sábado, 29 de novembro de 2014

BD, ? - 29.11.2014


hoje deixaste de sofrer     meu amor     e abandonaste o canto do quarto
onde ainda ontem choraste a meio sono

o pai
a bonita
a rosário
o piloto
o meu sonho de escritor
o barbinhas
o jardim
o irmão
as amizades antigas
e agora tu

moribundo de tantas mortes
cada vez conheço melhor o fim
mas como é difícil     meu deus
como é difícil habituar-me a ele

domingo, 16 de novembro de 2014

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Por negligência ou para não estragarmos o nosso dia, optamos por não pensar no que que metemos à boca. Simplesmente não queremos saber.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

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Por estes dias é o aniversário de Kazuo Ishiguro, que escreveu dois dos mais belos livros que eu já li e que mais me influenciaram: "Os Despojos do Dia" e "Nunca Me Deixes". Um escritor enorme, que tem a capacidade, nada comum entre autores portugueses, de encontrar um narrador e não se intrometer nas suas opiniões. Os parabéns, Kazuo, de um teu admirador.

10 "argumentos" a favor das touradas e o que a maior parte de nós pensa deles


1 - Se se abolissem as touradas, os touros bravos extinguir-se-iam.

1' - Sim, as touradas existem porque existem touros bravos. Mas não é verdade que estes tivessem de acabar se as touradas fossem abolidas: isso só aconteceria se os aficionados do espectáculo não fossem aficionados do animal. E se assim tivesse de ser, se na verdade não há amor ao animal mas apenas amor ao seu uso e aos maus-tratos que lhe são infligidos, talvez fosse preferível que ele deixasse de existir. Um animal quer-se livre: livre na vida e na morte.

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2 - As touradas não podem ser abolidas porque são uma tradição antiga.

2' - Uma tradição não justifica, por si, a sua prática. As tradições têm origem em tempos antigos, em que as sociedades e as mentalidades eram bastante diferentes das actuais. Mas as comunidades evoluem, aperfeiçoam a sua forma de viver e pensar. Por essa razão, a escravatura foi abolida e as mulheres podem votar. Também por essa razão, já não se sacrificam animais para obter a clemência ou os favores das entidades divinas. O respeito pelos animais faz, cada vez mais, parte do nosso modo de pensar. Ainda que nos esforcemos por esquecê-lo em favor das rotinas e facilidades quotidianas.

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3 - Temos de tolerar a opinião dos outros: quem não gosta de touradas deveria respeitar a opinião contrária.

3' - Não podemos confundir opinião com prática. Quem não gosta de touradas pode respeitar a opinião de quem gosta. Mas também tem o direito de criticar a prática que aquela opinião, por si só, não legitima.

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4 - Quem é contra as touradas, é-o por 'birra'. Muitas vezes não se preocupa sequer com outros actos reprováveis contra outros animais (humanos incluídos).

4' - O facto de se ser contra as touradas não impede que se seja contra todos os maus tratos a outros animais. Temos o direito de nos preocuparmos com tudo e, ao mesmo tempo, é impossível abordarmos tudo. No meu caso concreto, tenho a firme convicção de que a insensibilidade perante o sofrimento dos animais está na origem de muitos dos problemas da humanidade. E por dedicar mais da minha energia visível a defendê-los não quer dizer que não sofra com todas as injustiças que o homem também comete contra os seus semelhantes.

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5 - Se não gostas das touradas, tens bom remédio: não vejas.

5' - Ou, na sua variante mais virulenta, algo como isto que me disseram há tempos: "Não é um copinho-de-leite da cidade como tu que vai dizer o que um ribatejano pode ou não pode fazer." Vivemos num mundo que, pelo menos teoricamente, nos permite exprimir opiniões. Eu nunca vivi nos países em que se pratica a mutilação genital das mulheres, por exemplo, e não é por por ser um 'copinho-de-leite da cidade' (o que até nem é verdade) que vou abster-me de tomar posição.

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6 - Os touros são agressivos e devem ser lidados.

6' - Não faz sentido classificar o touro de 'agressivo' pelo seu comportamento na arena: são os instintos de sobrevivência e de autodefesa que o fazem investir. Ele não tem como escapar da situação em que o põem, atiçando-o, picando-o, ferindo-o, sangrando-o, rasgando-lhe os músculos e os tendões. Todos os animais lutam pela vida, atacando, fugindo ou evitando o confronto. Qual destas alternativas tem o touro metido numa arena?

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7 - O touro praticamente não sofre quando é lidado na arena.

7' - O touro tem sistema nervoso central como nós, e por isso, de certeza, sentirá dor, medo, ansiedade, desamparo. Mesmo que optemos por ser cegos ante os sinais de que o animal sofre, nunca poderíamos provar que não sofre. E, na ausência dessa prova, não deveríamos fazer nada que comprometesse o seu bem-estar.

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8 - A tauromaquia é uma arte e, como tal, tem de se manter.

8' - Mesmo que seja arte (será?), a arte não legitima o sofrimento físico e psicológico de um ser vivo. É difícil defender, hoje em dia, os circos romanos. E, no entanto, a luta entre gladiadores era considerada uma arte.

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9 - As touradas tornam o touro nobre.

9' - Nobreza é um conceito inventado pelos homens, o touro na arena apenas luta pela vida. Só isso, não há aqui nobreza nenhuma.

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10 - A luta pela abolição das touradas é uma campanha dos países ricos do norte da Europa contra os países pobres do sul da Europa.

10' - Também se poderia dizer, então, que a luta pelos direitos da mulher à igualdade é uma luta dos países da Europa contra os países africanos. De qualquer modo, basta investigar um pouco para perceber que sempre houve lutas internas contra as touradas e que os 'pobres de espírito' que agora se insurgem contra esta prática não são necessariamente influenciados pelos países mais ricos da Europa.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

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Primeiro de novembro de 2014, Brittany Maynard: escolheu morrer quando ainda era ela que podia fazer essa escolha.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

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De quanto tempo precisa o homem para reconhecer o que é óbvio! De quanto tempo para afastar um pouco a máscara dos seus interesses mesquinhos...

terça-feira, 28 de outubro de 2014

o valor da coisa


"[...] importa não esquecer que a Autora na data da operação já tinha 50 anos e dois filhos, isto é, uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança."

E, deste modo, após dezanove anos em tribunais, uma mulher viu reduzido o valor da indemnização que anteriormente lhe fora concedida por lhe ser impossível ter relações sexuais depois de operada. Os juízes, dois "machos" e uma "fêmea" com mais de 50 anos (as aspas percebem-se à luz do que opinam) parecem acreditar piamente que sexo sem procriação é coisa de somenos, ainda mais quando já se pariu duas vezes. Subentendido está que a importância é de somenos sobretudo para as mulheres.

Gostaria, posto isto, de perguntar-lhes se o sexo também é menos valioso para homens ou mulheres jovens mas estéreis. Ou para casais jovens que têm de recorrer a técnicas de fertilização que prescindem do sexo. Ou para quem tem o azar de preferir pessoas do mesmo sexo.

Suponho que os meritíssimos decidam com base na própria experiência, uma vez que não pode haver estudo sério que conclua o mesmo que eles. Talvez tenham perdido algum do gosto que tinham pela coisa (chamo-a assim a partir de agora porque, enfim, no limite tem tão pouca importância que nem merece ser nomeada)... Ou perderam-no todo... Terão banido, até, a coisa dos seus dias; ou, se não, reduziram bastante o  número de vezes em que a praticam. E, claro, quando se reduz a frequência de um acontecimento também se diminui a sua qualidade: há algo mais lógico? Claro que não, eles são juízes.

Já agora, também gostaria que os meritíssimos me informassem se a coisa vale menos nos meus 47 anos do que nos longínquos 20. Aconselhar-me-iam a dirigir-me a um médico da especialidade para saber quanto vale a minha coisa? Ou se acaso sofro de alguma patologia por ainda gostar muito da coisa? Já agora, como se quantifica o gosto pela coisa?

Meritíssimo juízes, a que indemnização eu teria direito se alguém me retirasse a coisa?

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

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sonhei que os veterinários eram obrigados
a jurar hipócrates
e que tinham sido abolidos
os quingravecos

domingo, 19 de outubro de 2014

a incomensurabilidade das vidas


Daniel Oliveira é o escandalizado interveniente do programa 'Eixo do Mal' que há dias descarregou a sua diarreia verbal sobre todos aqueles que defenderam Excalibur, o cão recentemente assassinado em Espanha.

Espanha tinha meios suficientes para ter posto o animal de quarentena e investigado a hipótese de ele ser portador do vírus ébola. Espanha também perdeu uma oportunidade de tentar perceber se o vírus se consegue alojar e desenvolver em cães e, desse modo, ser um potencial perigo para o homem. Mas Espanha preferiu matar o familiar de Javier e Teresa, casal que não precisava de maior sofrimento do que aquele por que já passa.

Eu costumava concordar com Daniel Oliveira noutras questões. E concordo. Só que o seu antropocentrismo/especismo já me levaram a retirar-lhe tempo de antena há uns tempos (sim, já teve outras intervenções do mesmo teor): não posso confiar em alguém que tem a atitude que ele tem para com os animais. Daniel Oliveira, o valor das vidas é incomensurável. E para mim, um tipo que põe o homem no centro de tudo e não tem respeito pela vida dos outros animais não é, simplesmente, um homem bom. Isso é coisa do século passado. O mundo evolui e, felizmente, as suas perplexidades são, cada vez mais, as perplexidades que trago de menino.

domingo, 5 de outubro de 2014

sobrevoo

sobrevoo da morte     são noites
dissecando cadáveres da vida
noites que delongam resumos
para madrugadas que os lancem
à terra sempre fértil da partida

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

o ataque dos países ricos


Muitos argumentos a favor das touradas assentam na importância das tradições e da tolerância para com a divergência de opiniões. Não resistem a um minuto de raciocínio, na medida em que os seus porta-vozes reduzem o respeito pelo mundo ao respeito pelas suas práticas e confundem liberdade de opiniões com liberdade de acções. Surpreende-me, no entanto, a quantidade de gente com influência que não se detém a contar dois dedos de testa.

Bem... na verdade, surpreende-me e não me surpreende... A vida tem-me ensinado que as pessoas raramente usam a razão de um modo imparcial: procuram os argumentos em defesa daquilo em que acreditam e não querem pensar, ou talvez nem possam, para descobrir aquilo em que devem acreditar.

Talvez eu faça o mesmo quando defendo o direito dos animais não humanos a viverem em paz e não terem de conviver com a insensibilidade dos homens. Sendo assim, tenho de saber qual é o meu ponto de partida, aquele que nunca mudarei. E é ele o de que o ser humano não é superior a nenhum outro animal só por ter maior aptidão para, usemos um eufemismo, dominar a natureza. Mas, ainda por trás deste, há outro: o de que todo o animal sofre quando é maltratado e pouco me importa a medida desse sofrimento, para mim é suficiente que sofra. E, ainda por trás deste: o de que, por definição, todo o animal existe e eu não tenho motivação, nem sobranceria nem crueldade suficientes para confinar e acabar com qualquer existência.

O "argumento" da moda utilizado pelos defensores das touradas é o de que todos estes ataques às touradas que se têm intensificado ultimamente fazem parte de um plano dos países ricos do norte da Europa contra os coitadinhos dos espanhóis e dos portugueses. E eu penso para comigo, encaminhado por aqueles pontos de partida: Ainda que seja verdade, isso que importa? Em Portugal não se criticam também os actos bárbaros cometidos noutros países? Benditos sejam se por eles se mudar alguma coisa do muito que por aqui anda mal.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

uma palavra tua, Francisco...


Papa Francisco,

Tendo a distrair-me e a julgar que o meu corpo é o centro de tudo e a espécie a que pertenço o centro do mundo. Mas, apesar de não frequentar a Igreja, os ensinamentos de Cristo têm sido uma das referências na minha luta diária contra esta tendência ego-antropo-cêntrica.

Infelizmente, tenho-me apercebido de que as pessoas "mais religiosas" do meu país estão entre as menos atentas à natureza. Em Portugal há, por exemplo, uma antiga ligação entre as touradas e a Igreja Católica e os maiores defensores desse "espectáculo" de tortura são católicos. Aqui, os principais ataques dirigidos aos defensores de animais são feitos por supostos católicos praticantes.

Ora, eu não creio que Cristo defendesse as torturas e, em geral, os maus-tratos infligidos aos animais nas áreas da diversão, da investigação e da indústria alimentar. Até porque é minha convicção de que no amor aos animais começa o amor à obra de Deus. Sei que no Antigo Testamento são comuns os sacrifícios a Deus; mas também tenho a ideia de que Cristo firmou um pacto novo entre Deus e os homens e que, há muito tempo, essas práticas bárbaras deixaram de fazer sentido. Estarei errado?

Tenho a certeza, pelo que vou seguindo do teu pontificado, que te empenhas em defender os que não têm voz. Então, diz-me, por que razão os fiéis continuam tão insensíveis ao sofrimento das outras espécies? Sobretudo gostaria de saber: será que uma palavra tua, criticando abertamente os maus-tratos aos animais e dando exemplos desses maus-tratos - será que uma palavra tua não os faria pensar melhor no que andam a fazer?

Um abraço do

luís

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Talisca, Mourinho, Jesus, Mourinho


Talisca, jogador do Benfica, marcou três golos fáceis em Setúbal e os deuses enlouqueceram. Lê-se no sítio d'A Bola:

1) 14.09, José Mourinho: «Dizem que Talisca é desconhecido, mas é tão desconhecido que só não está a jogar em Inglaterra porque não tem “work permit” (licença de trabalho). Se a tivesse, estaria cá. Havia muitas equipas inglesas, grandes e importantes, que o queriam.»

2) 15.09, Jorge Jesus: «... o Benfica mais uma vez demonstrou muita qualidade no que faz. Para mim, pelo jogos que o Talisca fez no Brasil, conheciam tanto o Talisca como eu conheço o d`Artagnan.»

3) 18.09, José Mourinho: «Parece que é íntimo com o D´Artagnan, ele anda a ler Dumas. Eu limito-me à minha identidade. Não leio Dumas. Tenho uma vida diferente, um nível cultural diferente, procuro educar-me e procuro um dia não ser acusado de andar aos pontapés ou de andar a agredir a pobre da gramática.»

Jesus é famoso pelas suas intervenções menos correctas. Mas, nesta troca de palavras, é Mourinho quem se espalha ao comprido com o seu donzinho de arrogância:

- depois de, em 1), ter esvaziado de mérito os que compraram o jogador (que, note-se, ainda não é um grande jogador só por ter apontado três golos num jogo);

- e depois de ter lido mal a afirmação 2), suavizada com um 'para mim', de um Jesus picado (para quem souber ler: do que Jesus afirma, apenas se pode depreender que conhece o nome d'Artagnan, não que o conhece e muito menos que lê Dumas; antes pelo contrário);

- Mourinho conclui em 3) que Jesus é "íntimo com" d'Artagnan e que se arma aos cucos a ler Dumas apesar de ser inculto!

Ó Mourinho, esperemos que limitares-te à tua identidade não implique torceres o que os outros dizem quando isso te dá jeito.  Toda a gente comete erros gramaticais quando se exprime oralmente, tu inclusive, mas talvez fosse boa ideia leres mais romances, Dumas incluído, para cometeres menos erros de interpretação. Além do mais, não se descortina que mal daí viria para a tua identidade.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

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"Hoje o me dever era cantar a pátria, alçar a bandeira, sair à praça [..] Mas tu faltas-me há tantos dias [...]  e estou que não posso dar outra batalha." Silvio Rodríguez sempre foi um dos meus poetas preferidos e ao som do seu canto pecorri boa parte da minha vida. Esta é uma das canções a que uso regressar e fico sempre sem palavras ante o engenho com que o amor a outra pessoa e o amor à liberdade de um país se entretecem neste modo tão conseguido. Isto à parte discordar das posturas políticas do homem, acérrimo e acrítico fidelista. Mas a obra deixa de ser o homem quando passa a ser de todos.

sábado, 23 de agosto de 2014

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Sou daqueles a quem o Estado português carrega por tudo e por nada. Indignam-me, sobre todas as más canalizações do meu dinheiro, as que patrocinam torturas e assassínios. O Estado português não pode gastar dinheiro para patrocinar desumanidade.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

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Torturam um animal, assassinam-o a sangue frio, riem do triunfo sobre um inocente. Depois, à noitinha, têm o descanso do guerreiro junto dos seus. Pararam de aprender quando aprenderam a matar. Vida completa, a destes homens.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

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No próximo domingo, o ciclista vegano Pedro Jesus vai percorrer 784 km num só dia, a caminho de Santiago!!!

Eu também sou vegetariano a sério (o que agora se chama vegano), ou seja, não como carne, nem peixe nem os seus derivados. Mamíferos, nunca os comi: em pequeno, quando era obrigado a engolir um pedaço de bife, vomitava-o. Mas durante grande parte da minha vida, ainda me alimentei de peixe, lacticínios e ovos: era esse o acordo que tinha com os meus pais para não me obrigarem a 'carne'.

O peixe, deixei-o há alguns anos. E ultimamente, por motivos éticos, os ovos e os lacticínios. O que me custou mais, de início, foi prescindir do queijo, velho vício meu. Mas encontrei outras coisas bem saborosas para o substituir e outras ainda que, não sendo muito saborosas de início, começaram a sê-lo. O paladar também se ensina.

Apesar disto tudo, já com os meus 47 anos e sem nenhum treino anterior (comecei a correr há 3 anos), consigo, quando estou mais em forma, fazer 10 km de altos e baixos em menos de 45'. Creio que se fosse mais disciplinado e não tivesse a quotidiana tentação do álcool, poderia baixar dos 40', mas isso são outras histórias. E também nem sei se vale a pena correr tão rápido assim.

Nunca senti que a minha saúde tivesse de assentar no sacrifício dos animais. Nos produtos de origem vegetal encontra-se tudo, até a B12 se estivermos atentos (e, se não estivermos para isso, basta um suplemento por dia para garantirmos que não nos falta).

sábado, 2 de agosto de 2014

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A corrida de 28 de agosto no Campo Pequeno foi cancelada. Por falta de dinheiro e de público. Diria eu: por falta de dinheiro por falta de público.

Acredito que o respeito pelos animais faz parte da forma de pensar da nossa sociedade. Com o tempo, os mais distraídos também perceberão que as touradas não podem ser excepção e que representam um enorme desrespeito por todos os seres vivos nela envolvidos. Tenho a certeza de que este cancelamento é mais um a caminho do cancelamento definitivo deste espectáculo bárbaro.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

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Ontem percebi, numa discussão com um defensor das touradas, que uma boa parte da nossa sociedade, pelo menos uma parte maior do que eu pensava, tem o homem como medida de tudo e a desculpa de tudo nas tradições.

Um homem que tem por chão o amor à vida e o respeito por todos os seres vivos não pode argumentar com outro que se desloca no chão acrítico das tradições e da prepotência de uma espécie sobre todas as outras. Os dois habitam casas diferentes e apenas se podem anunciar pelo disparo. Mas eu não sou atirador, hei-de continuar a viver onde vivo, com a indicação de quem sou e de portas abertas a quem quiser entrar.

A minha medida é a vida, o meu limite o sofrimento desnecessário. E cada vez vai cabendo mais nesse sofrimento desnecessário.

terça-feira, 1 de abril de 2014

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Notícia do Jornal de Letras no Facebook: "Porto Editora e Grupo Leya chegam a acordo para impor limite de páginas a escritores." Ao virar da meia-noite, a primeira mentira do 1 de Abril. Mas está muito mal esgalhada, salta logo à vista que é mentira. Se me dissessem que tinha sido o passos com a sua tropeca a tomar a decisão, é bem possível que eu acreditasse: seria apenas mais um entre tantos aprisionamentos.

domingo, 9 de março de 2014

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

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A ONU acaba de pedir a Portugal que se afaste as crianças da violência das touradas. Talvez um dia seja possível a criminalização de todos os maus-tratos a animais (sejam eles touros, cavalos ou as próprias crianças que assistem a maus-tratos...). A proposta da ONU é pouco ambiciosa mas não podia ser mais: muitos adultos foram crianças que aprenderam a ter prazer na tortura de outros seres vivos. Há que mudar mentalidades e isso não se consegue com pressa. Mas também não se consegue com pausas.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

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Só vivemos enquanto nos aproximamos desse lugar de acesso impossível chamado utopia.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

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A esquerda e a direita são antropocêntricas. A primeira acredita na bondade dos homens e é mais humanitária do que a direita, é verdade, mas no modo como lidam com a natureza ambas são desumanas e sinónimas de exploração, matança, terrorismo, insensibilidade e destruição.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ó Miguel, já não era sem tempo

Sempre gostei dos nacos de prosa de Miguel Esteves Cardoso e embora já quase não compre jornais nunca deixei de espreitar o que ele escreve e fica disponível no Público em rede. E até sorrio daquilo com que discordo. Como há tempos aqui pus, a respeito de uma perplexidade dele relacionada com a expressão "é conforme".

Há dias, uma sua interessante reflexão no Público (A Vida Agendada, 03.01.2014) recordou-me os encantos de escrever com caneta (embora, no meu caso, sempre tenha escrito muito mais rápido no teclado, fossem eles da máquina de escrever ou do pc). Mas o que me chamou mais a atenção foi o modo como acaba o último parágrafo:

"Cada vez uso menos o telemóvel e cada vez me sinto mais livre e contente. E o meu mundo não só não desabou como melhorou qualitativamente. Já não era sem tempo. Que estranha frase esta última. Que quererá dizer?"

Não percebo onde está a estranheza da expressão 'Já não era sem tempo' (bem bonita, por sinal). Quer simplesmente dizer que... já não era sem tempo. Nem sequer é um caso de dupla negação, como em 'não há nada' (que costumo evitar escrever porque não gosto). 'Já não era sem tempo' é para ler literalmente. O 'não' nega tudo o que vem a seguir: 'Já não era sem tempo' = 'Já não (era sem tempo)' = 'já era com tempo' = 'já estava a demorar (a acontecer)'.

Como admirador que sou do MEC, estou a pensar ir ao lançamento do seu próximo livro e, entre um olá e o percurso da sua caneta numa dedicatória que eu lhe peça, dizer-lhe contente: "Parabéns, Miguel, por este novo livro. Já não era sem tempo'.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

I beg your pardon?

Luís Jardim (1947-2013)


Eu teria sabido, no hospital
onde vieste morrer, perto de mim,
como ia Deus, como ias tu, que tal
a vida te embalava antes do fim,
se fumavas como antes, se ainda andavas
com a pressa de andar, se mantiveras
aquele riso aberto entre palavras
que fez parte das minhas primaveras.

Foi de ti que entendi, eu te diria,
como era falso o encontro da verdade
e fútil a ânsia em pontuar os is,
como a criança de então desconhecia
que é a caminho sempre que o homem há-de
surpreender-se em jeitos de feliz.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

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De novo sem vontade para escrever e alimentar este blogue.
Quem sabe um dia, como tantas outras vezes.
Um abraço aos meus visitantes e boas leituras.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

SENIORES

Nos panfletos de candidatura do PS à Câmara de Lisboa, António Costa e os seus mostram ignorar que não existem palavras acentuadas antes da antepenúltima sílaba. Como ninguém em toda a campanha se atreveu a chamar-lhes a atenção, fica aqui registado, neste cantinho que decerto nenhum deles descobrirá, que não se escreve "Séniores" mas sim SENIORES, pela mesma razão que não se deve pronunciar "nior's" mas sim "Seniores". Assim se referiam em latim os "mais velhos" e assim continuamos nós a referi-los, meus SENHORES. Perdão, "Sénhores".

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

palavra exacta

na minha busca da palavra exacta
costumo trocar os olhos com que olho as mãos
e há na terra que arranho uma outra memória
a fazer de mim um dos outros que sou

como folha ressequida que me guardasse dentro
encontro-a então     a palavra exacta
escondida e sólida sob a palavra momento
desfeita e pó sobre a palavra nada

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

mais putas que as putas

Na tropa também se aprendia um pouquinho, e como eu tinha boa memória ainda vou por aí cheio de conhecimento que não me faz falta nenhuma. Sei de cor todas as peripécias da ordem unida, com e sem arma, os postos, a facilidade em fazer e fingir serviços desnecessários, os caminhos que levam à cerveja.

Também sei que "colegas são as putas" e essa é das informações mais hipócritas que me deram - pois colegas são 'apenas' todos aqueles que escolhem estar juntos. Ora, eu na verdade não tinha escolhido juntar-me a eles; mas todos aqueles que faziam carreira ou eram voluntários - esses tinham feito essa escolha. Assim como muitas putas.

Mas à parte o menosprezo que dedicavam à palavra "colega", tinham razão numa coisa: também são "camaradas", porque não só escolheram estar juntos como confiam uns nos outros o suficiente para dormirem juntos. Mais putas que as putas.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

11. Long-seller



"Na paz do nosso jardim foram crescendo ervas daninhas. Com palavras as regámos e fizemos crescer, com palavras cortámos todas as flores para que elas pudessem crescer mais ainda."

Está a fazer quatro anos e disseram-me há dias na Barata que, apesar de se vender pouco, é dos que se vendem sempre.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

cadáveres da vida

Agora, muito contra o meu costume,
ando com apetite para a noite,
que, volta a volta, toda se resume
na ânsia de uma aurora que me acoite.

Busco, de olhos abertos ao negrume,
outra manhã que os feche; o adeus foi-te
fácil, mas por mais que ele me desarrume
tem sido também ele o meu açoite.

Como vês, muito embora sempre o esconda,
vou lançando sementes de regresso
à terra sempre fértil da partida.

Como vês, é de estudo a minha ronda
e sobrevoando a morte ainda me interesso
em dissecar cadáveres da vida.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

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Conheci Serrat no outono de 1990 e este é um dos muitos poemas que ele foi buscar aos meus cadernos em branco.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

voo

Tiraram-me quase tudo,
e se acaso estrebuchei
puseram ar carrancudo
e disseram que era a lei.

Mas o pior foi agora e
eu tão de bolso vazio:
meteram-me na gaiola e
tentaram cortar-me o pio.

Não sabiam os malditos
que as minhas asas são dentro
 e que este voo é um grito
na garganta do silêncio.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

5. Dia de anos - João de Deus

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
 
Não sei quem foi que me disse
Que fez  a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!
 
Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.
 
Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!
 
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Dei com esta singela e deliciosa brincadeira de João de Deus (1830-1896) numa pequena selecta literária, tinha eu quinze anos; e ainda hoje é uma das minhas preferidas deste poeta algarvio que, com um sentido de humor único, critica um acontecimento inevitável como se fosse um acto a evitar por esse bicho que, tantas vezes distraído, se julga dono do tempo e do mundo.
 
Escusado será dizer que a aproveitei inúmeras vezes para com, esta ou aquela alteração nas primeira e segunda estrofes, e com os devidos acertos métricos, presentear este ou aquele aniversariante. Por exemplo: "Com que então caiu na asneira / De fazer segunda-feira / Quarenta e quatro anos! Tola! / Ainda se os desfizesse... / Mas fazê-los não parece / De quem bate bem da bola! // Não sei quem foi que me disse / Que fez a mesma tolice / Aqui o ano passado... / Agora o que vem, aposto, / Como lhe tomou o gosto, / Que faz o mesmo? Cuidado! ............"
 
 
 

domingo, 1 de setembro de 2013

Ai Deus, que eu já piropei!

Gostaria muito de me unir ao esforço de Elsa Almeida e Adriana Lopera, do Bloco de Esquerda, que ontem de manhã se deslocaram ao Liceu Camões, indignadas com o piropo. Para tal, só preciso que elas me expliquem bem o que é um piropo.

É que vou ao dicionário e vejo estas definições: palavra ou frase lisonjeira que normalmente se dirige a uma pessoa bonita; galanteio; madrigal. Duas delas não me parecem mal, deve ser da minha criminosa insensibilidade; mas a última, essa faz-me levar as mãos à cabeça. Ai, Deus, que eu já piropei! Eu que, por timidez e medo à estalada, pensava não ter tendência para esse tipo de crime, confesso que já compus e ainda vou compondo os meus madrigais. Pior ainda, repetidamente às mesmas mulheres e, às vezes, até a mulheres para quem sou um estranho! Ai, Deus que eu já cometi "violência de género". Ai Deus, que eu já assediei.

Já agora, também gostaria que elas me explicassem se os piropos são só de homem para mulher, como sempre referem, ou se também há piropos de mulher para homem, como a primeira definição de piropo parece contemplar. E se, nesse caso, têm igual gravidade. Aquela mulheraça míope ou delirante que há dias me confundiu por bonito e me chamou de pão - estava a cometer o crime do piropo? Ai, senti-me tão assediado... tão assediado por estes pensamentos criminosos de, escapando por fim à mania do madrigal, lhe dizer em bom português que ela era boa como o milho...

Na impossibilidade de ter assistido ao debate desta manhã no Liceu Camões, explicai-me, Elsa e Adriana, o que é para vós um piropo. É que eu quero muito acabar com o piropo. Mas, claro, só se for o vosso.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

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"Fazer amor"? Sempre achei ridícula essa expressão, decalque do inglês. Ama-se e ponto. Os espanhóis evitam muitas vezes o anglicismo dizendo simplesmente "amar" - e eu nunca tive dificuldade, pelo contexto em que a palavra é utilizada, em perceber como.

sábado, 24 de agosto de 2013

o mais impotente dos meus modos

as mãos foram difíceis
quando as procurei como parecem
e mais difíceis ainda
porque só as encontrei onde me perdi

mas pior tem sido agora
este rasgar de horas nos teus olhos
e descobrir que tu és ainda
o mais impotente dos meus modos

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

não saiba a minha mãe (1988)

Anoiteceu.
O vento marulheiro
baloiça a chuva
e eu deixo-me embalar
no sussurro da velha árvore.
Segredei-lhe todo o dia
tantas coisas tão minhas...
e sob ela sempre
poalhou apenas.
(Não vão dizer à minha mãe,
que não me quer constipado).

A Maria há pouco
deu-me as boas noites
e chamou-me louco...
Eu ri muito
como se estivesse louco
e disse-lhe ao ouvido
um segredo nosso.
A Maria... moça amiga.
Maria, não digas à minha mãe
que me chamaste louco.

Agora saboreio
um cigarro apagado
(a árvore amiga,
parece que acinte,
sempre que o acendo
sempre que o apaga)
e escrevo estas coisas
num caderno molhado.
Não digam à minha mãe
que eu escrevo versos.

Enquanto isto vou pensando
que talvez... que talvez...
Não tenho a certeza,
mas neste resto de vida
tudo há-de correr
às mil maravilhas
e amanhã
talvez nem seja
talvez de novo!
Mas, Maria, não digas à minha mãe,
que não me quer indeciso.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

4. Amor escreve-se sem 'h' - Enrique Jardiel Poncela

autor: E. Jardiel Poncela
págs.: 336
ed.: Editorial Século
trad.; Manuel Neves
1945 (1928)
Em guerra pelo sempre tão volátil e variado interesse de Lady Sylvia Brums, Zambombo usa todos os estratagemas para a impressionar, incluindo o da simulação de um suicídio que se transforma quase em suicídio. E perante um vaivém constante contra a extinção do desejo, o leitor descobre, se ainda o não sabia, que se ama de igual modo em Madrid, Paris, Roterdão, Londres. Talvez, até, no recato de uma ilha deserta.

Enrique Jardiel Poncela morreu esquecido. Dramaturgo espanhol em pleno franquismo e com um gosto pelo absurdo em contracorrente, põe nesta romance a medida justa daquilo em que hoje se põe excesso: autorreferenciação, jogo de sons e conceitos, provocação, surpresa... Injusto é o seu humor, que me fez gargalhar mais do que nestes dias devia.

A obra em papel - encontrei-a num alfarrábio perto de mim e custou-me 50 cêntimos. Em formato digital e no castelhano original, talvez a alguns custe menos: como o autor é morto há tanto que a obra pertence a todos, encontra-se na rede e gratuito numa caterva de páginas.





sexta-feira, 2 de agosto de 2013

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Nunca sei quando começa,
nunca ao certo quando acaba,
mas é séria esta promessa
que se chama madrugada.

terça-feira, 23 de julho de 2013

dois amigos (1984)

 
Tenciono telefonar-te
como quem já nada quer
e entre palavras contar-te
histórias de malmequer;
ensinar-te o estado da arte
dos piropos, se puder,
e antes que a conversa farte
saber da tua mulher;
e pedir perdão talvez,
se a tua voz mo pedir;
e confessar que perdi
noites e sonhos na vez
em que por muito sentir
me senti nela sem ti.
 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

10. a decadência dos olfactos - a opinião de Raquel Gonçalves-Maia*

Que história estranha, ficção sim, e realidade muita, desmedida... Laivos de odor orwelliano agridem os nossos sentidos página após página, abalroando as nossas defesas mais tenazes. Decadência?

Estranha a história, tão problemática e tão pura. Servida por uma linguagem requintada, o estilo do discurso alinha o adjectivo e a metáfora, enriquece a imagem, dilata o vulto, premeia o autor. O volteio das personagens, nem sempre fácil de seguir, obriga-nos ao recurso da espiral. Já assim fora em Um Pinguim na Garagem.

Albanta será perfeita. Terra sem nós... Os fantasmas desenhados ensombram, ofuscam, tão vivos se tornam pelo caminho seguido pelo escritor. Aprovação de excelso.

Sim, é um livro - um bem de consumo, pleno no nome. Um romance de inquietações de espírito e agrados de leitura. Luís Caminha afirma-se como um dos grandes autores de língua portuguesa.

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* Raquel Gonçalves-Maia, cientista, professora universitária e escritora. Os seus últimos livros de divulgação científica são fascinantes e alguns deles podem encontrar-se, por exemplo, aqui ou aqui. Também escreve ficção, com várias e belas obras publicadas.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

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A tramóia é arte maior, prenúncio de sucesso na vida. Oficialize-se, promova-se, ensine-se, expanda-se. Não se esconda a cábula, ela tem de ser avaliada; não se mascare a substância dopante, premeie-se antes o mérito do seu utilizador; elogie-se publicamente aquele que soube meter uma cunha. Enfim, sejamos todos iguais.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

terça-feira, 9 de julho de 2013

Decisões

Em jovem fui levado a acreditar que o acirrado e acrítico apego às tradições era maldade da direita. Mas hoje sei que o catálogo da maldade não tem alas. Para mim, as decisões de um homem têm de assentar em três princípios, cuja importância vem por esta ordem: 1) o princípio da incomensurabilidade: uma vida não vale menos do que outra; 2) e o princípio da sobrevivência: só nos é permitido atentar contra outro ser vivo em caso de extrema necessidade (de alimentação ou de defesa); 3) princípio da distância: se tivermos de atentar contra um ser vivo, devemos optar pelo que for mais distante de nós em termos de familiaridade genética.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

pirata

Suspirando um sorriso entre
papéis, sorriso guardado e
fundo, sorriso de sempre,
mando-te aqui este recado e
espero um sorriso de volta:
pirata deu hoje à costa.

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 Adeus, António, nunca fui muito à bola contigo...



terça-feira, 2 de julho de 2013

9. a decadência dos olfactos - a opinião de Carla Ribeiro

in http://asleiturasdocorvo.blogspot.pt/2012/05/decadencia-dos-olfactos-luis-caminha.HTML

Albanta é uma cidade perfeita - ou assim se define. Ali, onde não há excesso de população e a vida quotidiana se define pelos serviços prestados à cidade, e respectivas recompensas ou perdas associadas,  a existência tem uma data de terminação. Talvez seja por isso, por ser insuportável a ideia de viver com data de morte marcada, que alguns querem deixar para trás a perfeição de Albanta. O problema é que a cidade não está disposta a perder os seus...
Há muito de bom para dizer sobre este livro. Desde a forma como a história se desvela, aos poucos, na sua verdadeira natureza, pela voz de um narrador que, sem o parecer, no início, é também figura principal da narrativa, à caracterização gradual de um sistema tão diferente, mas que ultrapassa a estranheza e consegue parecer quase familiar, passando pela beleza de uma escrita quase poética, por vezes, introspectiva, sempre envolvente na forma como se entranha no pensamento do leitor, todas estas características fazem parte do que define uma obra breve, mas impressionante em todos os aspectos.
Das três personagens que se destacam, é talvez o narrador o que mais chama a atenção, tanto pela multiplicidade dos seus papéis - de fugitivo, de conspirador, de condenado - como pelo que, aos poucos, se revela dos elementos que o caracterizam. Elementos que se conjugam para uma fase final particularmente intensa, em que é quase impossível não sentir empatia ante a muito própria, mas de emotividade universal, exposição das circunstâncias do homem que aguarda perante a morte. É nesse momento que a personalidade de Viktor se expõe na sua totalidade, dando forma aos momentos de máximo impacto emocional, impacto este que é também aumentado pela forma como os segredos das outras personagens - e da sua ligação às circunstâncias do narrador - são finalmente revelados.
Albanta e o seu sistema de controlo demográfico são fascinantes e muito bem construídos, com os vastos detalhes que, aos poucos, são apresentados. Mas, mais que a história de um sistema aparentemente perfeito, mas ditado por imposições e regras estritas, marca, neste livro, a imensa reflexão sobre escolhas e arrependimentos, sobre sonhos e desilusões e, principalmente, sobre traição e morte, que transparece da história de Viktor e de Vilna. Das expectativas frustradas e dos ciclos de fuga e regresso, a empatia sentida para com as personagens liga-se a um lado introspectivo nas dúvidas de cada um deles, mas também a uma interessante ponderação sobre as possibilidades levantadas pelo complexo sistema que é Albanta: quanto seria aceitável perder em nome da suposta perfeição?
Uma história breve, mas intensa e complexa, quer no sistema que apresenta, quer nos pensamentos e emoções das personagens que o habitam, A Decadência dos Olfactos marca tanto pelo cenário que apresenta, como pelos rumos da história, como ainda pela beleza de um estilo de escrita muito próprio e pela conjugação perfeita de empatia e reflexão. A impressão global não podia ser melhor. Maravilhoso.

sábado, 29 de junho de 2013

teu

por que hei-de fechar os olhos
ao teu corpo?, esquecer as curvas
que nas curvas pressinto do teu abraço?,
por que hei-de fechar o sonho
à língua que prometes na minha boca?,
por que hei-de ser deus se quero morrer homem?,
por que hei-de ser mais que homem
se quero morrer teu?

quinta-feira, 27 de junho de 2013

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Estou calmo. Apenas me falta que todo o meu futuro fosse preparar-te o café da manhã, enquanto estendesses o sono de uma noite mal dormida.

terça-feira, 18 de junho de 2013

rol do inesquecimento (2007)

Ontem com dois e três morangulácidos.
Alguns mortos por sob os vaitivéns.
Esguelhas quase para olhares áridos.
E obviamente os canibais também.

Papéis de capa com espadartes pálidos.
Desquandos chatos como artistas sem.
Caligrafias para poetas rápidos.
A cama dosselada e os outros em.

Pestanas longas vacas barrosãs.
Bencatel massamá lisboa oeiras.
E claramente todas as manhãs.

Alfa beta pi ómega agá de homem.
Cozido assado cru de outras maneiras.
Não necessariamente por esta ordem.

constante luto (2005)

Os cães que vivem apesar de tudo,
como aqueles que sobram do que fomos,
contam-me as noites em constante luto,
aos pés da minha cama e do meu sono.

Alheios, quase, a avanços e recuos,
bocejam, de olhos vagos, este outono,
o sol, a chuva, aqueles passos surdos,
desde que tu partiste e somos outros.

E adormeço depois como este outono,
o sol, a chuva, os nossos passos surdos,
os cães que vivem apesar de tudo.

Como aqueles que sobram do que fomos.
Aos pés da minha cama e do meu sono.
Dias sem dias. Em constante luto.

a nossa viagem já não sai do cais (2004)

Qual a lasciva chama que, ofegante,
falece na matéria consumida,
cravei de tuas unhas cada instante,
esmiuçaste, séria, a minha vida.

Cavalgámos o tempo a solta rédea
mas sempre fomos os outrora-amantes;
a nudez da alvorada embala a réstia
de olvido, agora, sob os corpos de antes.

E embora estejam de feição o vento
e de partida quase as caravelas,
há neste oceano largo nós a mais.

Nunca fomos bastantes para o invento,
nunca importantes para a descoberta.
A nossa viagem já não sai do cais.

em busca do soneto (2004)

Abríramos assim o apetite
para estes e mais doze que prosseguem!
Mas eu estou surdo deste que sorriste
e habito a espuma cega de um outro éden.

Soubera as palavras que se perdem
nas curvas do teu colo, minha circe!
Caídas e maduras, apodrecem
destes versos que escrevo e não pediste.

Repousa o nosso amplexo neste coro
mínimo para repetir sem medo
as vogais lentas que pareces rindo.

Onde pusemos nós a chave de ouro?
Ah! eu quisera só mais um soneto
que de aqui me guardasse enquanto minto.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

noventa palavras e um soneto (2004)

No tempo das princesas eras essa
de caracóis compridos e sardinhas
em cujo colo adormecia a pressa
de que todas as horas fossem minhas.

A primavera, então, de quem começa,
floria no teu corpo às adivinhas;
e eu, que nunca gostei de quem mo impeça,
exauria o silêncio que me tinhas.

Mas chegámos enfim a este dia
de passear a avidez do meu esqueleto
com a nossa morte apenas por recinto

- porque ainda espero, à sombra fugidia
de noventa palavras e um soneto
afogados em pena e vinho tinto.

domingo, 16 de junho de 2013

ainda menos do que antes (2003)

Imagino-te à espera do comboio
que há-de levar-te em viagens para longe
do meu, do nosso, dos amigos, de onde
o dia é longo e o amor foi sóbrio.

De meu já nada tenho que te conte
para lá deste incontornável ódio;
mas enquanto não chega esse comboio
que há-de levar-te em viagens para longe
escuta as lágrimas da nossa arte:

espelhado na urina que deixaste
o amor dorme sob soalhos flutuantes;
ícaro antes da cera derretida
de asas se põe e chama-te querida;
e deus existe ainda menos que antes.

sábado, 15 de junho de 2013

vermelho sem remendo (2004)

Pergunto-me que amor esse em setembro
precipitou no mundo aquele em inverno;
que estro rasgado nos teus olhos ternos
de choro fustigou o nosso invento;

que dor atroz, que desconsolo eterno,
que infinita paleta de cinzentos,
que imprevisto febril cristal de tempo
conciliou a espera e o dia incerto...

Quando no teu sorriso brotam marços,
agora que pereço de cansaços,
pergunto-me por ti mas não compreendo.

E o meu olhar sob pálpebras fechadas,
buscando em terra que já foi regada,
inala este vermelho sem remendo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

estes que não sabem ser felizes (2003)

Mas que me dizes tu deste siroco
noite-e-dias ao largo do imprevisto,
ininterrupto e farto, desatino
de sob a nossa pele em baile sem rosto?

Mas que me dizes tu de sermos outro
agora que o deserto em nosso rito
aconchega o cadáver do perigo
e perfuma de seco o nosso gosto?

Sombra da tarde, que me dizes tu
se inverna e chove nos meus olhos claros
de negras nuvens e silêncio cru?

Ah! que me dizes tu do que lhes dizes,
às idas pétalas dos meus cansaços,
sobre estes que não sabem ser felizes?

quinta-feira, 13 de junho de 2013

inventário do fim (2003)

Os que pairam à volta do meu corpo
moribundo; os que esperam pacientes
pela hora do fracasso; este amor torto
que guardo mesmo quando tu nos mentes;
as conchas que procuro; o ar que mordo
febrilmente; o teu riso de contente
que estrelas espalha pelo mundo todo;
o fim certo sem espaço em que me invente;

o luís frio, a chuva repetida
em noites que maturam sem destino;
a casa abandonada; em tua lista
o el-tê-éme em vez do amorigo;
a inquietude; a dor; e era uma vez
na paz do meu abraço o adeus dos três.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

como quem desiste (2003)

Podes trocar a boca pelos lábios
em esperas e procuras desusadas;
correr-me o corpo como o sol em maio
sobre a terra fecunda e as nossas casas;

mordiscar-me na pele os pontos sábios
construídos na paz de outras moradas;
e esgotar na espiral desse trabalho
o princípio de tudo o que se acaba;

para depois, já como quem desiste,
rasgar-me a carne, lacerar-me em tiras,
espalhar-me de sangue pelas ruas
com o sorriso final dos sempre tristes;

e, preparada já para a partida,
perder a nossa cama noutras luas.

terça-feira, 11 de junho de 2013

em qual das lágrimas eu nos morri (2003)

Tomemos, por hipótese, uma cena
de embriaguez final: eis-te na tasca
a beber por canecas de cerveja
tremores, corpos e memórias falsas.

Recordarás aquela amante plena
de silêncios e fácil de palavras
que por baixo da pele buscava estrelas
para as vestir com a pele da madrugada.

Recordarás, meu basto mentecapto,
o que é teu como o que te aconteceu
e este que sou como se fosses eu.

Recordarás a morte por arrasto,
talvez o fluxo dos instantes e
em qual das lágrimas eu nos morri.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

sorte a minha

Sorte a minha, que te guardo
nas viravoltas da vida,
ignorando os seus abismos:
dou por mim menos amargo,
creio em asas que são minhas
quando lembro o teu sorriso.

parada (2002)

Isto é assim: Eu gosto de caber
a tua boca dentro do meu beijo
e aprender sem dor o abc
do teu corpo na língua em que me deito.

Gosto, assim como gosto de caber
arrepios de mama em mão sem freio,
e adoro adentrar-te, bem se vê,
porque gritas "amor!" e eu sou grosseiro.

Comove-me o teu fim que nunca é fim,
saboreio a saliva que primeiro
é vapor de água e só depois inverno.

E nunca és demasiado para mim.
Ainda que na volta do correio
mandes por deus que já não moras perto.

domingo, 9 de junho de 2013

dois, um, dois, nenhum (2001)

Descobrir o teu corpo rebuçado
para o abraçar de beijos e colectas:
os poemas no teu olhar de lado
assim se fazem - que eu não tenho pressas.

Náufrago no triângulo esperado,
desafiar a morte em linha recta,
ir ao fundo do céu, salvar-me a nado,
inalar o universo que se oferta.

Antes e por enquanto e entre tanto
transformar-se na esfera do desejo
o planisfério a dois de sermos um.

Antes e por enquanto. Mas depois:
a cama sempre do regresso ao medo,
os dois por um que já não são nenhum.

sábado, 8 de junho de 2013

o pinguim



Bom dia, Pinguim, deseja-me tantas vezes essa mulher bonita. Bom dia para ela também.

três ou quatro (2001)

Éramos três ou quatro, sempre pardos,
de hábito e espera às voltas na palavra,
três ou quatro com vida para nada
e tempo para tudo, três ou quatro.

Estátuas quase, em três ou quatro traços
perdidos entre a gente que ainda passa,
num caminho usual, em qualquer tasca,
três ou quatro hóspedes embriagados.

Éramos longe como quem não quer,
ao lado sempre, como quem te houvesse,
três ou quatro ais em rasto de mulher...

Mas trouxemos manhãs à noite rota
e deuses nobres porque assim quiseste
e assim sou eu e já não há quem morra.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

o árduo exercício da paixão (2001)

Durante o sol eu era um dos teus cães.
Passeei da tua mão por onde sempre
anuncias o fim da primavera
e segui-te com todo o coração.

Não te deixei à espera, apressei
todo o momento vão; eu só queria
ser de novo na casa aquela fera
que procura consolo até mais não.

À tarde adormeci sob a tua asa
e sonhei-me de língua licenciada
para o árduo exercício da paixão.

E à noite sou este homem que te ladra
verbos de mel, amor em quatro patas,
vamos passear ao sol da tua mão.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

quase

Somei amanhã com ontem,
parti a metade a meio
tantas vezes quantas pude e
distribuí por quem veio:
era uma vez, nem sei como,
quase em ti o mundo inteiro.


não sou de minhas mãos (2001)

Não sou de minhas mãos, eu tenho medo
do corpo esguio em tempos contraídos:
dentro de ti, mulher que embocadesço,
umbilica um soneto de perigos.

A impossível espiral em que persisto
dói de frio à medida de outro enredo,
que tu arquejas como ponte em rio
e eu marulho da espera enquanto aqueço.

Se no gesto és o amor de outra qualquer,
contemplo a claridade da rotina
que sob o sol desceu à tua pele.

Ah! soltaras o freio ao largo potro
que galopa a paciência dos meus dias
e estremecera eu de chaves de ouro!

terça-feira, 4 de junho de 2013

afinal estive bem (2001)

Hoje estavas salgada - e toda a noite
tentei esquecer a sede em nada de água.
E eu, amor, como estava? Tu sorris...
Ai eu bem vi que não dormiste nada.
Passaste toda a noite em alvorada,
aos pinotes na cama de dossel,
como se o sono fosse tarefa árdua
para as princesas quando são de sonho.

E eu, amor, como estava? Antes sorris
como de quem à noite foi mulher
para quem a aborrece de aprendiz,
e depois com a certeza dos que a têm
para a certeza de quem tanto a quer.

Afinal... Afinal estive bem!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

o dia seguinte (2001)

Irás à fac de bê-tê-tê, irás de
galope largo em rouxinóis da noite,
sorriso posto em mãos, fruto que à tarde
inflama o verbo e amanhece de hoje.
Não pode haver no mundo quem te arraste
para lá de mim, quem fácil nos desdoire;
não há vento sem norte que remate
na tortura do tempo a paz do açoite.

Embebes de perfume o alcatrão
que foge sob as rodas do meu mundo
e o vento rima cão com coração
quando descobre que estivemos juntos,
até porque tu gostas de ão ão ão
e eu sou  no teu selim os vagabundos.

volte-face (2001)

Eu penso às vezes que a palavra certa
em momento adequado e tom preciso
se há-de esgueirar por uma porta aberta
na parede de trás do teu juízo.

Serás espontânea, hás-de mandar à merda
a mãe, o pai, o mano... enfim: tudo isso;
e abrirás o caminho em linha recta
que leva às curvas de outros paraísos.

Eu amante recente, como sempre;
tu amiga de sempre em pele recente,
mulher no vespertino mel da fuga.

Deste modo é que não serei eu quem:
não há silêncio que te alcance nem
declamação feliz que te abra a blusa.