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domingo, 24 de maio de 2026

a minha casa (para Q.)


Não te admire onde me pus
desde que a vida me atrasa,
porque onde me guie a luz
será sempre a minha casa:

no cansaço que vagueia
as reticências da frase;
na azáfama de uma ideia
sob o azul de um olhar quase;

no caos com que hoje refiz
o caos com que me governo;
no risco traçado a giz
comigo às portas do inferno.

terça-feira, 15 de julho de 2025

síndrome do estupor


Se há pouquinho aquele teu gesto

não esperava nada em troca,

se foi por gosto e de resto

nada de meu te sufoca,


dirás, quando eu fizer de anjo

e esconder o meu demónio:

«Pára com isso, marmanjo,

basta-me seres António.»


(Isso ao menos me asseveras

quando te confesso que antes

dedicava as primaveras

ao sufoco das amantes.)







sábado, 7 de junho de 2025

doze de abril


Deixa-me hoje perguntar-te
que farás do que fazias
quando eu já não fizer parte
da costura dos teus dias.

Se não te encontro sorriso,
se não te sou mais que tarde,
se me temperas no olvido,
deixa-me hoje perguntar-te:

De quantos anos o tédio
se usará para medir
sem mal-estar o teu primeiro
ano sem doze de abril?

                        Portugal, 12 de abril de 2023

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

como eu em agosto


Há gente cuja palavra
já morre de ser palavra,
gente que à lua se acaba,
gente que ao sol se desgasta,

gente sempre a mais na mesa
e de adeus assaz pequeno,
gente que extingue a alma acesa
na alma do menor veneno,

há gente assim, desgentada
e transparente, sem rosto,
gente que não vale nada,
gente como eu em agosto.

sábado, 16 de julho de 2022

inverno



O que de nós fez tanto nós
foi um acaso, a descoberta
de que não há bicho tão só
como o que aceita a morte certa.

Não é de estranhar, assim sendo,
que ainda se faça de espera
a rota cama sem remendo
onde fizemos primavera.

Mas já não tenho horas no pulso
nem telemóvel no costume
e até sorrio no decurso
deste sumiço que nos une.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

inventário


Rezingão, amuado, mau,
rancoroso, solitário,
burro, palerma, calhau,
trol sem alma nem horário.

Desistente, preguiçoso,
infeliz, desamorado,
monstro, zombie, e é forçoso
que de sonhos dispensado.

Se tenho de falar mal,
falo de mim. Só faltou
na lista atrás que afinal
escrevo melhor do que sou.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

quase como tu


Como tu, sou papagaio,
minto e cedo à carne fraca;
como tu, mal me distraio
também corto na casaca.

Como tu, com pouco ou nada
para o burgo contribuo;
como tu, não dou passada
que não seja de recuo.

Como tu, fiz-me acrobata
no céu raso deste à toa;
já vês: apenas me falta,
como tu, ser de Lisboa.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

homem


Do que fui sou homem livre,
sem apego à história e ao verbo,
pouco me importa o que tive
se o que tive não conservo.

Faço por que seja um fio
este caminho que rasgo,
que ao homem basta o respiro
para logo fazer estrago.

Luto por erros ligeiros,
propensos quase ao olvido,
para ser homem a sério
há que não ter existido.

segunda-feira, 30 de março de 2020

quarentena



Há muito que não te abraço,
há muito que não te beijo,
há muito que nada faço
de acordo com o meu desejo.

Mas desde que sou um perigo
para o mundo e coiso e tal,
tenho sonhado contigo
mais do que me era habitual.

Talvez eu esteja diferente,
talvez mais teu como quem
no final da espera invente
o que a espera já não tem.

sábado, 28 de março de 2020

fingimento xxxv


Não vale a pena o caminho
que hoje percorres, pedinte,
bebe essa taça de vinho,
conforma-te e enche a seguinte.

Só ao caíres de sono
sobre o teu velho sofá,
podes voltar a ser dono
do que na vida não há.

Por isso, espera quieto
nesse cantinho da sala
pelo fantasma no tecto
de todo o amor que te cala.

sábado, 21 de março de 2020

trinta e seis de febre


Suporto os dias ao largo
do tempo que o sol inventa,
as noites acostumado
às planuras desta senda.

Sou sem demora nem prece
como quem faz que acredita
e difícil me adormece
o esquecimento da vida.

Portanto, nada de novo
na clausura que me serve:

para inventar o meu estorvo
bastam trinta e seis de febre.

sábado, 7 de março de 2020

estertor


Vejam-me só como se fez
passado em duas ou três horas,
no dia em que eu morrer de vez
há de chover como tu choras.

Vejam-me só como esse verde
na tua íris madurece,
no dia em que eu não tiver sede
será por mim a tua prece.

Vejam-me só como hoje dorme
nesta vontade o extinto pulso,
no dia em que eu me for de fome
soltarás o último soluço.


quarta-feira, 4 de março de 2020

este amor antigo


É fascínio com barrunto
de noitibó insistente
por burguesas sem assunto
no passeio desta gente.

Também é outro domingo,
nas suas mãos o missal,
se um subtil olhar distingo
junto à pia baptismal.

Mas é acima de tudo
a janela e toda a lua
se por máscara no Entrudo
ela se veste de nua.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Canto do meu cisne

Imagem Wikipedia













A verdade é que depois
de nós tudo se repete
e sigo menos que dois
na modorra deste frete.

Estou velho como fui novo,
sem esperas nem desencanto,
perder-te nunca foi estorvo
do que vivi entretanto.

Mas gosto ainda de exibir-te
por entre as folhas de outono:
és o canto do meu cisne
mesmo quando te abandono.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

fingimento XXIX


Se eu fosse jovem... Melhor:
se eu fosse um pouco mais jovem
e te soubesse de cór
no território e por ordem...

Se eu ao menos fosse a tempo
de esquecer o que aprendi
e rir do que fui perdendo
no percurso até aqui...

É provável que fosse outra
a nossa história futura,
que valesse a vida toda
toda a minha ao pé da tua.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

poema de um homem morto (2011)

Acordo, ponho-me a pé
vai o dia noite ainda
e preparo dois cafés
a contar com a tua vinda.

É de há tanto o teu atraso
e este medo a que te atrases
que tudo o que sempre faço
vive da hora em que voltasses.

E esqueço que isto se acaba
na suspensão do teu corpo,
que já não bastam palavras
ao poema de um homem morto.

quinta-feira, 21 de março de 2013

assunto encerrado

Para provar que és capaz
de me esquecer de uma vez
vieste ver se aqui se faz
o amor que um dia se fez.

Não sei se foste feliz
nem se fomos mais que sós:
o teu adeus só me diz
que não quiseste ser nós.

Extinguiste enfim a luz
que nos trazia de trás,
e a este engano eu já lhe pus
o letreiro de Horas Más.

domingo, 10 de março de 2013

tão

És tão mulher! E, no entanto,
tão menina... Tão menina,
tão do tempo, tão do canto
em que nunca foste minha...

Tão de amar-te, tu bem sabes,
tão em falta, tão da pele,
tão das mãos, tão deste catre
em que não serás mulher.

És tão mulher! Tão mulher,
tão distante, tão querida,
tão sem de quem tão te quer
há tanto na sua vida.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

café

Quando antes me perguntavas
bebes um café comigo?,
o café era a palavra
de me saberes teu amigo.

Quando agora me perguntas
queres beber um café?,
a vontade não é muita
e a amizade é o que é.

E tudo porque entretanto
fomos homem e mulher
que por isso deram tantos
outros nomes ao café.

sábado, 2 de junho de 2012

só afrodite me guarda

.
Ao invés do que parece
não sou de ontem nem da casa
nem do arrepio na pele
sob a mão que desce rasa.

Não de ti, não dessa lua
que escondeste e eu dormitava,
não da tarde que ainda é tua
mal desponta a madrugada.

A minha paz, encontrei-a
nesta ânsia do que me falta
e em saber que, vida meia,
só Afrodite me guarda.