quinta-feira, 29 de abril de 2010

EPPUR MI MUOVO


sou um grave___galileu___de queda mais que estudada
mas só há alguns meses me estudo a tempo inteiro
antes punha asas à madrugada e
___por muito pouco que o meu sono valesse___valia tudo_____
é que antes
___galileu___antes eu sonhava
-
sou um grave
___sim___um grave a gravitar o lado b da espera___que___toda a gente está refarta de saber___é o lado a do fim
-
então cá estou eu
_____para mais um dia

segunda-feira, 26 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

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Queres matar a saudade? Então não a mates. Ou mata-a de mais.

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Tarde ou cedo, morre a saudade que não se mata.

PRESENTE MAIS QUE IMPERFEITO


penso todos os dias em ti como era uma vez___um pretérito imperfeito com sabor a condicional___mas isso quem não o sabe?_____não vou dizer que este é o primeiro era uma vez na minha vida nem posso garantir que nunca será foi uma vez com a perfeição das coisas acabadas_____pelo que sei do que sou___só posso dizer que___ independente de tudo___és

quinta-feira, 22 de abril de 2010

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Restam tristeza, desamparo e culpa a quem não sabe sonhar mais sem sonhar de mais.

terça-feira, 20 de abril de 2010

PALHA ENTRE AS ORELHAS


Mato o caracol que a distracção ignora  – e sinto-me culpado. Peço um salmão grelhado após três semanas de sem cadáveres à mesa – e sinto-me culpado. Vejo-me obrigado a entrar no Centro Comercial do Campo Pequeno – e sinto-me culpado: paredes meias com o meu passeio, tortura-se, mata-se, ovaciona-se o desempenho de pavões assassinos.

Há tempos, no ecrã, o único argumento de um desses vaidoselhos subia os degraus da tradição para maltratar cavalos, vacas, novilhos, touros. Corrijo: não foi maltratar o termo utilizado pelo penteadinho; era qualquer coisa mais próxima de vidas e mortes honrosas. Que sorte, a destes animais. E a dos outros que por lá haja, naquele seu mundo benfazejo: não imagino grandes escolhos na generalização da arte.

Mas de onde me saíram estes gajelhos? Seremos, eu e eles, da mesma fábrica? E se não, quem tem mais palha entre as orelhas?

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Quer dizer, Clara: orgasmos ou «orgasmos»? Esquece, não há resposta que me esclareça e assim.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

dâsse

1989_______ o segundo furriel rodrigues___número mecanográfico zero-36-515-de-88___assenta praça em elvas_______bebe tangos sevenups batidos de coco__e acompanha com bollycaos ______estes são maiores e mais recheados do que o futuro e trazem tous___tou c'a veneta___tou chocho      tou na pior ___________________________
o rodrigues
___claro___também tá_____mas é fodido

terça-feira, 30 de março de 2010

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Avaliares-te, em cada instante, na justa medida - eis o maior e melhor esforço. Menos e mais é sempre demais.

segunda-feira, 29 de março de 2010

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Ainda há dias, entre mim e a noite era um abraço de nada. Mas agora que da mesa à cama se estende a luz das velas, é quase tudo entre nós.

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Meus pés antes sempre quentes, toda a cama os expulsava. Meus pés agora sempre frios, nenhuma cama os recebe.

quarta-feira, 24 de março de 2010

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Entre diminuir a expectativa e rastejar é curta a distância. E eu não sei se algum dia aprenderei a medi-la.

segunda-feira, 22 de março de 2010

resumo


Levanto-me e sol. Durante a noite, a guitarra desfez-se de uma das cordas e o cão gemeu baixinho. Também, e sobretudo, amei as mulheres: viriam a trocar-me por luas de mel, trariam a esperança e a minha morte no regresso dos seus ventres fecundos.

Como é óbvio, não gosto de nada disto. Talvez devesse correr as cortinas, limitar-me a dormir.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O SENTIDO DA VIDA

Tom entre tons no tabuado ou silêncio nos recônditos do catre – o comprimido era-o tão que até poderia ainda lá estar, indemne a qualquer pesquisa sem sorte. E, partindo desse pressuposto, aos meus se explicará que veio uma serena desistência a sossegar-me o coração a meio da tarde.

Deprimia há tanto, essa a verdade: desde o tempo em que, adolescendo, concluí que o sentido da morte desliza na direcção da vida.

Mas, uma vez mais, passou o aspirador e apenas ficou: o sentido da vida, o sentido da vida.

quinta-feira, 11 de março de 2010

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É a solidão que nos define. Mas há quem saiba vivê-la acompanhado.

quarta-feira, 10 de março de 2010

tanka viii

toda a minha sombra
sob a sola dos sapatos
e uma vez por dia
esta sensação antiga
de nunca ter aqui estado.

terça-feira, 9 de março de 2010

quadra 22

Se o teu maior desconforto
é o que a vida te fez,
calça os sapatos do morto
e desce à rua outra vez.

domingo, 7 de março de 2010

quadra 21

Escondi as mãos nos bolsos
e a cidade no deserto;
diz-me este frio nos ossos
que já não moro por perto.

sábado, 6 de março de 2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

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À boca esquerda me endireitam, à boca direita me esquerdizam; e vão todos endireitando, inconscientezinhos, enredomaditos, merecedores.

terça-feira, 2 de março de 2010

tanka vi

o cão paciente
aguardou pelas sobras
da nossa mesa;
e agora nem repara
que também nós sobrámos.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

quadra 20

Se o azar cem anos me der
não hei-de ver mais em ti
do que mais outra mulher
entre as mulheres que esqueci.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

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Perene e redondo, contínuo: o arco-íris, o arco-arco-íris, o circulíris desta luz incandescente.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

quadra 19

Caem três meses de chuva
sobre quem já foi contente,
que uma lágrima de culpa
nunca será suficiente.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

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Em fila, ao longo do frio, as janelas iluminadas espreitam o caminho. Demoro os passos, não tenho luz em casa.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

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À luz candeeira dos amarelos mortos, incendeio a solidão de um cigarro em prosa. O grilo em que fui já sabia: assim acaba quem assim viveu.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

quadra 18

Não sou de por onde vais
nem fui de por onde andaste.
Diria, dizendo mais,
que mais não sou do que um traste.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

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Pedes que me defina, digo-te o que nos define: prescindibilidade. Bebe mais um copo, ri comigo: não é maravilhoso sermos assim?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

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Sempre disse minha mãe, Sabes o que te digo?; Filho e perplexo, eu, O quê?; Que cevada não é trigo. E, graças a ela, nem goiaba figo.

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Um segredo é o fim do segredo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

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Temo cada vez menos a minha morte. Apenas me assusta este precário equilíbrio em que mato e vivo os outros.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

.quadra 17

Não dizem as manhãs frias
o que faço eu ainda aqui:
são já quinhentos os dias
há que sei que te perdi.

haikai v

o ponteiro pequeno
precisa sempre de uma hora
para estes cinco segundos.

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Arrumar é dar rumo. Alguns arrumam-se; outros, como eu, são arrumados. Por isso, como é óbvio, perenemente me desarrumo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

quadra 16

Passei palavra certeira
pelo pó do pó do mundo
e achei que dessa maneira
o podia ler a fundo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

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Bebo um copo e já não rio só de mim. Que me perdoem os mortos do meu riso.

domingo, 31 de janeiro de 2010

quadra 15

A gostos já ganhei medo
e é por isso que me escondo:
a minha vida é o enredo
das mortes que vou compondo.

quadra 14

Sempre evitei enlutar
enquanto me resolvias.
Agora sigo sem par
e é noite todos os dias.

sábado, 30 de janeiro de 2010

quadra 13

Sem exigência nem pressa,
a minha espera deu nisto:
agora apenas te interessa
esquecer que ainda existo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

quadra 12

Um poema não vale nada:
quarenta e duas revoltas
de adolescência cansada
e descobrir que não voltas.

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Uma taça de vinho são dez segundos de esquecimento. Vale a pena? Valeu.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

risco

Esta noite amorreci
um pouco mais.
Se amanhã se der que morri
é porque amorreci de mais.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

quadra 11

Eu já nem sequer vou só
porque já nem sequer vou:
há muito que isto era pó
quando o aspirador passou.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

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Como se não fosse um solitário, sinto-me só. A memória nem sempre basta, esta noite sonhei que alguém ouvia o meu grito.

sábado, 23 de janeiro de 2010

consolo

O cão que vive comigo,
meu companheiro de há tanto,
já sabe que eu nunca digo
à noite o que ao dia canto.

Por isso, quando me deito
triste e em lágrima corrida,
encosta o corpo ao meu peito
a querer saber da vida.

Tenho uma ou duas ideias
mas ficam para depois:
na nossa almofada a meias
adormecemos os dois.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

.quadra 10

Por mais vida que recorde,
não vejo vida que preste.
Eu só tive medo à morte
no dia em que me quiseste.

domingo, 17 de janeiro de 2010

quadra 9

Há quanto tempo, luís,
isto vem correndo mal...
Chumbas sempre, e ao que se diz,
já nem sequer vais a oral.

sábado, 16 de janeiro de 2010

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Talvez eu ande a pôr o mundo nas minhas caixas, como às vezes me censuram. Só é pena que me calhe tantas vezes a caixa certa.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

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Criança me disseram que beco não tem saída. Graúdo soube que tem: a entrada. E é beco sem saída este em que vivo e de cuja entrada me perdi.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

quadra 8

Do que aí vem não me lembro,
sou um simples cão rafeiro;
apenas sei que dezembro
ainda mora em janeiro.

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Somos presas de bruxismo: a Terra range os dentes e engole todas as rotinas.

.quadro 7

Hás-de morrer, luís amigo,
por mais triste que te faças,
e até lá, viver contigo
é triste como o caraças.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

.quadra 6

Para ti que tanto erraste,
o perdão é mal empregue;
se houver palavra que baste
não há gesto que sossegue.

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A verdade é que, bem vistas as noites, nunca mais é sol para me aquecer a chuva.

domingo, 10 de janeiro de 2010

quadra 5.

Eu, o cão e a tua ausência:
eis como em cama tão estreita
e contra toda a ciência
uma trindade se deita.

.quadra 4

Esta contínua embriaguez
não vai esconder-me o passado,
mas uma coisa já fez:
pôs-me o futuro de lado.

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Esperar que neve em Lisboa, é viver. Esperar que neve na Lua, também. Mas aqui já começa a ser estranho: talvez não seja esta a minha vida.

sábado, 9 de janeiro de 2010

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

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Leitor digital com lombada e páginas vazias, para encher, folhear, substituir. E com sabor e cheiro a terra, em querendo eu. Quanto disse que era?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

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Sessenta horas de sem sono dá qualquer coisa como quarenta e cinco de insónia. Não falha.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

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1999: Os abutres em espera, o adeus do pai, o desconcertante desmoronamento da casa. Também a tua lágrima emboscada, Lhasa de Sela.

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Por que é que não te pões a pé?, pergunta a insónia. Por que é que não te deitas?, devolvo eu. Mas, então, e se esperássemos sentados?

haikai i

uma cerveja mais:
tens alma para ver morrer
a espuma da paciência?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

trio ainda não desfeito (excerto não publicado - 2003)

Atrelar estes bichos – não sei de complicação maior. Não entendem como é difícil enganchar-lhes as trelas enquanto galopam de um lado para o outro e resvalam no soalho envernizado, de encontro às paredes, à procura da rua. Peço-lhes para se porem a jeito, mas nada: desconhecem a distância segura que lhes quero impor, apenas devoram a proximidade do passeio, a inacreditável inevitabilidade da saída. Mas tem de ser, meus amigos, a trela não é dispensável. Sempre em excesso de velocidade e de cabeça no seu mundeco, estes automobilistas não vêem dilema entre o risco no carro e a morte dos outros: toda a gente sabe que é proibidíssimo atravessar fora das passadeiras. Estádio moral do mais rasteiro, mas, enfim, a verdade é que o popó tem de estar em ordem, não é?, para se mostrar aos outros quem completo vive, e parecer diferente quem se jura igual, e evitar o suor dos transportes o maior da sua aldeia.

Já na rua, músculos retesados e cabeça esticada até ao chão, puxam-me pelos ziguezagues que nos unem ao jardim, farejam como aspiradores, raramente os dois no mesmo sentido, consoante os város cheiros que o vento vai oferecendo. Tão egoístas, estes sacaninhas incorrigiveis!, cruzando as trelas, atropelando os peões, sem atenção nenhuma aos difíceis malabarismos que eu tão arduamente aprendi – e que tentam repor a normalidade nesta viagem tantas vezes repetida. Parecem dois loucos no paraíso. Tão loucos que eu nem sonhar posso em deixar-me levar, fechar os olhos e segurar as trelas,
puxem-me, puxem-me que já não aguento mais
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Mas loucos, loucos instalados, só quando os solto no jardim, elegantes e nervosos como corcéis, desobedientes como homens livres.
Queira deus que não apareçam outros
, porque se umas vezes dão em brincar, outras preferem o ataque. E seguem a sua vida feliz, como se levitassem ou fossem todo o mundo: saltam, cheiram, marcam, rebolam-se, fazem tudo a que têm direito.

Desembaraçam-se do peso nas tripas e o sebas põe-se a olhar para mim, muito atento, à espera do ritual:
então, não apanhas?
Porra!: esqueci-me da folha de jornal. Não, hoje não! Se fosse para apanhar, a câmara que pusesse sacos à disposição. E se não quisesse que eu cuidasse deles, que os amparasse em vez de os deixar a morrer na estrada. Não, não apanho nada. Não tenho energia para me baixar agora. Amanhã não é outro dia.

Os comentários dos peões,
também..., olha aí, porco, palhaço, cabrão, cada vez mais fortes!; os palavrões e envios inconfessáveis que lhes atiro nas minhas respostas abafadas; a conclusão, malcriado!, olha-me a educação que este dá aos cães
. Fungadelas de nariz, suspiros de impaciência, bruscas rouquidões por olás simpáticos, espadas nos olhares, dinamite nas bocas. Preferiam que eu não existisse, eu sei, o mal-estar instala-se; e nem sabem que já houve vidros rachados na porta de entrada, pontapés em carros mal estacionados ao longo da recta que aqui nos traz, honras sitiadas nos olhos que tantas vezes larguei... Se pudessem matavam-me, se pudessem até o sangue me bebiam, se pudessem, ah!, se pudessem...

Se pudessem: abreviavam-me.

Os cães, esses, marimbam-se para o mal-estar dos vizinhos, apenas rosnam e arreganham os dentes num aviso aos mais distraídos, que não é suposto estacarem nas redondezas, ainda para mais a olharem para nós com todo aquele atrevimento e ar de desaprovação, o que é suposto, isso sim, é evaporarem, eclipsarem, ala que se faz tarde,
estamos aqui, estamos a experimentar-vos a carne. 
E continuam a sua vidinha, venha de lá chichi para as plantinhas, toma lá chichi que isto aqui é meu, rabo a dar a dar – assim é que eles são felizes!

Meia hora depois, volto a pôr-lhes as trelas. Engancho-as nos dorsais e regressamos. A dosti, algo cabisbaixa, olha às vezes para trás com os seus olhinhos tristonhos e a língua rosada de fora, como quem diz que não havia necessidade de abandonar a rua tão cedo. Ofereço-lhes toda a corda que posso, mas eles já só usam uma parte dela: vão juntinhos a mim ou deixam-se atrasar, porque assim é como estão mais longe de casa.

Agora tudo é transparente: têm-me posto imensas trelas, há sempre uma coleira a cintar-me o pescoço.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

.quadro 3

Talvez já não valha a pena
esperar-te em minha casa
que a mudança é bem pequena
quando a vontade se atrasa.

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cabelo de trigo:
há qualquer coisa de mim
que não é de aqui.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

fóssil

É madrugada. Anoiteço
em cama de quem ma dera,
que o nosso adeus tem por preço
um sopro em estátua de espera.

Que daqui até ao sol
planam asas de sonhar,
que isto é turvação maior
mas breve em água de cal.

E adormeço criança dócil
no teu olhar impreciso
enquanto estudas o fóssil
do meu extinto sorriso.

domingo, 20 de dezembro de 2009

SÓ MAIS UM ABALO

MOTE.
Foi só mais um abalo. Um outro, mais silencioso, mais ardiloso, já pouco deixara de pé.

(Susana Baeta)

GLOSA.
Habito os anjos: há trinta e três anos que o metro é o meu diário. Mas esperanças no segredo da sua pouca terra – só anteontem me apercebi de que já só rastejam.
Pouco passava da uma e meia e não foi a martelo o ritmo subsolar deste meu quieto passeio. Houve antes um baloiço de tontura, um vaivém por entre afagos à caneca de vinho, um leve formigueiro de encanto em sorriso de seja o que for.
Foi só mais um abalo. Um outro, mais silencioso, mais ardiloso, já pouco deixara de pé
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

MATAR A SAUDADE

Não compensam pelo passeio, estas viagens cansativas. E caríssimas, o que nos começa a fazer pensar se não seria preferível ir à origem da perfeição. Ademais, e lamento desapontar-te, na Lua já pouco mais se encontra do que água engarrafada – e a preços tão escandalosos que apenas meio litro te levo, para matares a saudade.

Pouco a pouco, transforma-se num cemitério de futuros este planeta sem passado. Meu amor, se não fosse por ti eu nunca mais saía de Marte.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

26 DE NOVEMBRO

Quase tudo na mesma, por estes lados.

Um dia depois de ti, a Rosário também partiu – e eu ainda lamento o tempo que perdeu comigo, que tão pouco o tinha para si. Nesse primeiro mês da sua solidão, sempre que o levava à rua o Barbas retesava as patitas ao virar da esquina, punha os olhos no passado, ficava à espera que aparecesses. Sempre soube andar ao ritmo das tuas dores.

Mas de que falo? Recordo que, no princípio, tintim por tintim todas as horas te contávamos. Talvez apenas ignores que saiu finalmente o nosso «Pinguim». Só me entristece não teres podido repartir com o teu amiguinho as iguarias que lhe ofereci, em jeito de comemoração. Depois do lançamento, senti entre a família e os amigos que era aquele o cume do meu evereste; mas agora sei que foi uma planície como as outras, vale interrompido sobre vale repetido. Não há everestes aqui dentro e isso, afinal, é até muito bom. De qualquer modo, a mola da novidade logo estacou o seu vaivém.

Mulheres? Que te posso dizer senão que nada mudou? A mesma adoração por aquela que sabes – mas ampara bíblia e platão esta minha almofada de agnóstico.

Quem dera que esta noite pudesses de novo acompanhar o Barbas aos pés da cama. Quem dera que a próxima manhã acordasse lambuzada da tua procura.

domingo, 25 de outubro de 2009

BÍBLIAS À PARTE*

Nesta enorme e colorida tela de entender o mundo que é a dos auto-denominados homens sapientes sapientes – o mesmo é dizer: sapientes a valer – tenho a tendência para me achar muito importante.

A tendência. Que, num cantinho da tela, há matizes – alguns dirão sombras – na breve pincelada que habito. Esses matizes também me fazem crer, e muito, e tanto, e cada vez mais, que nada tem menor importância do que eu. Não valho mais, por exemplo, do que este amigo de quatro patas que agora me pede para ir à rua: sou apenas um modo diferente de estar no mundo, sem nenhum tipo de acesso privilegiado ao que se queira denominar de verdade.

Sem esquecer que, como dizia o poeta, «não haver deus é um deus também», o não me dar eu a importância que não tenho implica que não precise de imaginar quaisquer deuses a amparar-me: estão ausentes das minhas ânsias a sua existência e a sua não-existência. Também implica não me ser nada incompreensível a crença de muita gente nesses deuses. E implica, enfim, que me interesse mais ir agora passear o meu amigo do que demandar conclusões impossíveis.

Nenhum fogo se alimente de mim, dê-se-me a importância que tenho.

     *a propósito da polémica surgida com a publicação de «Caim», de José Saramago

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ai maité...


Quando nos longínquos anos 80 eu adolescia, caíam-me no goto meninas de fala mimada e acto indeciso – e não havia melhor queda que a tua. Não perdia um episódio da Guerra dos Sexos ou da Vereda Tropical, confesso o crime, e terás sido responsável pela diluição do meu estudo no estupor das madrugadas, em vésperas de testes.

Não faço ideia se corresponderia a tua verdade à minha fantasia, que nunca procurei saber da tua vida nem dos teus graus de liberdade. De qualquer modo, os anos passaram e de mulheres-criança me bastei: guardo para mim as energias que posso.

Mas atrevo-me, agora, a reatar a fantasia: se ainda tens a fala mimada que eu deixei de valorizar, a verdade é que adoro esse teu novo ar de 3 em espelho e faisandée. Estou que estou por uma conversa com tigo e vinho; por saber o que andaste tu
praticando, como, com quem, que dia e que hora
, em todos estes anos de sem-novelas minhas; por rir-me a bandeiras despregadas do modo emproado como imitas um português do povo.

Combinamos alguma coisa? Pode ser nos Jerónimos, onde Camões nunca esteve mas de onde decidiu escapulir-se. Ou junto à fonte dos amores, perdoa-me a ousadia. E se quiseres... se quiseres, até te ensino como se cospe a sério.

Mas sem gravações, não fosses achar um coche nojento.

sábado, 10 de outubro de 2009

QUEM

Quem fechasse os olhos e as palavras lhe morressem. Quem não procurasse a ausência e esta o encontrasse. Quem nada entendesse e, como sempre, nem o soubesse. Quem ao fim da pena chegasse e a pena lhe valesse.

Quem fosse eu que mais não fosse, quem desfosse.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

30 DE SETEMBRO

Prossiga a madrugada e adormeça de exausta sob o cadáver da vigília. No reverso da partida, leiam-se os poemas há muito escritos – para no seu verso, enfim, se calar a procura. Sopre sempre, num vento ao contrário, o fim da tempestade. E, quando for a morte, de inverno chova este choro de outono.

sábado, 26 de setembro de 2009

AB OVO

Diluídos todos os etcéteras, era de esperar frases gordas, pontivirguladas. Procuravas apartes e dois-pontos-citações, nutrientes sandochas de reticências rápidas. Querias que te engolisse a dúvida, chegar ao ponto e subir a escada, repetir no ouvido a primeira palavra.

Mas não. E foi por isso que nunca te enganaste.

sábado, 19 de setembro de 2009

SUBMARINO

Houve um segundo de nos sermos desconhecidos: como se, quase amante, eu tivesse descoberto à superfície dos teus olhos a planície das amiguinhas.

Houve um beijo a voejar-me no vendavel do contrário: uma espiral de entrega em que, já quase amiguinho, cheguei a ser amante.

Houve um mergulho e há que voltar.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

NO PRINCÍPIO É O VERBO

Passei o pincel por paredes e tecto, mobilei com as madeiras que pude. A televisão corre há dias mais canais do que os suficientes, o cão esgueira-se pelas assoalhadas e já se deita com à-vontade de proprietário. Mas ainda não lhe tinha chamado casa, ao meu e seu abrigo.

Só hoje nos vieste visitar.

sábado, 12 de setembro de 2009

ENSAIO EM BRANCO

Já não há vendaval que me fustigue as lágrimas, apenas um ensaio de frio sobre o correr da madeira. Quantos anos – antes de poder abrir a gaveta da nossa ausência; quanta morte – para não desejar a morte no pedaço de papel que te lembra… A luva que esqueceste já não te esconde os dedos, os meus dedos sobre elas já não recordam nenhuma pele: de tempo coagulou a tua passagem por mim.

E um segundo ensaio de frio percorre a nossa velha caixa de cigarrilhas. Fumar mata, mas fazem-me sorrir os deliciosos despojos que ainda guarda. Retiro um, acendo-o, saboreio-o. Qual mata qual quê… Fecho a caixa e rodo-a, talvez como no movimento com que te entrançava o cabelo.

No outro e por outro lado, fumar pode reduzir o fluxo de sangue e provoca impotência.

Ah... Então foi isso.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

OVO PODRE

Na tasca, um que pede
     Ó pá, muda mas é de canal e põe na tourada.
Todos embebibevecidos, eu o que da dúzia cheira mal: cervejas e cervejas em cima dos cornos, como posso argumentar?
    
Torço sempre pelo touro

começo.
    
Olha, e eu torço para que o touro fosses tu
diz-me um dos onze.
     Também eu
asseguro
     para espetar-te os cornos no coração, sacana de merda.
     No écrã, o bicho fugia de encontro à dor enquanto me expulsavam por mau uso da palavra. Puderam assistir assim, e em sã camaradagem, a todos os passos da tortura.
     Diz-se que, na santa paz da minha casa, não tenho nada que ver com os crimes dos outros.