quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Böhmen liegt am Meer (Ingeborg Bachmann)


BOÉMIA À BEIRA-MAR


Verdes sejam as casas por aqui e ainda terei casa onde entrar. 
Intactas sejam as pontes e prosseguirei em terra firme.
Perdido seja sempre o empenho no amor e aqui o perderei de bom grado.

A não ser eu, será alguém tão bom quanto eu.

Uma palavra se aproxime de mim e permitirei que o faça.
Continue a Boémia à beira-mar e regressará a minha crença nos mares.
Mantenha-se a minha crença no mar para a minha esperança de terra.

A não ser eu, será qualquer um, com o meu valor.
Nada quero para mim. Quero ir ao fundo.

Ao fundo é na direção do mar, onde reencontro a Boémia.
Se me afundar, será tranquilo o meu despertar.
No fundo agora sei – e encontro-me a salvo.

Vinde cá todos, boémios, marinheiros, putas do porto e navios
desancorados. Não quereis ser boémios, ilírios, veroneses
e venezianos? Representai as comédias que fazem rir.

Também as que buscam o choro. Errai uma centena de vezes
como eu errei, eu que nunca passei nas provações
mas sempre as superei, uma trás outra.

Como a Boémia as superou e de uma bela tarde
recebeu a bênção do mar para agora existir à beira da água.

Ainda me aproximo de uma palavra e de outra terra,
ainda me aproximo de tudo, por pouco que seja, cada vez mais,

um boémio, um errante que nada tem, que a nada se atém,
cujo único dom é ver, desde este disputado mar, a terra que escolheu.


Ingeborg Bachmann, Böhmen liegt am Meer  (traição de Luís Caminha)

1 comentário:

  1. Boa Luís!
    Tem muito a ver contigo.
    Pensei primeiro que o poema fosse teu.
    Gostei bastante.
    Abraço

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