quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

soneto ão-ão-ão


Confesso, agora quase nos sessenta,
contigo dos cinquenta a mais de meio,
que leve e em paz me extingo. Não receio
a última ausência, o fim não me apoquenta.

Costumas dizer, sempre tão atenta:
«Passaste pela vida, António, cheio
de adeus, falto de sonho ou devaneio.
A morte, para ti, já nada inventa.»

Posto que quase sempre assim tem sido,
concedo que talvez tenhas razão.
Isto antes de soltar, com um latido,

«Mas diz-me então, querida, diz-me então
por que nesta velhice tenho ardido
de a dentadas comer-te o coração?»


21/05/2024

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