Comecei por gastar a maior parte das horas à mesa do café subterrâneo. Jornal sob a asa, chegava às sete da manhã, ia buscar um galão, sentava-me. As parangonas demoravam-me e nos artigos me estendia, à espera que o galão esfriasse: bebia-o à hora do almoço, com uma pedrinha de gelo.
O empregado da tarde obrigava-me, então, a apressar outro pedido, que eu insistia em ocupar a mesa e àquela hora já se vê. Incapaz de fazer cara má, lá pedia eu uma sopa, para lhe atenuar a indisposição. Vinham, assim, uma colher e uma tigela de água quente e salgada, a que eu adicionava mais um copo de água e três pedras de gelo quando a tarde se tornava tarde mesmo.
À noite nunca havia pão e, sabendo-o, lá ia eu por uma sandes de queijo para quando acabassem os efeitos da sopa fresca. Depois disso, ao bater das dez, uma cola sem açúcar e uma dose de batatas fritas com ketchup. Não sei porquê, e daí até fechar, todas as loiras que coubessem no tempo.
No princípio, a empregada da noite achava um abuso as minhas estadias solitárias, mas ao longo desses meses foi-se habituando. Com o tempo até começou a sorrir para mim, sobretudo quando o meu olhar a acompanhava em horas quase mortas.
– Qualquer dia muda-se para cá – disse uma vez em que me viu de jornal aberto, perna esticada e mochila ao lado. Três ou quatro livros, duas sandes, uma peça de fruta, qualquer dia eu mudava-me, ai mudava, mudava.
Foi então que começou a construção dos lavabos na estação e o café foi obrigado a encerrar durante dois meses. Nesse comenos, a carruagem em que me enfiava às seis e meia levava-me até ao fim da linha. Metia-me, então, noutra que me repetia em sentido contrário. E noutra ainda que no sentido ímpar me regressava. E outra ainda que... Andavam-me de um lado para o outro. Por todas as linhas, primeiro, depois por aquelas que menos gente levavam, consoante os dias e as horas.
De vez em quando eu saía na estação do café para observar o desenvolvimento das obras. Fazia-o com um interesse que só agora compreendo bem:
Passei pela vida a fugir dos outros. E apesar de ter arrancado ao resto do mundo uma pensãozita para a velhice, a verdade é que a consegui sem nunca ter tido um emprego a sério: onde os outros viam estabilidade eu sempre vi prisão. Por isso, sempre que surgia o momento para me encaixar, eu ficava quieto no meu canto a esperar que a conjuntura passasse.
Mulheres? Fui cornudo e encornador, algumas vezes, até, em sequência: ou por artes de qualquer relação de causa e efeito ou por mero acaso, a verdade é que aconteceu. Detestei ambas as condições: não há retrocesso para o fruto que apodrece.
Confesso que, em geral, delas apenas quis sexo e alegrias mas creio, sinceramente, que amei algumas... Bem: haverá quem diga aí por cima que eu apenas precisei delas. Quando os sorrisos começavam a clamar por compromisso, eu torcia-me como papel ao fogo e desfazia-me em mentiras para poder recuperar a estimada liberdade.
Foi exactamente o que aconteceu há trinta anos, com a última mulher que desejei. E tanto a desejei que passei a vida a fugir dela. Chamava-se Paula e recordo com toda a clareza o medo ao mundo que a impedia de descer ao metro.
Vivo na Praça Redonda, linha castanha. Instalei-me com a inauguração dos lavabos.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
post mortem
Quando eu morrer, não me enterres
como agora se costuma.
Crê-me teu, porque se queres
todas as vidas são uma.
Assim que me hás-de entregar
em corpo e alma, se preciso,
entre copos ao jantar
aos amantes num sorriso.
E no amplexo mais querido,
e no clímax mais feliz,
lhes soprarás ao ouvido:
«Ainda te amo, luís.»
como agora se costuma.
Crê-me teu, porque se queres
todas as vidas são uma.
Assim que me hás-de entregar
em corpo e alma, se preciso,
entre copos ao jantar
aos amantes num sorriso.
E no amplexo mais querido,
e no clímax mais feliz,
lhes soprarás ao ouvido:
«Ainda te amo, luís.»
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
pax
Na vida não espero mais
do que nela me acontece:
meu anseio é ser do cais
onde o navio apodrece.
Confiando que menos erra
o errante quando erra menos,
tenho assim um pé em terra
e a vista em espaços pequenos.
Nunca pus rumo em bagagem
nem busquei quem mo fizesse.
De contrário era viagem
em navio que apodrece.
do que nela me acontece:
meu anseio é ser do cais
onde o navio apodrece.
Confiando que menos erra
o errante quando erra menos,
tenho assim um pé em terra
e a vista em espaços pequenos.
Nunca pus rumo em bagagem
nem busquei quem mo fizesse.
De contrário era viagem
em navio que apodrece.
sábado, 25 de agosto de 2007
O QUE ME FAZ CORRER
Um poeta não é tanto cá de fora. Como um bom cientista, não acredita na procura da verdade; mas é muito mais livre porque também não procura as mentiras em que o futuro pode ser obrigado a viajar.
Pensa-se que um poeta não pensa – é pensado. Ao comum dos mortais, até parece que por palavras; mas, convenhamos, é apenas moda essa coisa de estar sempre a falar de palavras. O que a sério o manipula são os ritmos e os sons: as palavras só vêm depois. Porque é um sedutor, comprometeu-se a dispor os sons de modo a que possam significar. Mas o seu maior prazer é que esses sons signifiquem tantas coisas diferentes que até possam nada significar. Só assim ele se cumpre: inventando aquelas mentiras de mentiras que se tornam nas mentiras de cada um e nas mentiras de ninguém.
Claro que, enquanto vai fabricando os tais sons e os traduz em letras, ele próprio pode ser desviado por uma mentira específica. Mas, atenção, estamos sempre a partir do princípio de que ele é poeta... E, assim sendo, não terá nenhuma dificuldade em abrir a mentira a uma qualquer mentira de mentiras. Tanto assim que, mais tarde – e mais tarde pode ser uns minutos depois –, ele próprio fará uma leitura diferente daquela que na sua escrita leu.
Enfim, um poeta é como se bebesse tudo. Se eu fosse poeta beberia o mundo por garrafas inteiras de universos paralelos. A luz apresentaria então um leve tremor – mas isso seria apenas lembrança. Assim como quando um toque na mesa é reminiscência de onda no mar, sobretudo se a mesa for de madeira.
Pensa-se que um poeta não pensa – é pensado. Ao comum dos mortais, até parece que por palavras; mas, convenhamos, é apenas moda essa coisa de estar sempre a falar de palavras. O que a sério o manipula são os ritmos e os sons: as palavras só vêm depois. Porque é um sedutor, comprometeu-se a dispor os sons de modo a que possam significar. Mas o seu maior prazer é que esses sons signifiquem tantas coisas diferentes que até possam nada significar. Só assim ele se cumpre: inventando aquelas mentiras de mentiras que se tornam nas mentiras de cada um e nas mentiras de ninguém.
Claro que, enquanto vai fabricando os tais sons e os traduz em letras, ele próprio pode ser desviado por uma mentira específica. Mas, atenção, estamos sempre a partir do princípio de que ele é poeta... E, assim sendo, não terá nenhuma dificuldade em abrir a mentira a uma qualquer mentira de mentiras. Tanto assim que, mais tarde – e mais tarde pode ser uns minutos depois –, ele próprio fará uma leitura diferente daquela que na sua escrita leu.
Enfim, um poeta é como se bebesse tudo. Se eu fosse poeta beberia o mundo por garrafas inteiras de universos paralelos. A luz apresentaria então um leve tremor – mas isso seria apenas lembrança. Assim como quando um toque na mesa é reminiscência de onda no mar, sobretudo se a mesa for de madeira.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
c major
que me passou hoje?
como dentro um grilo sob a cama
_____a gritar a gritar
e no coração este dia
_____a doer a doer
_____a doer-me de todos...
mas que fábrica de vento!
de um sopro arrumou a casa
_____ao contrário
e alçou esta biografia
traída
no chão
de tantos
_____livros mortos.
ah! diabo do grilo a cuscar
a cuscar a cuscar
_____no centro dos meus ouvidos!
meu amor, se vieres
traz a nossa língua
vem beijar de saliva a serrilha
_____das suas asas
__________partidas.
como dentro um grilo sob a cama
_____a gritar a gritar
e no coração este dia
_____a doer a doer
_____a doer-me de todos...
mas que fábrica de vento!
de um sopro arrumou a casa
_____ao contrário
e alçou esta biografia
traída
no chão
de tantos
_____livros mortos.
ah! diabo do grilo a cuscar
a cuscar a cuscar
_____no centro dos meus ouvidos!
meu amor, se vieres
traz a nossa língua
vem beijar de saliva a serrilha
_____das suas asas
__________partidas.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
ESCONDER A BOLA
Há as pessoas que se servem de regras e as que inventam mais algumas, as que se oferecem ao vento e as que se importunam com indícios de brisa. As pessoas à minha volta, juro: ou pertencem à primeira parte destas dicotomias ou à segunda.
Atenção, que isto não tem nada que ver com homens e mulheres. O Nuno, por exemplo, pertence à segunda categoria. O que me enerva bastante é que nem fode nem sai de cima da Ana, que pertence à primeira categoria.
Connosco é o contrário. Vou exemplificar com um jogo: o snooker. Eu, com este tom que em nada o disfarça, pertenço à primeira parte das dicotomias: aproveito as regras para espicaçar o jogo, escondo a bola, impeço a tacada directa, obrigo o outro à tabela difícil, retardo-lhe a vitória. Por cima disso tudo, rio das dificuldades que vou criando. Não rio do adversário, não, embora possa parecer. Ou melhor, não gozo do adversário, porque até acho que tem mais piada quando me posso rir dele com ele: isso também é rir-me da minha alegria. De outra maneira, tudo é morrer.
Claro que há quem entre no meu jogo e até há quem o faça bastante melhor que eu. Mas são bastante mais os que se exasperam e acabam por me dizer, e se não dizem sentem, e, quando sentem sem mo dizer, dizem a quem mo venha dizer:
– Quando é que começas a jogar a sério?
ou:
– Assim não jogas nem deixas jogar.
O problema nisto tudo é que, para poderes jogar com estas pessoas, tens que entrar no espírito delas, acordar tacitamente sobre atitudes e gestos que são maldades e que, por isso, são de evitar. Ou seja, para além das regras próprias do jogo, há as regras próprias para te saberes comportar durante o jogo.
Detenhamo-nos agora no que aconteceu entre ti e mim. Tu pensavas que eu pertencia à segunda categoria. E eu, que sabia que tu o pensavas, durante muito tempo me comportei como sendo dessa categoria, acreditei que era dessa categoria, cheguei a ser dessa categoria. Morrecia.
Mas um dia não resisti ao osso e abocanhei-o: escondi a bola, embora sem me rir. Terás duvidado: «fez de propósito?» E aí cometeste um erro: acreditaste que não, que não havia intenção no meu gesto. O que te mergulhou em desamparo e desassossego quando eu repeti e repeti e repeti.
Comecei a ganhar mais jogos e comentei isso mesmo contigo. As coisas estavam, agora, mais equilibradas.
– Mas, claro – disseste –, não estamos a jogar o mesmo jogo.
Lembras-te? E eu surpreso:
– Então?
– Não estamos a jogar o mesmo jogo. Tu estás a fazer batota...
– Eu?
– Sim, tu. Por que é que não vais às tuas bolas e me deixas jogar as minhas em paz?
Estavas irritada e eu nem o sonhara. Eu jogava com as regras e tu estavas de acordo com isso, pensava eu.
E, enfim, que mais podia eu fazer senão retroceder? Comecei a ter cuidado para evitar fazer mais maldades. Comecei a perder, um, dois, três, dez jogos seguidos. Dizias que eu não me estava a esforçar. Mas até estava: estava a esforçar-me imenso para não ser mauzinho.
Espero que esta confissão te adoce a bílis.
Perguntaram-me no outro dia se, passados tantos anos, ainda pensava em ti, se te queria, se te recordava... Se penso em ti? Se te quero? Se te recordo? Nem deixo passar o teu horóscopo nas revistas de coração, vê lá tu, para inventar que descubro os teus passos lentos em redor das vidas, da tua, da minha, da que se perdeu.
Eu escondia a bola branca. Mas tu tiraste-a da mesa e levaste-a contigo.
– Não brincas mais?
Atenção, que isto não tem nada que ver com homens e mulheres. O Nuno, por exemplo, pertence à segunda categoria. O que me enerva bastante é que nem fode nem sai de cima da Ana, que pertence à primeira categoria.
Connosco é o contrário. Vou exemplificar com um jogo: o snooker. Eu, com este tom que em nada o disfarça, pertenço à primeira parte das dicotomias: aproveito as regras para espicaçar o jogo, escondo a bola, impeço a tacada directa, obrigo o outro à tabela difícil, retardo-lhe a vitória. Por cima disso tudo, rio das dificuldades que vou criando. Não rio do adversário, não, embora possa parecer. Ou melhor, não gozo do adversário, porque até acho que tem mais piada quando me posso rir dele com ele: isso também é rir-me da minha alegria. De outra maneira, tudo é morrer.
Claro que há quem entre no meu jogo e até há quem o faça bastante melhor que eu. Mas são bastante mais os que se exasperam e acabam por me dizer, e se não dizem sentem, e, quando sentem sem mo dizer, dizem a quem mo venha dizer:
– Quando é que começas a jogar a sério?
ou:
– Assim não jogas nem deixas jogar.
O problema nisto tudo é que, para poderes jogar com estas pessoas, tens que entrar no espírito delas, acordar tacitamente sobre atitudes e gestos que são maldades e que, por isso, são de evitar. Ou seja, para além das regras próprias do jogo, há as regras próprias para te saberes comportar durante o jogo.
Detenhamo-nos agora no que aconteceu entre ti e mim. Tu pensavas que eu pertencia à segunda categoria. E eu, que sabia que tu o pensavas, durante muito tempo me comportei como sendo dessa categoria, acreditei que era dessa categoria, cheguei a ser dessa categoria. Morrecia.
Mas um dia não resisti ao osso e abocanhei-o: escondi a bola, embora sem me rir. Terás duvidado: «fez de propósito?» E aí cometeste um erro: acreditaste que não, que não havia intenção no meu gesto. O que te mergulhou em desamparo e desassossego quando eu repeti e repeti e repeti.
Comecei a ganhar mais jogos e comentei isso mesmo contigo. As coisas estavam, agora, mais equilibradas.
– Mas, claro – disseste –, não estamos a jogar o mesmo jogo.
Lembras-te? E eu surpreso:
– Então?
– Não estamos a jogar o mesmo jogo. Tu estás a fazer batota...
– Eu?
– Sim, tu. Por que é que não vais às tuas bolas e me deixas jogar as minhas em paz?
Estavas irritada e eu nem o sonhara. Eu jogava com as regras e tu estavas de acordo com isso, pensava eu.
E, enfim, que mais podia eu fazer senão retroceder? Comecei a ter cuidado para evitar fazer mais maldades. Comecei a perder, um, dois, três, dez jogos seguidos. Dizias que eu não me estava a esforçar. Mas até estava: estava a esforçar-me imenso para não ser mauzinho.
Espero que esta confissão te adoce a bílis.
Perguntaram-me no outro dia se, passados tantos anos, ainda pensava em ti, se te queria, se te recordava... Se penso em ti? Se te quero? Se te recordo? Nem deixo passar o teu horóscopo nas revistas de coração, vê lá tu, para inventar que descubro os teus passos lentos em redor das vidas, da tua, da minha, da que se perdeu.
Eu escondia a bola branca. Mas tu tiraste-a da mesa e levaste-a contigo.
– Não brincas mais?
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