domingo, 24 de maio de 2026
a minha casa (para Q.)
sábado, 23 de maio de 2026
sexta-feira, 22 de maio de 2026
primeiro café da tarde lv (para Q.)
Não estou desta casa que luz todo o dia
e nem desse inferno
que às vezes se instala
no azul do que agora
parece de fora.
Não sou.
Passadiço sempre onde me pus,
a lápis e giz tracei
o meu tempo em al-Andalus.
quinta-feira, 19 de março de 2026
Das ästhetische Wiesel (Christian Morgenstern)
A DONINHA ESTETA
No riacho a doninha
sentada numa pedrinha
escutava água-ia-água-vinha.
Deves querer
saber a razão.
Deu-ma há pouco
em segredo
o homem da lua:
Para o refina-
do animal
era uma questão de rima.
Christian Morgenstern, Das ästhetische Wiesel (traição de luís caminha)
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
primeiro café da tarde liv (3 nov. 2025)
Este amor?
Simples inércia
de retiro,
um só resíduo
de alma atenta que o disseque.
À luz fátua da solécia,
sempre vão, sempre decíduo,
parece ouro.
É pechisbeque.
quarta-feira, 13 de agosto de 2025
primeiro café da tarde LIII — desagosto
em agosto não te chateio por isso não te chateies
seria de bastante mentecapto aos nossos anos
eu não ter ainda entendido que em agosto
mudas de mundo e deixas em espera este mundo tão
desagostoso
que é o nosso e que por definição
te azucrina os miolos
quando regressares no início do longo
desagosto
que te é pausa de vida e inverno por inteiro
pensarás como sempre sóis e eu bem sei que sempre sóis
trezentos e trinta e quatro
são os sóis por que se estende
esta peça de teatro
que já nada surpreende
cansa-me a tua presença
antóneo ah quanto me cansa
quanto me deixa hipertensa
essa tua pose mansa
não me dês cabo da mona
se o bom senso to permite
estou farta assim não funciona
estou para lá do limite
há já vinte anos que agosto
é a ausência do teu rosto
e eu maria já não farei o que sempre fiz pois de
existir persistir insistir
me cansei
desta vez hei de oferecer-te agosto depois de agosto
acabou-se o teu desagosto
é hora de eu desistir
quarta-feira, 30 de julho de 2025
primeiro café da tarde LII — distanciamento
tu não te ponhas tão séria a pensar no que é preciso fazer
podes fechar os olhos isso podes calcular a média por alto
não tem de ser ponderada nem tem de ser
com a emoliente e estorvante atenção que minimize o erro
não te martirizes com decimais negligencia até a importância
do algarismo das unidades
podes aproveitar isto sem ser aluna exemplar sabes? basta que te lembre
de quando em vez a aferição da distância essa distância em que
não te vejas tão de perto
como diria o outro isso é uma tragédia
nem te vejas tão de longe
como costumo dizer eu isso não é nada
antes possas apreciar a diluição da lágrima no sorriso e deste no riso
enquanto como diria aquele mesmo outro se precipita
a comédia
terça-feira, 29 de julho de 2025
primeiro café da tarde LI — Lia e a contagem das sílabas
não é por baquetas os meus dedos tamborilarem o tampo da mesa
que a gata deixa de ser gata
no insolente âmbar dos seus olhos arde
o fascínio que prepara o rebate
tu não estás quem há pouco ronronava
murmuro em decassílabo perfeito
quando atento na cena e me distraio
no labor digital de outro soneto
não há problema ó lia ultimamente
não sei porquê malbaratei o ritmo
e a precisão das sílabas no verso
já só os dedos podem confirmar-ma
ela desvia o olhar pela primeira vez
e eu pela segunda liberto os dedos
um dois três quatro seis sete oito dez
um dois três quatro seis sete oi to dez
em busca de outros modos e melhores
de ensinar o que nunca pratiquei
eis senão quando o rebate se dá
a unhada o mio
deixa-te disso poeta malandro estás a irritar-me
e o sangue mancha-me o último terceto
e a dor lancina-me os versos restantes
ah ingrata estragaste-me o soneto
estraguei-te o soneto?
mas tu não percebeste nada antóneo?
a contagem era péssima e à parte isso o soneto
era uma porcaria
segunda-feira, 28 de julho de 2025
primeiro café da tarde LXI (Amorfos)
o que me lembra do primeiro café da tarde
no tempo em que o tomávamos quando eu te visitava
estou cá em baixo hoje podes?
ou tu me procuravas em me eu arredando
por onde tens andado meu amigo?
e as visitas e as procuras soíam enredar mais
do que indubitáveis chegadas e longas travessias
o que me lembra e todos os dias me lembra desse café embarcado
na lenta clepsidra do teu olhar no meu olhar no teu olhar
o que me lembra desse café não caberá à justa nestes que nisto se fez
ah pois é estou certo de que hoje seria impossível ou no mínimo complicado
acondicionar na mesma embalagem estes que nisto se fez
as rugas não são apenas à superfície como é óbvio o que já por si dificultaria
o ajuste de esperas avanços retrocessos
acresce aliás que embora o hábito no-lo renegue a geometria
impecável dos homens não se compadece
do aqui que ali se dilatou do ali que aqui se contraiu
amorfámo-nos amiga é o que é espatifámo-nos na curva
de que estávamos avisados e que ainda assim quisemos inventar
mas de que outra maneira havia de ser a vida?
terça-feira, 15 de julho de 2025
síndrome do estupor
Se há pouquinho aquele teu gesto
não esperava nada em troca,
se foi por gosto e de resto
nada de meu te sufoca,
dirás, quando eu fizer de anjo
e esconder o meu demónio:
«Pára com isso, marmanjo,
basta-me seres António.»
(Isso ao menos me asseveras
quando te confesso que antes
dedicava as primaveras
ao sufoco das amantes.)
