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sábado, 30 de outubro de 2021

o talento de amar-te



hoje quase me deu para telefonar-te
de madrugada e quando ia a manhã a meio
também se adormeci e se fazia tarde
quase quase à noitinha e à hora em que me leio
no cansaço do sol nos desmandos da lua

hoje quase me deu para me pôr brejeiro
e ao longe desnudar-te até que fosses nua
e de tão servo teu brincar a ser teu dono
no constante cadinho em que fiel se apura
à beira da tua alma o abismo do meu corpo

hoje quase me deu para reinventar-te
quando a meio do sono antecipasse o sonho
e o vento como agora aflito nos buscasse
nos escaninhos da espera entre as esperas de quem
da obstinação fizesse a sua única arte

hoje quase me deu para ser o que vem
hoje quase me deu para ser o que parte
hoje quase me deu para ser o que tem
entre astilhas da morte o talento de amar-te

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

que se foda o homem (para o meu amigo savimbi)


amigo savimbi     como sabes
não sou o centro de nada
e seria preciso ser o centro de tudo
para achar a vida um absurdo
e a dor escusada

viver há de ser sonho para o homem
para esta cadelinha a que dei o nome de luna
para o gatinho a que chamei gato porque não lhe quis chorar a morte
para a mariposa até
    e este até é tão pouco de homem
a que decidi dar o nome de traça
    por     na opinião dos outros     traçar bué

se há de chamar-se ao sonho sonho do homem
há de chamar-se pesadelo
aos minutos que o comem
e que se foda então o absurdo da vida
que se foda o sofrimento
que se foda o seu azedo

eh pá
que se foda o homem

sábado, 29 de maio de 2021

mais um desmaio (carta para Jane)


São quatro da manhã, finais de maio,
sábado, mas os sábados
há muito são iguais,
costumo dar o nome de desmaio
a estes dias pacatos
antes dos que aí vêm, infernais.
Tantos nomes que inventas, meu amigo,
recordo que dizias
com o teu sorriso gordo,
mas dou-me conta de que não consigo
dar nome às mãos vazias
do rumo que traçavam no teu corpo.
Quando, como esta noite, me aventuro
no triste e fértil chão
de tudo o que perdi,
interrogo-me se este meu futuro
tinhas presente então,
se já me adivinhavas tão sem ti
na madrugada de mais um desmaio.