Luís Caminha é piegas
quando chora o desamor,
o adeus, as noites incertas
e este azar que se instalou.
Apara em paz as afrontas
e deixa ir tudo o que parte
sem levantar muitas ondas
nem queixa que aos grandes farte.
Luís Caminha não gosta
é que o chame de piegas
esse tipo da fatiota
que tanto o enterra na merda.
ocasos
luís caminha
Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012
Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012
Corte nas calorias
Preocupada com a nossa saúde, a Mars, fabricante dos chocolates Mars e Snickers, vai cortar nas calorias. Como? Diminuindo-lhes o tamanho. Claro que ao apreciador que quiser dar o antigo número de dentadas, ficar-lhe-á mais cara a vontade. Digo eu, que já vou percebendo um pouco destas coisas.
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
11.02.2012-14.02.2012
Chamava-se 1ª Corrida da Nauticampus, mas isso pouco importa, eu só queria estar acompanhado durante 10 quilómetros. Éramos 600 e fiquei no 229º lugar da geral, 12º entre as mulheres :). Com a falta de treino, a desmotivação, enfim, a tristeza em que ando, foi muito bom. Longe dos 46 minutos que cheguei a fazer antes da tua morte, mas abaixo dos 50; e nesses menos de 50 nunca deixei de me repetir 'menos de 50 para ti, Barbinhas'. O último quilómetro foi a deitar os bofes por fora e quando a uns duzentos metros vi a meta, acelerei em pura fermentação. Foi muito, muito difícil, vale bem uma lambidela de agradecimento na minha cara também barbuda, não vale? Para o registo: 49m26s.
Ainda não te disse, mas anda à nora uma válvula do meu coração. Fui proibido de correr e aconselhado a ir à faca. Nada disso, eu sempre gostei de jogar no limite.
Tenho passado as manhãs com a mãe entre hospitais e centros de saúde. Mas as coisas parecem estar controladas. Depois de amanhã voltamos ao Santa Maria.
O Bê-Dê manda-te um latido grande, querido. Do coração.
Ainda não te disse, mas anda à nora uma válvula do meu coração. Fui proibido de correr e aconselhado a ir à faca. Nada disso, eu sempre gostei de jogar no limite.
Tenho passado as manhãs com a mãe entre hospitais e centros de saúde. Mas as coisas parecem estar controladas. Depois de amanhã voltamos ao Santa Maria.
O Bê-Dê manda-te um latido grande, querido. Do coração.
Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
01.02.2012 - 10.02.2012
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Vou-me habituando a viver sem ti, umas vezes com um sorriso pelos dias bonitos em que me acompanhaste, outras com o arrependimento de nem sempre ter sido o melhor dos teus amigos. Cada vez me custa menos estar na cama porque a cama é o lugar onde te sinto mais próximo. Era aqui que nos demorávamos tantas horas da noite e tantas horas de sol, de calores encostados e longos abraços.
Aparentemente, a mãe não está tão mal como inicialmente pensámos. Em princípio na terça-feira vamos falar com o cirurgião que a vai operar.
Estou com hipertensão, excesso de colesterol, triglicéridos a mais. Não deixa de ser um pouco injusto para quem não come carne... Será do queijo. E da fruta. E do álcool. Enfim, será dos meus excessos.
Entretanto voltei a correr um pouco, na semana passada. Depois parei, perdi-lhe mesmo o gosto depois de teres partido. Mas amanhã, mesmo sem treino vou tentar fazer uma prova de 10 km. Se conseguir acordar a tempo. Custa-me acordar porque acordar é regressar à tua ausência.
Hoje fui a uma reunião para acertar a publicação do nosso segundo romance. Sem grandes expectativas, já não tenho idade para achar que tenho importância.
Tenho tantas saudades tuas, meu amor. Anteontem sonhei contigo e eras uma criança que me dava a mão.
Vou-me habituando a viver sem ti, umas vezes com um sorriso pelos dias bonitos em que me acompanhaste, outras com o arrependimento de nem sempre ter sido o melhor dos teus amigos. Cada vez me custa menos estar na cama porque a cama é o lugar onde te sinto mais próximo. Era aqui que nos demorávamos tantas horas da noite e tantas horas de sol, de calores encostados e longos abraços.
Aparentemente, a mãe não está tão mal como inicialmente pensámos. Em princípio na terça-feira vamos falar com o cirurgião que a vai operar.
Estou com hipertensão, excesso de colesterol, triglicéridos a mais. Não deixa de ser um pouco injusto para quem não come carne... Será do queijo. E da fruta. E do álcool. Enfim, será dos meus excessos.
Entretanto voltei a correr um pouco, na semana passada. Depois parei, perdi-lhe mesmo o gosto depois de teres partido. Mas amanhã, mesmo sem treino vou tentar fazer uma prova de 10 km. Se conseguir acordar a tempo. Custa-me acordar porque acordar é regressar à tua ausência.
Hoje fui a uma reunião para acertar a publicação do nosso segundo romance. Sem grandes expectativas, já não tenho idade para achar que tenho importância.
Tenho tantas saudades tuas, meu amor. Anteontem sonhei contigo e eras uma criança que me dava a mão.
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Ando à procura da minha mentira.
Sábado, 4 de Fevereiro de 2012
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Cuidado: o que uma palavrinha começa, outra acaba.
Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
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Morrer é só não ser visto, dizia o outro. Mas eu só tenho a certeza de que não ser visto é morrer.
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O homem acordou com vontade para mexer no dia. Mas não valia a pena: fora do seu eixo, a terra já corria desgovernada para longe do medo ao sol.
Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
24.01.2012 - 31.01.2012
Faz hoje uma semana. Telefonaram-me às 11h a dizer que pioraras e que o teu coração não resistira. Eu estava pronto para te ajudar a morrer, queria tanto que morresses nos meus braços, como a Bonita e o Piloto, quando o sofrimento era visível nos seus olhos e essa era a melhor solução. Mas convenceram-me de que ainda podias ser salvo, que ainda não tinha sido feito tudo para te salvar. E acabaste por morrer sozinho.
Ainda não é fácil viver em casa e não me apetece ir para a cama sem lá estares. Tento prender os olhos à secretária mas eles escapam-me pelo caminho que leva ao teu sofá preferido, aquele onde estendias a tua preguiça de gato e de onde controlavas os meus movimentos. Tento manter a mão esquerda presa sob o edredom mas passo a noite a soltá-la para te procurar. Tento encontrar-te no Bê-Dê mas lembro-me sempre dos ciúmes que tinhas quando as minhas carícias iam para ele na mesma medida que para ti.
Não corria desde que adoeceste, queria passar contigo todo o tempo que pudesse. E ainda não voltei a correr. Sinto-me culpado por os meus rins funcionarem tão melhor que os teus. Mas daqui a uns tempos tenciono voltar à estrada para bater todos os recordes que me permitam a idade e o corpo. Ontem imaginei que o meu coração parava como o teu ao cruzar a meta de uma qualquer maratona e isso consolou-me: é um modo simples e pouco rebuscado de chegar ao que sempre quis. Por isso, por que não esticar os meus limites? Quero baixar dos 40 minutos nos 10 quilómetros, rondar a hora e trinta na meia-maratona, roçar as três horas e meia na maratona. Dás-me um ano para isso tudo?
Entretanto, e umas horas antes de morreres, pouco depois da última visita que te fiz na noite de segunda-feira, descobri que a mãe pode estar muito doente. Ainda não sabemos quanto, andamos de análise em análise e de esperança em esperança. Amanhã vou com ela ao médico para agendarmos os próximos passos.
Na sexta-feira passada, recebi mais uma daquelas cartas antigas a dizer que o nosso segundo romance foi analisado com todo o cuidado mas que não está na linha editorial de quem não o analisou; antes, já tinha recebido outra a dar-me os parabéns pelo texto e a manifestar-me o lamento pela sua ineditabilidade. Dei comigo a sorrir de como sou estúpido, de como por uns momentos e há pouco mais de dois anos pensei que coisas destas nunca me voltariam a acontecer.
Como sabes, sempre me aborreceram notícias sobre os poetas que ganham prémios graças à sua magnífica resistência em poetizar, sempre gozei com a ingenuidade dos prosadores que ganham prémios e dizem procurar a palavra certa para cada pensamento, sempre li algumas páginas dos livros que ganham prémios e cujo sucesso não consigo perceber.
Mas cada vez leio menos. Esta semana? Nada. Os escritores dizem que a leitura e a escrita são o seu refúgio. Talvez seja por isso que eu não sou um escritor a sério: quando não estou bem, mal leio; quando não estou bem, escrevo tão mal.
Do resto, tu já sabes. Há uns sete meses que não me pedem traduções e as últimas notas que tinha, gastei-as para pagar a tua última solidão no hospital veterinário. Mas não te sintas mal com isso; quando o banco vier buscar-me a casa, e embora não tenha outro remédio senão entregar-lha, vou ladrar-lhes até não conseguir mais. E em tua honra hei-de morder-lhes os calcanhares. Ah, se hei-de.
A Miúda e a Sereiazinha mandaram-te beijinhos há dias e olha que foram bem maiores e sentidos do que os que mandaram para mim. Recebe-os, está bem? Onde estiveres, recebe-os.
Até para a semana, meu querido Barbinhas.
Ainda não é fácil viver em casa e não me apetece ir para a cama sem lá estares. Tento prender os olhos à secretária mas eles escapam-me pelo caminho que leva ao teu sofá preferido, aquele onde estendias a tua preguiça de gato e de onde controlavas os meus movimentos. Tento manter a mão esquerda presa sob o edredom mas passo a noite a soltá-la para te procurar. Tento encontrar-te no Bê-Dê mas lembro-me sempre dos ciúmes que tinhas quando as minhas carícias iam para ele na mesma medida que para ti.
Não corria desde que adoeceste, queria passar contigo todo o tempo que pudesse. E ainda não voltei a correr. Sinto-me culpado por os meus rins funcionarem tão melhor que os teus. Mas daqui a uns tempos tenciono voltar à estrada para bater todos os recordes que me permitam a idade e o corpo. Ontem imaginei que o meu coração parava como o teu ao cruzar a meta de uma qualquer maratona e isso consolou-me: é um modo simples e pouco rebuscado de chegar ao que sempre quis. Por isso, por que não esticar os meus limites? Quero baixar dos 40 minutos nos 10 quilómetros, rondar a hora e trinta na meia-maratona, roçar as três horas e meia na maratona. Dás-me um ano para isso tudo?
Entretanto, e umas horas antes de morreres, pouco depois da última visita que te fiz na noite de segunda-feira, descobri que a mãe pode estar muito doente. Ainda não sabemos quanto, andamos de análise em análise e de esperança em esperança. Amanhã vou com ela ao médico para agendarmos os próximos passos.
Na sexta-feira passada, recebi mais uma daquelas cartas antigas a dizer que o nosso segundo romance foi analisado com todo o cuidado mas que não está na linha editorial de quem não o analisou; antes, já tinha recebido outra a dar-me os parabéns pelo texto e a manifestar-me o lamento pela sua ineditabilidade. Dei comigo a sorrir de como sou estúpido, de como por uns momentos e há pouco mais de dois anos pensei que coisas destas nunca me voltariam a acontecer.
Como sabes, sempre me aborreceram notícias sobre os poetas que ganham prémios graças à sua magnífica resistência em poetizar, sempre gozei com a ingenuidade dos prosadores que ganham prémios e dizem procurar a palavra certa para cada pensamento, sempre li algumas páginas dos livros que ganham prémios e cujo sucesso não consigo perceber.
Mas cada vez leio menos. Esta semana? Nada. Os escritores dizem que a leitura e a escrita são o seu refúgio. Talvez seja por isso que eu não sou um escritor a sério: quando não estou bem, mal leio; quando não estou bem, escrevo tão mal.
Do resto, tu já sabes. Há uns sete meses que não me pedem traduções e as últimas notas que tinha, gastei-as para pagar a tua última solidão no hospital veterinário. Mas não te sintas mal com isso; quando o banco vier buscar-me a casa, e embora não tenha outro remédio senão entregar-lha, vou ladrar-lhes até não conseguir mais. E em tua honra hei-de morder-lhes os calcanhares. Ah, se hei-de.
A Miúda e a Sereiazinha mandaram-te beijinhos há dias e olha que foram bem maiores e sentidos do que os que mandaram para mim. Recebe-os, está bem? Onde estiveres, recebe-os.
Até para a semana, meu querido Barbinhas.
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Por instantes, a minha passagem causou algum aborrimento. E, no entanto, não segurei nada que tivesse resistido à prova da chama. Fui estéril, não tive graça, muito menos caí em graça. Nalgum lugar ficará registado o dia 12 de Abril de 1967 para começo. Com que fim? O de ter fim.
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