sábado, 31 de julho de 2010
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Mais caloria, menos caloria, preciso de duas mil por dia. Não posso distrair-me com as minhas escrituras.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
quinta-feira, 29 de julho de 2010
FAZ-TE À VIDA
Em miúdo, tive de assistir algumas vezes à matança do porco. E, não bastando, também me levaram um par de vezes à tourada. Talvez o primeiro desses actos seja inevitável; mas são evitáveis os requintes de malvadez e a festa que geralmente o acompanham. E que definem as touradas.
Com o tempo, fui descobrindo que ser bípede e desasado nunca foi critério de humanidade. Nesse sentido, já ouvi muitos toureiros pronunciarem-se com menos inteligência que a de um porco; e, entendidos como vêm no dicionário, bacoradas e grunhidos - eu só os tenho encontrado entre os primeiros, boçais contabilistas de orelhas e falsos argumentos.
Com o tempo, fui descobrindo que ser bípede e desasado nunca foi critério de humanidade. Nesse sentido, já ouvi muitos toureiros pronunciarem-se com menos inteligência que a de um porco; e, entendidos como vêm no dicionário, bacoradas e grunhidos - eu só os tenho encontrado entre os primeiros, boçais contabilistas de orelhas e falsos argumentos.
Isto a propósito de uma notícia que traz duas. As touradas serão proibidas na Catalunha a partir de 1 de Janeiro de 2012 e a minha felicidade só não é completa porque, até lá, é bem provável que aumente o rasto do crime. A horda de bárbaros afluirá a "anular o sofrimento do touro e dignificar a sua morte na arena", segundo as palavras macaqueadas de um tipo a quem deram o nome de Pedrito de Portugal.
É o sofrimento, estúpido, é o sofrimento que começa por estar mal. E quem tem de se dignificar és tu. Faz-te à vida.
É o sofrimento, estúpido, é o sofrimento que começa por estar mal. E quem tem de se dignificar és tu. Faz-te à vida.
quadra 44
O já gasto melodrama
é que a minha vida alterna
entre o amor à tua cama
e o rastilho da taberna.
é que a minha vida alterna
entre o amor à tua cama
e o rastilho da taberna.
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Também da preguiça, e em mim sobretudo da preguiça, se alimenta a maldade. Valha-me em sorte não ser rico.
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À luz do candeeiro, redonda e quieta, a pomba amorrece. No seu pescoço arrepiado levanta-se o temor de que eu a obrigue a desenredar-se. O bom do Barbas afasta-me: ajuda-a, não lhe contamines a espera.
quadra 43
Assim esvazia e enche a lua,
assim e sempre, aonde eu for,
lembrarei que, mão na tua,
te segredei: «Meu amor...»
assim e sempre, aonde eu for,
lembrarei que, mão na tua,
te segredei: «Meu amor...»
terça-feira, 27 de julho de 2010
0,5
Todo o sono é princípio
do sonho em que um dia foste,
toda a vigília é caminho
para o adeus no teu nome.
Nunca se completa, pois,
a arte antiga de eu perder,
que já nunca chega a dois
quem já nem um pode ser.
Portanto, se ao teu sinal
eu não olhar para ti -
mulher, não leves a mal:
é que eu já não moro aqui.
do sonho em que um dia foste,
toda a vigília é caminho
para o adeus no teu nome.
Nunca se completa, pois,
a arte antiga de eu perder,
que já nunca chega a dois
quem já nem um pode ser.
Portanto, se ao teu sinal
eu não olhar para ti -
mulher, não leves a mal:
é que eu já não moro aqui.
domingo, 25 de julho de 2010
.quadra 42
Tourada a sério é aquela
em que se baralha a sorte
e o carrasco cai da sela
sobre os dois cornos da morte.
em que se baralha a sorte
e o carrasco cai da sela
sobre os dois cornos da morte.
quadra 41
Perdi quem me reinvente,
quem ao menos me conforte,
já não espero que o teu ventre
me volte a guardar da morte.
quem ao menos me conforte,
já não espero que o teu ventre
me volte a guardar da morte.
quadra 40
O tempo trota a cavalo,
sem batalha nem contraste,
pois se em jovem quis gastá-lo
já só quero que ele me gaste.
sem batalha nem contraste,
pois se em jovem quis gastá-lo
já só quero que ele me gaste.
sábado, 24 de julho de 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
quadra 39
Que nos teus braços se acoite
o último sonho de um louco:
já não suporto outra noite
em que me ofereças tão pouco.
o último sonho de um louco:
já não suporto outra noite
em que me ofereças tão pouco.
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Há muito que deixei cair o princípio da parcimónia, se alguma vez tive de o deixar cair... Parafraseando Einstein, as coisas têm de ser simples, sim - mas não mais simples do que isso.
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Grávida de - não: grávida com. A Ana está grávida com o Manel. E, já agora, o Manel está grávido com a Ana, a Ana e o Manel estão grávidos. De qualquer modo, é da Ana o maior milagre.
quadra 38
Se não sei cortar o fio
com que mata o meu passado,
ao menos cortem-me o pio
e ponham-me noutro lado.
com que mata o meu passado,
ao menos cortem-me o pio
e ponham-me noutro lado.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
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Exausto do seu papel de co-insone, o Barbas saiu da sala e atravessou-se na cama. Afinal são meus, apenas meus, os pesadelos do quarto.
quadra 37.
Vou derramar todo o vinho
sobre o meu mundo pequeno
a ver se ainda me adivinho
nas névoas do teu aceno.
sobre o meu mundo pequeno
a ver se ainda me adivinho
nas névoas do teu aceno.
APRENDIZ DE DON JUAN
Tenho andado com uma citação de Saramago na cabeça: «Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo.»
Estas e outras frases de diferentes escritores levam-me, em primeiro lugar, a pensar que há autores de dois tipos: os que se acham autores de invenção e pretendem recombinar o mundo; e os que se acreditam autores de exposição e dizem descobrir a vida aos distraídos. Deuses criadores os primeiros, deuses omniscientes os segundos - para que eu possa viver em paz estão todos errados, a não ser que entendamos por "invenção" e "levantar uma pedra" actos muito mais ligeiros e bem menos importantes do que provavelmente aqueles dois tipos de autores gostariam.
Eu, para ser sincero, nem com o termo autor concordo. Prefiro sedutor, que é, afinal, o que todos eles são e que eu, muito provavelmente, ainda não aprendi a ser.
terça-feira, 20 de julho de 2010
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«Já não vou à Ericeira... Olhe, isto para não ser aldrabão, já lá não vou há pelo menos cinco anos. Não tenho lá nada, percebe? Só lá estão os meus pais e os meus irmãos.», «Percebo, percebo. Quando é assim...»
quadra 36
Tem medo à facilidade,
ao que te dão, ao que se herda:
é sempre daí que te há-de
aparecer toda a merda.
ao que te dão, ao que se herda:
é sempre daí que te há-de
aparecer toda a merda.
.quadra 35
Como diz a praia ao mar
se o mar dela se aborrece,
eu hei-de sempre esperar
por quem sempre me aparece.
se o mar dela se aborrece,
eu hei-de sempre esperar
por quem sempre me aparece.
.quadra 34
O pó das estrelas beijou-me
de tantas, tantas maneiras,
e ofereceu-me no teu nome
a esperança de que me queiras.
de tantas, tantas maneiras,
e ofereceu-me no teu nome
a esperança de que me queiras.
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Este fantasma da posse... Sonhei-te grávida com quem amas e acordei no abismo. Escondam-mo. Esperem que eu volte a sonhar o mesmo com sorriso e desprendimento.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
o espaço em que não estás
Subo ao nosso comboio
na gaveta de outros dias
quando eu ainda era antónio
e ainda tu me querias.
Quando o silvo da partida
trazia a hora da chegada
e uma esperança perdida
junto ao cais te segurava.
Teu corpo em tão pouca terra
nunca seria feliz:
foste à vida que te espera
e enferrujam os carris.
na gaveta de outros dias
quando eu ainda era antónio
e ainda tu me querias.
Quando o silvo da partida
trazia a hora da chegada
e uma esperança perdida
junto ao cais te segurava.
Teu corpo em tão pouca terra
nunca seria feliz:
foste à vida que te espera
e enferrujam os carris.
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Tanto que te quero! Apesar disso, ser-nos-emos cada vez mais estranhos. Um de nós morrerá primeiro, daqui a alguns anos; e o outro, se for avisado, ficará em casa a recordar o silêncio: estaria a mais no funeral.
.quadra 33
Tu és a moça que cora,
eu sou o gajo que espuma,
tu fai l'amore a toda a hora,
eu há anos que não dou uma.
eu sou o gajo que espuma,
tu fai l'amore a toda a hora,
eu há anos que não dou uma.
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Estes comentadores da bola fazem sempre com que o jogador a recepcione. Então a bola já não se recebe? Ou receber a bola é só para as peladinhas entre amigos?
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Abomino a arrogância e o amor superficial às cadeiras - muito do que vejo no engenhoso, tudo o que vejo no coelho em passos de senhor. Um dia destes vou para a Nova Zelândia, que já estou farto de vomitar.
domingo, 18 de julho de 2010
.quadra 32
Com a tua sombra ao meu lado,
vou-me arrastando pelos dias,
meu amor, já tão cansado
de trazer as mãos vazias.
vou-me arrastando pelos dias,
meu amor, já tão cansado
de trazer as mãos vazias.
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Quando o Barbas for tão velhinho que não consiga subir ao catre, voltaremos a dormir no chão. Espero que, até lá, o IRS não se lembre de me levar o colchão.
sábado, 17 de julho de 2010
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No outro dia, a Roja, vencedora deste Mundial, era Joja e feria-me os ouvidos... Claro que muitos lisboetas não fazem a mínima ideia do que é que eu estou a falar.
.quadra 31
Se é adeus que delas espero,
adeus, então, às mulheres,
e direi que não te quero
por mais que tu me quiseres.
adeus, então, às mulheres,
e direi que não te quero
por mais que tu me quiseres.
quadra 30
No passeio solitário
deste difícil vaivém,
há sempre um mal necessário
que nos vai fazendo bem.
deste difícil vaivém,
há sempre um mal necessário
que nos vai fazendo bem.
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Que sentido faz um post-scriptum numa mensagem electrónica? Talvez nenhum, à parte o meu gosto e a minha vida.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
quadra 29
Minhas palavras ao lado
nunca pretendem magoar-te:
tudo o que tenho falhado
é por mera ausência de arte.
nunca pretendem magoar-te:
tudo o que tenho falhado
é por mera ausência de arte.
quadra 28
Fui perdendo todo o empenho,
toda a ânsia em mim se refreia:
eu já nunca me entretenho
a erguer castelos na areia.
toda a ânsia em mim se refreia:
eu já nunca me entretenho
a erguer castelos na areia.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
quarta-feira, 14 de julho de 2010
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Não sendo o Casillas, namorasse eu a Sara - e ela não teria gostado nada do beijo subtraído à frente de todos e no seu posto de trabalho. Também se dá a forte hipótese de eu nunca ter tido namorada.
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«Carrega no erre, filho», disse-me um dia a minha mãe, tinha eu três ou quatro anitos, «não é caro, é carro». Aprendi logo ali, que muito atento respondi: «Carralho.» E, escusado será dizer, ainda hoje se conta a história.
terça-feira, 13 de julho de 2010
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Gastar em audi's para ostentar os milhões a mais roubados ultimamente = actualizar o inventário de veículos à disposição. São os enriquecimentos do vocabulário socratoso.
domingo, 11 de julho de 2010
POLVO
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1:
No jogo das meias-finais entre as selecções holandesa e uruguaia, e apesar de nenhum comentador ter tocado no assunto, o lance do primeiro golo da selecção holandesa foi precedido de falta grave, para vermelho, de um holandês sobre um uruguaio. E o segundo golo da mesma selecção só existiu porque um jogador holandês, em posição irregular, não só dificultou a visibilidade do guarda-redes uruguaio como se fez ao lance, tentando desviar a bola.
2:
A selecção espanhola foi beneficiada pela arbitragem e pela sorte em, pelo menos, dois jogos: contra as selecções portuguesa e paraguaia. Acresce ainda que noutro jogo, contra a selecção chilena, um tal de David Villa festejou o primeiro golo, contra a corrente do jogo, em postura de torturador, vulgo torero.
3:
Snijder, da selecção da holandesa, e Villa, da selecção espanhola, estão entre os melhores artilheiros, com 5 golos cada.
4:
Paul, o Polvo, garante que a selecção espanhola vai ganhar o jogo da final, daqui a pouco.
Então:
a:
Que ganhe a Espanha. Mas que, seja qual for o cenário, Villa não marque nenhum golo: não o quero a gabar-se de ser o melhor artilheiro. Ideal era que Snijder marcasse pelo menos um...
b:
Já terei tudo o que espero deste dia, entre tantos dias em que nada espero.
c:
Que fique coxo das três patas quem se atrever a matar o polvo e maneta ademais quem dele se alimentar.
1:
No jogo das meias-finais entre as selecções holandesa e uruguaia, e apesar de nenhum comentador ter tocado no assunto, o lance do primeiro golo da selecção holandesa foi precedido de falta grave, para vermelho, de um holandês sobre um uruguaio. E o segundo golo da mesma selecção só existiu porque um jogador holandês, em posição irregular, não só dificultou a visibilidade do guarda-redes uruguaio como se fez ao lance, tentando desviar a bola.
2:
A selecção espanhola foi beneficiada pela arbitragem e pela sorte em, pelo menos, dois jogos: contra as selecções portuguesa e paraguaia. Acresce ainda que noutro jogo, contra a selecção chilena, um tal de David Villa festejou o primeiro golo, contra a corrente do jogo, em postura de torturador, vulgo torero.
3:
Snijder, da selecção da holandesa, e Villa, da selecção espanhola, estão entre os melhores artilheiros, com 5 golos cada.
4:
Paul, o Polvo, garante que a selecção espanhola vai ganhar o jogo da final, daqui a pouco.
Então:
a:
Que ganhe a Espanha. Mas que, seja qual for o cenário, Villa não marque nenhum golo: não o quero a gabar-se de ser o melhor artilheiro. Ideal era que Snijder marcasse pelo menos um...
b:
Já terei tudo o que espero deste dia, entre tantos dias em que nada espero.
c:
Que fique coxo das três patas quem se atrever a matar o polvo e maneta ademais quem dele se alimentar.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
.quadra 26
Pudesses ler no meu rosto
os futuros que perdi
e terias o desgosto
de quem já morreu por ti.
os futuros que perdi
e terias o desgosto
de quem já morreu por ti.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
.quadra 25
Nos meus olhos sem os teus
morre toda a primavera
enquanto nos diz adeus
o futuro que ontem era.
morre toda a primavera
enquanto nos diz adeus
o futuro que ontem era.
sábado, 3 de julho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
MACARRONICES
Quando alguém me pede uma informação em inglês, tenho um primeiro tique de má vontade. Se me parecer que, para essa pessoa, é suposto eu percebê-la e responder-lhe na mesma língua, já me aconteceu mandá-la passear com um não sei. Mas se ela começar com porrr favorrr: do you speak english, puxo do mapa com um a little bit e descarrego-o straight ahead, apesar das limitações e do sotaque.
O preço da ecumenicidade da língua inglesa é mesmo esse: o de ser maltratada. Se todos somos obrigados a usá-la, no mínimo todos podemos torpedeá-la. Aliás, o que me faz rir é precisamente o contrário: um português com todos os maneirismos e toada típicos dos ingleses.
Mas o que me faz rir ainda mais é um português sem ponto de equilíbrio. Ultimamente, que me lembre, vi três na televisão, cujas motivações não consegui perceber. Há uns tempos surgiu Sócrates-o-do-ministério a tropeçar em castelhano. Foi tão confrangedor que, entre os risos, deixei-me envergonhar no enterro do meu sofá. O mesmo aconteceu ontem, quando Carlos Queiroz maltratou a mesma língua. E o mesmo, ainda, quando o escritor António Lobo Antunes se pôs a falar um português-de-perfume-postiço ao responder a um conjunto de jornalistas brasileiros.
Os espanhóis e os brasileiros percebem muito bem o nosso português. Pronunciem-se as palavras à nossa maneira, devagar e completamente como eles deveriam fazer com as suas. O esforço não tem de ser só nosso, não sejamos ridículos.
O preço da ecumenicidade da língua inglesa é mesmo esse: o de ser maltratada. Se todos somos obrigados a usá-la, no mínimo todos podemos torpedeá-la. Aliás, o que me faz rir é precisamente o contrário: um português com todos os maneirismos e toada típicos dos ingleses.
Mas o que me faz rir ainda mais é um português sem ponto de equilíbrio. Ultimamente, que me lembre, vi três na televisão, cujas motivações não consegui perceber. Há uns tempos surgiu Sócrates-o-do-ministério a tropeçar em castelhano. Foi tão confrangedor que, entre os risos, deixei-me envergonhar no enterro do meu sofá. O mesmo aconteceu ontem, quando Carlos Queiroz maltratou a mesma língua. E o mesmo, ainda, quando o escritor António Lobo Antunes se pôs a falar um português-de-perfume-postiço ao responder a um conjunto de jornalistas brasileiros.
Os espanhóis e os brasileiros percebem muito bem o nosso português. Pronunciem-se as palavras à nossa maneira, devagar e completamente como eles deveriam fazer com as suas. O esforço não tem de ser só nosso, não sejamos ridículos.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
HOMO ICAROS
Grandes correntes, grandes descobertas, grandes invenções, grandes actos assentam, muitas vezes, na facilidade que alguns têm para, considerando menos do que meia dúzia de variáveis, avançar. Quando têm consciência dessa facilidade, esse avanço é desonestidade intelectual. Quando não, é mesmo, e só, limitação. Em ambos os casos é arrogância. E em ambos os casos há, quase sempre, outros que pensaram o mesmo mas não deram o passo. Ou porque o soubessem em cama de erro ou porque o soubessem mal fundamentado.
Concluindo e resumindo, se subimos tão alto devemo-lo a um conjunto de filósofos e cientistas, políticos e artistas que se julgaram mais importantes e/ou mais inteligentes do que na realidade eram. Os verdadeiros pensadores nunca poderiam ter chegado a quaisquer conclusões sobre este mundo: sabiam que os 'dados' eram exíguos; que era estreita a capacidade humana; que, no fundo, o homem é, apenas e ao mesmo tempo, mais uma das teorias da-e-sobre-a-natureza.
Não se me derretam em vida as asas deste Ícaro.
Concluindo e resumindo, se subimos tão alto devemo-lo a um conjunto de filósofos e cientistas, políticos e artistas que se julgaram mais importantes e/ou mais inteligentes do que na realidade eram. Os verdadeiros pensadores nunca poderiam ter chegado a quaisquer conclusões sobre este mundo: sabiam que os 'dados' eram exíguos; que era estreita a capacidade humana; que, no fundo, o homem é, apenas e ao mesmo tempo, mais uma das teorias da-e-sobre-a-natureza.
Não se me derretam em vida as asas deste Ícaro.
quadra 24
Bem contado, há-de ficar
que tive tudo o que pude:
na minha concha, afinal,
quis muito e quis amiúde.
que tive tudo o que pude:
na minha concha, afinal,
quis muito e quis amiúde.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
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Um bocado não chega, um bocado é apenas o que da colher recebe esta boca. No mínimo, que se repita a viagem.
terça-feira, 15 de junho de 2010
O MAIOR DOS ISMOS
Lembro-me de ter lido o «Pauis» do Fernando Pessoa e rir-me de assim se ter fundado o Paulismo… Provavelmente era uma incapacidade minha – que se mantém –, mas a verdade é que ainda tenho aversão aos ismos, brotem eles de um poema ou de um conjunto mais integrado de pensamentos e obras de vários autores.
Isto a propósito do maior dos ismos, o que serve mesmo para tudo sem servir para nada: o pós-modernismo. Confesso que nunca me dediquei a ler uma daquelas obras tipo «O que é o Pós-Modernismo?», e que começam por dizer que definir a coisa… é coisa muito, muito complicada. Por isso, o que acontece é que, na minha inculta humildade, apenas vou apanhando uma afirmação aqui, uma negação ali, daquilo que vão dizendo os que se dizem pós-modernistas… ( A propósito, parece-me que detestam as reticências: é que toda a palavra já tem as suas reticências........................)
Neste apanha-aqui-apanha-ali, tenho lobrigado, ultimamente, um conceito que me parece ser-lhes muito querido. Usando uma imagem que neste mês de Junho até faz algum sentido, garantem que um criador tem de meter a bola do lado do leitor/espectador: que este é que tem de construir o significado, blá-blá-blá, blá-blá-blá. À parte o aspecto irritante de as auto-catalogadas obras pós-modernistas exagerarem na auto-referenciação, auto-promoção, auto-etc., o que se me oferece dizer é simples:
E não foi sempre assim? Desde quando o significado construído por cada leitor (e os vários leitores que é um mesmo leitor, consoante o dia e a hora do dia…), desde quando esse significado é igual ao do autor? Se nem este, quando lê o que escreveu, o entende como entendeu! E se nem este chegou a escrever o que pensou... Se este, muitas vezes, apenas escreveu para pensar…
O pós-modernismo, sinceramente, parece-me ser coisa de sempre. Um autor, ainda quando o negue, apenas quer seduzir com e para o texto/espectáculo. O resto são balelas, multiplicação de etiquetas para invariantes, ruído.
Isto a propósito do maior dos ismos, o que serve mesmo para tudo sem servir para nada: o pós-modernismo. Confesso que nunca me dediquei a ler uma daquelas obras tipo «O que é o Pós-Modernismo?», e que começam por dizer que definir a coisa… é coisa muito, muito complicada. Por isso, o que acontece é que, na minha inculta humildade, apenas vou apanhando uma afirmação aqui, uma negação ali, daquilo que vão dizendo os que se dizem pós-modernistas… ( A propósito, parece-me que detestam as reticências: é que toda a palavra já tem as suas reticências........................)
Neste apanha-aqui-apanha-ali, tenho lobrigado, ultimamente, um conceito que me parece ser-lhes muito querido. Usando uma imagem que neste mês de Junho até faz algum sentido, garantem que um criador tem de meter a bola do lado do leitor/espectador: que este é que tem de construir o significado, blá-blá-blá, blá-blá-blá. À parte o aspecto irritante de as auto-catalogadas obras pós-modernistas exagerarem na auto-referenciação, auto-promoção, auto-etc., o que se me oferece dizer é simples:
E não foi sempre assim? Desde quando o significado construído por cada leitor (e os vários leitores que é um mesmo leitor, consoante o dia e a hora do dia…), desde quando esse significado é igual ao do autor? Se nem este, quando lê o que escreveu, o entende como entendeu! E se nem este chegou a escrever o que pensou... Se este, muitas vezes, apenas escreveu para pensar…
O pós-modernismo, sinceramente, parece-me ser coisa de sempre. Um autor, ainda quando o negue, apenas quer seduzir com e para o texto/espectáculo. O resto são balelas, multiplicação de etiquetas para invariantes, ruído.
sábado, 12 de junho de 2010
UM JOGADOR DIFERENTE
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Um jogador coxo e, naturalmente, em péssima forma, foi seleccionado para o África do Sul 2010. Ao teclado, vou bicando hipóteses:
1) Mesmo coxo ou em má forma, Pepe é o maior na posição em que o seleccionador o quer pôr a jogar. O único inconveniente é que precisa de descansar dois joguinhos, para ganhar a confiança e a forma que os jogadores comuns ganham em campo, minuto agora, minuto depois, treinando com bola e competindo contra equipas acessíveis. No caso dele, enquanto não chega o jogo a sério com o Brasil, há um outro jogador que se oferece para rodar: Pedro Mendes vai substituí-lo, temporária e solidariamente.
2) Pepe não está bom para jogatanas, isso não. Mas é imprescindível para o espírito de grupo. Conta anedotas como ninguém e sabe dar aquela forcinha aos jogadores que estão em campo. E como já não precisa de muletas para andar, não pegou muito mal levá-lo. A decisão foi camuflada de processo difícil, aturado e justo com a ajuda de um outro jogador, José Castro, compincha e peras, jovem suficiente para joguete de diplomacias (na altura certa, foi dispensado). Claro que Pepe podia ter ido à África do Sul apenas como convidado, sem tirar o lugar a outro – mas não estava para isso.
3) Seria uma grande injustiça não convocar uma pessoa de origem brasileira que se naturalizou português para poder jogar na selecção. Ainda amuava e nunca mais queria voltar. Isso abriria um grave precedente e seria mau exemplo para futuros brasileiros integráveis na selecção.
Surgia-me agora outra hipótese: que também seria injusto não convocar alguém que fez parte da campanha de qualificação. Mas não colhe, porque haverá outros jogadores nessa situação e que não foram convocados (João Moutinho, para dar só um exemplo).
Enfim, pode ser que, rola-rolando o campeonato, outra hipótese surja, menos azeda que estas, para me surpreender. Ou mesmo a verdade... Nesse caso, sabê-la-ei pelos jornais, claro, e prometo dar o braço a torcer. Desde que possa continuar a escrever.
Um jogador coxo e, naturalmente, em péssima forma, foi seleccionado para o África do Sul 2010. Ao teclado, vou bicando hipóteses:
1) Mesmo coxo ou em má forma, Pepe é o maior na posição em que o seleccionador o quer pôr a jogar. O único inconveniente é que precisa de descansar dois joguinhos, para ganhar a confiança e a forma que os jogadores comuns ganham em campo, minuto agora, minuto depois, treinando com bola e competindo contra equipas acessíveis. No caso dele, enquanto não chega o jogo a sério com o Brasil, há um outro jogador que se oferece para rodar: Pedro Mendes vai substituí-lo, temporária e solidariamente.
2) Pepe não está bom para jogatanas, isso não. Mas é imprescindível para o espírito de grupo. Conta anedotas como ninguém e sabe dar aquela forcinha aos jogadores que estão em campo. E como já não precisa de muletas para andar, não pegou muito mal levá-lo. A decisão foi camuflada de processo difícil, aturado e justo com a ajuda de um outro jogador, José Castro, compincha e peras, jovem suficiente para joguete de diplomacias (na altura certa, foi dispensado). Claro que Pepe podia ter ido à África do Sul apenas como convidado, sem tirar o lugar a outro – mas não estava para isso.
3) Seria uma grande injustiça não convocar uma pessoa de origem brasileira que se naturalizou português para poder jogar na selecção. Ainda amuava e nunca mais queria voltar. Isso abriria um grave precedente e seria mau exemplo para futuros brasileiros integráveis na selecção.
Surgia-me agora outra hipótese: que também seria injusto não convocar alguém que fez parte da campanha de qualificação. Mas não colhe, porque haverá outros jogadores nessa situação e que não foram convocados (João Moutinho, para dar só um exemplo).
Enfim, pode ser que, rola-rolando o campeonato, outra hipótese surja, menos azeda que estas, para me surpreender. Ou mesmo a verdade... Nesse caso, sabê-la-ei pelos jornais, claro, e prometo dar o braço a torcer. Desde que possa continuar a escrever.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
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Ah, grande Camões, que alegria estares morto. Assim não há como desiludir-me, assim não há por que odiar-te. Assim, pertences-me.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
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Poucas ideias me fazem temer a morte. Mas espero estar de novo indiferente em finais de outubro: à terceira serpentina, ao terceiro universo, ao terceiro romance.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
E É GOLO
Por mais voltas que se dê, uns hão-de sempre ser mais iguais que os outros. Lembra-me disto a notícia no CM que envolve Nani, futebolista da selecção, à frente O Fintas, e um guarda agora famoso, à frente O Porreiraço.
Diz a notícia que, às oito e meia da manhã, O Fintas foi apanhado a conduzir o seu bólide na berma, expediente para escapar à bicha que entretanto se formara. Começo por imaginar que tenha ficado aflito: ali parado, toda a gente a olhar... Mas não: com a dinheirama que gastou no popó, acho pouco crível que alguém o conseguisse ver através dos vidros fumados.
O facto é que O Porreiraço não autuou. Talvez porque, se autuasse, O Fintas deixaria de poder fintar com o seu belo popó por uns tempos (a não ser que, na prática, viesse a fintar a teoria). Ou, então, talvez porque O Porreiraço tivesse recebido a promessa: em campo, O Fintas só vai fazer as fintas necessárias.
Agora a parte dos outros iguais. Aqui há uns anos, ainda eu gostava de conduzir, ia com a família na bicha da A5 quando me rebentou o pneu do carro. Encostei. Mas não gosto de estar parado na berma em situações destas: por causa da confusão, confesso, e porque penso sempre que pode passar uma ambulância com pressa. Por isso, e porque estava apenas a uns cinquenta metros da estação de serviço, arrisquei a saúde do carro e comecei a rolar na sua direcção.
Com a sorte que sempre me cabe, um bigodudo mal-encarado mandou-me parar. Chamou-me espertalhão, como se pudesse, passou-me a multa, que podia e devia, e disse-me para me meter na estação de serviço, que, enfim, sendo ele a mandar a coisa piava diferente... Alguns dias depois, fui obrigado a entregar a carta de condução: inibiram-me de conduzir durante dois meses.
Resumindo: se alguns são mais iguais que os outros é porque os outros são menos iguais que alguns... Ou iguais a sério. Mas quem não sabe disso?
Diz a notícia que, às oito e meia da manhã, O Fintas foi apanhado a conduzir o seu bólide na berma, expediente para escapar à bicha que entretanto se formara. Começo por imaginar que tenha ficado aflito: ali parado, toda a gente a olhar... Mas não: com a dinheirama que gastou no popó, acho pouco crível que alguém o conseguisse ver através dos vidros fumados.
O facto é que O Porreiraço não autuou. Talvez porque, se autuasse, O Fintas deixaria de poder fintar com o seu belo popó por uns tempos (a não ser que, na prática, viesse a fintar a teoria). Ou, então, talvez porque O Porreiraço tivesse recebido a promessa: em campo, O Fintas só vai fazer as fintas necessárias.
Agora a parte dos outros iguais. Aqui há uns anos, ainda eu gostava de conduzir, ia com a família na bicha da A5 quando me rebentou o pneu do carro. Encostei. Mas não gosto de estar parado na berma em situações destas: por causa da confusão, confesso, e porque penso sempre que pode passar uma ambulância com pressa. Por isso, e porque estava apenas a uns cinquenta metros da estação de serviço, arrisquei a saúde do carro e comecei a rolar na sua direcção.
Com a sorte que sempre me cabe, um bigodudo mal-encarado mandou-me parar. Chamou-me espertalhão, como se pudesse, passou-me a multa, que podia e devia, e disse-me para me meter na estação de serviço, que, enfim, sendo ele a mandar a coisa piava diferente... Alguns dias depois, fui obrigado a entregar a carta de condução: inibiram-me de conduzir durante dois meses.
Resumindo: se alguns são mais iguais que os outros é porque os outros são menos iguais que alguns... Ou iguais a sério. Mas quem não sabe disso?
quarta-feira, 2 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
quarta-feira, 26 de maio de 2010
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Únicas testemunhas do bárbaro assassínio de meu pai - a Bonita morreu há ano e meio, o Piloto morreu hoje. Era nas suas retinas a nossa casa.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
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Absolutamente diferente, absolutamente maravilhoso, absolutamente inegável, absolutamente ímpar, absolutamente improvável. Estou muito desiludíssimo.
sábado, 22 de maio de 2010
CONVERSAS
Há muitos anos, li um antigo provérbio de que desconheço a origem e de que logo esqueci os pormenores. De qualquer modo, guardo na memória o essencial do que aconselhava: de entre os seus pretendentes, uma rapariga deve escolher o melhor conversador; desse modo, estará em boa companhia quando não houver mais nada do que palavras. Não sei que mulheres (e homens...) poderiam, na Antiguidade, ter essa liberdade de escolha; é provável que o provérbio fizesse parte dos parlapiés paternos e raramente fosse tido em conta. À parte estas dúvidas, sempre associei aquele mais nada ao desinteresse sexual.
Mas, embora eu seja mau conversador, nunca nada disto me preocupou. Por um lado, porque fui deixando de prestar atenção à maior parte dos problemas antes de eles o serem; e, por outro, porque também fui percebendo que, muitas vezes, os problemas são bem mais manuseáveis quando chegam à casa certa. Acrescente-se que se vai tornando cada vez mais reduzida a probabilidade de envelhecer acompanhado – e conclua-se que, embora saiba da invenção do Viagra e quejandos, não me vale a pena dedicar ao tema um minuto do meu tempo.
E é neste oceano de sossego que me colhem as últimas notícias, segundo as quais aqueles medicamentos miraculosos estão associados a uma tendência bastante acrescida de surdez. Sendo assim, está decidido: vou transformar em improbabilidade a probablidade reduzida de envelhecer acompanhado – porque, enfim, prefiro viver de amores platónicos e continuar a ouvir conversas, ainda que sejam de outros. Quanto aos que sabem conversar e não querem prescindir de amores a sério, aconselhá-los-ia a aprenderem a ler nos lábios. E a habituarem-se aos discursos sem aplauso.
Mas, embora eu seja mau conversador, nunca nada disto me preocupou. Por um lado, porque fui deixando de prestar atenção à maior parte dos problemas antes de eles o serem; e, por outro, porque também fui percebendo que, muitas vezes, os problemas são bem mais manuseáveis quando chegam à casa certa. Acrescente-se que se vai tornando cada vez mais reduzida a probabilidade de envelhecer acompanhado – e conclua-se que, embora saiba da invenção do Viagra e quejandos, não me vale a pena dedicar ao tema um minuto do meu tempo.
E é neste oceano de sossego que me colhem as últimas notícias, segundo as quais aqueles medicamentos miraculosos estão associados a uma tendência bastante acrescida de surdez. Sendo assim, está decidido: vou transformar em improbabilidade a probablidade reduzida de envelhecer acompanhado – porque, enfim, prefiro viver de amores platónicos e continuar a ouvir conversas, ainda que sejam de outros. Quanto aos que sabem conversar e não querem prescindir de amores a sério, aconselhá-los-ia a aprenderem a ler nos lábios. E a habituarem-se aos discursos sem aplauso.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
terça-feira, 18 de maio de 2010
MANHÃ AMARGA
O Barbas salta da cama assim que se apercebe dos meus olhos abertos.
– Ainda falta meia hora, Barbas.
Mas não deslate enquanto o não passeio. Levanto-me, preparo-me, levo-o como posso.
A seguir, lentalentamente, dirijo-me ao hospital.
Triagem de Manchester.
Uma fita vermelha à volta do braço.
Emergência.
Duas horas de espera, o meu nome soa, associado a uma sala onde um médico escrevinha.
– Então diga lá.
E lá lhe digo.
– Então diga lá.
E lá lhe digo.
Nunca chega a levantar os olhos, nem quando se levanta para me auscultar.
A seguir, volta a sentar-se e atende um telefonema. Não pode ir ao futebol, é uma pena mas está de banco.
Quando desliga tento estreitar laços, é mais outro que gosta da bola:
– Vamos lá ver se é desta que o Benfica…
– Passe aqui ao lado e entregue esta folha.
– O que é?
Não me ouve. Outro telefonema.
– Passe aqui ao lado e entregue esta folha.
– O que é?
Não me ouve. Outro telefonema.
Ali ao lado, tiram-me sangue, fazem-me um ECG e encaminham-me para outra sala, onde espero durante uma hora que me chamem para a radiografia torácica.
As dores são as mesmas.
Radiografia despachada, hora e meia na sala de espera.
Sou chamado à primeira sala, onde reencontro o médico.
– Não é nada – sintetiza, sempre cabisbaixo, enquanto rabisca qualquer coisa. – Entregue isto aqui na sala da esquerda.
– O que é?
– Vai acalmá-lo.
Na sala da esquerda recebo um líquido num copo de plástico: «Tome isto.»
– O que é?
– Amarga um pouco.
– O que é?
– Vai acalmá-lo.
Na sala da esquerda recebo um líquido num copo de plástico: «Tome isto.»
– O que é?
– Amarga um pouco.
– Sim, mas o que é?
Não há resposta, o meu interlocutor é chamado à sala ao lado da sala ao lado.
Antes de sair, pago.
Deito o copo fora, com todo o seu conteúdo, no primeiro caixote do lixo que encontro lentalentamente dirijo-me para casa.
Estou calmo.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
DESGRAÇA
mal chegados e bem armados___eles são mais altos mais gordos mais fortes___enfim: tombalobos_____desancam a estalo e pontapé o homem rendido e passam-lhe um sermão que não consigo ouvir da minha varanda
amigos___grito eu___o que é que o homem fez para estarem a bater-lhe assim?
dois deles olham para cima___um manda-me calar e não interferir na ordem pública enquanto outro se diverte a murro nas costas do alvo
o homem rendido deixa-se cair no chão e enrola-se debaixo dos pontapés
lembro-me de chamar a polícia___olhem que eu chamo a...
só então percebo que a polícia são eles e que se o homem não estava a oferecer resistência deveria estar-lhes proibido agredirem-no assim
é a polícia que temos_____a fortuna me dê nunca lhes cair em graça
amigos___grito eu___o que é que o homem fez para estarem a bater-lhe assim?
dois deles olham para cima___um manda-me calar e não interferir na ordem pública enquanto outro se diverte a murro nas costas do alvo
o homem rendido deixa-se cair no chão e enrola-se debaixo dos pontapés
lembro-me de chamar a polícia___olhem que eu chamo a...
só então percebo que a polícia são eles e que se o homem não estava a oferecer resistência deveria estar-lhes proibido agredirem-no assim
é a polícia que temos_____a fortuna me dê nunca lhes cair em graça
sábado, 15 de maio de 2010
SE AO MENOS ME TIVESSEM DADO MÚSICA...
Há trinta e tal anos já havia, pelo menos na Escola Preparatória Luís António Verney, o que muitos dizem ser um fenómeno recente só por lhe terem posto etiqueta: bullying. E era por isso que alguns de nós estavámos na aula bem antes do toque de entrada; e também era por isso que, mal dava o toque de saída, os mesmos batíamos asas por corredores menos estreitos e pousávamos nos recreios mais protegidos. Mas ginásticas à parte, nem sempre bem sucedidas, para me escapulir a murros, pontapés, cuspidelas e navalhadas, o que melhor recordo hoje é a minha ausência das manhãs desportivas, proibidas aos menos dotados, e essa outra árdua aprendizagem do desvio que me proporcionaram as aulas de Educação Musical.
Nestas últimas, e invariavelmente, dois ou três cowboys envolviam-se com outros tantos índios numa guerra de cadeiras, calhaus, canetas e cadernos. Tudo isto sob um inferno de gritos e utilizando os civis como escudos. A história foi-se repetindo nos dois anos do ciclo preparatório e com professoras diferentes, ambas velhinhas, que se esforçavam por conter a violência atrás da secretária ou do empoeirado orgãozinho de foles, visivelmente assustadas e incapazes para ameaças.
Não sei que mal teria vindo ao mundo se, em vez daquelas velhinhas, me tivesse calhado a moça de Mirandela que há dias se despiu para a Playboy e que, por isso, já não dá música aos miúdos. Mas desconfio que os guerreiros teriam fumado o cachimbo da paz. No que me toca, teria continuado a espreitar a revista como sempre espreitei. E talvez tivesse interiorizado melhor o encaixe das quintas justas. No menor dos intervalos, a minha guitarra seria, hoje, mais feliz.
terça-feira, 11 de maio de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
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Estou exausto destes coitados coitadinhos cuja vida se resume a aturem-me que eu não pedi para nascer. E daqueles que os têm ajudado a resumi-la assim.
terça-feira, 4 de maio de 2010
segunda-feira, 3 de maio de 2010
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Dos juízes que injustiçam e dos advogados que sugam, dos políticos que o são e dos médicos que não, desta doutíssima cáfila que somos.
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Deste meu amar à século XIX, que sempre escondi dos outros mas que só agora tenho de esconder de mim.
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Um lisboeta não diz tenho um amigo. Isso não lhe chega na voragem das horas. Ele diz tenho um amigo meu.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
PARA DAR
almoço fora
quatro putos semibarbudos___de vinte e muitos trinta e poucos___dialectizam_____essa merda___eh pá___que caralho pá___quando aparece o phantom tu metes o speed e___eh pá a sério___não vás pelo lake___faz escape e aproveita o lucky way___ouve o que te digo senão tás bem fodido___a black lady leva-te os points todos
penso que é conversa de passagem___mas uma hora depois ainda continuam naquilo_____não percebo metade___nem um quarto___confesso
depois de pagar e me levantar___não resisto
e não têm mais nada para dar?
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entreolham-se na surpresa do seu dialecto
e é o empregado que vem a terreiro___o empregado que sempre teve a mania de que sou douto___para me aconselhar
ó doutor___ou se põe na moda ou está tramado_____estes putos de agora nunca vão ler as suas coisas
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riem-se todos a despregated flags
e que tenho eu para dar?
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