segunda-feira, 11 de outubro de 2021
transparência e luz no teu aniversário
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
intermezzo osculatório
O averiguador consultava a ocorrência num papel. Responda-me só a uma coisa, senhor...
Pergunte, respondeu o senhor, sem se incomodar com as reticências.
Vejo que está calmo. Não se preocupa?
Com quê?
Com o que pode vir a acontecer-lhe. Sobretudo, com o que pode vir a acontecer à sua mulher.
Bastante.
Não parece. Talvez não saiba que pode ter de cá passar esta noite. Esta e outras... Que pensa disso?
É como disse. Preocupo-me.
Sim, claro. Preocupa-se. Já agora, pode explicar-me melhor com quê?
Com tudo. Com o que possa ter feito. Com o que os outros possam pensar de mim. Sobretudo, com a passagem do tempo.
O averiguador não queria acreditar. O meu amigo não pode dizer isso. É óbvio que não se preocupa. Está a esquecer-se da razão por que devia preocupar-se a sério.
Beijei a minha mulher, não é?
Ó meu amigo, beijou-a quando ela estava desprevenida e beijou-a à moda antiga. Sem um contrato prévio e sem máscara osculatória. É óbvio que não se preocupa com a opinião dos outros. É ainda mais óbvio que não se preocupa com a saúde dela. E, claro, não se preocupa nada com a lei.
Se eu lhe disser que provavelmente estava a dormir? Que estava no meio de um sonho quando o fiz?
Dormia, pois então. Acordemos em que dormia. Mas o que fez ao certo, enquanto dormia?
Aproximei-me dela, está visto. Só isso.
Só isso? Só isso seria muito. Mas parece-me que não foi só isso, pois não?
Recordo-me de que ela acordou aos gritos.
E de que se recorda mais quando ela acordou aos gritos?
Os meus lábios confundiam-se com os dela. Mas num primeiro instante...
A frase ficou presa porque nos lábios do averiguador se desenhou uma breve mas indesmentível onda de repulsa, que tentou disfarçar com um incentivo a que o outro continuasse. Num primeiro instante?
Num primeiro instante, os lábios dela pareciam dançar com os meus. Senti como antigamente a humidade da sua boca, o veludo da sua língua. No princípio estranhei. Éramos de novo aprendizes. Não beijávamos há... Não nos beijávamos desde a proibição.
À palavra proibição, sem espera nem disfarce, o averiguador olhou para o averiguado com o sorriso largo de quem obtinha por fim o que desejava. A sua mulher está em choque pelo crime cometido.
Mas ela parecia corresponder.
Ela estava a dormir. De qualquer modo...
De qualquer modo parecia corresponder.
Não é essa a informação que temos. A sua mulher não concordou com o beijo. Acordou aos gritos, apresentou queixa de imediato e a informação que tenho do centro de quarentena é de que vive em sobressalto com receio de estar contaminada. Não está arrependido?
O averiguado soltou um suspiro e, pela primeira vez, pareceu reconhecer o seu erro. É a minha mulher. Estávamos a sonhar.
Isso para mim são pormenores que só no julgamento serão tidos em conta. O que eu sei e o que apenas me interessa é que a beijou sem o seu consentimento, o que significa que ela é vítima de um crime e não cúmplice, como tem querido fazer-me crer.
Crime...
Sim. Há mais de uma década que os beijos estão proibidos e há mais de meia que foi agravada a moldura penal para quem os dá. Existem, como sabe, certos procedimentos obrigatórios para quem opta por gestos afectuosos. No mínimo são necessários um contrato escrito entre os osculantes e o uso de máscaras osculatórias por ambos.
Eu sei, mas...
Mas estava a dormir.
O averiguado baixou a cabeça e desistiu da defesa. Talvez não estivesse.
Aliviado, o averiguador deixou que um silêncio crescesse sobre as lágrimas que começavam a escorrer no rosto do outro. Vamos, não esteja assim. Toda a gente comete erros. O passo principal já foi dado ao reconhecer o crime. Agora é pagar por ele e seguir em frente. Retocou a máscara para se certificar de que estava bem colada ao nariz, levantou-se e mandou vir o carcereiro. Passa cá a noite e amanhã é apresentado ao juiz.
Já se faziam choro largo as lágrimas do criminoso. Enquanto o carcereiro o encaminhava para a cela, apenas pôde pronunciar, entre soluços, Por favor, avisem a minha mulher...
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
agua selenita
Ayer viajé a la Luna por el agua que te gusta. Me dijeron en todos los mercados que ahora su venta es prohibida a extranjeros, que solo la pueden comprar los selenitas. Sin embargo, hubo un selenita que me prometió una botella. Una sola, por un precio que casi no puedo.
Mañana es tu cumpleaños y me iré a buscarla. Quizás sea mi ultimo viaje, cariño. Poco a poco se van acabando nuestros intereses fuera de Marte.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
a morte deles (2011)
foi o caso da morte deles nela ocorreu de repente e
um dia sentada no sofá a ver televisão deu-se conta olha eu e o antónio morremos
para ele foi mais difícil a morte deles nele foi programada e as coisas programadas são menos fiáveis é como ter de tomar uma catrefa de comprimidos todos os dias basta esquecer um para as coisas darem para o torto
quinta-feira, 4 de abril de 2013
reaferição (2011)
mas disseram-me que não é bem assim e que se tiver cuidado ainda posso viver uns dez a vinte anos
quando sair daqui vou comprar um daqueles canais de cinema sento-me no sofá e ponho-me a ver filmes românticos o dia inteiro dizem que faz bem ao coração
também sou capaz de voltar a comer chocolate tenho descurado o chocolate há coisas na vida de que só me lembro quando se vão e outras de que só me lembro quando as reencontro é o caso do chocolate
já da maria nunca me esqueço que saudades da maria se calhar também lhe telefono ou não se calhar ela não iria querer pôr-se ao meu lado no sofá a ver filmes românticos nós passávamos os dias na horizontal em forma e alagados em suor não não íamos habituar-nos a este problemazinho que agora tenho no coração além disso ela já está bem acompanhada
o médico garantiu que isto não tem necessariamente de mudar a minha vida dependerá de mim vai poder continuar a dormir com mulheres joão mas claro uma de cada vez e durante menos tempo do que antes
dormir perguntei muito sério e ele sorriu aproveitando para dizer que dormir dormir até pode ser mais do que antes as maratonas essas é que acabaram
disse-me também que os cães são boa ideia mas que se calhar era melhor eu ficar só com um mas doutor não me disse que ainda tenho o coração todo? ele não percebeu logo fez uma pausa e avisou-me todo mas um pouco mais fraquinho
se calhar sendo assim não vou viver os mais dez a vinte anos os cães são velhinhos bastar-me-ia morrer com eles aliás nem quero mais nada até porque a maria toda a gente sabe anda toda maluquinha lá pelo inglês da pila grande ou pela pila grande do inglês ela não se alongou em explicações e as poucas em que se alongou não me faziam assim tanta falta
quanto ao vinho ainda não falei disso com o médico tenho um certo pudor e acho que ele está de pé atrás com a minha veia etílica
mas sempre vou ouvindo dizer que ...
segunda-feira, 25 de março de 2013
mulher
segunda-feira, 4 de março de 2013
dormir de lado
sexta-feira, 1 de março de 2013
a cor das coisas
As coisas não têm cor porque a cor que têm depende da radiação que absorvem, da radiação que emitem e dos olhos que as vêem: isto foi o que eu levei toda a noite a descobrir nos livros. Mas para mim isso não é não terem cor, é terem infinitas cores mesmo que se diga que só têm uma. E também é assim para o André. Quando acordei de uma noite mal dormida, ele estava ao pé de mim com um segredo para me dizer:
quinta-feira, 3 de maio de 2012
amor tão certo
E, no entanto, confessou-me que o comprimento da cama é todo feito de um nome e da certeza de que ama.
Que só dormindo, aliás, e em sonhos te guarda perto, que a vigília nunca traz o prémio de amor tão certo.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
o beijo
Nem pestanejava; mesmo quando calmei a procura e me caiu um estrondo na cara, o gritinho no lugar do morto não soprou o seu lugar de esfinge.
A estrada corria-lhe silenciosa sob o artifício das mãos enquanto ao espelho da pala eu examinava se ardia.
Entretanto era Coimbra e a cem metros do fim um semáforo fechava. Olhei-a de lado, pesei quietude, concluí aquiescência, ajeitei-me para outro ensaio.
Já o carro arrancava, já eu dormia para não ter medo. Tentei despertar-lhe a boca. Sem resultado: não creio que tivesse havido beijo. A sua cabeça inclinou-se leve, é um facto, mas para que a avenida não fugisse; e o talvez respirado e húmido da viagem não indiciava luta nem abandono.
Voltei a encostar-me como se costuma, fixando o pára-brisas com perseverança, a dos mortos, a dela. No vaivém das escovas chovia como quando somos tristes.
Segundo estrondo, de novo sem arma. Largou-me à frente da porta, simpática como nunca, sorrindo, «adeus, até amanhã».
Uma semana depois, dentro do carro o silêncio continuava maior.
Imóveis. Carnudos. Procurei. Estrondo.
Chovia e já estávamos parados no semáforo triste. Foi, então, que percebi: os beijos não se roubam, negoceiam-se. Assim, arranquei o braço direito antes de sair e pu-lo no banco traseiro, «Guardas-mo?».
O braço faz falta mas eu quero muito encontrar o beijo. Além disso, há dias deu-se um pequeno desenvolvimento: ajudou-me a enganchar o cinto de segurança e até roçou a mão na minha.
Virei-me para o banco traseiro a espreitar se trazia o braço. Não, talvez estivesse na mala; portanto, só procurei o beijo ao pressentimento do semáforo.
Novo estrondo.
Chovia e eu era maneta. À despedida, pensei que não estava a dar o máximo. Por isso, arranquei a perna esquerda. «Guardas-ma?»
Chovia muito, estava triste como nunca, tinha pena de ainda não ter encontrado o beijo. Encostei-me à parede e fiquei a ver o carro afastar-se: parecia menos vermelho do que habitualmente, talvez por a chuva cair com muita força sobre o tejadilho.
Saltitei.
Ontem estive todo o dia à espera. Telefonei-lhe várias vezes mas só me responde uma voz a dizer que o número não está atribuído.
Que bom, ela ter subido comigo há duas semanas, antes de eu lhe ter entregado a outra perna.
Há pouco, faltou-me bexiga para mais uma gota. Apesar de já não ser tão difícil como a princípio, ainda custa muito arrastar-me até ao quarto de banho e sentar-me na sanita.
Daqui a pouco, deveria ir trabalhar. Mas ainda preciso de uns dias de repouso. Desconfio, também, que é mais fácil encontrar o beijo se ficar em casa, à espera de que ela mo venha entregar.
Chove imenso.
Ainda é noite.
Tenho medo.
terça-feira, 3 de maio de 2011
último conto
veio a desistência dos braços e ele caiu ao chão
o que se fez então? como se calmou o choro? quanto se esperou para ensiná-lo a gatinhar?
perguntas estúpidas: o amor estava morto
sexta-feira, 29 de abril de 2011
labor perverso
para prolongar a palha dos dias
para renascer o fim e acarinhar as derrotas
para lembrar o que já esqueceu aos que um dia estiveram aqui
é para não morrer que morro
quarta-feira, 27 de abril de 2011
pressa
não estranhou o beijo que ela não procurou e era-lhe impossível recordar se algum dia se tinham querido
falou com os filhos mas um deus movimentava a noite numa daquelas impaciências antigas
teve a certeza de que esse deus era invejoso quando a mulher que era qualquer mulher se aproximou
antónio temos de falar
não era preciso ele já sabia
segunda-feira, 11 de abril de 2011
se tanto
alta mas alta mesmo_____se não tem dois metros pouco há-de faltar
e pagou um copo a todos os que estavam a ver a bola
pessoal esta é a hannelore a minha namorada
é alemã
o dionísio tem um metro e setenta mais coisa menos coisa_____mas sentados pouco se notava a diferença
pediu uma água de meio litro para ela e bebeu a sua cerveja pela garrafa parecia um pouco irrequieto e exprimia-se numa salganhada inglesa
partiram com um sorriso_____ela baixando a cabeça para controlar melhor a altura da porta_____ele alçando a mão para lhe cingir a cintura
uma cumplicidade baixou sobre as cervejas pagas
ninguém lhes dá uma semana
um sonho qualquer
mas só há alguns meses é que reparei: quando o semáforo para peões está fechado ele repete o quarteirão e se isso é impossível por algum motivo refaz a calçada em sentido contrário e retorna
há dias troquei-lhe as voltas e do outro lado da rua sempre sem ser visto acompanhei-lhe o percurso
descobri assim que ele vai até à praça do comércio vira à esquerda quando já não não pode ir em frente e segue na direcção da gare de santa apolónia com as necessárias repetições de quarteirão
depois de ali chegar estuga ainda mais o passo ou assim me pareceu e campo das cebolas rua da madalena regressa à rua da palma para finalmente entrar na pastelaria a eira já na rua de angola
aqui sem se sentar bebe um garoto e um copo de água isto pelas nove e meia a hora precisa dependerá da exigência dos quarteirões
de seguida sai e vira à esquerda pela rua do forno do tijolo agora cabisbaixo pé que espera pé mão deslizando pela calva pensativa
ontem respirei coragem e pus-me de amigo com o seu derrotado andar das dez perguntei-lhe:
porquê?
ele deteve-se para me encarar
nos seus olhos brilhava um sonho que talvez ninguém possa entender
e desatou a correr
domingo, 10 de abril de 2011
herói
mas a nossa amizade dera um par de voltas ao mundo e ele precisava de cumprir a promessa
foi por isso que mandou vir o que se chamava filósofo
o que se chamava filósofo apareceu com o sorriso de sempre os gestos abertos e o olhar um pouco mais à direita
o que é? quis saber
é isto
o meu amigo espetou-lhe então o unicórnio na garganta com toda a força e rodou a cabeça para um e outro lado
um minuto depois afastou-se e recebeu os aplausos como se nada tivesse acontecido
dirigiu-se à saída e levantou voo
sexta-feira, 8 de abril de 2011
? - 8 de abril
via tudo à roda e um ou dois segundos depois embateu violentamente contra a parede
o senhor da casa apanhou-a do chão com muito cuidado e acomodou-a numa caixinha de fósforos vazia
foi à procura de ajuda
mas ela viria a falecer pouco antes do meio-dia: todos os bons entomiatras tinham escapado à cidade
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
.
sem freio nem rêdeas nu dos artifícios que lhe impunha o homem que o chama de seu não repetindo caminhos nas distâncias que repete
perdido quase de tão perdido que vai de repente estaca e contempla no olhar de lado o rio que sempre lhe viajou ao lado
bebe de quanto precisa mas ainda não sabe se regressa
terça-feira, 9 de novembro de 2010
oráculo
a noite cairá de repente
e ele já estará morto
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
ignoto ofício
se tu soubesses quantas mãos se enchem da tardinha para que se continue a vestir de espuma a lua minguante
se tu soubesses que ainda se esconde a eternidade na cinza das primeiras manhãs
se tu soubesses como se busca por entre estilhaços de ar o ar que trazias inteiro
se tu soubesses a batalha ininterrupta contra a rendição