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sexta-feira, 22 de maio de 2026

primeiro café da tarde lv (para Q.)


Não estou desta casa que luz todo o dia

e nem desse inferno

que às vezes se instala

no azul do que agora

parece de fora.

Não sou.

Passadiço sempre onde me pus,

a lápis e giz tracei

o meu tempo em al-Andalus.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

primeiro café da tarde liv (3 nov. 2025)

 

Este amor?

                    Simples inércia

de retiro,

            um só resíduo

de alma atenta que o disseque.

À luz fátua da solécia,

sempre vão, sempre decíduo,

parece ouro.

                    É pechisbeque.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

primeiro café da tarde LIII — desagosto


 

em agosto não te chateio    por isso não te chateies


seria de bastante mentecapto aos nossos anos

eu não ter ainda entendido que em agosto

mudas de mundo e deixas em espera este mundo tão

                    desagostoso

que é o nosso e que por definição

te azucrina os miolos


quando regressares    no início do longo

                    desagosto

que te é pausa de vida e inverno por inteiro

pensarás como sempre sóis     e eu bem sei que sempre sóis


trezentos e trinta e quatro

    são os sóis por que se estende

    esta peça de teatro

    que já nada surpreende

cansa-me a tua presença

    antóneo    ah quanto me cansa

    quanto me deixa hipertensa

    essa tua pose mansa

não me dês cabo da mona

    se o bom senso to permite

    estou farta    assim não funciona

    estou para lá do limite

há já vinte anos que agosto

    é a ausência do teu rosto


e eu    maria    já não farei o que sempre fiz    pois de

existir persistir insistir

me cansei

desta vez hei de oferecer-te agosto depois de agosto

acabou-se o teu desagosto

é hora de eu desistir

quarta-feira, 30 de julho de 2025

primeiro café da tarde LII — distanciamento


tu não te ponhas tão séria a pensar no que é preciso fazer

podes fechar os olhos    isso podes    calcular a média por alto

            não tem de ser ponderada nem tem de ser

            com a emoliente e estorvante atenção que minimize o erro

            não te martirizes com decimais    negligencia até a importância

            do algarismo das unidades

podes aproveitar isto sem ser aluna exemplar     sabes?    basta que te lembre

de quando em vez a aferição da distância    essa distância em que

não te vejas tão de perto

            como diria o outro    isso é uma tragédia

nem te vejas tão de longe

            como costumo dizer eu     isso não é nada

antes possas apreciar a diluição da lágrima no sorriso e deste no riso

enquanto     como diria aquele mesmo outro    se precipita

a comédia

terça-feira, 29 de julho de 2025

primeiro café da tarde LI — Lia e a contagem das sílabas


não é por     baquetas     os meus dedos tamborilarem o tampo da mesa

que a gata deixa de ser gata

no insolente âmbar dos seus olhos arde

o fascínio que prepara o rebate


tu não estás quem há pouco ronronava

    murmuro em decassílabo perfeito

    quando atento na cena e me distraio

    no labor digital de outro soneto

não há problema    ó lia    ultimamente

não sei porquê    malbaratei o ritmo

e a precisão das sílabas no verso

já só os dedos podem confirmar-ma


ela desvia o olhar pela primeira vez

e eu pela segunda liberto os dedos

um dois três quatro seis    sete oito dez

um dois três quatro    seis sete oi    to dez

em busca de outros modos e melhores

de ensinar o que nunca pratiquei


eis senão quando o rebate se dá

a unhada    o mio

    deixa-te disso    poeta malandro    estás a irritar-me

e o sangue mancha-me o último terceto

e a dor lancina-me os versos restantes


ah    ingrata    estragaste-me o soneto


estraguei-te o soneto?

mas tu não percebeste nada    antóneo?

a contagem era péssima e    à parte isso    o soneto

era uma porcaria





segunda-feira, 28 de julho de 2025

primeiro café da tarde LXI (Amorfos)


        o que me lembra do primeiro café da tarde

        no tempo em que o tomávamos quando eu te visitava

           estou cá em baixo    hoje podes?

        ou tu me procuravas em me eu arredando

           por onde tens andado     meu amigo?

        e as visitas e as procuras soíam enredar mais

        do que indubitáveis chegadas e longas travessias

o que me lembra     e todos os dias me lembra     desse café embarcado

na lenta clepsidra do teu olhar no meu olhar no teu olhar

    o que me lembra desse café não caberá à justa nestes que nisto se fez


ah     pois é     estou certo de que hoje seria impossível ou     no mínimo     complicado

acondicionar na mesma embalagem estes que nisto se fez

    as rugas não são apenas à superfície     como é óbvio     o que já por si dificultaria

    o ajuste de esperas avanços retrocessos

    acresce    aliás     que     embora o hábito no-lo renegue     a geometria

    impecável dos homens não se compadece

    do aqui que ali se dilatou do ali que aqui se contraiu

amorfámo-nos     amiga     é o que é     espatifámo-nos na curva

de que estávamos avisados e que ainda assim quisemos inventar


mas de que outra maneira havia de ser a vida?


domingo, 13 de julho de 2025

primeiro café da tarde L


hás de contar a essa doida varrida que devorou
sem qualquer contemplação todos os mágicos recantos
que me faziam maior     hás de contar-lhe um destes dias
que os caboucos do que sou ou disto que invento que sou
são firmes de mais     são tanto face ao que ontem prometia

hás de contar-lhe     a propósito     que já não vale a pena
acreditar hoje em dia que em mim tudo é impostura
     há uma ou outra excepção há um ou outro condimento
     neste paulatino arrasto que torna a espera serena
conta-lhe que havia cura     conta-lhe que vou vivendo

quinta-feira, 6 de março de 2025

primeiro café da tarde XLIX




antes o vento a chuva a ausência de sentido
depois a névoa e da névoa o nevoeiro a direção inconcreta
a seguir talvez o esqueleto de um percurso transitório
hoje nem interrogação nem dúvida já quase o extravio quase des-eu quase agora

quarta-feira, 13 de março de 2024

primeiro café da tarde XLVIII


agora que estás tão vivo e eu mais do que morto,
como era, aliás, apanágio
de grande parte dos dias em que acompanhei
a tua eternidade,
vejo que ris e sorris das minhas desatenções,
do tamanho desprezo com que vivi o calendário,
do passo veloz nas rotinas que desatei.

não se te ocupe tanto o pensamento,
amigo,
fui breve mas sempre do que quis,
sê tu longo, se não sempre,
sê tudo tu se tudo queres.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

primeiro café da tarde XLVII


é verdade     pá     estou sempre de copo na mão
e então?
é isso que te importuna ou sou eu?
todos os dias procuro
deseternizar-me     libertar a alma desta contínua
imortalidade          tento matar-me     pá
e não há exercício mais próximo desse do que este de estar
todo o dia de copo na mão

segunda-feira, 24 de julho de 2023

primeiro café da tarde XLVI


Das vezes em que morri
a que mais me custou foi aquela
em que descobri que em ti morri
Que lancinante a minha presença
no momento em que me apunhalaste
que lancinante o punhal ter feito
parte da minha reconstrução
Pouco importa o que fui se pouco sou
se tu nem fazes ideia
de que nunca cheguei a matar-te

sábado, 13 de agosto de 2022

primeiro café da tarde XLV


é muito provável que tenha chegado ontem
em tempos pericovídeos
o meu último cartão de cidadão
    ão ão ão
    ão ão ão

informa que tenho para gastar
quase nove anos até maio de dois mil e trinta e um
mais vida menos vida   
    ida ida ida
    ida ida ida

mas que admira
eu que faço quase tudo o que quero
não aproveitar tamanha prorrogação
    ão ão ão
    ão ão ão

pode ser até que em dois mil e vinte e sete
a carta de condução já tenha ido para o beleléu
e com ela éu
    éu éu éu
    éu éu éu

sexta-feira, 17 de junho de 2022

primeiro café da tarde XLIV


eu putinelho
abutre do futuro e de outros passados
carcereiro de vertigens e invasor evasivo
violador de esperas e de esperas dissimulado

eu putinelho
latejando à superfície
da sonolência do mundo
registando as fraquezas da função humanoide

eu putinelho
crepitando de enfados enfadado de imprevistos
cobrindo de óxido e carcaças
os actos exaltados dos que me rejeitam

eu putinelho
ceptro-trono-coronado hiperoculado
no cume da minha colina informo que

não passais de vermes
no largo lento cego túnel de um suposto sonho
apenas sois um eco longínquo
abafado distorcido incompreensível
frémito quase imperceptível
da mera suspeita das raízes

eu putinelho
ceptro-trono-coronado hiperoculado
no cume da minha colina aviso que

nunca me cansarei do deus que sou

terça-feira, 14 de junho de 2022

primeiro café da tarde XLIII


Sempre dei ao desencontro
o nome de semente,
sempre vi nele a força possível
e a flor final.

Digamos, sem presunção,
que sempre compreendi.

Por isso digo que não,
nunca serei suficiente
para perdão que me peçam.

sábado, 28 de maio de 2022

primeiro café da tarde XLII


ouve, maria, tu não
me ponhas o coração
a cozer em lume brando,
não, não, maria, nem quando
no final desta modorra
tiveres tempo e pachorra
para fogões e outras ciências,
não, não, maria, não, não
que eu sei das tuas ausências:
não vou permitir, ah não!,
que me esturriques o coração.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

café da tarde XLI


és tão de aqui     qhadija     tão de ali
tão mais     tão longe     tão pouco de mim
que tudo o que hoje quero
    velho egoísta
é que te inventes e me sobrevivas

sei lá eu se estes versos são bonitos

a serem versos já apenas sei
que de algum modo haviam de ser escritos

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

primeiro café da tarde XL


eu cá de pretas nunca jogaria
1. e4 d5 contra ti
és tramada implacável decidida
sábia e estudiosa     não perdoas
escandinavas à portuguesa

neste esparramado xadrez
que vamos construindo    em tu deixando
vai 1. e4 e6 com muita calma
     que hoje não estou numa de perder
     e muito menos de vencer

1. e4 c5 também não estaria mal
mas viesse o que deus quisesse
fosse como fosse seja como for
de acordo com a média são menos de quarenta
as jogadas para o teu xeque
xeque
xeque-mate

não achas     meu amor
que este nosso jogo dá empate?

terça-feira, 9 de novembro de 2021

primeiro café da tarde XXXIX


falta-nos o tempo em que éramos pigros
    clientes habituais
    do fácil assombro e do invento inócuo
tivemos talento à beira-perigo
    talvez mesmo o génio
    de animais vividos
    que sempre adolescem
e hoje somos isto
    que tão bem se vê
        pedaços de carne ausentes de luz
        alienadas vidas
        sem osso na alma
        fatais parasitas
        de tudo o que um dia
        porventura fomos


sábado, 6 de novembro de 2021

primeiro café da tarde XXXVIII


a queda há pouco foi breve 
mas dura
da cabeça ao chão três metros em falso
mas estou em crer que sem cabeçada

dela e num repente
    o rasgo fundo largo e feio até ao osso
        branco no dorso do anelar esquerdo
    um algo também de pele arrancada sob sei
        lá que joelho
    e outro de pele esfolada acima
        da dor de cotovelo
agora e na cama chega a presença do osso machucado
    nessa transição entre costas e pernas que em mim
        de acordo com o nível e outras opiniões mais avalizadas
    ninguém poderia chamar de rabo

pensei que era a morte ali
    caraças
mas creio que ainda me restam algumas horas
quantas não sei que nunca se sabe
de meia dúzia até infinitas
    sejam as que forem
mas estou mais preparado para o fim
    do que para a eternidade

sexta-feira, 28 de maio de 2021

primeiro café da tarde XXXVII


sobressalta-me ainda a pedra que
no teu percurso te prepara a queda
és tão voo como ave de rapina
mas tantos anos há que não o sabes

sobressalta-me ainda que haja antóneos
na tua cama e eu seja nenhum deles
és o mais meu deste homem sem procuras
mas tantos anos há que não o sabes

sobressalta-me ainda que desculpes
numa dúzia de falhas um milhar
de certezas antigas, és tão da água
mas tantos anos há que não o sabes

sobressaltas-me ainda como o limo
verde que ontem da espera enferrujou
no teu mar só me deixas cabotagem
mas tantos anos há que não o sabes

sobressaltas-me ainda
mas tantos anos
ah
que não o sabes