sexta-feira, 17 de dezembro de 2021
café da tarde XLI
terça-feira, 14 de dezembro de 2021
primeiro café da tarde XL
sábado, 11 de dezembro de 2021
quadra 85
terça-feira, 9 de novembro de 2021
primeiro café da tarde XXXIX
sábado, 6 de novembro de 2021
primeiro café da tarde XXXVIII
sábado, 30 de outubro de 2021
o talento de amar-te
segunda-feira, 11 de outubro de 2021
transparência e luz no teu aniversário
quinta-feira, 23 de setembro de 2021
amiga
quinta-feira, 5 de agosto de 2021
que se foda o homem (para o meu amigo savimbi)
sábado, 29 de maio de 2021
desmaio
desmaio s.m. finais de maio, tendo em mente, sobretudo, os dias de estio que se adivinham, quentes e por vezes infernais; fig. final de um período sereno e aprazível. (de maio)
EX: mais um desmaio
mais um desmaio (carta para Jane)
sexta-feira, 28 de maio de 2021
primeiro café da tarde XXXVII
que não o sabes
quinta-feira, 27 de maio de 2021
desquandar
decadência
Decadência - s. f. tendência patológica para deprimir durante uma década após perda traumática, sobretudo amorosa ETIM. década
terça-feira, 25 de maio de 2021
soneto do meu coração desquandado
quinta-feira, 6 de maio de 2021
Qhadija
.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021
Soneto desgovernado
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
perspectiva da alma (Mario Benedetti)
o silêncio do mar (Mario Benedetti)
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021
soneto ancestral
uma náusea inquieta que me afunda
sorri-me então um vago tiritar
quando assim acontece tudo é dentro
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
intermezzo osculatório
O averiguador consultava a ocorrência num papel. Responda-me só a uma coisa, senhor...
Pergunte, respondeu o senhor, sem se incomodar com as reticências.
Vejo que está calmo. Não se preocupa?
Com quê?
Com o que pode vir a acontecer-lhe. Sobretudo, com o que pode vir a acontecer à sua mulher.
Bastante.
Não parece. Talvez não saiba que pode ter de cá passar esta noite. Esta e outras... Que pensa disso?
É como disse. Preocupo-me.
Sim, claro. Preocupa-se. Já agora, pode explicar-me melhor com quê?
Com tudo. Com o que possa ter feito. Com o que os outros possam pensar de mim. Sobretudo, com a passagem do tempo.
O averiguador não queria acreditar. O meu amigo não pode dizer isso. É óbvio que não se preocupa. Está a esquecer-se da razão por que devia preocupar-se a sério.
Beijei a minha mulher, não é?
Ó meu amigo, beijou-a quando ela estava desprevenida e beijou-a à moda antiga. Sem um contrato prévio e sem máscara osculatória. É óbvio que não se preocupa com a opinião dos outros. É ainda mais óbvio que não se preocupa com a saúde dela. E, claro, não se preocupa nada com a lei.
Se eu lhe disser que provavelmente estava a dormir? Que estava no meio de um sonho quando o fiz?
Dormia, pois então. Acordemos em que dormia. Mas o que fez ao certo, enquanto dormia?
Aproximei-me dela, está visto. Só isso.
Só isso? Só isso seria muito. Mas parece-me que não foi só isso, pois não?
Recordo-me de que ela acordou aos gritos.
E de que se recorda mais quando ela acordou aos gritos?
Os meus lábios confundiam-se com os dela. Mas num primeiro instante...
A frase ficou presa porque nos lábios do averiguador se desenhou uma breve mas indesmentível onda de repulsa, que tentou disfarçar com um incentivo a que o outro continuasse. Num primeiro instante?
Num primeiro instante, os lábios dela pareciam dançar com os meus. Senti como antigamente a humidade da sua boca, o veludo da sua língua. No princípio estranhei. Éramos de novo aprendizes. Não beijávamos há... Não nos beijávamos desde a proibição.
À palavra proibição, sem espera nem disfarce, o averiguador olhou para o averiguado com o sorriso largo de quem obtinha por fim o que desejava. A sua mulher está em choque pelo crime cometido.
Mas ela parecia corresponder.
Ela estava a dormir. De qualquer modo...
De qualquer modo parecia corresponder.
Não é essa a informação que temos. A sua mulher não concordou com o beijo. Acordou aos gritos, apresentou queixa de imediato e a informação que tenho do centro de quarentena é de que vive em sobressalto com receio de estar contaminada. Não está arrependido?
O averiguado soltou um suspiro e, pela primeira vez, pareceu reconhecer o seu erro. É a minha mulher. Estávamos a sonhar.
Isso para mim são pormenores que só no julgamento serão tidos em conta. O que eu sei e o que apenas me interessa é que a beijou sem o seu consentimento, o que significa que ela é vítima de um crime e não cúmplice, como tem querido fazer-me crer.
Crime...
Sim. Há mais de uma década que os beijos estão proibidos e há mais de meia que foi agravada a moldura penal para quem os dá. Existem, como sabe, certos procedimentos obrigatórios para quem opta por gestos afectuosos. No mínimo são necessários um contrato escrito entre os osculantes e o uso de máscaras osculatórias por ambos.
Eu sei, mas...
Mas estava a dormir.
O averiguado baixou a cabeça e desistiu da defesa. Talvez não estivesse.
Aliviado, o averiguador deixou que um silêncio crescesse sobre as lágrimas que começavam a escorrer no rosto do outro. Vamos, não esteja assim. Toda a gente comete erros. O passo principal já foi dado ao reconhecer o crime. Agora é pagar por ele e seguir em frente. Retocou a máscara para se certificar de que estava bem colada ao nariz, levantou-se e mandou vir o carcereiro. Passa cá a noite e amanhã é apresentado ao juiz.
Já se faziam choro largo as lágrimas do criminoso. Enquanto o carcereiro o encaminhava para a cela, apenas pôde pronunciar, entre soluços, Por favor, avisem a minha mulher...
sábado, 23 de janeiro de 2021
um destino prometido
terça-feira, 19 de janeiro de 2021
quadra 84
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
quadra 83
sábado, 16 de janeiro de 2021
soneto sem futuro
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
quadra 82
quinta-feira, 7 de janeiro de 2021
Esperança e Amor
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
O maior defeito de Belisa
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
domingo, 3 de janeiro de 2021
quadra 80
sábado, 2 de janeiro de 2021
Soneto do maior erro
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
inventário
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Soneto da São Silvestre de 2020
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
primeiro café da tarde XXXVI
sexta-feira, 11 de dezembro de 2020
primeiro café da tarde XXXV
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
terça-feira, 1 de dezembro de 2020
primeiro café da tarde XXXIV
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
quadra 77
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
terça-feira, 17 de novembro de 2020
quase como tu
Como tu, sou papagaio,
minto e cedo à carne fraca;
como tu, mal me distraio
também corto na casaca.
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
quadra 75
domingo, 15 de novembro de 2020
quadra 74
aos pormenores da vida,
quando aceitei, já cansado,
sábado, 14 de novembro de 2020
quadra 73
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
homem
pouco me importa o que tive
se o que tive não conservo.
Faço por que seja um fio
este caminho que rasgo,
que ao homem basta o respiro
para logo fazer estrago.
Luto por erros ligeiros,
propensos quase ao olvido,
para ser homem a sério
há que não ter existido.
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
quadra 72
Se aconteceu habituar-me
a esta distância entre nós,
para morrer de saudade
basta ouvir a tua voz.
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
quadra 71
sem prodígio nem surpresa,
a minha única certeza.
terça-feira, 10 de novembro de 2020
primeiro café da tarde XXXIII
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
epifanias
Representante do que uns designam de realismo sujo e outros apenas de escrita minimalista, Raymond Carver aborda o quotidiano, numa linguagem quotidiana, com uma sobriedade quotidiana.
A proposta é a de uma ausência de literatura. Mas é uma proposta mal sucedida: os doze episódios do livro são percorridos por desempregados, alcoólicos, divorciados e desentendidos, gente fazendo pela vida sob uma pena que, além de dominar os segredos do diálogo e da narrativa, detém a mestria da sua conjugação.
Acresce que resultam epifanias e redenções de pequenas quebras de rotina, de frases simples, de gestos previsíveis. E também aqui há literatura.
Catedral
Raymond Carver
Trad.: João Tordo
2010 (original: 1983)
domingo, 8 de novembro de 2020
para ser maior
Decide seguir o exemplo e assassinar uma velha agiota, um ser menor, desnecessário, prejudicial à sociedade (um piolho, nas suas palavras) e cujo dinheiro pode ser usado em seu proveito e dos outros. Já de início, no entanto, hesita. E quando finalmente se decide, comete vários erros. O maior dos quais o de assassinar também a irmã da agiota, que entretanto surge na cena do crime, a casa onde ambas vivem. A atrapalhação é tanta que, embora retire da casa algumas jóias e uma carteira, decide escondê-las até de si próprio.
A obra é uma longa viagem pela mente de Raskólnikov, os temores e as dúvidas que antecedem e, sobretudo, se sucedem ao crime. Talvez, afinal, ele não seja o grande homem que imaginou ser. Talvez por isso mereça o castigo que merecem os homens menores. E é ele próprio que vai de encontro, aos poucos, desse castigo. O seu percurso é, no fundo, o de descobrir que também é um piolho. E a redenção só acontece no momento em que percebe que um homem banal também pode ser amado.
Crime e Castigo
Dostoiévski
Trad.: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editorial Presença, 2001
sábado, 7 de novembro de 2020
quadra 70
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
piccolino
«Se conheço bem o meu senhor, ele não poderá passar muito tempo sem o seu anão». Quem o diz é o próprio anão, que vai descrevendo no seu diário o ódio e o nojo que sente pela espécie humana, incluindo ele próprio e os outros anões. No fundo, é o desprezo pela vulnerabilidade que perpassa este grande livro de Pär Lagerkvist (1891-1974).
Num dos antigos principados da actual Itália e numa época do Renascimento onde grassavam a fome, a guerra e a peste, o anão Piccolino é a personificação do mal. A publicação do livro em 1944 e o nosso próprio auto-conhecimento levam-nos a perceber que esse mal é intemporal. O mal é intrínseco à espécie humana.
Com Piccolino percebemos como cada um de nós tem a tendência, por mais longínqua que nos pareça, para comparar e catalogar. Para odiar o melhor porque é melhor. Para odiar o pior porque é pior. Para odiar o igual porque nos repete. Quem não tem um Piccolino dentro de si? Devemos estar sempre vigilantes para que ele não se manifeste.
Pär Lagerkvist
Trad.: João Pedro de Andrade (original de 1944: Dvärgen)
Ed.: Antígona
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
a transparência do essencial
Talvez tenha de ser assim com muitos. São sempre necessários aqueles que acendem as luzes com que outros se iluminam. O drama é que não sejam e talvez não possam ser reconhecidos. Como as notas graves com que um contrabaixo constrói o caminho.
El Contrabajo
Patrick Süskind
Trad.: Pilar Giralt Gorina (original de 1981: Der Kontrabass)
Ed.: Seix Barral
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
quase tudo isto
Durante alguns anos, Bill Bryson decidiu compreender melhor a "história" do universo, desde o Big Bang até o aparecimento e evolução do homem. E como tinha dificuldade em compreender a literatura sobre os temas em causa, decidiu ser ele a abordá-los.
A narração das ideias e descobertas que nos ajudam a compreender o mundo é feita sempre com o foco nas personalidades e contradições, generosidades e ódios, ambições e desapegos dos seus protagonistas. E talvez o maior interesse deste livro esteja mesmo nesta verdadeira história, a"pequena história" dos homens que vêm aumentando o nosso conhecimento de quase tudo.
A Short History of Nearly Everything
Bill Bryson
Black Swan
2004 (1.ª ed.: 2003)
terça-feira, 3 de novembro de 2020
adolescência roubada
Na primavera de 1944, Anne Frank começa a rever o seu diário. Tem a intenção de dá-lo a conhecer ao mundo depois da guerra. Esta é a versão dita definitiva, sem os cortes e correcções a que o pai o sujeitaria antes de o publicar em 1947. A descoberta da sexualidade; a atracção por Peter, outro dos habitantes do anexo; a relação difícil com a mãe – tudo aqui volta a ser confessado a Kitty. Tudo aqui é revivido por esta infeliz rapariga que nos retratos nos aparece sempre com um sorriso, um suave e contido sorriso, e cujas palavras nunca desistem da vida.
The Diary of a Young Girl
Anne Frank
Eds. Otto J. Frank, Mirjam Pressler
Trad. Susan Massotty
2012
Original: Het Achterhuis [O Anexo Secreto]
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
cão fiel do nosso exagero
pedaço de fantasia
em mesa de esquecimento
o corpo que percorria
a noite que percorrendo
e nem por sonos sonhei
e nem de buscas te sei
sussurros com pedra fria
palavras que à boca invento
digamos que não havia
mais tu do que não havendo
e nem por muito se quis
e nenhuma alma condiz
talvez como quem te queira
verdades como te quero
mentiras desta maneira
em tempos já fui sincero
e nem por tudo o que faz
furtivo artista capaz
de saltos sob a fogueira
em cinzas do meu desvelo
por brasas como se esgueira
cão fiel do nosso exagero
Leceia e 27 de outubro em 2018
domingo, 1 de novembro de 2020
descendente de barão
À medida que a medicação e a proximidade do fim lhe vão retirando lucidez, as memórias confundem-se, assim como se confundem aqueles com quem as partilha: a enfermeira que melhor o trata, os outros enfermeiros e os médicos mal-humorados, a filha, alguém que toma pelo pai assassinado há muito. Mas uma dessas memórias serve sempre de esteio a todas as outras: a do inesperado e repentino desaparecimento da sua mulher, a exuberante Matilde de «pele castanha», pouco depois do nascimento da filha de ambos.
O texto de Chico Buarque foge de um modo exímio à narrativa linear, plasmando o pensamento reinventado e confuso do velho moribundo e fixando de um modo natural o preconceito e a arrogância de um homem que se orgulha de descender de gente nobre e importante e que, apesar de tudo, não resiste aos encantos de uma bela mulata.
Leite Derramado
Chico Buarque
2009
D. Quixote
sábado, 31 de outubro de 2020
primeiro café da tarde XXXII
arrependimento
Aborreço o alvoroço à minha volta,
olhar dos outros para o meu desnorte,
o trabalho escusado sobre a porta,
as pantufas até de quem pretende
calmar ao fim da tarde o meu galope.
Mas o que mais aborreço
é este arrependimento,
rato sôfrego cá dentro:
amigo do meu amigo
gostaria de ter sido
na tormenta que me coube,
de ter travado em palavra
a hipocrisia que a trava
sempre que a vida ma trouxe.
Aborreço que todos os domingos
as melgas se organizem e por turnos
venham saber se continuo vivo,
aborreço que os espectros desavindos
no meu passado de animal nocturno
sempre me assombrem sem passar recibo.
Mas o que mais aborreço
é este arrependimento,
rato sôfrego cá dentro:
imune ao medo e ao perigo
de perder o já perdido,
quem me dera ter amado
as coisas simples da vida
sem a ânsia de quem precisa
nem o peso do passado.
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
Adolf e Gustl
August Kubizek e Adolf Hitler conhecem-se, ainda adolescentes, quando assistem a uma ópera em Linz. Estamos no final de 1904 e é o início de uma amizade assimétrica, assente no amor de ambos pela música e numa complementaridade feliz: Adolf precisa de alguém com quem partilhar as suas ideias e fantasias, August é bom ouvinte e admira o espírito crítico e a confiança em si próprio que o outro demonstra.
A aversão a que o contradigam, as dificuldades económicas crescentes, talvez algum mal-estar face ao sucesso de August no Conservatório, precipitam a separação: durante uma ausência deste, Adolf abandona o quarto que ambos partilham. O reencontro dá-se apenas trinta anos depois, após a anexação austríaca e às portas da Grande Guerra. As ideias e fantasias que Adolf erguera em jovem para o povo germânico estão em vias de concretização. E apesar de August nos garantir não concordar com muitas delas, é inegável ao longo do texto a amizade e a admiração que nunca deixou de sentir por Adolf Hitler.
The Young Hitler I Knew
August Kubizek
2011
Frontline Books
(Obra Original: Adolf Hitler, Mein Jugenfreund, 1953)
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
primeiro café da tarde XXXI
abertura para o que deveríamos não-ser,
prenúncio do que não-seremos.
pouco me importa
me apunhalou a sangue frio por ser eu quem sou,
pouco me importa e na verdade nem receio a hora
do riso a mais que ela desata nos meus funerais.
Se ainda me quer mal, pouco me importa:
a morte tem um quê de quase morta
se não acaba a manhã nem a noite é fatal.
Leceia e 9 de julho em 2018
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
primeiro café da tarde XXX
De início era para ser diferente:
isto pertencia e não era suposto
a primeira maratona de um poeta
Um homem bate à porta. Quem será? Lembra alguém. Tem barba. Talvez o protagonista "já tenha visto aquele rosto sem barba, mas a barba é tão sólida e rigorosa que parece anterior ao rosto". Num exercício onírico em que a escrita sobressai face ao enredo, o protagonista vagueia a partir daí, em fuga ou não, em busca ou não, desistente ou não, num mundo estranho. Ou talvez apenas num mundo que é um estorvo porque estorvo são os outros, ele próprio, a vida.
O texto é o da primeira maratona de um poeta: senhora da narração, a linguagem não dá tréguas ao leitor. Nesse sentido, aqui e ali, a surpresa de me ter evocado uma outra obra cuja filigrana me enredou há uns tempos: "um pinguim na garagem" de um tal de luís caminha.
terça-feira, 27 de outubro de 2020
o regresso do soldado
Poema para a Serenata de Schubert D 950 n.º 4.
[Para substituir o poema de Ludwig Rellstab, "Leise flehen meine Lieder"]
o que ele viu por lá,
quantos corpos nas trincheiras
tem a dor que traz.
já não diz olá;
mata ainda, corre o boato,
neste vão de paz.
Cabisbaixo, mãos nos bolsos,
cai de quando em vez,
destruído de remorsos
pelo mal que fez.
Os seus olhos entretanto
são rubis de dor,
sangue e choro mesmo quando
toda a luz se for.
É talvez herói de guerra,
desertor talvez,
morto como quem só espera
pela sua vez.
Leceia e 2 de julho em 2018
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
o poder desnudado
Com fina ironia, vocabulário original e narrativa escorreita, Ballester apresenta-nos os argumentos e enredos com que clero e nobreza pretendem evitar ou promover o que para uns é pecado e para outros o simples cumprimento da natureza. As lutas de bastidores, as intrigas, a ânsia de poder, as solicitações de autos de fé são os mesmíssimos na corte dos Áustrias como em qualquer grupelho político desses em que hoje votamos.
Cronica del Rey Pasmado
Gonzalo Torrente Ballester
1989
domingo, 25 de outubro de 2020
quadra 69
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| in Stylommatophora |
sábado, 24 de outubro de 2020
porque arrulham e as rolas são aves
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
dois modos de passar por aqui

O beijo de uma cigana e um conselho de Narciso encetam a errância de Goldmund na busca de si através dos sentidos, da sensualidade e da arte, da relação com os outros e da forma que os materiais adquirem sob o trabalho das suas mãos.
É Goldmund quem encontra a mãe primordial, essa que sempre procurou e que nunca conseguiu representar, essa que dá um sentido à sua existência e que o chama de novo para dentro de si. No fim, pergunta ao amigo: «Como poderás morrer um dia, Narciso, se não tens Mãe? Sem Mãe não é possível amar. Sem Mãe não é possível morrer.» Não morre quem nunca viveu.
Hermann Hesse
Editorial Sudamericana
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
quadra 66
![]() |
| foto Wikipedia |
que avancei preso por fios
mas nunca fui bonifrate.
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
da própria cicuta
Eu hoje olhei para trás
como quem olhasse em frente
e senti que era capaz
de ter feito bem diferente.
Podia ter sobrevoado
este abismo em estar de menos,
não ter ido assim cansado
por caminhos tão pequenos.
Podia ser de combate
todo o peso no meu rosto
não tivesse posto a tarde
entre as tardes do sol-posto.
Podia que à flor da pele
me doesse a dor impoluta
de quem por taça fiel
beba da própria cicuta.
terça-feira, 20 de outubro de 2020
Também Asperger
Entretanto, e num intervalo temporal bastante curto, as ideias nacional-socialistas foram-se tornando manifestas no conteúdo e na retórica dos seus textos. A partir de certa altura começou a defender que algumas crianças, pela sua associabilidade, eram casos perdidos e um fardo para a comunidade germânica (Volk). Hoje sabe-se que Asperger contribuiu para o programa de 'eutanásia' infantil levado a cabo no Terceiro Reich, tendo enviado, directa e indirectamente, várias crianças para a clínica de Spiegelgrund, onde algumas eram "educadas" e outras eram sujeitas a experiências científicas e paulatinamente debilitadas com barbitúricos até morrerem.
Há quem defenda que Asperger não teve opção e que muitas das suas decisões foram até no sentido contrário, de proteger crianças em perigo. Mas isso não justifica as que ele tomou com base no seu diagnóstico de "criança não educável". Asperger, que teve mesmo a coragem de não se inscrever no partido nazi nem de abandonar a prática católica durante todo o Terceiro Reich, nunca pôs em causa o regime e agiu sempre por moto próprio. Várias funções a que se foi candidatando exigiam uma atitude eugenista e ele sabia-o.
Título: Asperger's Children - The origins of autism in nazi Vienna
Autor: Edith Sheffer
Data: 2018
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
pó
e essa hora que breu a faz?
No teu olhar quantas estrelas
se extinguirão e ao perdê-las
quanto pó te cobrirá?
Se eu não cair, por castigo,
antes de ti ou contigo,
com que arte serei de estar?
Se essa espera em corpo gasto
for sepulcro do teu rasto,
quanto pó me cobrirá?
E quando, como previsto,
tudo faltar a tudo isto,
que mais há para inventar?
O cadáver do que fomos
mais o cadáver em torno,
quanto pó os cobrirá?
Dará as cartas de novo
à mesa do mesmo jogo
o deus que de início as dá?
Ou também ele será nada
e, pó sobre pó, não tarda,
quanto pó nos cobrirá?
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
primeiro café da tarde XXIX
à espera de que chegasse a hora.
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
primeiro café da tarde XXVIII
Tens razão no que dizes acerca
sábado, 10 de outubro de 2020
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
primeiro café da tarde XXVII
no seio de Afrodite e no sonho de Alexandre.
Só anos mais tarde se descobriu incapaz
E anos ainda mais tarde,
percebeu que abominava liderar
Esperavam-no muitas mais tareias,
Talvez porque tenha passado por tudo
Hoje ainda poderia arranjar uma história no cômputo dos fracassos.
Sempre se arranja.
Mas hoje que a inexorável passagem do tempo lho permite,






