segunda-feira, 11 de maio de 2009

MULHER DIFERENTE

Chega a casa e encontra a mulher diferente. Como sempre, prepara o suspiro do cansaço; como nunca o suspiro lhe é roubado: a boca dela na boca dele, um beijo a meio do beijo que não completa.

Apagam-se as luzes, uma única vela ilumina o jantar.

O que se passa, Manuela?;

Saudades nossas, querido. Como te correu o dia?

Ele cala, sorri, gagueja, mente.

O peixe no forno, o vinho que abraça, a sobremesa impossível. Uma ternura de olhos espiando o Obrigado, querida.

E deitam-se e amam-se como há muito não. E à luz dos contornos: outro perfume, outro sabor, outra entrega, ah!, mulher diferente. Devoram-se a galope na sela da noite, confessam-se coisas tamanhas e tantas eternidades...

Joana, meu amor...

...

...

...

E o galope que trota e o trote que trava. Um maremoto que se prepara no silêncio repentino, na morte dos ofegos. A paralisia! A espera atenta! O medo!

Quando a torrente chega, não há mais comporta que a do seu corpo. Prende-a, impede-lhe os movimentos, morde-lhe a cara para lhe segurar a iniciativa.

E com o medo que vai crescendo agiganta-se a raiva. E o terror! E a mulher diferente...

terça-feira, 7 de abril de 2009

in vino veritas

Pôr-te a flutuar em tinto
é de meu gosto antigo:
se to escondo ou desminto
é por ser teu amigo.

De nada vale, dirás,
o copo que lá vem,
que é grande, em horas más,
quem igual se mantém.

Mas eu sou deste porto
há marés e marés
e o nosso nasceu torto
e eu torto de quem és.

terça-feira, 17 de março de 2009

desiderata

Acompanhar-te à cama e roer-te
a cabeça dos olhos ao pescoço.
Sugar-te a língua como quem tem sede
das estrelas que nela têm porto.
Mastigar os teus lábios sem paredes
e encher a boca no teu seio gordo.
Gritar «Meu Deus! Mas que caminhos estes»
para te ouvir dizer o amor dos outros.
Com a força dos meus beijos derreter-te
esse desejo fácil e sem dono.
E no silêncio, enfim, ficar a ver-te
sorrir de lágrimas em fim de outono.

domingo, 10 de agosto de 2008

metade em meia casa

É tão cheio o nosso catre
da mulher que nele entravas,
que faço e não faço parte
do homem que nele se guarda.

E o meu tugúrio vazio
a meio em quartos de lua
é uma espécie de frio
nesta ausência que é tua.

Já não quero mais que nada
pois que para nada presto:
– sou metade em meia casa,
que se foda tudo o resto.

terça-feira, 8 de julho de 2008

ÁLCOOL NUNCA MAIS


Acordava a pensar álcool nunca mais. Acordo a pensar álcool nunca mais e vou ao mercado por pão e garrafas, a pensar álcool nunca mais. Álcool nunca mais às nove é a cerveja das dez, o vinho da tarde, o copo de sempre. É continuar a acordar e acordar a pensar álcool nunca mais. Até ao dia em que álcool nunca mais.

sábado, 7 de junho de 2008

VOGAIS (Rimbaud)

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
De vós direi um dia as origens latentes:
A, corpete sem luz de moscardos luzentes
Que volteiam zumbindo entre odores fatais,

Penumbras; E, candor de vapores e tendas,
Lança em glaciar altivo, alvo rei, fraca umbela;
I, saliva com sangue e riso em boca bela
Sob a ira ou o torpor de quem procura emenda.

U, ciclos, mar de verde em seu vaivém sublime,
A paz do pasto cheio, a paz que sempre e tanto
Nas rugas do estudioso a alquimia imprime;

O, supremo Clarim de silvos ruidosos,
Silêncios penetrados por Mundos e Anjos:
– O de ómega, este roxo a raiar em Seus Olhos.

terça-feira, 6 de maio de 2008

lambranças

-----(http://yalibnan.com/site/archives/2008/05/lesbians_unhapp.php) --- Three islanders from Lesbos - home of the ancient poet Sappho, who praised love between women - have taken a gay rights group to court for using the word lesbian in its name. One of the plaintiffs said Wednesday that the name of the-association, Homosexual and Lesbian Community of Greece, "insults the identity" of the people of the Aegean Sea-island of Lesbos, who are also known as Lesbians."My sister can't say she is a Lesbian," said Dimitris Lambrou. "Our geographical designation has been usurped by certain ladies who have no connection whatsoever with Lesbos," he said.


Lambrou Dimitris que em Lesbos se é lésbico. Alargo eu: assim como romano em Roma e (entre lésbicas, alfacinhas e quejandos) lisboeta em Lisboa.


Mais lambrou Dimitris: a maninha, lésbica como ele, nem lésbica chega a ser. Que, o mesmo é lambrar, Deus dá nozes a quem não tem dentes.

São lambranças a mais, lambrou o homem, e, vai daí, ordem nas lésbicas, tribunal com elas. Elas, as lésbicas lésbicas, como é óbvio, as que têm dentes, tenham ou não tenham nozes.


Por seu turno, estas lésbicas lésbicas também já se tinham lambrado muito bem (ou mal?) lambradinhas que não são homossexuais: homossexuais são os outros (ou as outras?), que nem lésbicas são (ou lésbicos?).

Que trapalhada! Maior ainda porque também se me deu em lambrar. E lambrando, lambrando, se me lambrou que, se calhar, as lésbicas, ou pelo menos algumas delas, até são homossexuais. Por isso, ou da Comunidade de Homossexuais e Lésbicas se tiram os gajos e ficam todas lésbicas, ou se tiram as gajas e alguns até continuam lésbicos. Isto, claro, para não se tirarem todos de todos - e, nesse caso, nem homossexuais nem lésbicas para ninguém: lésbicos, lésbicos, só os lésbicos mesmo. Acho eu... Isto é só a gente a lambrar.


E também se me lambra agora que sou homo, quer queira quer não, embora menos sapiens do que se pensa e bastante mais rato do que se diz. E deixa-me furibundo que os moços (e algumas das moças?) se digam homossexuais. Homo quê?


Para mim, portanto, lambra-se-me, em conclusão, o seguinte: ou se lesbicizam todos de uma vez ou, então, tribunal mas é com todos, Dimitris incluido. Agora, por favor, em Lisboa é que não: deixemo-nos de mariquices.

terça-feira, 22 de abril de 2008

sem-abrigo

.
quatro paredes um tecto
dois panos sujos de sono
cinco horas de amor inquieto
três cães a contar com o dono

a minha casa
é o teu coração quando se atrasa

domingo, 6 de abril de 2008

DORMINDO NO VALE (Rimbaud)

Era espuma de luz esse pequeno vale
Onde brilhava o sol sobre a montanha altiva,
Que em delírios de prata entre as ervas corria
Por um troço de verde um riacho a cantar.

E era um jovem soldado estendido na relva,
Banhando a nuca exposta nas águas de azul:
Já sem inquietações, a boca meio aberta,
Branco em seu leito verde encharcado de luz.

Qual criança doente, ele sonhava sorrindo
Ao colo do universo enquanto a tarde esfria:
Nos gladíolos os pés, finalmente dormia.

Não sentindo o perfume em redor, só dormindo:
Ao sol, tranquilo, a mão deitada sobre o peito,
e dois furos carmins no seu lado direito.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

paz de breu

Adentro o mundo
em que me afundo
arduamente,
pasta de breu
que assim sou eu
desde sempre.

Que importa a luz
se aqui me pus
tão de agora?
Que importa se
nunca fui de
lá de fora?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

EXECUÇÃO

A voz grave e rouca começou por se engasgar mas depois calou tudo em redor. Impossível dizer de que serviam aqueles volteios, se eram realmente necessários à aproximação do fim; mas de repente a máquina decidiu-se e rodou em linha recta, parando a meia dúzia de metros.

Janelas partidas, um ligeiro desequilíbrio de luz, o copo esquecido em estilhaços no chão... O primeiro embate desenhou na parede da sala um rasgão de alto a baixo, por onde se escoou o pó de um grito.

E agora? Sobre o ruído branco da máquina, dir-se-ia que o silêncio. Mas depois, abafados como ao longe, homens que falam. Parecem prever a localização do próximo golpe. Ou comentarão a violência do primeiro? E BUMMM!

Outro. No mesmo sítio. Um rombo, um fio de água a escorrer na parede em frente. No entanto, a casa continua em pé. Abanada nos seus alicerces, são cinquenta anos de estar ali, é dela a paisagem.

Menos espaçados, sucedem-se os ataques. No exterior a cedência começa com o que parece uma enorme teia de aranha e, por fim, a esfera metálica atravessa a parede como se fosse de papel. Cai uma parte do telhado sobre o chão da cozinha, outra parte mais além sobre a cama abandonada.

Num espirro prolongado, a casa é varrida pela esfera. Nos seus vazios entram em pedaços todas as fronteiras. Um monte de peças soltas forma agora um puzzle impossível e por momentos algumas dessas peças demoram a ajeitar-se, a descobrir o seu lugar entre as outras.

Voz extinta entre soluços, esfera abandonada ao chão, a máquina vela agora um cadáver.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

SEM SENTIDOS

Este retrato dá-se ares teus mas é um embuste. A minha mão vazia dos teus cabelos continua vazia dos teus cabelos e a tua pele já só vem de trás dos meus olhos. Nem a sombra com que chegavas e partias nem a tua persistência nos lençóis ele oferece... Passo a língua e continuo tão eu, sem as humidades e os sais com que o teu corpo temperava os meus vazios...

O teu retrato, meu amor, nem falar sabe.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

fracasso

sombra de sombra em mim
pedaço do homem
_____
que não vivi
bicho desatento
_____
que nunca soube da espera
ave que não aprendeu do vento
_____
a caminhada da primavera

talvez morrer seja enfim
estar aqui

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

insónia

já não é à noite
_____
como foi há dias
por trás dos olhos fechados
_____
o sonho que tinha

_____
agora a alvorada
_____
descobre-me assim
um cansaço de sem vida
a viver em mim
_____
porque agora sou mesmo este sopro
__________
em horas paradas
_____
que me atira em gotas de chuva
__________contra a hora que falta

terça-feira, 27 de novembro de 2007

febril

Finalmente febril
ajeito-me a um canto do nosso chão:
nós tão aqui e o mundo a mil
e o meu corpo no teu abraço
e nos teus olhos tudo o mais que faço
e nos teus olhos tudo o mais que faço.

Não quero mais nada, não.

Sob as sombras do tecto
um andar por telhas da tua mão:
o paraíso é tão directo
como um sol que viaje por dentro,
como um bombom de inferno em vai de vento,
como um bombom de inferno em vai de vento.

Não quero mais nada, não.

Mais logo hei-de saber
as manhãs que houver nos beijos que são,
tudo o que em nós queremos ser
e este sol que agora nos tem,
a noite à noite que somos também,
a noite à noite que somos também.

Não quero mais nada, não.

domingo, 18 de novembro de 2007

sex-appeal

Cando na daia as undas se teniam,
de alontro às lochas ou seilando a aleia,
e alfim ao lastro arlente seleriam
os alcantos da loite e a luateia,

oh!, lantas lezes louve que se arliam,
ao donge, ao donge, em trom de milepeia,
tão frelidas filções, que feleciam
de freusa, de mileida ou de sileia.

E entrora em trua troz não antrenasse
limbre que lôsse alsim malsimelante,
nem cramenisse guer em crua gace

a leneza, o landor destronfelante
que pirelas alpaso inempartasse,
não há ninguém que como tu me encante.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

.quadra 2

Extinta a luz do candeeiro,
um homem em fim de luz...
Absurdo, inútil, rasteiro
o abandono em que me pus!

sereia

Só queria ser-te o beijo,
flor à flor da tua pele,
e correr-te sem receio
a que sejas tão mulher.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

regresso a casa

.
Quase noite. O homem recua
ao homem da madrugada,
passo a passo, olhar sem lua,
à espera de quase nada.
Sempre de cabeça suja
pelo tempo que ainda falta,
passou o dia na rua
com medo às sombras da casa.

E agora a porta que teima,
o retrato sem parede,
o pó, a mesa em madeira,
essa vertigem sem rede:
à espera de quase nada,
o medo às sombras da casa...

domingo, 4 de novembro de 2007

a construção do poema

Vou subindo em silêncio
de grau em grau a torre de babel
sem ruínas nem pressas sem incêndios
nem mais céu do que céu aqui houver
e já não temo o escuro
que a noite à noite verte sobre os dias
nem as esbatidas formas do futuro
nem esta persistência em nossas vidas
_____
porque a origem dos nomes
_____é o sopro ancestral na tua boca

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

do caraças

.
À parte o andar a mais, a moça do terceiro caminha três palmos acima dos meus, dois que são dela e outro das solas que a calçam. Por qualquer engulho antigo e que nunca pude entender, evitamos atravessar-nos. Se ao chegar do trabalho um de nós vê o outro à porta do edifício, desvia por um café. Se me vê a sair do elevador, sobe pelas escadas; se a vejo a entrar, demoro-me no correio.

Mas é precisamente o elevador que às vezes nos encontra, quando, do terceiro ao rés-do-chão, é interrompido no segundo por um movimento do meu dedo. Abro. Vejo-a. Sorri.

«Olá», adoça ela, «Bom dia», engrosso eu.

«A ver se um dia destes resolvemos o problema das casas de banho», propõe.

O problema das casas de banho é um pingo que deve ser sempre o mesmo e que cai da sua banheira para a minha, muito de vez em quando, muito de ano a ano, sem ninguém conseguir imaginar a que se possa dever tal fenómeno. Falar-lhe disso foi o princípio do nosso primeiro diálogo de elevador, que este substituiu de há dois anos para cá.

Já na entrada do edifício, abre a porta que tem pressa, fico-me na correspondência que tenho solicitações, e então bons dias, e bons dias então. E fico a olhá-la por um canto do olho, diabo da mulher! Ontem: meia de carne, sapato que empina, vestido vermelho com milímetro de coxa e sobre o seio concha branca em blusa de que cor.

O que me faz lembrar esse sucesso de hoje pela manhã no duche, e que já quase esquecia. Convém dizer que eu cantava e cantava mal. Demorava a afinação e quase a atingia por trás dos olhos no preciso momento em que o diabo da mulher me cai à frente, ensaboada e grande, grande mesmo sem o palmo a mais dos sapatos. De início, ficámos muito sérios, ela muito fria, fria de frio, eu muito espantado, espantado de cavalo. Atirei-me para trás e bati com a cabeça na parede, deixei-me deslizar pela banheira, enfim, que sorte a minha não ter partido nada.

«Desculpe», largou ela sobre mim.

Olhei do mais baixo que pode haver para aquela montanha de mulher e não pude dizer nada, enquanto ela pegava no chuveiro e se aquecia e empurrava para fora de si o sabão com que vinha.

«Desculpe», disse mais uma vez, «a ver se um dia destes resolvemos o problema das casas de banho», e um braço forte resgatou-a do meu sonho novamente para o andar de cima.

Assim que, na próxima vez que a viagem do seu elevador levar um pouco da viagem do meu, já tenho como precipitar outro diálogo, o terceiro das nossas vidas. Depois de pensar todos os gestos e todos os adjectivos que sei, decidi que vai ser assim. Entro, oiço aquele doce de olá e estico o pescoço enquanto balbucio:

«És... és... eh pá, tu és do caraças!»

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

homem sem


Há homens sem e homens com
que parecem o que são
e homens sem que parecem homens com
e homens com que parecem homens sem.

Com os com finjo que sou com
e com os sem... pois, que sou sem;
isto quando não faço o contrário,
que é parecer com com sem e sem com com.

Neste trânsito entre tantos
disparates
perco o rumo do que sou
e em vigília construo
o pesadelo em que vou.
E acordo e não sei de mim,
onde é que estou, ao que este dia vem,
para entre as sombras descobrir
que sou um homem sem dentro de um homem sem:
sem palavras sem caminhos
sem certezas sem equilíbrio
sem quês nem cons,
meu amor: sem ti.