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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

transparência e luz no teu aniversário







parti de lisboa     madrugada ainda
    para aqui chegar antes da confusão
    por isso alunei algumas horas antes
    da hora em que é comum abrirem os mercados
queria à-vontade para investigar
    todas as ofertas através das montras
    espreitar o líquido mais importante
    avaliar     talvez     os preços mais em conta
mas devo dizer-te que esta minha ideia
    logo desde o início me pareceu má
    pois nada encontrei dessa lua saudosa
    onde fomos jovens e nos conhecemos
tudo está mudado     nada lembra os dias
    em que os dias eram de hoje e entusiasmo
    sem a demasia de amanhãs e esperas
percorri cidades     aldeias e vilas
    e     dentro de todas     ruas avenidas
    sempre em busca de água     essa água cristalina
    em cujo sabor matávamos a sede
mas também aqui se vão impondo a sede
    e os gestos com que ela não se intensifique
    também aqui a água é paga a peso de ouro
    apesar de muita e menos poluída
de nada serviram os tempos antigos
    de bom selenita     mineiro capaz
    já ninguém se lembra de quanto entreguei
    para a construção deste mundo habitável
a única mensagem que me transmitiram
    é a de que está proibida a terráqueos
    a venda de bens     abundantes ou não
    que tenham origem no solo lunar
pouco lhes importa que o meu bisavô
    tenha aqui nascido     inteiro para a lua
    e que o seu avô tivesse combatido
    para aqui morrer durante meio século
    e que há poucos anos eu tivesse sido
    um dos que inventaram este paraíso
para resumir-te todo o meu sucesso
    dir-te-ei     sem sorriso     que apesar de tudo
    alguém mais ousado enfim me prometeu
    o mais bem medido litro e meio de água
    numa das melhores garrafas de plástico
    a um preço acessível entre os excessivos
está pronta amanhã     tem calma que haverá
    transparência e luz no teu aniversário
    vais poder matar um pouquinho da sede
    saltando uma ou duas dessas dez pastilhas
    com que diariamente tentamos esquecê-la
mas olha     maria     não é só na terra
    que a água potável se tornou tesouro
muito em breve     a lua será outro mais
    desses cemitérios de antigas demandas
    que vão construindo as invenções do homem
não temos futuro     talvez esta seja
    a última das minhas viagens à lua

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

intermezzo osculatório


O averiguador consultava a ocorrência num papel. Responda-me só a uma coisa, senhor...

Pergunte, respondeu o senhor, sem se incomodar com as reticências.

Vejo que está calmo. Não se preocupa?

Com quê?

Com o que pode vir a acontecer-lhe. Sobretudo, com o que pode vir a acontecer à sua mulher.

Bastante.

Não parece. Talvez não saiba que pode ter de cá passar esta noite. Esta e outras... Que pensa disso?

É como disse. Preocupo-me.

Sim, claro. Preocupa-se. Já agora, pode explicar-me melhor com quê?

Com tudo. Com o que possa ter feito. Com o que os outros possam pensar de mim. Sobretudo, com a passagem do tempo.

O averiguador não queria acreditar. O meu amigo não pode dizer isso. É óbvio que não se preocupa. Está a esquecer-se da razão por que devia preocupar-se a sério.

Beijei a minha mulher, não é?

Ó meu amigo, beijou-a quando ela estava desprevenida e beijou-a à moda antiga. Sem um contrato prévio e sem máscara osculatória. É óbvio que não se preocupa com a opinião dos outros. É ainda mais óbvio que não se preocupa com a saúde dela. E, claro, não se preocupa nada com a lei.

Se eu lhe disser que provavelmente estava a dormir? Que estava no meio de um sonho quando o fiz?

Dormia, pois então. Acordemos em que dormia. Mas o que fez ao certo, enquanto dormia?

Aproximei-me dela, está visto. Só isso.

Só isso? Só isso seria muito. Mas parece-me que não foi só isso, pois não?

Recordo-me de que ela acordou aos gritos.

E de que se recorda mais quando ela acordou aos gritos?

Os meus lábios confundiam-se com os dela. Mas num primeiro instante...

A frase ficou presa porque nos lábios do averiguador se desenhou uma breve mas indesmentível onda de repulsa, que tentou disfarçar com um incentivo a que o outro continuasse. Num primeiro instante?

Num primeiro instante, os lábios dela pareciam dançar com os meus. Senti como antigamente a humidade da sua boca, o veludo da sua língua. No princípio estranhei. Éramos de novo aprendizes. Não beijávamos há... Não nos beijávamos desde a proibição.

À palavra proibição, sem espera nem disfarce, o averiguador olhou para o averiguado com o sorriso largo de quem obtinha por fim o que desejava. A sua mulher está em choque pelo crime cometido.

Mas ela parecia corresponder.

Ela estava a dormir. De qualquer modo...

De qualquer modo parecia corresponder.

Não é essa a informação que temos. A sua mulher não concordou com o beijo. Acordou aos gritos, apresentou queixa de imediato e a informação que tenho do centro de quarentena é de que vive em sobressalto com receio de estar contaminada. Não está arrependido?

O averiguado soltou um suspiro e, pela primeira vez, pareceu reconhecer o seu erro. É a minha mulher. Estávamos a sonhar.

Isso para mim são pormenores que só no julgamento serão tidos em conta. O que eu sei e o que apenas me interessa é que a beijou sem o seu consentimento, o que significa que ela é vítima de um crime e não cúmplice, como tem querido fazer-me crer.

Crime...

Sim. Há mais de uma década que os beijos estão proibidos e há mais de meia que foi agravada a moldura penal para quem os dá. Existem, como sabe, certos procedimentos obrigatórios para quem opta por gestos afectuosos. No mínimo são necessários um contrato escrito entre os osculantes e o uso de máscaras osculatórias por ambos.

Eu sei, mas...

Mas estava a dormir.

O averiguado baixou a cabeça e desistiu da defesa. Talvez não estivesse.

Aliviado, o averiguador deixou que um silêncio crescesse sobre as lágrimas que começavam a escorrer no rosto do outro. Vamos, não esteja assim. Toda a gente comete erros. O passo principal já foi dado ao reconhecer o crime. Agora é pagar por ele e seguir em frente. Retocou a máscara para se certificar de que estava bem colada ao nariz, levantou-se e mandou vir o carcereiro. Passa cá a noite e amanhã é apresentado ao juiz.

Já se faziam choro largo as lágrimas do criminoso. Enquanto o carcereiro o encaminhava para a cela, apenas pôde pronunciar, entre soluços, Por favor, avisem a minha mulher...


in Saúde Ambiental - Caderno de notas soltas, Eds.: Ricardo R. Santos, Osvaldo Santos e António Vaz Carneiro (ISAMB - Instituto de Saúde Ambiental)

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

agua selenita


Ayer viajé a la Luna por el agua que te gusta. Me dijeron en todos los mercados que ahora su venta es prohibida a extranjeros, que solo la pueden comprar los selenitas. Sin embargo, hubo un selenita que me prometió una botella. Una sola, por un precio que casi no puedo.

Mañana es tu cumpleaños y me iré a buscarla. Quizás sea mi ultimo viaje, cariño. Poco a poco se van acabando nuestros intereses fuera de Marte.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

a morte deles (2011)

há mortes assim     que surgem com vidas que chegam
foi o caso da morte deles nela     ocorreu de repente e
um dia     sentada no sofá a ver televisão     deu-se conta     olha     eu e o antónio morremos

para ele foi mais difícil     a morte deles nele foi programada e as coisas programadas são menos fiáveis     é como ter de tomar uma catrefa de comprimidos todos os dias     basta esquecer um para as coisas darem para o torto

quinta-feira, 4 de abril de 2013

reaferição (2011)

agora estou bastante mais calmo     mas a seguir ao ataque tive medo     imaginava que uma grande parte do meu coração estivesse morta para sempre
mas disseram-me que não é bem assim e que     se tiver cuidado     ainda posso viver uns dez a vinte anos

quando sair daqui     vou comprar um daqueles canais de cinema     sento-me no sofá e ponho-me a ver filmes românticos o dia inteiro     dizem que faz bem ao coração
também sou capaz de voltar a comer chocolate     tenho descurado o chocolate          há coisas na vida de que só me lembro quando se vão e outras de que só me lembro quando as reencontro      é o caso do chocolate


já da maria nunca me esqueço     que saudades da maria          se calhar também lhe telefono          ou não     se calhar ela não iria querer pôr-se ao meu lado no sofá a ver filmes românticos          nós passávamos os dias na horizontal     em forma e alagados em suor          não     não íamos habituar-nos a este problemazinho que agora tenho no coração     além disso ela já está bem acompanhada

o médico garantiu que isto não tem necessariamente de mudar a minha vida     dependerá de mim          vai poder continuar a dormir com mulheres     joão     mas     claro     uma de cada vez e durante menos tempo do que antes
dormir     perguntei muito sério          e ele sorriu     aproveitando para dizer que dormir dormir até pode ser mais do que antes     as maratonas     essas é que acabaram

disse-me também que os cães são boa ideia mas que     se calhar     era melhor eu ficar só com um          mas     doutor     não me disse que ainda tenho o coração todo?          ele não percebeu logo     fez uma pausa e avisou-me     todo mas um pouco mais fraquinho

se calhar     sendo assim     não vou viver os mais dez a vinte anos          os cães são velhinhos     bastar-me-ia morrer com eles          aliás     nem quero mais nada     até porque a maria     toda a gente sabe     anda toda maluquinha lá pelo inglês da pila grande     ou pela pila grande do inglês     ela não se alongou em explicações e as poucas em que se alongou não me faziam assim tanta falta

quanto ao vinho     ainda não falei disso com o médico     tenho um certo pudor     e acho que ele está de pé atrás com a minha veia etílica
mas sempre vou ouvindo dizer que ...

segunda-feira, 25 de março de 2013

mulher

Dionísio não é maroto. Apenas sorri porque ouve dela o que nele cala fundo. E lembra-se de quando não sentia o tempo nas mãos porque ela não lhe dava as suas. E percebe que o tempo desliza de novo para fora do corpo.

Ainda e sempre, ela mordisca-lhe o coração e fecha-lhe os olhos. Ainda e sempre, ela é a mulher.

segunda-feira, 4 de março de 2013

dormir de lado

“O João dizia que não sonhava, o que não é verdade. Não queremos dizer que ele estivesse a mentir, simplesmente não estava a dizer a verdade.” Era mais ou menos isto que garantia o livro que ela estava a ler, num capítulo dedicado aos sonhos. Embora o dissesse de um modo muito diferente e fizesse de conta que não conhecia o João.

E era verdade, o João sonhava, sim. Sonhava os sonhos dela. Esses sonhos estranhos e disparatados, tanta coisa que a cansa e que a desperta sem energia, tanta coisa que ele acariciava na sua nuca: “Está tudo bem, querida. Eu vou contigo.” E depois dava-lhe um beijo e a seguir entrava no seu sono e então repartia os cansaços com ela.

Tinha saudades do João. Tanto que ele lhe queria dar. Tão pouco que ela deixou.

sexta-feira, 1 de março de 2013

a cor das coisas

Na sexta-feira passada, o André chegou da escola com esta: “Ó mãe, tu sabias que as coisas não têm cor?" Não soube explicar porquê, mas garantiu: "Não têm mesmo, mãe, o professor disse que não têm."

O jantar foi diferente. Afinal, tudo o que estava na mesa era mentira. A sopa, as batatas, as cenouras, o bacalhau, a gelatina. Tudo sem cor. A camisolinha azul, tão bonita, que eu ofereci no outro dia ao meu filho, os olhos verdes que ele me roubou. Não, não tinham cor. Se calhar nem existem.

E o problema é que agora nós sabíamos. Que coisa esta, as coisas não terem cor.

Mas, como dizia o meu pai, "estamos perante um excesso de zelo". É como dizer que o sol nunca nasce e o sol nunca se põe. Claro que nasce e claro que se põe, isso faz muito mais parte de nós do que ter a certeza de que é a terra que o procura e o esconde.

As coisas não têm cor porque a cor que têm depende da radiação que absorvem, da radiação que emitem e dos olhos que as vêem: isto foi o que eu levei toda a noite a descobrir nos livros. Mas para mim isso não é não terem cor, é terem infinitas cores mesmo que se diga que só têm uma. E também é assim para o André. Quando acordei de uma noite mal dormida, ele estava ao pé de mim com um segredo para me dizer:

“Ó mãe, as coisas têm cor, sim. O professor é que tem de voltar a aprender como se pintam.”

quinta-feira, 3 de maio de 2012

amor tão certo


Voltou a pegar no mundo bem depois do meio-dia, sempre aquele olhar defunto de quem já nada aprecia.

E, no entanto, confessou-me que o comprimento da cama é todo feito de um nome e da certeza de que ama.

Que só dormindo, aliás, e em sonhos te guarda perto, que a vigília nunca traz o prémio de amor tão certo.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

o beijo


Nem pestanejava; mesmo quando calmei a procura e me caiu um estrondo na cara, o gritinho no lugar do morto não soprou o seu lugar de esfinge.
A estrada corria-lhe silenciosa sob o artifício das mãos enquanto ao espelho da pala eu examinava se ardia.
Entretanto era Coimbra e a cem metros do fim um semáforo fechava. Olhei-a de lado, pesei quietude, concluí aquiescência, ajeitei-me para outro ensaio.
Já o carro arrancava, já eu dormia para não ter medo. Tentei despertar-lhe a boca. Sem resultado: não creio que tivesse havido beijo. A sua cabeça inclinou-se leve, é um facto, mas para que a avenida não fugisse; e o talvez respirado e húmido da viagem não indiciava luta nem abandono.
Voltei a encostar-me como se costuma, fixando o pára-brisas com perseverança, a dos mortos, a dela. No vaivém das escovas chovia como quando somos tristes.
Segundo estrondo, de novo sem arma. Largou-me à frente da porta, simpática como nunca, sorrindo, «adeus, até amanhã».


Uma semana depois, dentro do carro o silêncio continuava maior.
Imóveis. Carnudos. Procurei. Estrondo.
Chovia e já estávamos parados no semáforo triste. Foi, então, que percebi: os beijos não se roubam, negoceiam-se. Assim, arranquei o braço direito antes de sair e pu-lo no banco traseiro, «Guardas-mo?».


O braço faz falta mas eu quero muito encontrar o beijo. Além disso, há dias deu-se um pequeno desenvolvimento: ajudou-me a enganchar o cinto de segurança e até roçou a mão na minha.
Virei-me para o banco traseiro a espreitar se trazia o braço. Não, talvez estivesse na mala; portanto, só procurei o beijo ao pressentimento do semáforo.
Novo estrondo.
Chovia e eu era maneta. À despedida, pensei que não estava a dar o máximo. Por isso, arranquei a perna esquerda. «Guardas-ma?»
Chovia muito, estava triste como nunca, tinha pena de ainda não ter encontrado o beijo. Encostei-me à parede e fiquei a ver o carro afastar-se: parecia menos vermelho do que habitualmente, talvez por a chuva cair com muita força sobre o tejadilho.
Saltitei.


Ontem estive todo o dia à espera. Telefonei-lhe várias vezes mas só me responde uma voz a dizer que o número não está atribuído.
Que bom, ela ter subido comigo há duas semanas, antes de eu lhe ter entregado a outra perna.
Há pouco, faltou-me bexiga para mais uma gota. Apesar de já não ser tão difícil como a princípio, ainda custa muito arrastar-me até ao quarto de banho e sentar-me na sanita.
Daqui a pouco, deveria ir trabalhar. Mas ainda preciso de uns dias de repouso. Desconfio, também, que é mais fácil encontrar o beijo se ficar em casa, à espera de que ela mo venha entregar.
Chove imenso.
Ainda é noite.
Tenho medo.
(Publicado no jornal universitário A Cabra de 20-10-2011:

terça-feira, 3 de maio de 2011

último conto

era uma vez um amor criança de colo
veio a desistência dos braços e ele caiu ao chão
o que se fez então? como se calmou o choro? quanto se esperou para ensiná-lo a gatinhar?

perguntas estúpidas: o amor estava morto

sexta-feira, 29 de abril de 2011

labor perverso

o pior é que muitas vezes escrevo
para prolongar a palha dos dias
para renascer o fim e acarinhar as derrotas

para lembrar o que já esqueceu aos que um dia estiveram aqui

é para não morrer que morro

quarta-feira, 27 de abril de 2011

pressa

quando ele chegou a casa     a sua mulher era qualquer mulher
não estranhou o beijo que ela não procurou e era-lhe impossível recordar se algum dia se tinham querido
falou com os filhos mas um deus movimentava a noite numa daquelas impaciências antigas

teve a certeza de que esse deus era invejoso quando a mulher que era qualquer mulher se aproximou
antónio temos de falar

não era preciso     ele já sabia

segunda-feira, 11 de abril de 2011

se tanto

o dionísio reapareceu com a sua última
alta mas alta mesmo_____se não tem dois metros pouco há-de faltar
e pagou um copo a todos os que estavam a ver a bola

pessoal esta é a hannelore a minha namorada
é alemã

o dionísio tem um metro e setenta mais coisa menos coisa_____mas sentados pouco se notava a diferença

pediu uma água de meio litro para ela e bebeu a sua cerveja pela garrafa parecia um pouco irrequieto e exprimia-se numa salganhada inglesa

partiram com um sorriso_____ela baixando a cabeça para controlar melhor a altura da porta_____ele alçando a mão para lhe cingir a cintura

uma cumplicidade baixou sobre as cervejas pagas

ninguém lhes dá uma semana

um sonho qualquer

o estuga     como eu lhe chamo     passa por mim todas as manhãzinhas    de guarda-chuva e pasta na mão
mas só há alguns meses é que reparei: quando o semáforo para peões está fechado     ele repete o quarteirão          e se isso é impossível por algum motivo     refaz a calçada em sentido contrário e retorna

há dias troquei-lhe as voltas e     do outro lado da rua     sempre sem ser visto     acompanhei-lhe o percurso
descobri assim que ele vai até à praça do comércio     vira à esquerda quando já não não pode ir em frente e segue na direcção da gare de santa apolónia com as necessárias repetições de quarteirão

depois de ali chegar     estuga ainda mais o passo     ou assim me pareceu    e campo das cebolas rua da madalena regressa à rua da palma para finalmente entrar na pastelaria a eira     já na rua de angola

aqui     sem se sentar     bebe um garoto e um copo de água     isto pelas nove e meia      a hora precisa dependerá da exigência dos quarteirões
de seguida sai e vira à esquerda pela rua do forno do tijolo          agora cabisbaixo     pé que espera pé     mão deslizando pela calva pensativa

ontem respirei coragem e pus-me de amigo com o seu derrotado andar das dez          perguntei-lhe:
porquê?

ele deteve-se para me encarar
nos seus olhos brilhava um sonho que talvez ninguém possa entender

e desatou a correr

domingo, 10 de abril de 2011

herói

entrou manso e escolheu um canto
mas a nossa amizade dera um par de voltas ao mundo e ele precisava de cumprir a promessa
foi por isso que mandou vir o que se chamava filósofo

o que se chamava filósofo apareceu com o sorriso de sempre     os gestos abertos e o olhar um pouco mais à direita

o que é? quis saber

é isto

o meu amigo espetou-lhe     então     o unicórnio na garganta com toda a força e rodou a cabeça para um e outro lado
um minuto depois afastou-se e recebeu os aplausos como se nada tivesse acontecido


dirigiu-se à saída e levantou voo

sexta-feira, 8 de abril de 2011

? - 8 de abril

sentiu uma picada na asinha direita e começou a perder altura
via tudo à roda e um ou dois segundos depois embateu violentamente contra a parede

o senhor da casa apanhou-a do chão com muito cuidado e acomodou-a numa caixinha de fósforos vazia
foi à procura de ajuda

mas ela viria a falecer pouco antes do meio-dia: todos os bons entomiatras tinham escapado à cidade

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

.

o cavalo célere procura um rio a beber
sem freio nem rêdeas     nu dos artifícios que lhe impunha o homem que o chama de seu     não repetindo caminhos nas distâncias que repete

perdido quase     de tão perdido que vai     de repente estaca e contempla no olhar de lado o rio que sempre lhe viajou ao lado

bebe de quanto precisa mas ainda não sabe se regressa

terça-feira, 9 de novembro de 2010

oráculo

vai preparar o chá das cinco     ensaiar as notas desafinadas da última canção que te fez     sentar no sofá o cavalo que lhe galopa o coração enquanto espera por ti

a noite cairá de repente

e ele já estará morto

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

ignoto ofício

se tu soubesses das voltas que a cama tem e das estrelas que ao quarto descem para que a noite seja um destino
se tu soubesses quantas mãos se enchem da tardinha para que se continue a vestir de espuma a lua minguante
se tu soubesses que ainda se esconde a eternidade na cinza das primeiras manhãs
se tu soubesses como se busca por entre estilhaços de ar o ar que trazias inteiro
se tu soubesses a batalha ininterrupta contra a rendição