Para a Rayen
(Los Andes, Chile, 2002 - Oeiras, Portugal, 20.xii.2019)
Venho reaprendendo o uso do tempo
desde a tua partida, os meus olhos
ainda reféns dos teus havia muito enevoados.
Surpreso sempre nos vaivéns da espera,
a tua respiração continuará a ser
durante meses a minha rotina.
Talvez um dia destes consiga
reabitar a cama de que me achavas dono,
essa cama que quiseste partilhar comigo
durante um par de noites antes do princípio do fim.
Não tem sido fácil tudo isto sem ti,
meu tranquilo amor chileno,
à minha demanda tem-lhe faltado
a incrível precisão da tua bússola.
domingo, 29 de dezembro de 2019
quarta-feira, 25 de dezembro de 2019
primeiro café da tarde XII
Enquanto ignorei a inoportuna impossibilidade
de todos os meus descaboucados futuros,
nenhuma luz me cegou, em nenhuma fogueira ardi,
na tua existência se ia construindo a casa.
Às vezes penso como seria essa casa.na tua existência se ia construindo a casa.
Não a casa casa, claro, mas a casa um tecto e tanto faz quantas paredes
empoeirados pelos pedaços desatentos da minha indolência,
cimentados pela inevitável busca da tua vontade.
Todos os dias eu experimentaria os sonhos que medisses
para ti e para nós, mesmo quando estivesse doente, até mesmo
quando tentasses o amor com os teus magoados apodos
ante a instalação paulatina da minha fácil rotina.
Não sabes disso, como poderias saber?, mas durante grande parte
da minha última vida fui guardião corajoso do sol das manhãs.
Antes da me extinguir tive a longa expectativa de à noite
nos derramar no teu regresso. Paulatino e sábio porque era tudo meu.
nos derramar no teu regresso. Paulatino e sábio porque era tudo meu.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2019
Canto do meu cisne
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| Imagem Wikipedia |
A verdade é que depois
de nós tudo se repete
e sigo menos que dois
na modorra deste frete.
Estou velho como fui novo,
sem esperas nem desencanto,
perder-te nunca foi estorvo
do que vivi entretanto.
Mas gosto ainda de exibir-te
por entre as folhas de outono:
és o canto do meu cisne
mesmo quando te abandono.
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
quadra 65
Tem calma, senta-te e pensa,
sempre estiveste em bom porto:
no fundo, é pouca a diferença
entre ir vivendo e estar morto.
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
primeiro café da tarde XI
Eritemas a espera,
buscas álacres o prurido,
talvez um bicho tivesse
rastejado a noite inteira
esta preguiça,talvez um bicho tivesse
rastejado a noite inteira
talvez um bicho em busca
do melhor compasso
para o delírio.
Sem talvez é evidente
que o bicho eras tu.
quinta-feira, 21 de novembro de 2019
SONETO DEL HOMBRE SORPRESO
Me gusta tu manera inteligente
de buscar poco a poco lo que pienso
con hechizos y trampas que suspenso
me retienen en ti ahora y siempre.
Me gusta en nuestra casa tu caliente
mirada que es hogar, me gusta el viento
de tu habla que a veces no comprendo
cuando te enteras que la vida miente.
Si te abrazo me gusta, si te beso,
si tu cuerpo se va hacía el mio,
si parece que quieres como quiero.
Tu tan mujer, yo hombre tan sorpreso,
me gusta si en verano tengo frío
y mi amor es todo el amor que espero.
Lisboa y 1983
sábado, 9 de novembro de 2019
primeiro café da tarde XIV
Grande e pontual é o meu cuidado
na dissecção do nosso cadáver,
durante a lua toda, todas as noites,
com o deciso escalpelo do futuro antigo.Ignoro outra maneira de sobrevoar a morte,
outra arte mais justa que a deste delongado corte
com que busco a madrugada.
Prenúncio de luz para lançar a espera,
é ela, a madrugada,
a terra sempre fértil do que me deixaste.
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Hoje Adrianus fica em casa
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| Van Gogh, Worn Out (At Eternity's Gate) Imagem Wikipedia |
nessa paz de quem tem fé,
sem chorar o jovem que era
nem lembrar o velho que é.
O final já não o aterra
(na verdade é sonho até),
que foi larga a sua guerra
e entre apuros feita a pé.
No limiar da eternidade,
espera a noite em fim de tarde,
na alma um Deus de almas serenas.
Não se adianta nem se atrasa:
hoje Adrianus fica em casa,
hoje Adrianus espera apenas.
agua selenita
Ayer viajé a la Luna por el agua que te gusta. Me dijeron en todos los mercados que ahora su venta es prohibida a extranjeros, que solo la pueden comprar los selenitas. Sin embargo, hubo un selenita que me prometió una botella. Una sola, por un precio que casi no puedo.
Mañana es tu cumpleaños y me iré a buscarla. Quizás sea mi ultimo viaje, cariño. Poco a poco se van acabando nuestros intereses fuera de Marte.
domingo, 3 de novembro de 2019
primeiro café da tarde IX
Cansado de estar nada e ser ébrio,
deste nós antigo aos gritos na praça,
de mim nas madrugadas quando o teu rosto é sério,
dos nossos papéis serôdios em peça inacabada,
de que a minha vida seja uma pausa na tua
e a tua na minha o que se adivinha,
de ter perdido o meu catre no fim da rua,
de ter falhado e por isso viajar de lado.
Cansado de um nunca estar que é estar sempre ébrio,
deste choro a vendaval no trânsito da espera,
de ser nada, deste quotidiano tédio
por ter sido o que fui quando fui o que era.
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
SONETO DA CONSTRUTORA DO MEU PASSADO
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| Imagem Photosearch |
Não consigo inibir-me de um sorriso
no momento em que dizes, rapariga,
que a nossa história foi bem sucedida,
que não há que chorar qualquer prejuízo.
Agarras-me na mão com um suspiro,
pões o teu ar mais sério e rejubilas,
«Eu sempre fui, Antóneo, tua amiga,
tu foste sempre, Antóneo, meu amigo.»
E atestas esse invento e bom prenúncio
com uma lista de episódios nossos
que são notáveis mas que não recordo.
Até na despedida investes fundo
nesse modo sincero e despojado
com que vais construindo o meu passado.
soneto pubentíssimo II
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| Botticelli: O nascimento de Vénus |
estavas aqui,
linda, tão linda,
ao pé de mim.
Mas na ânsia infinda
cheio de ti,
não entendi
que a noite finda.
Agora, só,
choro a lembrança,
crio a ilusão.
crio a ilusão.
E tenho dó
da sem-razão
que é ter esperança.
1978*
*Agora que chamo sonetos a sonetilhos e quejandos, este é de facto o mais antigo dos meus sonetos sobreviventes. Tinha eu 10 ou 11 anos e acabava de conhecer Afrodite num livro de História comprado a alfarrabista. Entretanto, a palavra 'linda', da primeira quadra, foi caindo bastante no meu dicionário literário. A segunda quadra sofreu um pequeno ajuste pouco depois e já não me recordo daquela que a antecedeu. Quanto aos tercetos, torço o nariz à rima pobre, de que hoje fujo a sete pés. A mantê-la, a última estrofe merecia um bom retoque. Mas para que há de um homem com mais de meio século alterar os sonhos da criança que foi?
1978*
*Agora que chamo sonetos a sonetilhos e quejandos, este é de facto o mais antigo dos meus sonetos sobreviventes. Tinha eu 10 ou 11 anos e acabava de conhecer Afrodite num livro de História comprado a alfarrabista. Entretanto, a palavra 'linda', da primeira quadra, foi caindo bastante no meu dicionário literário. A segunda quadra sofreu um pequeno ajuste pouco depois e já não me recordo daquela que a antecedeu. Quanto aos tercetos, torço o nariz à rima pobre, de que hoje fujo a sete pés. A mantê-la, a última estrofe merecia um bom retoque. Mas para que há de um homem com mais de meio século alterar os sonhos da criança que foi?
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
tantas musas e uma só
Ao poeta Jorge Fortes, no seu natalício
Já não sei eu quanto ocupa
o amplo harém das minhas musas,
rumando ao céu e sem culpa,
galgando por sobre a turba
enjoada de almas obtusas.
Fi-lo de pedras e plantas
ontem roubadas aos livros,
retiro e alma das calhandras
tecto e paz dos pintassilgos,
e à espera em cada janela
sopra sempre o canto d'ELA.
Já não sei eu quanto ocupa
o amplo harém das minhas musas,
rumando ao céu e sem culpa,
galgando por sobre a turba
enjoada de almas obtusas.
Fi-lo de pedras e plantas
ontem roubadas aos livros,
retiro e alma das calhandras
tecto e paz dos pintassilgos,
e à espera em cada janela
sopra sempre o canto d'ELA.
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
primeiro café da tarde VIII
Sou escultor e estou com a mosca. Talvez por isso
ao nascer do sol me ponha a enxotar poemas.
A verdade é que estou pelos cabelos
de trabalhar as tuas mãos.
E depois não é só.
Durante a noite inteira me acorrentaste
ao chão da cama com três fumos travessos,
e o fumo do meio trazia a loucura de um diastema.
Chegaste mesmo a sussurrar, num canto da nossa pele,
antóneo, estou afeita a ter-te
de soslaio.
Ah, ingrata!, estou exausto, pelos cabelos
de trabalhar as tuas mãos,
tão pelos cabelos que os olhos
já nem são o mais impotente
dos meus modos,
tão exausto que não dares por nada
tem sido o corpo que damos
ao nosso nome.
Sim, estou exausto, demissionário, pelos cabelos,
estou por estes dias um poeta morrendo
de trabalhar as tuas mãos.
sábado, 26 de outubro de 2019
SONETO DO MEU FANTASMA EGOÍSTA
eras tu quase menina,
ao meu lado caminhando
com essa pose magrebina.
E há um fantasma nefando
nessa foto clandestina
ansioso de que, chorando,
lhe incendeies a rotina.
que por vãos de pesadelo
se alenta em chama tardia.
Um fantasma que imagina
oportuno o seu desvelo,
eras tu quase menina.
terça-feira, 8 de outubro de 2019
primeiro café da tarde VII
Em que linha dessa vossa leitura da vida se deu
a abrupta descoberta de que éramos quincalha?
Imagino que logo ali nalguma do proémio, não é?,
entre aquelas de que por berço nos sobrevoais.
E, no entanto, o vosso viés é largo e a crença demasiada.
Um dia destes, se quiserdes,
encontramo-nos num dos nossos dois ou três sonhos
junto às madrugadas de sexta-feira.
Apesar de breves, são densos como o chumbo.
Ou, para sermos precisos,
como o ouro a sério.
Qual quincalha, qual quê.
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
primeiro café da tarde VI
O mapa antecipava menos inóspita
a nossa vereda vicinal
mas o pior no seu trânsito tem sido
este hábito de a percorrermos sem guardas
contra zoeiras e aguilhões.
Se o ardor nos endomingou,
e isso deveria ter sido evitado,
a complicação maior é, no entanto,
quem bate à porta do outro já o fazer exausto
e descobrindo-se iluso.
Perene se foi fazendo o desencontro
das nossas febres terçãs.
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
.
Todas as religiões monoteístas têm um princípio incompatível com a minha religião: o homem como ser privilegiado.
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
SONETO DOS TRANSPARENTES
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| Imagem Wikipedia |
O cão que toda a vida acorrentado,
a rosa que hoje à noite assassinada,
a pomba moribunda que na estrada,
o deus que sem futuro nem passado,
o grito súbito que desprezado,
a mão que de verdugos decepada,
a lágrima que a meio da piada,
o verso que na estrofe sem cuidado,
a vítima que há muito amortalhada,
o beijo que dos beijos desgastado,
a cabeça que à espera de almofada,
o ex-abrigo que em ruínas ao meu lado,
este homem de ambições que desde sempre
tem sido aos vossos olhos transparente.
Leceia e 2015
sábado, 17 de agosto de 2019
SONETO DO CÃO ACORRENTADO
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| Imagem Canal Ciências Criminais |
Black arrasta a corrente à procura de um naco
de céu caído. Em vão. Apenas morde,
neste tão derradeiro ano disto que é morte,
os repisados vãos do seu metro quadrado.
Passa os dias assim apesar de cansado
de outros dias assim apesar da má sorte
que lhe impõe a renúncia apesar do transporte
aos cuidados da mãe apesar de passados.
Um minuto à tardinha, o carcereiro vem
renovar a ração, saber da água também,
tratar da merda no ar que chateia o vizinho.
Black quer-lhe bem. Pele e osso, a cabeça vergada,
fica a vê-lo partir e nunca pede nada,
aprisionado já no seu próprio latido.
fica a vê-lo partir e nunca pede nada,
aprisionado já no seu próprio latido.
Leceia e 2015
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
SONETO DA VELHA TENTAÇÃO
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| van Gogh,Kop van een skelet met brandende sigaret |
Retirou desinquieto
o que tinha na algibeira,
pendurou a corda ao tecto,
pôs-se em cima da cadeira.
Tinha aquilo todo o aspecto
de tolice passageira
e, no entanto, circunspecto,
avançou com a brincadeira.
Desde então, de olhar vazio
no meu passo de inseguro,
tem-me feito o desafio
de acabar com o futuro.
Desde então, a minha vida
é viver a minha vida.
é viver a minha vida.
Leceia e 2014*
*as duas primeiras estrofes,
pouco menos velhas do que eu.
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
SONETO PUBENTÍSSIMO
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| J.-J.-F. Le Barbier, Cupido numa Árvore (1795-1805) |
de encontro às rochas ou beijando a areia
e enfim ao astro ardente sucediam
os encantos da noite e a lua cheia,
oh quantas vezes houve que se ouviam
ao longe, ao longe, em som de melopeia,
tão sentidas canções que pareciam
de deusa, de nereida ou de sereia.
E embora em tua voz não encontrasse
timbre que fosse assim dulcissonante
nem conseguisse ver em tua face
a beleza, o candor desconcertante
que naquelas acaso imaginasse,
não há ninguém que como tu me encante.
Lisboa, 1980 *
* O mais antigo dos sonetos sobreviventes.
SONETO DA LONGA CONFERÊNCIA DOS PARDAIS
e eu passo a noite de janela aberta,
às cinco e muito pouco me desperta
a longa conferência dos pardais.
Ao coro dos meus dias sempre iguais
esse coro se junta. E bem alerta,
olhos no tecto, escuto à descoberta
de mundos que não vêm nos jornais:
A feitura dos ninhos ainda ignora
qualquer licença. A ocupação veloz
sucede sem aviso de última hora.
Cada ramo é futuro de uma voz.
E de sono e alva se constrói a aurora,
apesar de ontem, apesar de nós.
Lisboa e 2011
Lisboa e 2011
terça-feira, 13 de agosto de 2019
SONETO DO ESCRITOR MENOR
![]() |
| van Gogh, O par de sapatos (1886) |
Dou três explicações, bastam-me três,
para o baldão que foi a minha vida,
e não ponho de parte que talvez
concorram todas em igual medida.
A tunda no toutiço, vez traz vez,
pela mínima falta cometida;
os piolhos de que a casa se desfez
afogando-me em spray insecticida;
e o ter nascido no lugar errado
um século depois da época certa:
tudo se conjurou neste meu estado.
Nunca tentei sequer saber de cór
o momento do rogo, a hora da oferta
que dissimulam um escritor menor.
Leceia e 1016
domingo, 11 de agosto de 2019
SONETO DO POETA EM BANHO-MARIA
![]() |
| Jacob Peter Gowy (1635-37) The Flight of Icarus |
Talvez nunca de vós fosse entendida
a extensão da fogueira que, secreta,
me devorava quando fui poeta,
quando, poeta, eu devorava a vida.
A rara obstinação que da partida
supostamente falsa até a meta
me dirigia o voo em linha recta,
talvez nunca de vós fosse entendida.
Nunca de vós o extinto ruflo dessa
minha asa espatifada em céu rasante,
fatal desastre para quem duvida.
Nunca de vós o ocaso da promessa,
qual a lasciva chama que ofegante
falece na matéria consumida.
Leceia e 2016
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
SONETO DOS JOVENS RETÓRICOS
![]() |
| Lecomte du Nouÿ, «Démosthène s'exerçant à la parole» (1870) |
Parecia haver sempre uma palavra
com o peso certo, fosse clandestina
no relato ordinário da rotina,
fosse remanso em estrépito de aldraba.
Éramos jovens, pouco se nos dava
com que régua o futuro se media
e ainda menos quão válida e precisa
era a sua leitura, quão exacta.
Para sermos sinceros, e apesar
de não o termos querido confessar,
nunca a verdade foi a nossa presa.
Mesmo hoje que o silêncio nos contém,
indústrias há que nos parecem bem
apenas pelo efeito da surpresa.
Leceia e 2016
sábado, 3 de agosto de 2019
SONETO DE FACTO
De facto, o giradiscos ainda risca
os cansados vinis de Jacques Brel
e no cinzeiro jaz a última prisca
com o carmesim do teu adeus cruel.
De facto, a Lady continua arisca:
quando tento fazer o teu papel
sem ronrons me gadanha e segue à risca
a intolerância com que te é fiel.
De facto, como tu me prometias,
enche cada escaninho dos meus dias
a memória do dia em que partiste.
De facto, hoje como ontem ao teu lado
cumpro a pena de um homem condenado
a esta triste alegria de ser triste.
Leceia e 2015 / Lisboa e 1993
domingo, 28 de julho de 2019
SONETO DO CHICORONHO
![]() |
| Cristo-Rei Lubango Imagem Wikipedia |
o tempo há que isso foi. Sei todavia
do seu costume em acabar o dia
com dois paus imitando o Cristo-Rei.
Descalço no quintal, junto à capoeira,
alheio sempre à chuva e à cacimba,
com um fio os malcruza, o fio ainda
que usa para ordenar a vida inteira.
com dois paus imitando o Cristo-Rei.
Descalço no quintal, junto à capoeira,
alheio sempre à chuva e à cacimba,
com um fio os malcruza, o fio ainda
que usa para ordenar a vida inteira.
Pudesse ver-me quem pudesse vê-lo:
mora já o doutor da mula ruça
nesse canhestro ruço de mau pêlo
que sobre o seu brinquedo se debruça.
Resumir-me-á quem me quiser num esboço:
«Ó homem, tu foi tudo a traço grosso.»
Leceia e 2017
sexta-feira, 26 de julho de 2019
primeiro café da tarde X
Grande e pontual é o cuidado
com que disseco os cadáveres da vida,
durante a lua toda, todas as noites,
com o deciso bisturi do teu não.Ignoro outra maneira de sobrevoar a morte,
outra arte mais justa que a deste delongado corte
com que busco a madrugada,
esse prenúncio de luz para lançar a espera
à terra sempre fértil da partida.
quinta-feira, 25 de julho de 2019
fingimento XXIX
Se eu fosse jovem... Melhor:
se eu fosse um pouco mais jovem
e te soubesse de cór
no território e por ordem...
Se eu ao menos fosse a tempo
de esquecer o que aprendi
e rir do que fui perdendo
no percurso até aqui...
É provável que fosse outra
a nossa história futura,
que valesse a vida toda
toda a minha ao pé da tua.
sábado, 20 de julho de 2019
SONETO UMA DÉCADA PASSADA
Alguma vez olhaste para trás?
Distraída que fosse, alguma vez
te deu para espreitar como se fez
o caminho que leva aonde estás?
Já suspeitaste acaso que talvez
alguém te siga o rasto? Que o fugaz
sopro das horas nunca foi capaz
de varrer toda a poeira em que não crês?
Imaginas sequer que lá atrás,
ao largo, bem ao largo do que vês,
obstinado te segue esse rapaz
de que em mim nunca o tempo se desfez?
Tens ideia do rumo que lhe dás
por menos importância que lhe dês?
Leceia e 2017
domingo, 14 de julho de 2019
SONETO DO PASSADO QUE ME TRAÍA
No tempo das princesas eras essa
de caracóis compridos e sardinhas
em cujo colo se extinguia a pressa
de que todas as horas fossem minhas.
Pouco pontual e nada assídua, vinhas
no gesto de quem sempre recomeça,
sem lastro de lembranças comezinhas
nem o veneno oculto da promessa.
Sendo assim, ainda hoje me pergunto
por que razão fui eu puxar o assunto
do teu passado de feitiçarias,
por que razão me pus insatisfeito
para tornar a cama onde me deito
patíbulo do bem que me fazias.
Lisboa e 2014
(A primeira quadra desponta noutros
sonetos bem mais antigos e que a merecem
menos.)
sonetos bem mais antigos e que a merecem
menos.)
sexta-feira, 12 de julho de 2019
primeiro café da tarde III
Havia, como há, que ser acrítico
para traduzir o coração.
Mais confiante do que agora,
em jovem fazia o trabalho em cima da mesa
com a ajuda de meia dúzia de glossários e outra meia
de rudimentos gramaticais.
Mas não tinha, como não tenho, competência.
É óbvio que neste tão pouco saber de quase nada
ainda não descobrira a perene
intraduzibilidade cardíaca.
Já nem recordo se ao cardiograma inútil
e imperfeito
lhe chamava poema,
se ao percurso da caneta
sobre a sua espera.
para traduzir o coração.
Mais confiante do que agora,
em jovem fazia o trabalho em cima da mesa
com a ajuda de meia dúzia de glossários e outra meia
de rudimentos gramaticais.
Mas não tinha, como não tenho, competência.
É óbvio que neste tão pouco saber de quase nada
ainda não descobrira a perene
intraduzibilidade cardíaca.
Já nem recordo se ao cardiograma inútil
e imperfeito
lhe chamava poema,
se ao percurso da caneta
sobre a sua espera.
Só hoje vislumbro que o poema é sempre
a inesperada arritmia do sol ao nascer.
a inesperada arritmia do sol ao nascer.
segunda-feira, 8 de julho de 2019
SONETO DA MINHA FÉ INESPERADA
Cheio de pressa em perceber ao certo
se havia solução para o teu mal,
eu teria acorrido ao hospital
onde entraste de urgência, aqui tão perto.
A mão na tua, para ver que tal
ias da operação a peito aberto,
do cirurgião teria descoberto
que a morte, no teu caso, era o normal.
E em pranto junto à cama derradeira
onde convalescias do conserto
da tua velha aorta rebentada,
dir-te-ia então: "Talvez desta maneira
Deus e tu se conheçam", e, ao dizer-to,
quão grande a minha fé inesperada.
Lisboa e 2014
domingo, 23 de junho de 2019
SONETO DO QUE FUI
Quando surgiste sem aviso nem
paninhos quentes, eu nem ai nem ui
optei por ser cortês. Já tu? Que bem
refastelado estás, ó tu que fui.
Que bem refastelado no sofá,
sempre a mandar bitaites com esse ar
incomplacente, armado em marajá
do espaço em volta no meu novo lar.
Quem diabo és tu, ó tu que fui, quem és
para me atrapalhar a vida assim
e me cansar e me atirar aos pés
do fantasma escondido no jardim?
Com que empáfia me impões a tua missa,
com que lata, ó criatura empatadiça!
Leceia e 2016
sexta-feira, 14 de junho de 2019
SONETO DO MEU INFERNO
Quando auspiciaste que seria gorda
a minha sorte aqui por estes lados,
fizeste-o no suposto de que eu sou da
cidade como a chuva cai no asfalto.
E um par de anos depois, eis-me nas lonas,
amigo António. Estavas enganado
nisso de que eu poderia encontrar outra
vida no ramerrame do povoado.
Se um dia destes viesses visitar-me,
compreenderias que não estou mais perto
de mim, que o mesmo excesso me rebate.
Se viesses visitar-me saberias
que não deixei de ser o meu inferno
por ter variado a guerra dos meus dias.
Leceia e 2016
sábado, 1 de junho de 2019
primeiro café da tarde II
Não sei por que me dizes que sou um mau cidadão
quando critico este inacreditável
sistema que me suga a alma,
não sei por que me chamas de categórico
quando na minha deprimida dicotomia
opino que a prosperidade não se exibe.
Não sei por que me vincas a desistência
quando lamento o assassínio da figueira
sem nunca ter lutado por ela,
não sei por que garantes que o meu receio
é merecido em face dos crimes que cometi.
Não sei por que me tiras a cama
quando bebo em taça de vinho,
não sei por que nunca reconheces
que estou aqui,
não sei por que nunca arranjaste piedade
para admirar em mim um gesto que fosse.
Não sei por que nunca entendeste
que a falha me persegue e o elogio
é o meu ponto fraco.
Não sei por que ainda estás aqui.
Não sei por que te amo ainda.
quando critico este inacreditável
sistema que me suga a alma,
não sei por que me chamas de categórico
quando na minha deprimida dicotomia
opino que a prosperidade não se exibe.
Não sei por que me vincas a desistência
quando lamento o assassínio da figueira
sem nunca ter lutado por ela,
não sei por que garantes que o meu receio
é merecido em face dos crimes que cometi.
Não sei por que me tiras a cama
quando bebo em taça de vinho,
não sei por que nunca reconheces
que estou aqui,
não sei por que nunca arranjaste piedade
para admirar em mim um gesto que fosse.
Não sei por que nunca entendeste
que a falha me persegue e o elogio
é o meu ponto fraco.
Não sei por que ainda estás aqui.
Não sei por que te amo ainda.
terça-feira, 21 de maio de 2019
isto
Quando me ponho a recordar
Há que dizer que não recordo:
A minha vida não tem vida
Dessas com dias e lugar.
Isto lhe chamo e é sol e mar
Juntando as horas sem relógio.
A minha vida é toda a vida.
terça-feira, 9 de abril de 2019
primeiro café da tarde I
No mapa das nossas almas
deverias ter estudado as fronteiras menos dúbias:
talvez se traçasse nelas a promessa.
Foi pouco avisada essa tua metáfora
que fez de nós verdades como o sábado,
certeza de nós como as primaveras com que minto.
Mas, para te ser franco,
também não está mal assim: agora
é óbvio que a nossa tontura serôdia
não tinha futuro.
Se há dias em que ainda somos
também há esta nova história
de que nunca fomos.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
soneto do ex-pirómano
No ano 2009 tornei-me outro.
Frágil. Bem mais poltrão do que pensara
possível. Tanto assim que caí morto
no incêndio que aticei à velha casa.
Certo é que, desde então, perdi o gosto
pirómano. Hoje não transporto nada
nos meus gestos que possa fazer fogo
e furto-me com zelo a tudo o que arda.
Dizem amigos que perdi o gás,
que o combustível de falhar em frente
é o que me embaraça o passo atrás.
E eu rio do eufemismo. Diariamente,
na casa em cinzas arranjei maneira
de atirar cinzas à cidade inteira.
Lisboa, 2014
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
por medo ao céu o voo abortado (IV)
O tempo não é sólido na sua totalidade,
há curvas fracturadas
para quem as procure,
ou por sorte as encontre,
onde se deixa atravessar
pelas mãos.
Nalgumas dessas viagens líquidas
que agora aprendi a fazer com elas
tenho por destino as tantas vezes que te chamei amor
e, ao lado desse, outro mais extenso e cheio de horizontes
desimpedidos
onde acreditei amar-te.
Digo acreditei porque não estou certo
de que tenha sido assim,
apenas de que nunca estive mais próximo
de ter sido assim.
Quando regresso as mãos
ao estranho torpor destes dias
sei um pouco mais sobre a minha cobardia.
A tragédia maior
na minha vida foi
por medo ao céu o voo abortado.
Leceia, 18 fev 2019
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
SONETO DO CÃO TRANSPARENTE
(Para o Piloto)
Chamemos-lhe dono. Abre a porta da
casa, o sol já a trinta graus,
e faz que não vives. Agora há os
vaivéns da tua dor errada,
esses gemidos abafados
que o vento rouba à madrugada
e deposita noutro lado,
longe, bem longe, de quem passa.
Ignora-os também. Nem sequer
ao despedir-se da mulher
percebe os vestígios da cauda
feliz de quando foste novo.
Havia um tapete à entrada
onde sonhaste antes de morto.
Leceia, 2016 [Para o Piloto]
Chamemos-lhe dono. Abre a porta da
casa, o sol já a trinta graus,
e faz que não vives. Agora há os
vaivéns da tua dor errada,
esses gemidos abafados
que o vento rouba à madrugada
e deposita noutro lado,
longe, bem longe, de quem passa.
Ignora-os também. Nem sequer
ao despedir-se da mulher
percebe os vestígios da cauda
feliz de quando foste novo.
Havia um tapete à entrada
onde sonhaste antes de morto.
Leceia, 2016 [Para o Piloto]
domingo, 20 de janeiro de 2019
o edifício desta ausência (V)
Creio que o inicio de tudo
foi no café solitário
os que tomámos a meias,
que nalgum desses
dez mil ou quase percursos
num gesto se construíram toda a espera e os seus impulsos.
De algum modo, o meu cansaço
e as suas noites ergueram
o edifício desta ausência.
Nos alicerces
é habitual dar por mim
contando milagres para que o nosso não tenha fim.
e as suas noites ergueram
o edifício desta ausência.
Nos alicerces
é habitual dar por mim
contando milagres para que o nosso não tenha fim.
terça-feira, 11 de dezembro de 2018
Soneto deste longo inverno
O fecho paulatino das palavras
é a doença maior durante o inverno
e este frio que nunca mais acaba
sintoma apenas de que não te espero.
A forma na parede que estacava
por insónias o azul do teu regresso,
é sombra; sombra a cama estupefacta
pelo teu corpo ausente nos meus versos.
Nasce o dia e parece que desperto
de um sono largo, ininterrupto e certo,
roubo da noite em coração a trote.
É tudo falso: de manhã é quando
dou conta de que vivo tiritando
deitado nos lençóis da nossa morte.
versão pseudo-cantada no blogue antes da guitarra
domingo, 16 de novembro de 2014
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Por negligência ou para não estragarmos o nosso dia, optamos por não pensar no que que metemos à boca. Simplesmente não queremos saber.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
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Por estes dias é o aniversário de Kazuo Ishiguro, que escreveu dois dos mais belos livros que eu já li e que mais me influenciaram: "Os Despojos do Dia" e "Nunca Me Deixes". Um escritor enorme, que tem a capacidade, nada comum entre autores portugueses, de encontrar um narrador e não se intrometer nas suas opiniões.
10 "argumentos" a favor das touradas e o que a maior parte de nós pensa deles
1 - Se se abolissem as touradas, os touros bravos extinguir-se-iam.
1' - Sim, as touradas existem porque existem touros bravos. Mas não é verdade que estes tivessem de acabar se as touradas fossem abolidas: isso só aconteceria se os aficionados do espectáculo não fossem aficionados do animal. E se assim tivesse de ser, se na verdade não há amor ao animal mas apenas amor ao seu uso e aos maus-tratos que lhe são infligidos, talvez fosse preferível que ele deixasse de existir. Um animal quer-se livre: livre na vida e na morte.
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2 - As touradas não podem ser abolidas porque são uma tradição antiga.
2' - Uma tradição não justifica, por si, a sua prática. As tradições têm origem em tempos antigos, em que as sociedades e as mentalidades eram bastante diferentes das actuais. Mas as comunidades evoluem, aperfeiçoam a sua forma de viver e pensar. Por essa razão, a escravatura foi abolida e as mulheres podem votar. Também por essa razão, já não se sacrificam animais para obter a clemência ou os favores das entidades divinas. O respeito pelos animais faz, cada vez mais, parte do nosso modo de pensar. Ainda que nos esforcemos por esquecê-lo em favor das rotinas e facilidades quotidianas.
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3 - Temos de tolerar a opinião dos outros: quem não gosta de touradas deveria respeitar a opinião contrária.
3' - Não podemos confundir opinião com prática. Quem não gosta de touradas pode respeitar a opinião de quem gosta. Mas também tem o direito de criticar a prática que aquela opinião, por si só, não legitima.
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4 - Quem é contra as touradas, é-o por 'birra'. Muitas vezes não se preocupa sequer com outros actos reprováveis contra outros animais (humanos incluídos).
4' - O facto de se ser contra as touradas não impede que se seja contra todos os maus tratos a outros animais. Temos o direito de nos preocuparmos com tudo e, ao mesmo tempo, é impossível abordarmos tudo. No meu caso concreto, tenho a firme convicção de que a insensibilidade perante o sofrimento dos animais está na origem de muitos dos problemas da humanidade. E por dedicar mais da minha energia visível a defendê-los não quer dizer que não sofra com todas as injustiças que o homem também comete contra os seus semelhantes.
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5 - Se não gostas das touradas, tens bom remédio: não vejas.
5' - Ou, na sua variante mais virulenta, algo como isto que me disseram há tempos: "Não é um copinho-de-leite da cidade como tu que vai dizer o que um ribatejano pode ou não pode fazer." Vivemos num mundo que, pelo menos teoricamente, nos permite exprimir opiniões. Eu nunca vivi nos países em que se pratica a mutilação genital das mulheres, por exemplo, e não é por por ser um 'copinho-de-leite da cidade' (o que até nem é verdade) que vou abster-me de tomar posição.
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6 - Os touros são agressivos e devem ser lidados.
6' - Não faz sentido classificar o touro de 'agressivo' pelo seu comportamento na arena: são os instintos de sobrevivência e de autodefesa que o fazem investir. Ele não tem como escapar da situação em que o põem, atiçando-o, picando-o, ferindo-o, sangrando-o, rasgando-lhe os músculos e os tendões. Todos os animais lutam pela vida, atacando, fugindo ou evitando o confronto. Qual destas alternativas tem o touro metido numa arena?
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7 - O touro praticamente não sofre quando é lidado na arena.
7' - O touro tem sistema nervoso central como nós, e por isso, de certeza, sentirá dor, medo, ansiedade, desamparo. Mesmo que optemos por ser cegos ante os sinais de que o animal sofre, nunca poderíamos provar que não sofre. E, na ausência dessa prova, não deveríamos fazer nada que comprometesse o seu bem-estar.
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8 - A tauromaquia é uma arte e, como tal, tem de se manter.
8' - Mesmo que seja arte (será?), a arte não legitima o sofrimento físico e psicológico de um ser vivo. É difícil defender, hoje em dia, os circos romanos. E, no entanto, a luta entre gladiadores era considerada uma arte.
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9 - As touradas tornam o touro nobre.
9' - Nobreza é um conceito inventado pelos homens, o touro na arena apenas luta pela vida. Só isso, não há aqui nobreza nenhuma.
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10 - A luta pela abolição das touradas é uma campanha dos países ricos do norte da Europa contra os países pobres do sul da Europa.
10' - Também se poderia dizer, então, que a luta pelos direitos da mulher à igualdade é uma luta dos países da Europa contra os países africanos. De qualquer modo, basta investigar um pouco para perceber que sempre houve lutas internas contra as touradas e que os 'pobres de espírito' que agora se insurgem contra esta prática não são necessariamente influenciados pelos países mais ricos da Europa.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
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sexta-feira, 31 de outubro de 2014
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De quanto tempo precisa o homem para reconhecer o que é óbvio! De quanto tempo para afastar um pouco a máscara dos seus interesses mesquinhos...
terça-feira, 28 de outubro de 2014
o valor da coisa
"[...] importa não esquecer que a Autora na data da operação já tinha 50 anos e dois filhos, isto é, uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança."
E, deste modo, após dezanove anos em tribunais, uma mulher viu reduzido o valor da indemnização que anteriormente lhe fora concedida por lhe ser impossível ter relações sexuais depois de operada. Os juízes, dois "machos" e uma "fêmea" com mais de 50 anos (as aspas percebem-se à luz do que opinam) parecem acreditar piamente que sexo sem procriação é coisa de somenos, ainda mais quando já se pariu duas vezes. Subentendido está que a importância é de somenos sobretudo para as mulheres.
Gostaria, posto isto, de perguntar-lhes se o sexo também é menos valioso para homens ou mulheres jovens mas estéreis. Ou para casais jovens que têm de recorrer a técnicas de fertilização que prescindem do sexo. Ou para quem tem o azar de preferir pessoas do mesmo sexo.
Suponho que os meritíssimos decidam com base na própria experiência, uma vez que não pode haver estudo sério que conclua o mesmo que eles. Talvez tenham perdido algum do gosto que tinham pela coisa (chamo-a assim a partir de agora porque, enfim, no limite tem tão pouca importância que nem merece ser nomeada)... Ou perderam-no todo... Terão banido, até, a coisa dos seus dias; ou, se não, reduziram bastante o número de vezes em que a praticam. E, claro, quando se reduz a frequência de um acontecimento também se diminui a sua qualidade: há algo mais lógico? Claro que não, eles são juízes.
Já agora, também gostaria que os meritíssimos me informassem se a coisa vale menos nos meus 47 anos do que nos longínquos 20. Aconselhar-me-iam a dirigir-me a um médico da especialidade para saber quanto vale a minha coisa? Ou se acaso sofro de alguma patologia por ainda gostar muito da coisa? Já agora, como se quantifica o gosto pela coisa?
Meritíssimo juízes, a que indemnização eu teria direito se alguém me retirasse a coisa?
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
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Sonhei que os veterinários eram obrigados a jurar Hipócrates e que tinham sido abolidos os quingravecos.
domingo, 19 de outubro de 2014
a incomensurabilidade das vidas
Daniel Oliveira é o escandalizado interveniente do programa 'Eixo do Mal' que há dias descarregou a sua diarreia verbal sobre todos aqueles que defenderam Excalibur, o cão recentemente assassinado em Espanha.
Espanha tinha meios suficientes para ter posto o animal de quarentena e investigado a hipótese de ele ser portador do vírus ébola. Espanha também perdeu uma oportunidade de tentar perceber se o vírus se consegue alojar e desenvolver em cães e, desse modo, ser um potencial perigo para o homem. Mas Espanha preferiu matar o familiar de Javier e Teresa, casal que não precisava de maior sofrimento do que aquele por que já passa.
Eu costumava concordar com Daniel Oliveira noutras questões. E concordo. Só que o seu antropocentrismo/especismo já me levaram a retirar-lhe tempo de antena há uns tempos (sim, já teve outras intervenções do mesmo teor): não posso confiar em alguém que tem a atitude que ele tem para com os animais. Daniel Oliveira, o valor das vidas é incomensurável. E para mim, um tipo que põe o homem no centro de tudo e não tem respeito pela vida dos outros animais não é, simplesmente, um homem bom. Isso é coisa do século passado. O mundo evolui e, felizmente, as suas perplexidades são, cada vez mais, as perplexidades que trago de menino.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
o ataque dos países ricos
Muitos argumentos a favor das touradas assentam na importância das tradições e da tolerância para com a divergência de opiniões. Não resistem a um minuto de raciocínio, na medida em que os seus porta-vozes reduzem o respeito pelo mundo ao respeito pelas suas práticas e confundem liberdade de opiniões com liberdade de acções. Surpreende-me, no entanto, a quantidade de gente com influência que não se detém a contar dois dedos de testa.
Bem... na verdade, surpreende-me e não me surpreende... A vida tem-me ensinado que as pessoas raramente usam a razão de um modo imparcial: procuram os argumentos em defesa daquilo em que acreditam e não querem pensar, ou talvez nem possam, para descobrir aquilo em que devem acreditar.
Talvez eu faça o mesmo quando defendo o direito dos animais não humanos a viverem em paz e não terem de conviver com a insensibilidade dos homens. Sendo assim, tenho de saber qual é o meu ponto de partida, aquele que nunca mudarei. E é ele o de que o ser humano não é superior a nenhum outro animal só por ter maior aptidão para, usemos um eufemismo, dominar a natureza. Mas, ainda por trás deste, há outro: o de que todo o animal sofre quando é maltratado e pouco me importa a medida desse sofrimento, para mim é suficiente que sofra. E, ainda por trás deste: o de que, por definição, todo o animal existe e eu não tenho motivação, nem sobranceria nem crueldade suficientes para confinar e acabar com qualquer existência.
O "argumento" da moda utilizado pelos defensores das touradas é o de que todos estes ataques às touradas que se têm intensificado ultimamente fazem parte de um plano dos países ricos do norte da Europa contra os coitadinhos dos espanhóis e dos portugueses. E eu penso para comigo, encaminhado por aqueles pontos de partida: Ainda que seja verdade, isso que importa? Em Portugal não se criticam também os actos bárbaros cometidos noutros países? Benditos sejam se por eles se mudar alguma coisa do muito que por aqui anda mal.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
uma palavra tua, Francisco...
Papa Francisco,
Tendo a distrair-me e a julgar que o meu corpo é o centro de tudo e a espécie a que pertenço o centro do mundo. Mas, apesar de não frequentar a Igreja, os ensinamentos de Cristo têm sido uma das referências na minha luta diária contra esta tendência ego-antropo-cêntrica.
Infelizmente, tenho-me apercebido de que as pessoas "mais religiosas" do meu país estão entre as menos atentas à natureza. Em Portugal há, por exemplo, uma antiga ligação entre as touradas e a Igreja Católica e os maiores defensores desse "espectáculo" de tortura são católicos. Aqui, os principais ataques dirigidos aos defensores de animais são feitos por supostos católicos praticantes.
Ora, eu não creio que Cristo defendesse as torturas e, em geral, os maus-tratos infligidos aos animais nas áreas da diversão, da investigação e da indústria alimentar. Até porque é minha convicção de que no amor aos animais começa o amor à obra de Deus. Sei que no Antigo Testamento são comuns os sacrifícios a Deus; mas também tenho a ideia de que Cristo firmou um pacto novo entre Deus e os homens e que, há muito tempo, essas práticas bárbaras deixaram de fazer sentido. Estarei errado?
Tenho a certeza, pelo que vou seguindo do teu pontificado, que te empenhas em defender os que não têm voz. Então, diz-me, por que razão os fiéis continuam tão insensíveis ao sofrimento das outras espécies? Sobretudo gostaria de saber: será que uma palavra tua, criticando abertamente os maus-tratos aos animais e dando exemplos desses maus-tratos - será que uma palavra tua não os faria pensar melhor no que andam a fazer?
Um abraço do
luís
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Talisca, Mourinho, Jesus, Mourinho
Talisca, jogador do Benfica, marcou três golos fáceis em Setúbal e os deuses enlouqueceram. Lê-se no sítio d'A Bola:
1) 14.09, José Mourinho: «Dizem que Talisca é desconhecido, mas é tão desconhecido que só não está a jogar em Inglaterra porque não tem “work permit” (licença de trabalho). Se a tivesse, estaria cá. Havia muitas equipas inglesas, grandes e importantes, que o queriam.»
2) 15.09, Jorge Jesus: «... o Benfica mais uma vez demonstrou muita qualidade no que faz. Para mim, pelo jogos que o Talisca fez no Brasil, conheciam tanto o Talisca como eu conheço o d`Artagnan.»
3) 18.09, José Mourinho: «Parece que é íntimo com o D´Artagnan, ele anda a ler Dumas. Eu limito-me à minha identidade. Não leio Dumas. Tenho uma vida diferente, um nível cultural diferente, procuro educar-me e procuro um dia não ser acusado de andar aos pontapés ou de andar a agredir a pobre da gramática.»
Jesus é famoso pelas suas intervenções menos correctas. Mas, nesta troca de palavras, é Mourinho quem se espalha ao comprido com o seu donzinho de arrogância:
- depois de, em 1), ter esvaziado de mérito os que compraram o jogador (que, note-se, ainda não é um grande jogador só por ter apontado três golos num jogo);
- e depois de ter lido mal a afirmação 2), suavizada com um 'para mim', de um Jesus picado (para quem souber ler: do que Jesus afirma, apenas se pode depreender que conhece o nome d'Artagnan, não que o conhece e muito menos que lê Dumas; antes pelo contrário);
- Mourinho conclui em 3) que Jesus é "íntimo com" d'Artagnan e que se arma aos cucos a ler Dumas apesar de ser inculto!
Ó Mourinho, esperemos que limitares-te à tua identidade não implique torceres o que os outros dizem quando isso te dá jeito. Toda a gente comete erros gramaticais quando se exprime oralmente, tu inclusive, mas talvez fosse boa ideia leres mais romances, Dumas incluído, para cometeres menos erros de interpretação. Além do mais, não se descortina que mal daí viria para a tua identidade.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
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"Hoje o me dever era cantar a pátria, alçar a bandeira, sair à praça [..] Mas tu faltas-me há tantos dias [...] e estou que não posso dar outra batalha."
Silvio Rodríguez sempre foi um dos meus poetas preferidos e ao som do seu canto percorri boa parte da minha vida. Esta é uma das canções a que uso regressar e fico sempre sem palavras ante o engenho com que o amor a outra pessoa e o amor à liberdade de um país se entretecem neste modo tão conseguido.
Isto à parte discordar das posturas políticas do homem, acérrimo e acrítico fidelista. Mas a obra deixa de ser o homem quando passa a ser de todos.
sábado, 23 de agosto de 2014
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Sou daqueles a quem o Estado português carrega por tudo e por nada. Indignam-me, sobre todas as más canalizações do meu dinheiro, as que patrocinam torturas e assassínios. O Estado português não pode gastar dinheiro para patrocinar desumanidade.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
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Torturam um animal, assassinam-o a sangue frio, riem do triunfo sobre um inocente. Depois, à noitinha, têm o descanso do guerreiro junto dos seus. Pararam de aprender quando aprenderam a matar. Vida completa, a destes homens.
sábado, 2 de agosto de 2014
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A corrida de 28 de agosto no Campo Pequeno foi cancelada. Por falta de dinheiro e de público. Diria eu: por falta de dinheiro por falta de público.
Acredito que o respeito pelos animais faz parte da forma de pensar da nossa sociedade. Com o tempo, os mais distraídos também perceberão que as touradas não podem ser excepção e que representam um enorme desrespeito por todos os seres vivos nela envolvidos.
Acredito que o respeito pelos animais faz parte da forma de pensar da nossa sociedade. Com o tempo, os mais distraídos também perceberão que as touradas não podem ser excepção e que representam um enorme desrespeito por todos os seres vivos nela envolvidos.
Tenho a certeza de que este cancelamento é mais um a caminho do cancelamento definitivo deste espectáculo bárbaro.
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