– Não tem que enganar: é o primeiro carro no lado de lá da rua, uma 4L branca. Abre a porta do condutor, debaixo do banco está a minha carteira.
Fácil. A chave é que entra a custo e não quer rodar. Cinco minutos nisto, o desespero, a vergonha de voltar a casa sem cumprir a simples tarefa: «Tens cá um jeitinho...»
Vá lá, calma, a ver se a porta do pendura é menos teimosa.
Torneio o carro pela frente e em que reparo? Ao lado, outra 4L branca, igualzinha. A segunda da rua. Será que... já foi a primeira? Olho para todos os lados, penso um passo na sua direcção.
– Ó chefe! – grita alguém. – O que é que acha que está a fazer?
Quase me rebenta a cabeça o ponto de interrogação, os óculos divorciam-se-me da cara e estatelam-se no chão. Mais outro ponto de interrogação e dou comigo a farejá-los.
– Ah, seu filho da puta, que para a próxima levas um tiro! – promete o valente, enquanto me pontapeia o estômago e a cabeça.
A custo me levanto entre empurrões, cuspidelas, socos. Não vejo um palmo à frente do nariz.
– Devo ter-me enganado – balbucio. – Era este aqui ao lado.
E venha de lá outro soco. – Então que se passa? – diz um segundo tombalobos.
Murros, pontapés a dois, eu de regresso ao chão.
– Para a próxima levas um tiro – repete-se o primeiro, enquanto se afasta.
– Um tiro – ecoa o segundo, o que o segue.
De novo me levanto, abro a porta do carro ao lado, retiro a carteira de sob o banco do condutor, decoro-lhe a matrícula e a matrícula do gémeo.
Não acaba aqui. Uns dias mais tarde, lá pelas três da manhã, reconheço uma 4L entre as sombras de outra rua. Corro até casa, pego numa faca pontiaguda e de serrilha. Dá, não dá – ai dá, dá: espeto e rasgo os quatro pneus, que é um mimo. Que gozo, e repetido, sentir a alma escapar-se-lhes num só sopro...
E que anjo dormi! Que sonhos, quantos sorrisos desenhados até ao amanhecer!
Mas então...:
– Manuela! – acorda-me a voz com que a vida do meu pai costumava andar para trás. - Manuela! Rasgaram-me os quatro pneus. Filhos da puta!
.....Que diabos, ó Deuses: Eu também moro aqui!
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
terça-feira, 18 de agosto de 2009
MORRESSES LONGE
Um a um, arrancas os cadáveres dos seus abrigos perfeitos: prendes-lhes as cabeças com a subtileza de alicates bastantes e arrasta-los para a trituração na parte molarizada do teu inferno desigual. Garantes-me não sentir as antenas.
– Gostas mesmo...
– Sou capaz de andar cem quilómetros por uma boa caracolada. Isso e um leitãozinho à maneira.
– Mas... são bebés, não são? Mal deixam de mamar quando...
Pões um orgasmo na cara, a baba quase te escorre, desconchas mais dois ou três mortos. Apalpas no bojo a dúzia de bojecas, as três e quase quatro travessas que vieram e desapareceram.
– A conta, por favor. Estou satisfeito.
– Mas... não come o resto? – desabafa o empregado.
– Não. Leve, leve que já estou estou bem pesado.
Os cadáveres em concha – despeja-lhes o empregado em cima o prato de conchas vazias.
.....Ah, morresses. E morresses longe.
– Gostas mesmo...
– Sou capaz de andar cem quilómetros por uma boa caracolada. Isso e um leitãozinho à maneira.
– Mas... são bebés, não são? Mal deixam de mamar quando...
Pões um orgasmo na cara, a baba quase te escorre, desconchas mais dois ou três mortos. Apalpas no bojo a dúzia de bojecas, as três e quase quatro travessas que vieram e desapareceram.
– A conta, por favor. Estou satisfeito.
– Mas... não come o resto? – desabafa o empregado.
– Não. Leve, leve que já estou estou bem pesado.
Os cadáveres em concha – despeja-lhes o empregado em cima o prato de conchas vazias.
.....Ah, morresses. E morresses longe.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
CABECINHA PENSADORA
«O presidente do Instituto do Sangue (IPS) afirmou que os homossexuais são recusados como dadores de sangue. Logo se deu uma berraria sufocante. Mas a lei aplicável (DL nº 267/07) afirma que os 'indivíduos cujo comportamento sexual os coloque em grande risco de contrair doenças infecciosas graves susceptíveis de serem transmitidas pelo sangue' devem deixar de ser dadores (Parte B, Anexo VII, 2.1). Portanto, a lei ampara aquela decisão de gestão de risco, apesar de contrariar a última moda.» (Carlos Abreu Amorim, Jurista: http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=DA721564-6799-4BFF-AB5C-2F4102A81754&channelid=00000093-0000-0000-0000-000000000093)
Hoje ainda regressei ao CM em busca de justificação, desenvolvimento, errata que fosse. Mas népia: e fico sem perceber por que recusa o presidente do IPS homossexuais como dadores de sangue; e fico sem descortinar em que ponto do seu enunciado a lei ampara essa recusa...
Dou voltas e revoltas e não consigo descobrir o que fazem os homossexuais que os heterossexuais não façam. Será a minha vida sexual tão bizarra que me impeça de entender a dos outros?
Tendo a certeza, que grave seria se a não tivesse, de que a todo o sangue doado se obrigam as melhores análises, nada mais me resta do que deduzir a existência de um sangue diferente: designemo-lo de «sangue homossexual», caracterizado pela sua imprestabilidade, o que faz com que, à partida já esteja analisado e bem analisado. Como se explicará isso?
Ah! que chego lá. Alvíssaras ao pensador que mo sugeriu: é que ser homossexual implica, mais do que um risco, a certeza de contracção de doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue; é que ser homossexual é garantia de descuido, ausência de prevenção, promiscuidade, egoismo.
Obrigado, pensador, que mais uma vez comprovas o que eu há tanto sei: a lei ampara, sim; ampara tudo que um homem quiser. E então se de leis o homem souber... ui, ui.
Hoje ainda regressei ao CM em busca de justificação, desenvolvimento, errata que fosse. Mas népia: e fico sem perceber por que recusa o presidente do IPS homossexuais como dadores de sangue; e fico sem descortinar em que ponto do seu enunciado a lei ampara essa recusa...
Dou voltas e revoltas e não consigo descobrir o que fazem os homossexuais que os heterossexuais não façam. Será a minha vida sexual tão bizarra que me impeça de entender a dos outros?
Tendo a certeza, que grave seria se a não tivesse, de que a todo o sangue doado se obrigam as melhores análises, nada mais me resta do que deduzir a existência de um sangue diferente: designemo-lo de «sangue homossexual», caracterizado pela sua imprestabilidade, o que faz com que, à partida já esteja analisado e bem analisado. Como se explicará isso?
Ah! que chego lá. Alvíssaras ao pensador que mo sugeriu: é que ser homossexual implica, mais do que um risco, a certeza de contracção de doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue; é que ser homossexual é garantia de descuido, ausência de prevenção, promiscuidade, egoismo.
Obrigado, pensador, que mais uma vez comprovas o que eu há tanto sei: a lei ampara, sim; ampara tudo que um homem quiser. E então se de leis o homem souber... ui, ui.
terça-feira, 30 de junho de 2009
I GOT THE SUCKER
Na minha ingenuidade, pensei durante muito tempo que fossem drosófilas. Mas não: as moscas que às vezes mato são apenas as primas mal-educadas, as que comem o fruto proibido. As drosófilas, e isto se ainda houver drosófilas desde que elas se tornaram um dos brinquedos mais apetecidos da ciência, comem o fruto podre e por terra, já depois do pecado.
Enfim, drosófilas ou não, o facto é que são lentas como eu, atordoadas no seu amor à fruta, as moscas que, impune e arrependidissimamente, costumo assassinar.
Na minha maldade de criança, cheguei a coreografar com prazer o baile moribundo dos bichos que nos roubavam o ar da casa. Enorme, o poder que eu tinha... Está a fazer dez anos, sob a maior catástrofe que a vida me trouxe, perdi a cabeça duas ou três vezes com o Barbas, o meu querido companheiro canino; claro que não o matei, mas matamoscas que era e sou o maltratei – e todos os mimos que hoje tenho para ele não compensam o mal que um dia lhe fiz. Desmedido, o poder que eu tinha... E ainda há uns sete ou oito anos, já bem graúdo e sob os gritos de terror, ou nojo, sei lá, da minha companheira de então, despejei um insecticida inteiro sobre um moscardo atrevido, para depois descarregar o autoclismo sobre o seu corpo ainda em soluços. Desgovernado, o poder que eu tinha...
Compreendo, pois, o assassino: quem sou eu? Apesar de cada vez menos sacrifícios me sentarem à mesa, também eu fui e sou um assassino. Mas não acredito que Obama se possa vangloriar de o ser. Estaria nervoso, apenas isso, por tantas testemunhas terem assistido ao crime.
«I got the sucker»?
sábado, 20 de junho de 2009
mal menor
Se me perco em te não tendo
e de contrário me perco,
que me perca em te perdendo
e te imagine por perto.
Se estas sombras me ensombram
sobre meandros em viagem,
que do horizonte me escondam
e das margens me desquadrem.
Se por cinzas de quem era
mais não quero que ser nada,
que de toda a minha terra
se erga toda a nossa casa.
e de contrário me perco,
que me perca em te perdendo
e te imagine por perto.
Se estas sombras me ensombram
sobre meandros em viagem,
que do horizonte me escondam
e das margens me desquadrem.
Se por cinzas de quem era
mais não quero que ser nada,
que de toda a minha terra
se erga toda a nossa casa.
sábado, 13 de junho de 2009
ciência
Tu já sabias da cerveja
em minimédias delitradas,
dos mortos que eu não choro à mesa
e dos três cães no ar da casa;
das ripas que sobre tijolos
afagam esperas e mentiras,
do sonho largo rente ao solo,
do ocaso ao nascer dos meus dias.
Só não sabias de quão tantas
se tornariam tantas tardes,
que ali nascia esta esperança
que tão mal cabe no que sabes.
em minimédias delitradas,
dos mortos que eu não choro à mesa
e dos três cães no ar da casa;
das ripas que sobre tijolos
afagam esperas e mentiras,
do sonho largo rente ao solo,
do ocaso ao nascer dos meus dias.
Só não sabias de quão tantas
se tornariam tantas tardes,
que ali nascia esta esperança
que tão mal cabe no que sabes.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
MULHER DIFERENTE
Chega a casa e encontra a mulher diferente. Como sempre, prepara o suspiro do cansaço; como nunca o suspiro lhe é roubado: a boca dela na boca dele, um beijo a meio do beijo que não completa.
Apagam-se as luzes, uma única vela ilumina o jantar.
O que se passa, Manuela?;
Saudades nossas, querido. Como te correu o dia?
Ele cala, sorri, gagueja, mente.
O peixe no forno, o vinho que abraça, a sobremesa impossível. Uma ternura de olhos espiando o Obrigado, querida.
E deitam-se e amam-se como há muito não. E à luz dos contornos: outro perfume, outro sabor, outra entrega, ah!, mulher diferente. Devoram-se a galope na sela da noite, confessam-se coisas tamanhas e tantas eternidades...
Joana, meu amor...
...
...
...
E o galope que trota e o trote que trava. Um maremoto que se prepara no silêncio repentino, na morte dos ofegos. A paralisia! A espera atenta! O medo!
Quando a torrente chega, não há mais comporta que a do seu corpo. Prende-a, impede-lhe os movimentos, morde-lhe a cara para lhe segurar a iniciativa.
E com o medo que vai crescendo agiganta-se a raiva. E o terror! E a mulher diferente...
Apagam-se as luzes, uma única vela ilumina o jantar.
O que se passa, Manuela?;
Saudades nossas, querido. Como te correu o dia?
Ele cala, sorri, gagueja, mente.
O peixe no forno, o vinho que abraça, a sobremesa impossível. Uma ternura de olhos espiando o Obrigado, querida.
E deitam-se e amam-se como há muito não. E à luz dos contornos: outro perfume, outro sabor, outra entrega, ah!, mulher diferente. Devoram-se a galope na sela da noite, confessam-se coisas tamanhas e tantas eternidades...
Joana, meu amor...
...
...
...
E o galope que trota e o trote que trava. Um maremoto que se prepara no silêncio repentino, na morte dos ofegos. A paralisia! A espera atenta! O medo!
Quando a torrente chega, não há mais comporta que a do seu corpo. Prende-a, impede-lhe os movimentos, morde-lhe a cara para lhe segurar a iniciativa.
E com o medo que vai crescendo agiganta-se a raiva. E o terror! E a mulher diferente...
terça-feira, 7 de abril de 2009
in vino veritas
Pôr-te a flutuar em tinto
é de meu gosto antigo:
se to escondo ou desminto
é por ser teu amigo.
De nada vale, dirás,
o copo que lá vem,
que é grande, em horas más,
quem igual se mantém.
Mas eu sou deste porto
há marés e marés
e o nosso nasceu torto
e eu torto de quem és.
é de meu gosto antigo:
se to escondo ou desminto
é por ser teu amigo.
De nada vale, dirás,
o copo que lá vem,
que é grande, em horas más,
quem igual se mantém.
Mas eu sou deste porto
há marés e marés
e o nosso nasceu torto
e eu torto de quem és.
terça-feira, 17 de março de 2009
desiderata
Acompanhar-te à cama e roer-te
a cabeça dos olhos ao pescoço.
Sugar-te a língua como quem tem sede
das estrelas que nela têm porto.
Mastigar os teus lábios sem paredes
e encher a boca no teu seio gordo.
Gritar «Meu Deus! Mas que caminhos estes»
para te ouvir dizer o amor dos outros.
Com a força dos meus beijos derreter-te
esse desejo fácil e sem dono.
E no silêncio, enfim, ficar a ver-te
sorrir de lágrimas em fim de outono.
a cabeça dos olhos ao pescoço.
Sugar-te a língua como quem tem sede
das estrelas que nela têm porto.
Mastigar os teus lábios sem paredes
e encher a boca no teu seio gordo.
Gritar «Meu Deus! Mas que caminhos estes»
para te ouvir dizer o amor dos outros.
Com a força dos meus beijos derreter-te
esse desejo fácil e sem dono.
E no silêncio, enfim, ficar a ver-te
sorrir de lágrimas em fim de outono.
domingo, 10 de agosto de 2008
metade em meia casa
É tão cheio o nosso catre
da mulher que nele entravas,
que faço e não faço parte
do homem que nele se guarda.
E o meu tugúrio vazio
a meio em quartos de lua
é uma espécie de frio
nesta ausência que é tua.
Já não quero mais que nada
pois que para nada presto:
– sou metade em meia casa,
que se foda tudo o resto.
da mulher que nele entravas,
que faço e não faço parte
do homem que nele se guarda.
E o meu tugúrio vazio
a meio em quartos de lua
é uma espécie de frio
nesta ausência que é tua.
Já não quero mais que nada
pois que para nada presto:
– sou metade em meia casa,
que se foda tudo o resto.
terça-feira, 8 de julho de 2008
ÁLCOOL NUNCA MAIS
Acordava a pensar álcool nunca mais. Acordo a pensar álcool nunca mais e vou ao mercado por pão e garrafas, a pensar álcool nunca mais. Álcool nunca mais às nove é a cerveja das dez, o vinho da tarde, o copo de sempre. É continuar a acordar e acordar a pensar álcool nunca mais. Até ao dia em que álcool nunca mais.
sábado, 7 de junho de 2008
VOGAIS (Rimbaud)
A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
De vós direi um dia as origens latentes:
A, corpete sem luz de moscardos luzentes
Que volteiam zumbindo entre odores fatais,
Penumbras; E, candor de vapores e tendas,
Lança em glaciar altivo, alvo rei, fraca umbela;
I, saliva com sangue e riso em boca bela
Sob a ira ou o torpor de quem procura emenda.
U, ciclos, mar de verde em seu vaivém sublime,
A paz do pasto cheio, a paz que sempre e tanto
Nas rugas do estudioso a alquimia imprime;
O, supremo Clarim de silvos ruidosos,
Silêncios penetrados por Mundos e Anjos:
– O de ómega, este roxo a raiar em Seus Olhos.
De vós direi um dia as origens latentes:
A, corpete sem luz de moscardos luzentes
Que volteiam zumbindo entre odores fatais,
Penumbras; E, candor de vapores e tendas,
Lança em glaciar altivo, alvo rei, fraca umbela;
I, saliva com sangue e riso em boca bela
Sob a ira ou o torpor de quem procura emenda.
U, ciclos, mar de verde em seu vaivém sublime,
A paz do pasto cheio, a paz que sempre e tanto
Nas rugas do estudioso a alquimia imprime;
O, supremo Clarim de silvos ruidosos,
Silêncios penetrados por Mundos e Anjos:
– O de ómega, este roxo a raiar em Seus Olhos.
terça-feira, 6 de maio de 2008
lambranças
-----(http://yalibnan.com/site/archives/2008/05/lesbians_unhapp.php) --- Three islanders from Lesbos - home of the ancient poet Sappho, who praised love between women - have taken a gay rights group to court for using the word lesbian in its name. One of the plaintiffs said Wednesday that the name of the-association, Homosexual and Lesbian Community of Greece, "insults the identity" of the people of the Aegean Sea-island of Lesbos, who are also known as Lesbians."My sister can't say she is a Lesbian," said Dimitris Lambrou. "Our geographical designation has been usurped by certain ladies who have no connection whatsoever with Lesbos," he said.
Mais lambrou Dimitris: a maninha, lésbica como ele, nem lésbica chega a ser. Que, o mesmo é lambrar, Deus dá nozes a quem não tem dentes.
São lambranças a mais, lambrou o homem, e, vai daí, ordem nas lésbicas, tribunal com elas. Elas, as lésbicas lésbicas, como é óbvio, as que têm dentes, tenham ou não tenham nozes.
Por seu turno, estas lésbicas lésbicas também já se tinham lambrado muito bem (ou mal?) lambradinhas que não são homossexuais: homossexuais são os outros (ou as outras?), que nem lésbicas são (ou lésbicos?).
E também se me lambra agora que sou homo, quer queira quer não, embora menos sapiens do que se pensa e bastante mais rato do que se diz. E deixa-me furibundo que os moços (e algumas das moças?) se digam homossexuais. Homo quê?
Para mim, portanto, lambra-se-me, em conclusão, o seguinte: ou se lesbicizam todos de uma vez ou, então, tribunal mas é com todos, Dimitris incluido. Agora, por favor, em Lisboa é que não: deixemo-nos de mariquices.
Lambrou Dimitris que em Lesbos se é lésbico. Alargo eu: assim como romano em Roma e (entre lésbicas, alfacinhas e quejandos) lisboeta em Lisboa.
Mais lambrou Dimitris: a maninha, lésbica como ele, nem lésbica chega a ser. Que, o mesmo é lambrar, Deus dá nozes a quem não tem dentes.
São lambranças a mais, lambrou o homem, e, vai daí, ordem nas lésbicas, tribunal com elas. Elas, as lésbicas lésbicas, como é óbvio, as que têm dentes, tenham ou não tenham nozes.
Por seu turno, estas lésbicas lésbicas também já se tinham lambrado muito bem (ou mal?) lambradinhas que não são homossexuais: homossexuais são os outros (ou as outras?), que nem lésbicas são (ou lésbicos?).
Que trapalhada! Maior ainda porque também se me deu em lambrar. E lambrando, lambrando, se me lambrou que, se calhar, as lésbicas, ou pelo menos algumas delas, até são homossexuais. Por isso, ou da Comunidade de Homossexuais e Lésbicas se tiram os gajos e ficam todas lésbicas, ou se tiram as gajas e alguns até continuam lésbicos. Isto, claro, para não se tirarem todos de todos - e, nesse caso, nem homossexuais nem lésbicas para ninguém: lésbicos, lésbicos, só os lésbicos mesmo. Acho eu... Isto é só a gente a lambrar.
E também se me lambra agora que sou homo, quer queira quer não, embora menos sapiens do que se pensa e bastante mais rato do que se diz. E deixa-me furibundo que os moços (e algumas das moças?) se digam homossexuais. Homo quê?
Para mim, portanto, lambra-se-me, em conclusão, o seguinte: ou se lesbicizam todos de uma vez ou, então, tribunal mas é com todos, Dimitris incluido. Agora, por favor, em Lisboa é que não: deixemo-nos de mariquices.
terça-feira, 22 de abril de 2008
sem-abrigo
.
quatro paredes um tecto
dois panos sujos de sono
cinco horas de amor inquieto
três cães a contar com o dono
a minha casa
é o teu coração quando se atrasa
quatro paredes um tecto
dois panos sujos de sono
cinco horas de amor inquieto
três cães a contar com o dono
a minha casa
é o teu coração quando se atrasa
domingo, 6 de abril de 2008
DORMINDO NO VALE (Rimbaud)
Era espuma de luz esse pequeno vale
Onde brilhava o sol sobre a montanha altiva,
Que em delírios de prata entre as ervas corria
Por um troço de verde um riacho a cantar.
E era um jovem soldado estendido na relva,
Banhando a nuca exposta nas águas de azul:
Já sem inquietações, a boca meio aberta,
Branco em seu leito verde encharcado de luz.
Qual criança doente, ele sonhava sorrindo
Ao colo do universo enquanto a tarde esfria:
Nos gladíolos os pés, finalmente dormia.
Não sentindo o perfume em redor, só dormindo:
Ao sol, tranquilo, a mão deitada sobre o peito,
e dois furos carmins no seu lado direito.
Onde brilhava o sol sobre a montanha altiva,
Que em delírios de prata entre as ervas corria
Por um troço de verde um riacho a cantar.
E era um jovem soldado estendido na relva,
Banhando a nuca exposta nas águas de azul:
Já sem inquietações, a boca meio aberta,
Branco em seu leito verde encharcado de luz.
Qual criança doente, ele sonhava sorrindo
Ao colo do universo enquanto a tarde esfria:
Nos gladíolos os pés, finalmente dormia.
Não sentindo o perfume em redor, só dormindo:
Ao sol, tranquilo, a mão deitada sobre o peito,
e dois furos carmins no seu lado direito.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
paz de breu
Adentro o mundo
em que me afundo
arduamente,
pasta de breu
que assim sou eu
desde sempre.
Que importa a luz
se aqui me pus
tão de agora?
Que importa se
nunca fui de
lá de fora?
em que me afundo
arduamente,
pasta de breu
que assim sou eu
desde sempre.
Que importa a luz
se aqui me pus
tão de agora?
Que importa se
nunca fui de
lá de fora?
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
EXECUÇÃO
A voz grave e rouca começou por se engasgar mas depois calou tudo em redor. Impossível dizer de que serviam aqueles volteios, se eram realmente necessários à aproximação do fim; mas de repente a máquina decidiu-se e rodou em linha recta, parando a meia dúzia de metros.
Janelas partidas, um ligeiro desequilíbrio de luz, o copo esquecido em estilhaços no chão... O primeiro embate desenhou na parede da sala um rasgão de alto a baixo, por onde se escoou o pó de um grito.
E agora? Sobre o ruído branco da máquina, dir-se-ia que o silêncio. Mas depois, abafados como ao longe, homens que falam. Parecem prever a localização do próximo golpe. Ou comentarão a violência do primeiro? E BUMMM!
Outro. No mesmo sítio. Um rombo, um fio de água a escorrer na parede em frente. No entanto, a casa continua em pé. Abanada nos seus alicerces, são cinquenta anos de estar ali, é dela a paisagem.
Menos espaçados, sucedem-se os ataques. No exterior a cedência começa com o que parece uma enorme teia de aranha e, por fim, a esfera metálica atravessa a parede como se fosse de papel. Cai uma parte do telhado sobre o chão da cozinha, outra parte mais além sobre a cama abandonada.
Num espirro prolongado, a casa é varrida pela esfera. Nos seus vazios entram em pedaços todas as fronteiras. Um monte de peças soltas forma agora um puzzle impossível e por momentos algumas dessas peças demoram a ajeitar-se, a descobrir o seu lugar entre as outras.
Voz extinta entre soluços, esfera abandonada ao chão, a máquina vela agora um cadáver.
Janelas partidas, um ligeiro desequilíbrio de luz, o copo esquecido em estilhaços no chão... O primeiro embate desenhou na parede da sala um rasgão de alto a baixo, por onde se escoou o pó de um grito.
E agora? Sobre o ruído branco da máquina, dir-se-ia que o silêncio. Mas depois, abafados como ao longe, homens que falam. Parecem prever a localização do próximo golpe. Ou comentarão a violência do primeiro? E BUMMM!
Outro. No mesmo sítio. Um rombo, um fio de água a escorrer na parede em frente. No entanto, a casa continua em pé. Abanada nos seus alicerces, são cinquenta anos de estar ali, é dela a paisagem.
Menos espaçados, sucedem-se os ataques. No exterior a cedência começa com o que parece uma enorme teia de aranha e, por fim, a esfera metálica atravessa a parede como se fosse de papel. Cai uma parte do telhado sobre o chão da cozinha, outra parte mais além sobre a cama abandonada.
Num espirro prolongado, a casa é varrida pela esfera. Nos seus vazios entram em pedaços todas as fronteiras. Um monte de peças soltas forma agora um puzzle impossível e por momentos algumas dessas peças demoram a ajeitar-se, a descobrir o seu lugar entre as outras.
Voz extinta entre soluços, esfera abandonada ao chão, a máquina vela agora um cadáver.
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