
Silêncios penetrados por Mundos e Anjos:
– O de ómega, este roxo a raiar em Seus Olhos.

domingo, 6 de abril de 2008

DORMINDO NO VALE (Rimbaud)

Era espuma de luz esse pequeno vale
Onde brilhava o sol sobre a montanha altiva,
Que em delírios de prata entre as ervas corria
Por um troço de verde um riacho a cantar.

E era um jovem soldado estendido na relva,
Banhando a nuca exposta nas águas de azul:
Já sem inquietações, a boca meio aberta,
Branco em seu leito verde encharcado de luz.

Qual criança doente, ele sonhava sorrindo
Ao colo do universo enquanto a tarde esfria:
Nos gladíolos os pés, finalmente dormia.

Não sentindo o perfume em redor, só dormindo:
Ao sol, tranquilo, a mão deitada sobre o peito,
e dois furos carmins no seu lado direito.

terça-feira, 31 de julho de 2007

o meu soneto de Arvers


De amor guardo um segredo, um mistério na vida,
tão perene é a hora em que nos conhecemos.
Não posso querer mais: o sonho em que lho diga
há-de ser o pior de entre os meus pesadelos.

Estarei sempre só nesta viagem sofrida
porque estar ao seu lado é todo o meu desejo.
E quando enfim chegar o meu último dia
nem saberá que foi demasiado cedo.

É doce o gesto, é terno o olhar que ela oferece
ao longo do caminho... E porém desconhece
o murmúrio de amor que a minha espera traz;

fiel à sua escolha, em seu dever austera,
destes versos dirá, que apenas falam dela:
«Quem é esta mulher?» E não compreenderá.

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Mon âme a son secret, ma vie a son mystère:
Un amour éternel en un moment conçu.
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas ! j’aurai passé près d’elle inaperçu,
Toujours à ses côtés, et pourtant solitaire,
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre,
N’osant rien demander et n’ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour élevé sur ses pas;

A l’austère devoir, pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle:
" Quelle est donc cette femme ?" et ne comprendra pas.


....................................................................Félix Arvers (1806-1850)