sábado, 9 de março de 2013
cristalizações (2007)
as fronteiras são onde as ponho
antigamente
era eu criança e mais verdadeiras
podiam ser as coisas
pareciam cortinas de fumo
e cristal migado
e estavam quase tão longe
como a sensação das raízes
em nosso redor
mas eu sempre me senti o mesmo nó
fixo e solitário entre os nós da corda que nos atravessa
foi por isso que as fronteiras recuaram e recuaram
até à distância dos meus braços curtos
e é por isso que hoje
sobre estas diminutas superfícies
de vidro em fumo solidificado
tacteio todas as viagens que já não posso
com a ajuda de uma ou duas fórmulas canónicas
tu por exemplo
tu continuas pomar de cabelos nórdicos
com terra em púbis longínqua
mas
como tantas e tantas outras coisas
cais agora de nuvens baixas e aos meus pés
entre estrondos e rabecas negras
esse desprendimento
faz parte de nos querermos
sexta-feira, 8 de março de 2013
porque lisboa mora aqui (2003)
Eis onde se encontram os caminhos,
onde o rio é o mar que ontem perdi
onde sempre aparece o fugitivo
porque Lisboa mora aqui.
Onde viaja o desejo em ascensores
e um esconderijo tenho para mim,
onde entreguei a vida aos meus amores
porque Lisboa mora aqui.
Meninas já não querem ser princesas
e há homens que preferem perseguir
o mar dentro de um copo de cerveja
porque Lisboa mora aqui.
Os pássaros visitam o psiquiatra
e há estrelas que se esquecem de sair,
a morte passa em ambulâncias brancas
porque Lisboa mora aqui.
O sol já só aquece a gás butano,
a vida é metro quase de partida
e deixaste a seringa no lavabo
porque Lisboa mora aqui.
Quando quiser a morte visitar-me
não me despertes, deixa-me dormir,
aqui lavrei a minha última tarde
porque Lisboa mora aqui.
obstinação (2003)
Perdi a aurora, é certo,
não estava lá;
e não posso saber em pleno
o inesperado fulgor do teu último aceno.
Mas percorri o voo longo e sem romance
como poeta em busca de narrativa
e crente sempre na obstinação da luz.
Adormeço agora da luta:
eu sei que o sol não se pôs aqui.
não estava lá;
e não posso saber em pleno
o inesperado fulgor do teu último aceno.
Mas percorri o voo longo e sem romance
como poeta em busca de narrativa
e crente sempre na obstinação da luz.
Adormeço agora da luta:
eu sei que o sol não se pôs aqui.
a combustão das noites (2007)
venho de há tanto e tem sido
tamanha a perplexidade basta lembrar
o punho fechado de mentiras
e as outras verdades que sempre escoam
então para quê
investigar onde amanhecem as palavras?
é cedo ainda para não saber
a minha responsabilidade na combustão das noites
tamanha a perplexidade basta lembrar
o punho fechado de mentiras
e as outras verdades que sempre escoam
então para quê
investigar onde amanhecem as palavras?
é cedo ainda para não saber
a minha responsabilidade na combustão das noites
hoje o meu dever era
Hoje o meu dever era cantar a pátria, içar a bandeira, assomar à praça. Hoje era o momento de ser optimista, um renascimento, um sol de conquista.
Mas fazes-me falta há já tantos dias que quero e não posso sentir alegrias. Estoira o teu cabelo na minha almofada e estou que não posso dar outra batalha.
Hoje eu, que devia juntar-me ao coro, escondo-me do dia, sussurro este solo. Que faço tão longe, dando mais motivos a esta tortura cruel dos sentidos?
Tua boca pequena dentro do meu beijo, conquista, governa, não toca a recesso. Teu corpo no meu, cantando suores, trinados possessos, violentos tremores.
Hoje o meu dever era cantar a pátria, içar a bandeira, assomar à praça; e creio, afinal, que foi o que fiz, sonhando o teu abraço, voando ao teu lado.
quinta-feira, 7 de março de 2013
isto (2007)
isto de que falo não apresenta extremos
a bem dizer é tão de infinito
que não há como ser honesto e pôr
no vê-lo a vir o final de onde vem
no vê-lo a ir o início de para onde vai
parece um ponto essa incrível abstracção
dos matemáticos
e no final de todas as contas é
nem mais nem menos
todo um ponto ao contrário
para mim que o tenho por dentro e apenas o sei
de ele me ter por dentro
disto de que falo se dirá com pouco
ou nenhum rigor
que sob o silêncio das madrugadas polares passou rasteiro
como quem atravessa terra com o menor dos estragos
para quem a tem por própria
e no entanto
é mais água em fervura
que da fuga se impede
até ao limite da espera até
à mais difícil cozedura
a bem dizer é tão de infinito
que não há como ser honesto e pôr
no vê-lo a vir o final de onde vem
no vê-lo a ir o início de para onde vai
parece um ponto essa incrível abstracção
dos matemáticos
e no final de todas as contas é
nem mais nem menos
todo um ponto ao contrário
para mim que o tenho por dentro e apenas o sei
de ele me ter por dentro
disto de que falo se dirá com pouco
ou nenhum rigor
que sob o silêncio das madrugadas polares passou rasteiro
como quem atravessa terra com o menor dos estragos
para quem a tem por própria
e no entanto
é mais água em fervura
que da fuga se impede
até ao limite da espera até
à mais difícil cozedura
quarta-feira, 6 de março de 2013
poema (1992)
Tenho um poema para ti,
menina bonita,
que ainda só não escrevi
porque não se escreve a vida.
Há-de ser incompleto
como os nossos dias
e há-de ter todo o aspecto
de verso branco e variado.
Assim que,
à medida de um sonho por dia,
faça sol ou faça chuva,
dor em nós ou alegria,
lá na praia da ventura
hei-de ser pirata coxo
em busca de mil tesouros
no mapa da tua alma.
menina bonita,
que ainda só não escrevi
porque não se escreve a vida.
Há-de ser incompleto
como os nossos dias
e há-de ter todo o aspecto
de verso branco e variado.
Assim que,
à medida de um sonho por dia,
faça sol ou faça chuva,
dor em nós ou alegria,
lá na praia da ventura
hei-de ser pirata coxo
em busca de mil tesouros
no mapa da tua alma.
terça-feira, 5 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
dormir de lado
“O João dizia que não sonhava, o que não é verdade. Não
queremos dizer que ele estivesse a mentir, simplesmente não estava a dizer a
verdade.” Era mais ou menos isto que garantia o livro que ela estava a ler, num capítulo
dedicado aos sonhos. Embora o dissesse de um modo muito diferente e fizesse de conta
que não conhecia o João.
E era verdade, o João sonhava, sim. Sonhava os sonhos dela.
Esses sonhos estranhos e disparatados, tanta coisa que a cansa e que a desperta
sem energia, tanta coisa que ele acariciava na sua nuca: “Está tudo bem,
querida. Eu vou contigo.” E depois dava-lhe um beijo e a seguir entrava no seu
sono e então repartia os cansaços com ela.
Tinha saudades do João. Tanto que ele lhe queria dar. Tão
pouco que ela deixou.
domingo, 3 de março de 2013
03-03-2013
Querido Barbinhas,
Equipei-me. Muito devagarinho, uma horinha curta, vou recomeçar a correr daqui a pouco.
Desde 29 de outubro que tinha os ténis de lado, um dia depois de ter batido o meu tempo em dez quilómetros de altibaixos: 43m03s, já nem me lembro do nome da prova. Mas não foi essa a razão para ter parado. No dia seguinte, ruíram muitas das minhas construções. Tu sabes, já te contei o que se passou num dos últimos sonhos que fizemos.
Tenho precisado de mais cama e sofá, mais cerveja, menos luta nos tempos livres. Andei a laborar num erro durante cinco anos e agora estou a laborar noutro: o da engorda.
Nada de especial, não é? Ao longo dos nossos treze anos de vida a dois, já me viste assim, com estes quilinhos a mais, em períodos de maior tristeza.
Queria tanto que estivesses cá. Ando um pouco melhor de dinheiros, encheria de mimos a tua velhice. Olha, o bê-dê acaba de dar um latido. Tu sabes, é o modo de ele dizer que também sente a tua falta.
Equipei-me. Muito devagarinho, uma horinha curta, vou recomeçar a correr daqui a pouco.
Desde 29 de outubro que tinha os ténis de lado, um dia depois de ter batido o meu tempo em dez quilómetros de altibaixos: 43m03s, já nem me lembro do nome da prova. Mas não foi essa a razão para ter parado. No dia seguinte, ruíram muitas das minhas construções. Tu sabes, já te contei o que se passou num dos últimos sonhos que fizemos.
Tenho precisado de mais cama e sofá, mais cerveja, menos luta nos tempos livres. Andei a laborar num erro durante cinco anos e agora estou a laborar noutro: o da engorda.
Nada de especial, não é? Ao longo dos nossos treze anos de vida a dois, já me viste assim, com estes quilinhos a mais, em períodos de maior tristeza.
Queria tanto que estivesses cá. Ando um pouco melhor de dinheiros, encheria de mimos a tua velhice. Olha, o bê-dê acaba de dar um latido. Tu sabes, é o modo de ele dizer que também sente a tua falta.
sábado, 2 de março de 2013
13%
No filme "Casamento por Conveniência" (Green Card, realizado por Peter Weir em 1990), o francês Georges casa com Brontë para obter uma licença de residência permanente nos EUA. Apesar dos esforços de ambos para convencerem os serviços de imigração, a tramóia acaba por ser descoberta e Georges tem de sair do país.
Georges é interpretado por Gérard Depardieu, que tem bastante mais sorte do que a sua personagem. Desta feita, e na vida real, ele não quis ser americano, apenas quis deixar de pagar impostos em França. E encontrou um país que lhe deu a nacionalidade em meia dúzia de dias: A Rússia, que durante anos adia a atribuição de nacionalidade a habitantes não russos da antiga União Soviética, por mais que estes compreendam a cultura e a língua russas.
Em carta aberta, Depardieu garantiu que ama a Rússia e a sua grande democracia. Abraçou o grande democrata Putin e recebeu das suas mãos o passaporte russo. Claro que também recebeu dele as promessas de amor eterno com, no mínimo, 87% de felicidade.
fatal (2011)
fizeste alguma coisa ao
cabelo?
eu nada
tu fizeste alguma coisa ao cabelo...
não fiz nada
parece-me diferente
e estava
és mesmo distraído não vês que o cortei? antes dava-me pelo meio das costas e agora nem aos ombros me chega
foi o princípio do fim
que há dúvidas que matam de tanto moerem
eu nada
tu fizeste alguma coisa ao cabelo...
não fiz nada
parece-me diferente
e estava
és mesmo distraído não vês que o cortei? antes dava-me pelo meio das costas e agora nem aos ombros me chega
foi o princípio do fim
que há dúvidas que matam de tanto moerem
.
Dizia-me, assim que o pude compreender: podes repetir o espaço, filho, mas não o tempo. Ainda eu não tinha idade para saber que nem o espaço.
quadra 59
É mais fácil aceitar
depois de uma piela e meia
que não seja deste mar
o teu amor de sereia.
depois de uma piela e meia
que não seja deste mar
o teu amor de sereia.
invariante (2011)
tanto artifício desde a sopa do meio-dia ao bem-estar dos cães
também a ausência das mulheres e a extinção dos amigos
e a cama
e o encarceramento do passado
e as dicotomias e as caixinhas
mais do que tudo este parágrafo e o parágrafo anterior
que fogo de artifício é artifício também
também a ausência das mulheres e a extinção dos amigos
e a cama
e o encarceramento do passado
e as dicotomias e as caixinhas
mais do que tudo este parágrafo e o parágrafo anterior
que fogo de artifício é artifício também
notícia (2011)
A crer no que me disse quem nunca erra,
não chegarei a barbas para avô:
garante ele que o futuro terminou,
que o mal é grande e está perdida a guerra.
Mas no frio de breu que o facto encerra
cresce um sorriso, um sonho que ficou,
e essa criança de quem sempre sou
corre ainda a pés nus em chão de terra.
Não trago medo à morte, nunca o trouxe,
que não busquei de mais por onde fosse
e toda a companhia tenho em mim.
Eis-me, pois, quase extinta a vela acesa,
esperando que se faça natureza
se foi para isso mesmo que eu cá vim.
não chegarei a barbas para avô:
garante ele que o futuro terminou,
que o mal é grande e está perdida a guerra.
Mas no frio de breu que o facto encerra
cresce um sorriso, um sonho que ficou,
e essa criança de quem sempre sou
corre ainda a pés nus em chão de terra.
Não trago medo à morte, nunca o trouxe,
que não busquei de mais por onde fosse
e toda a companhia tenho em mim.
Eis-me, pois, quase extinta a vela acesa,
esperando que se faça natureza
se foi para isso mesmo que eu cá vim.
sexta-feira, 1 de março de 2013
a cor das coisas
Na sexta-feira
passada, o André chegou da escola com esta: “Ó mãe, tu sabias que as coisas não
têm cor?" Não soube explicar porquê, mas garantiu: "Não têm mesmo, mãe, o
professor disse que não têm."
O jantar foi
diferente. Afinal, tudo o que estava na mesa era mentira. A sopa, as batatas, as
cenouras, o bacalhau, a gelatina. Tudo sem cor. A camisolinha azul, tão bonita, que eu ofereci no outro dia ao meu filho,
os olhos verdes que ele me roubou. Não, não tinham cor. Se calhar nem
existem.
E o problema é que
agora nós sabíamos. Que coisa esta, as coisas não terem cor.
Mas, como
dizia o meu pai, "estamos perante um excesso de zelo". É como dizer que o sol nunca
nasce e o sol nunca se põe. Claro que nasce e claro que se põe, isso faz muito
mais parte de nós do que ter a certeza de que é a terra que o procura e o esconde.
As coisas não têm cor porque a cor que têm depende da radiação que absorvem, da radiação que emitem e dos olhos que as vêem: isto foi o que eu levei toda a noite a descobrir nos livros. Mas para mim isso não é não terem cor, é terem infinitas cores mesmo que se diga que só têm uma. E também é assim para o André. Quando acordei de uma noite mal dormida, ele estava ao pé de mim com um segredo para me dizer:
As coisas não têm cor porque a cor que têm depende da radiação que absorvem, da radiação que emitem e dos olhos que as vêem: isto foi o que eu levei toda a noite a descobrir nos livros. Mas para mim isso não é não terem cor, é terem infinitas cores mesmo que se diga que só têm uma. E também é assim para o André. Quando acordei de uma noite mal dormida, ele estava ao pé de mim com um segredo para me dizer:
“Ó mãe, as coisas
têm cor, sim. O professor é que tem de voltar a aprender como se
pintam.”
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
maria (2011)
do meu ponto de vista antónio é nome de bêbedo
não vou pôr-me com ponderações inúteis sobre as causas do amor ao álcool nem com o discurso barato de quem põe nesse amor o desamor à vida a vida é um ciclo de copos e ressacas e tudo o mais encaixa
logo de manhãzinha a maria perguntou-me por ele o antónio desta maneira tão doce então como vai o nosso bebedozinho?
foi carinho que me encheu de inveja
é por isso que agora oito e pouco da tarde e jantar por haver já vou tão antónio perdão assim de bêbedo
estou a arranjar coragem para telefonar à maria
não vou pôr-me com ponderações inúteis sobre as causas do amor ao álcool nem com o discurso barato de quem põe nesse amor o desamor à vida a vida é um ciclo de copos e ressacas e tudo o mais encaixa
logo de manhãzinha a maria perguntou-me por ele o antónio desta maneira tão doce então como vai o nosso bebedozinho?
foi carinho que me encheu de inveja
é por isso que agora oito e pouco da tarde e jantar por haver já vou tão antónio perdão assim de bêbedo
estou a arranjar coragem para telefonar à maria
.
Ainda escrevo 2012 em 2013. Lá para abril hei de acertar o passo, como se a vida recomeçasse na primavera. Talvez então continue, com menos apego ao barco e menos ódio aos seus barqueiros.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
ficção
"Por minha mãe, eu seria andré, que serve melhor em destino de macho. Malogrou-se, no entanto, a sua vontade e fiquei luís. O que, por si, nunca me desagradou, não obstante os lulus de quem já quis escarnecer e os luisinhos das amiguinhas que mais não foram. [...] Qualquer nome pode aproveitar a brincadeiras ingratas, eis um facto; e até se me deu em fortuna não me terem posto antónio."
O narrador de Um pinguim na garagem começa assim por se demarcar de mim. Teve o azar de não ser andré, mas ao menos não tem de carregar o nome antónio. Mas tramei-o: à distância de quase quatro anos creio que nunca estive tão autobiográfico. Só n'A decadência dos olfactos comecei a inventar.
O narrador de Um pinguim na garagem começa assim por se demarcar de mim. Teve o azar de não ser andré, mas ao menos não tem de carregar o nome antónio. Mas tramei-o: à distância de quase quatro anos creio que nunca estive tão autobiográfico. Só n'A decadência dos olfactos comecei a inventar.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
filosofia (1993)
Sous l'étoile, dans tes yeux,
On peut voir tout ce qu'on veut
Puisque tu es dans mes bras.
Hier, aujourd'hui tu es rêve,
Instant d'amour qui m'enchaîne
Et douleur qu'on n'oublie pas.
On peut voir tout ce qu'on veut
Puisque tu es dans mes bras.
Hier, aujourd'hui tu es rêve,
Instant d'amour qui m'enchaîne
Et douleur qu'on n'oublie pas.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
assim não
Com que afã, com que rotina
vais pesando as minhas faltas
em balança tão precisa
mas, enfim, tão pouco exacta.
Ah, como andas empenhada
no acerto da minha vida,
ignorando que acertá-la
é energia perdida...
Pensa: valerá a pena
levantar assim a casa,
nesta já quase certeza
de que o meu peito se atrasa?
Pensa no homem que te amou:
ele ainda vive em quem sou.
vais pesando as minhas faltas
em balança tão precisa
mas, enfim, tão pouco exacta.
Ah, como andas empenhada
no acerto da minha vida,
ignorando que acertá-la
é energia perdida...
Pensa: valerá a pena
levantar assim a casa,
nesta já quase certeza
de que o meu peito se atrasa?
Pensa no homem que te amou:
ele ainda vive em quem sou.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
fecha a porta (1990)
Fecha a porta, que eu tenho muito medo
a este não saber onde me pôr;
diz adeus, diz que é tarde, diz que é cedo,
diz que nunca houve rosas nesta flor.
Sê sincera, não faças um segredo
de cada gesto; e quando enfim me for
de gastos sonhos sonhador azedo
esquece e fecha a porta, meu amor.
Não vês que assim faz frio para os dois,
tu aí tão incerta, eu sempre à espera,
tu sempre de antes, eu já tão depois?
Não vês de tanto nada tanta dor?
Se um dia nos sonhaste, então pondera,
esquece e fecha a porta, meu amor.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
espuma (2005)
Eu sou daqueles que se tornam tardes
assim que o sol rasteja em nossas casas
e anoiteço tão fácil de guardar-te
como o roubo do sol às alvoradas.
Tempero no luar da tua carne
os versos ancestrais da minha calma,
que apesar dos relâmpagos que trazes
és no crepúsculo das minhas asas.
Na tua boca moro o sentimento
que sempre coube no porvir do beijo
e cabe sempre neste fogo lento.
E sorrio de todas as partidas:
os amantes perenes morrem cedo
como espuma na praia de algum dia.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
água (1995)
Durante algum tempo
lembraste-me água. Mesmo quando chovia sobre
as rosas sobre a terra em que um dia nasci.
E adormecia no teu nome
palavras que o tempo guardava
e devolvia pela manhã.
Concha de minha mão no teu seio
era eterna, sei lá porquê.
E porque não fosse meu, sémen vertido no teu ventre
era por antífrase infecundo.
Mas não compreendeste
a inquietude e a morte dos instantes,
a importância dos sentidos em espera,
os tremores de mãos vazias.
Por isso, agora, quando chove,
se penso e se penso em ti
é para dizer:
«Vai chover para outro lado.»
lembraste-me água. Mesmo quando chovia sobre
as rosas sobre a terra em que um dia nasci.
E adormecia no teu nome
palavras que o tempo guardava
e devolvia pela manhã.
Concha de minha mão no teu seio
era eterna, sei lá porquê.
E porque não fosse meu, sémen vertido no teu ventre
era por antífrase infecundo.
Mas não compreendeste
a inquietude e a morte dos instantes,
a importância dos sentidos em espera,
os tremores de mãos vazias.
Por isso, agora, quando chove,
se penso e se penso em ti
é para dizer:
«Vai chover para outro lado.»
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
oide (1987)
Fatioide, guardachuvoide,
todo sapatoide pela rua abaixo.
Mais um humanoide.
Ah! no tempo em que a brasa
me ardia sob os pés...
Que é feito de mim?
todo sapatoide pela rua abaixo.
Mais um humanoide.
Ah! no tempo em que a brasa
me ardia sob os pés...
Que é feito de mim?
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
miúda (1995)
Tempo para amanhãs certos;
Em teus olhos suave-duros
Rumam barcas de futuro
Em viagens sem trajecto.
Sossega a alma, pequenina:
Assim vai a tua vida.
Em teus olhos suave-duros
Rumam barcas de futuro
Em viagens sem trajecto.
Sossega a alma, pequenina:
Assim vai a tua vida.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
domingo, 17 de fevereiro de 2013
café
Quando antes me perguntavas
bebes um café comigo?,
o café era a palavra
de me saberes teu amigo.
Quando agora me perguntas
queres beber um café?,
a vontade não é muita
e a amizade é o que é.
E tudo porque entretanto
fomos homem e mulher
que por isso deram tantos
outros nomes ao café.
bebes um café comigo?,
o café era a palavra
de me saberes teu amigo.
Quando agora me perguntas
queres beber um café?,
a vontade não é muita
e a amizade é o que é.
E tudo porque entretanto
fomos homem e mulher
que por isso deram tantos
outros nomes ao café.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Beatriz Talegón
Beatriz Talegón e a retórica, a grande retórica na acepção que dela tinha Aristóteles. Ethos, pathos e logos. Sobretudo logos. Sempre logos. Imprescindivelmente logos, para que pensemos.
Gostava de ter visto a cara dos barões ante a coragem desta mulher. Devem ter ficado com as orelhas em brasa.
Entretanto, já aparece quem ataque a mulher crendo atacar a mensagem: ai que a Beatriz apenas procura protagonismo, ai que o seu passado e o seu presente não se coadunam com a mensagem.
É a mensagem, estúpidos.
metamorfose
durante
muito tempo eu não te quis bem
com todos os artifícios que me ensinaram construí uma gaiola
em nosso redor e chamei-lhe amor
um dia aproveitaste uma porta aberta
e eu tive de procurar nos mesmos artifícios o teu regresso
embalde
que mais ainda voavas e mais do meu corpo rastejava
até aprender que o teu riso não é a minha perda
até aprender a alçar também eu as minhas asas
e ao meu voo chamar-lhe amor
com todos os artifícios que me ensinaram construí uma gaiola
em nosso redor e chamei-lhe amor
um dia aproveitaste uma porta aberta
e eu tive de procurar nos mesmos artifícios o teu regresso
embalde
que mais ainda voavas e mais do meu corpo rastejava
até aprender que o teu riso não é a minha perda
até aprender a alçar também eu as minhas asas
e ao meu voo chamar-lhe amor
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
deshoje
nunca
saberás
que em lisboa sem ti
hoje guardei ontem
e ontem penontem
e penontem antepenontem
e
que todos os dias sou deshoje
que em lisboa sem ti
hoje guardei ontem
e ontem penontem
e penontem antepenontem
e
que todos os dias sou deshoje
quinta-feira, 19 de julho de 2012
a minha viagem (2005)
.
Não vejo dia para me ir embora
do ar que sorvo e da sombra que me aperta,
mas sempre que me ponho à janela
passa a ser dentro o que antes era fora.
Perpétuo prisioneiro, a minha cela
ambula e reconstrói-se a toda a hora;
e quando me dirijo à sua porta
derramo em luz a dimensão da espera.
Não há segredo, então... a vida inteira
procurei o tesouro mais escondido
em lugares que nunca visitei,
para agora entender desta maneira
que por trás dos meus olhos há sorrisos
e por trás destes a mulher que amei.
--------------------------------------Lisboa, 2005
Não vejo dia para me ir embora
do ar que sorvo e da sombra que me aperta,
mas sempre que me ponho à janela
passa a ser dentro o que antes era fora.
Perpétuo prisioneiro, a minha cela
ambula e reconstrói-se a toda a hora;
e quando me dirijo à sua porta
derramo em luz a dimensão da espera.
Não há segredo, então... a vida inteira
procurei o tesouro mais escondido
em lugares que nunca visitei,
para agora entender desta maneira
que por trás dos meus olhos há sorrisos
e por trás destes a mulher que amei.
--------------------------------------Lisboa, 2005
quarta-feira, 18 de julho de 2012
palavra exacta (2005)
.Palavra que, de pronta, te regresse
- que é dela, ah como hei-de procurá-la?,
quanto dela hei-de pôr na minha fala
se todo o meu segredo te aborrece?
Meu amor - quando, para que te interesse,
me valeria a pena pronunciá-la?
Quão próximo de ti, que tom, que sala
para abrir espaços ao que me apetece?
Palavra que, de exacta, me descubra
sob o teu gesto rude a noite rubra
- existe acaso? ou esse olhar é tudo?
Espero? Avanço? Continuo mudo?
Ou és possível, diz, mulher cansada,
na esquina ignota de uma só palavra?
--------------------------------------------Oeiras, 2005
- que é dela, ah como hei-de procurá-la?,
quanto dela hei-de pôr na minha fala
se todo o meu segredo te aborrece?
Meu amor - quando, para que te interesse,
me valeria a pena pronunciá-la?
Quão próximo de ti, que tom, que sala
para abrir espaços ao que me apetece?
Palavra que, de exacta, me descubra
sob o teu gesto rude a noite rubra
- existe acaso? ou esse olhar é tudo?
Espero? Avanço? Continuo mudo?
Ou és possível, diz, mulher cansada,
na esquina ignota de uma só palavra?
--------------------------------------------Oeiras, 2005
domingo, 15 de julho de 2012
equivalências
Antigamente, eu gostava muito de ir a exame: dava umas explicaçõezitas para sobreviver e vivia de ir a exame. Pelas minhas contas, fiz entre 60 a 70 cadeiras na Universidade de Lisboa, mas exames foram muitos mais. É que eu não gostava de estudar tudo e por isso reprovava muito. Além disso, também ia tentando melhorias, Às vezes com sucesso: tanto, que conseguia um 11.
Eu só não sabia que, no meu caso, tanto exame não servia de nada: aprende-se muito pouco quando não se tem paixão por nada. Por isso ando agora tão feliz com esta história do Relvas e todos os futuros que isso implica.
A vida cá fora custa muito, claro que equivale. Aceitar isso é um primeiro passo para aceitar o contrário: que as cadeiras feitas na faculdade também têm de equivaler à vida cá de fora. Não sou muito bom em contas mas vejam lá se não faz sentido: metade dos meus créditos no curso de química, troco-a pela arte do engate e, se a comissão de equivalências quiser, também por algum jeitinho para beijos à maneira. Dizem que é bom saber beijar. Depois, a outra metade dos créditos, posso trocá-la por alguma ciência de cama: dizem que é uma ciência fixe.
O curso de psicologia é que não sei bem para que servirá, mas olhem, eu até trocava por uma casa. É isso: uma casinha. E por um carrito, já agora. Se não for pedir muito.
Entretanto, ponho-me a fazer outro curso. Não vá começar a querer de mais.
Eu só não sabia que, no meu caso, tanto exame não servia de nada: aprende-se muito pouco quando não se tem paixão por nada. Por isso ando agora tão feliz com esta história do Relvas e todos os futuros que isso implica.
A vida cá fora custa muito, claro que equivale. Aceitar isso é um primeiro passo para aceitar o contrário: que as cadeiras feitas na faculdade também têm de equivaler à vida cá de fora. Não sou muito bom em contas mas vejam lá se não faz sentido: metade dos meus créditos no curso de química, troco-a pela arte do engate e, se a comissão de equivalências quiser, também por algum jeitinho para beijos à maneira. Dizem que é bom saber beijar. Depois, a outra metade dos créditos, posso trocá-la por alguma ciência de cama: dizem que é uma ciência fixe.
O curso de psicologia é que não sei bem para que servirá, mas olhem, eu até trocava por uma casa. É isso: uma casinha. E por um carrito, já agora. Se não for pedir muito.
Entretanto, ponho-me a fazer outro curso. Não vá começar a querer de mais.
sábado, 14 de julho de 2012
os cães da tua boca (1992)
À porta, à minha chegada,
à hora, à palavra esperada,
atiçaste os cães da tua boca;
e nunca mais ninguém ouviu
à porta a minha chegada,
à hora a palavra esperada;
e nunca mais,
à tua porta,
à palavra esperada,
atiçaste os cães da tua boca.
à hora, à palavra esperada,
atiçaste os cães da tua boca;
e nunca mais ninguém ouviu
à porta a minha chegada,
à hora a palavra esperada;
e nunca mais,
à tua porta,
à palavra esperada,
atiçaste os cães da tua boca.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
asas
-
Dizem que nunca na vida
prendes o passo, que nem
sequer pensas no regresso:
pois darias por perdida
a alma inteira, pois não tens
gosto no que tens por certo.
Dizem mais: que sobrevoas
o lastro do que persiste
ao largo do que acontece,
que ninguém te vê à toa
disto que hoje nos faz tristes
e que ontem nos trouxe inertes.
E dizem que de futuro
darão sonhos ao teu nome
e o teu nome às madrugadas:
mostraste, acima de tudo,
que um dia quem nunca pôde
há-de por fim abrir asas.
Dizem que nunca na vida
prendes o passo, que nem
sequer pensas no regresso:
pois darias por perdida
a alma inteira, pois não tens
gosto no que tens por certo.
Dizem mais: que sobrevoas
o lastro do que persiste
ao largo do que acontece,
que ninguém te vê à toa
disto que hoje nos faz tristes
e que ontem nos trouxe inertes.
E dizem que de futuro
darão sonhos ao teu nome
e o teu nome às madrugadas:
mostraste, acima de tudo,
que um dia quem nunca pôde
há-de por fim abrir asas.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
almoço (2005)
Sentamo-nos à mesa para o almoço,
impensáveis jantares, cama extinta,
cuidando o que dizemos um ao outro,
atentos sempre ao que magoa ainda.
Eu desenvolvo-me em minuto e pouco,
e tu, se tanto, num minuto e trinta,
se omito o meu percurso mais sinuoso,
de ti, que exibes mais, espero que mintas.
A despedida é rápida e sem história:
parecemos bonecos sem contexto
fingindo um beijo ao largo das orelhas.
E a madrugada a visitar-me insónias!
O cadáver do nosso à tarde veio
para pintar o nosso nas estrelas...
_______________________Oeiras-Lisboa, 2005
impensáveis jantares, cama extinta,
cuidando o que dizemos um ao outro,
atentos sempre ao que magoa ainda.
Eu desenvolvo-me em minuto e pouco,
e tu, se tanto, num minuto e trinta,
se omito o meu percurso mais sinuoso,
de ti, que exibes mais, espero que mintas.
A despedida é rápida e sem história:
parecemos bonecos sem contexto
fingindo um beijo ao largo das orelhas.
E a madrugada a visitar-me insónias!
O cadáver do nosso à tarde veio
para pintar o nosso nas estrelas...
_______________________Oeiras-Lisboa, 2005
segunda-feira, 9 de julho de 2012
um homem qualquer
As loucuras que eu teria
feito por esse homem; as
muitas que fiz; quanta vida
já prendi às suas asas.
Mesas. Camas. Luzes. Tectos.
A busca em torvelinho; os
filhos que nunca tivemos;
a roupa de corpos nus.
O mundo ao seu nome antónio
correndo-me sob os pés;
toda a estação de comboios
que tendia a nossa pele.
E hoje ao passar, nos meus olhos
passou um homem qualquer.
feito por esse homem; as
muitas que fiz; quanta vida
já prendi às suas asas.
Mesas. Camas. Luzes. Tectos.
A busca em torvelinho; os
filhos que nunca tivemos;
a roupa de corpos nus.
O mundo ao seu nome antónio
correndo-me sob os pés;
toda a estação de comboios
que tendia a nossa pele.
E hoje ao passar, nos meus olhos
passou um homem qualquer.
domingo, 8 de julho de 2012
o muro (1990)
Eu não sei muito sobre as causas
das coisas.
Aprendi a prever a noite
quando o sol se inclina por trás da minha janela
e pouco mais.
O dia, nunca o vejo nascer:
o meu ser nocturno não tem ânsias de luz.
À sombra do muro que me cerca
e por trás das frestras que o tempo abriu
passo muitas horas da minha vida
a contar as horas que a rotina gasta.
Nunca passei nenhuma fronteira
porque sempre houve luar
e eu nunca trago identificação.
Por isso fico onde estou e ninguém me tente;
já estou farto de partir a alma
em loucas correrias e tropeções
por caminhos acidentados
que me levam a lugar nenhum,
que é o ponto de partida.
Quem quiser, que vá sozinho.
Eu fico aqui, a tapar os buracos.
----------------------------------------Lisboa e 1990
sábado, 7 de julho de 2012
ir andando
Não sei explicar porquê, estavas em minha casa, sentada à minha mesa. Mas parecias ter pressa em partir.
Eu tentava ordenar um monte de folhas impressas; mas sempre faltavam páginas e sempre me punha a desmontar tudo com a esperança de as encontrar no recomeço da tarefa. Ou seria outra a esperança, a de que não te fosses embora por excesso de atenção.
Tenho de ir andando, disseste baixinho.
Estás com fome, não estás?
Fui ao frigorífico, tirei dele com que preparar-te uma sandes e um sumo.
Não, não tenho fome.
Tinhas de ir andando.
Eu tentava ordenar um monte de folhas impressas; mas sempre faltavam páginas e sempre me punha a desmontar tudo com a esperança de as encontrar no recomeço da tarefa. Ou seria outra a esperança, a de que não te fosses embora por excesso de atenção.
Tenho de ir andando, disseste baixinho.
Estás com fome, não estás?
Fui ao frigorífico, tirei dele com que preparar-te uma sandes e um sumo.
Não, não tenho fome.
Tinhas de ir andando.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
mon amérique à moi
-
Dizem os jornais que na América se têm avistado sereias.
Mas é mentira que se avistem sereias. E é mentira porque só há uma. Durante algum tempo, de quando em quando, ela dava à minha praia; e encantava tão bem que todas as suas melodias acordavam futuros.
Um dia, no entanto, deixou de fazer alto mar minha praia minha praia alto mar; e garantiram-me os marinheiros que era impossível avistá-la: ela agora estava tão mulher que se instalara definitivamente no fundo das águas.
Pois, pois... Com que então na América. Vou despachar-me que o avião parte daqui a nada.
Dizem os jornais que na América se têm avistado sereias.
Mas é mentira que se avistem sereias. E é mentira porque só há uma. Durante algum tempo, de quando em quando, ela dava à minha praia; e encantava tão bem que todas as suas melodias acordavam futuros.
Um dia, no entanto, deixou de fazer alto mar minha praia minha praia alto mar; e garantiram-me os marinheiros que era impossível avistá-la: ela agora estava tão mulher que se instalara definitivamente no fundo das águas.
Pois, pois... Com que então na América. Vou despachar-me que o avião parte daqui a nada.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
.
Antes, sempre que pedia a alguém que não partisse - alguém partia. Aprendi. E agora que a ninguém peço que fique - ninguém fica.
terça-feira, 3 de julho de 2012
14.06.2012 - 03.07.2012
Perguntaram-me por ti, respondi que já não vivias comigo, apressei o passo. Ao virar da esquina, as lágrimas corriam. Tenho deixado a guitarra ocupar o teu lado da cama.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
aqui (1992)
Não fui eu quem embarcou
no meu sonho, à tua passagem,
tanto frio, tanto frio...
Foras brisa vespertina
ao fim de mais um destes dias
(apenas e tudo isso)
e, então sim, então fora eu.
Foste tu
quem tiritou o sonho.
domingo, 1 de julho de 2012
segredo (1989)
.
Ouvi um segredo
que não era meu.
Disse-o o Pedro
ao Bartolomeu.
Não sei que me deu,
acerquei-me a medo
e aconteceu
ouvir o segredo.
Fiquei boquiaberto,
aterrorizado,
e se estou bem certo
do que disse o Pedro,
esperem sentados:
não digo o segredo.
-------------------------Lisboa e 1989.
Ouvi um segredo
que não era meu.
Disse-o o Pedro
ao Bartolomeu.
Não sei que me deu,
acerquei-me a medo
e aconteceu
ouvir o segredo.
Fiquei boquiaberto,
aterrorizado,
e se estou bem certo
do que disse o Pedro,
esperem sentados:
não digo o segredo.
-------------------------Lisboa e 1989.
como a tua vontade queira (1992)
.
não espero
onde a vida faz esquina contigo
que me espertes deste esmaio
nem me vou prolongar por atalhos
onde o sonho enlouquece e quer
não vou adormecer da espera nem quando
a minha distracção te esquecesse um dia
pois que tenho vinho
para as nossas taças e muitas mais
bebamos sobre revoltas e desassossegos
que até nós me trouxeram
e a um canto das horas como a tua vontade queira
que me abraces neste fim de tarde
e nada mais seja à minha maneira
-----------------------------------------------------------LISBOA E 1992.
não espero
onde a vida faz esquina contigo
que me espertes deste esmaio
nem me vou prolongar por atalhos
onde o sonho enlouquece e quer
não vou adormecer da espera nem quando
a minha distracção te esquecesse um dia
pois que tenho vinho
para as nossas taças e muitas mais
bebamos sobre revoltas e desassossegos
que até nós me trouxeram
e a um canto das horas como a tua vontade queira
que me abraces neste fim de tarde
e nada mais seja à minha maneira
-----------------------------------------------------------LISBOA E 1992.
palavras como aves (1991)
Pensei dar-lhes o nome de
rolas
que nas nossas memórias ficasse;
têm a textura das aves em fuga
e o desejo de fuga das aves,
o arrulho das noites em espera,
o aroma impreciso do que há-de.
Porque o amor nesses dias poalhava
de mistérios teu corpo sem dono,
quis mantê-las em conchas de mão,
concebê-las em sonos de sonho,
percorrê-las enquanto houvesse onde,
conhecê-las em quandos de outono.
Mas agora que tudo já sobra,
que faço eu do que nunca foi meu?
Se já nem o meu corpo é de aqui
que palavras serão mais que nada?
Se algum dia houver nós outra vez,
há-de ser em palavras como aves;
pensei dar-lhes o nome de rolas
que nas nossas memórias ficasse.
---------------------------------------------lisboa e 1991
que nas nossas memórias ficasse;
têm a textura das aves em fuga
e o desejo de fuga das aves,
o arrulho das noites em espera,
o aroma impreciso do que há-de.
Porque o amor nesses dias poalhava
de mistérios teu corpo sem dono,
quis mantê-las em conchas de mão,
concebê-las em sonos de sonho,
percorrê-las enquanto houvesse onde,
conhecê-las em quandos de outono.
Mas agora que tudo já sobra,
que faço eu do que nunca foi meu?
Se já nem o meu corpo é de aqui
que palavras serão mais que nada?
Se algum dia houver nós outra vez,
há-de ser em palavras como aves;
pensei dar-lhes o nome de rolas
que nas nossas memórias ficasse.
---------------------------------------------lisboa e 1991
sábado, 30 de junho de 2012
sexta-feira, 29 de junho de 2012
esta triste alegria de ser triste (1993)
Na sala o giradiscos ainda risca
as velhas músicas do nosso Brel
enquanto a Lady, sempre tão arisca,
ronrona sonhos de tapete e mel.
Como antes, os amigos para a bisca
aparecem às sextas com o farnel
e a Nena descarada pisrepisca
os olhos às escondidas do Manel.
No meu quarto sombrio ainda hoje
soluço atrás da lágrima que foge,
oiço chover no dia em que partiste;
e não posso esquecer a tua voz
magoada criticar-me, quando a sós,
esta triste alegria de ser triste.
.......................................................Lisboa, 1993
as velhas músicas do nosso Brel
enquanto a Lady, sempre tão arisca,
ronrona sonhos de tapete e mel.
Como antes, os amigos para a bisca
aparecem às sextas com o farnel
e a Nena descarada pisrepisca
os olhos às escondidas do Manel.
No meu quarto sombrio ainda hoje
soluço atrás da lágrima que foge,
oiço chover no dia em que partiste;
e não posso esquecer a tua voz
magoada criticar-me, quando a sós,
esta triste alegria de ser triste.
.......................................................Lisboa, 1993
sábado, 23 de junho de 2012
sonolentalentalisboamente
tanto ar para tão desencarnado pouco sangue
mas a bomba bate
incertinha
e lenta
lentalenta
no meu peito solitária
por que se enchem assim os pulmões?
por que
se procura o suspiro
em cada
minuto de
vida?
mas a bomba bate
incertinha
e lenta
lentalenta
no meu peito solitária
por que se enchem assim os pulmões?
por que
se procura o suspiro
em cada
minuto de
vida?
quinta-feira, 21 de junho de 2012
quadra 58
.
Amo o que ao mundo faz falta,
o que no mundo vai bem,
e se algum medo me assalta
é porque te amo também.
Amo o que ao mundo faz falta,
o que no mundo vai bem,
e se algum medo me assalta
é porque te amo também.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
sábado, 16 de junho de 2012
Portugal 3 -Dinamarca 2
O primeiro golo chegou distraído. E os dois seguintes e quase o quarto. Ao quinto, no entanto, esticámos o esquecimento num grito breve. Uns minutos depois, a verdade regressava.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
04.06.2012 - 13-06-2012
Olá, Barbinhas.
Nestes últimos dias, a certeza de que nada importa senão a sorte. Habita-me o coração uma cíclica redescoberta de ausências irremediáveis: de ti, da mulher que amo, de mim.
Tenho tantas saudades de quando os teus latidos breves me despertavam para a rua... Um abraço demorado e grande, querido, como aqueles em que me oferecias toda a tua paciência.
Nestes últimos dias, a certeza de que nada importa senão a sorte. Habita-me o coração uma cíclica redescoberta de ausências irremediáveis: de ti, da mulher que amo, de mim.
Tenho tantas saudades de quando os teus latidos breves me despertavam para a rua... Um abraço demorado e grande, querido, como aqueles em que me oferecias toda a tua paciência.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
o seu a seu dono
Expulsei, aproveitando uma das tuas ausências, os bonecos que na cama ocupavam o meu lado.
Também fui eu quem bebeu o pisang ambon todinho e quem reencheu a garrafa com champu de maçã verde.
E cometi outros crimes no teu quarto. Eu só não posso confessar a inesperada deschocolatação dos teus dias.
Também fui eu quem bebeu o pisang ambon todinho e quem reencheu a garrafa com champu de maçã verde.
E cometi outros crimes no teu quarto. Eu só não posso confessar a inesperada deschocolatação dos teus dias.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
domingo, 3 de junho de 2012
12.05.2012 - 03.06.2012
Finalmente e quase um mês depois, o Bê-Dê comeu toda a papa da travessa. Fiz-lhe um arrozinho com pescada, misturei cenoura e caldo Knorr, como a veterinária aconselhou, e sob o efeito até-que-enfim do anti-histamínico ele foi de esquisito a decidido, passando por dois ou três estados intermédios. Acabou a olhar por mais.
Tenho corrido muito pouco e voltei ao álcool. Hoje abusei de uma mistela de que nunca te falei porque nos doze anos da nossa vida a dois eu tinha-a posto de lado: não sei porquê, saí por um gin tónico, e depois outro, e outro e mais outro. Não estou bêbedo mas estou bastante mal-disposto e de carteira vazia.
De resto, vou preparando o estio e os seus latidos com muito trabalho. E isso não tem narrativa.
Um abraço dos antigos, meu amor.
sábado, 2 de junho de 2012
só afrodite me guarda
.
Ao invés do que parece
não sou de ontem nem da casa
nem do arrepio na pele
sob a mão que desce rasa.
Não de ti, não dessa lua
que escondeste e eu dormitava,
não da tarde que ainda é tua
mal desponta a madrugada.
A minha paz, encontrei-a
nesta ânsia do que me falta
e em saber que, vida meia,
só Afrodite me guarda.
Ao invés do que parece
não sou de ontem nem da casa
nem do arrepio na pele
sob a mão que desce rasa.
Não de ti, não dessa lua
que escondeste e eu dormitava,
não da tarde que ainda é tua
mal desponta a madrugada.
A minha paz, encontrei-a
nesta ânsia do que me falta
e em saber que, vida meia,
só Afrodite me guarda.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
.
Pesquiso "A Decadência dos Olfactos" no Google e vejo que Viktor, Vilna e Kaina têm a feliz natureza do renascimento. Sorrio: pus neles toda a alma que tenho.
terça-feira, 29 de maio de 2012
first we take Lisbon, then we take Moscow
Angela Merkel deixando escapar os planos da Alemanha: o Quarto Reich será tão vasto que a capital terá de ser transferida de Berlim para Moscovo. Está a correr bem.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
sábado, 19 de maio de 2012
.
Fosse eu protestante, judeu, muçulmano - tivesse, enfim, respeito pelo meu tempo. Mas não, sempre fui católico em pele de agnóstico, desculpem qualquer coisinha. Que raios, ao menos fosse budista...
quinta-feira, 17 de maio de 2012
.
A vida faz-se de fazê-la, não vale a pena demorarmo-nos sobre o que não será se ou sobre o que teria sido se. Que a indecisão e o arrependimento se limitem a apontar-nos o sofrimento desnecessário.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
30.04.2012 - 11.05.2012
Estou muito preocupado com o Bê-Dê, há três dias que mal come. Lá ando a bater às capelinhas, a tentar juntar umas coroas para levá-lo ao veterinário. Ponho-me a pensar e ando nisto desde que me lembro, sempre a torcer para que não haja nenhuma urgência de euros, sempre a ter de pedir ajuda quando essa urgência aparece, sobretudo quando são os meus bichinhos que estão em causa.
Desconfio que ainda estarias vivo se eu tivesse sido um pouco menos pobre.
Já tenho comigo um exemplar do novo livro. Gosto do objecto mas falta-me coragem para reler o texto. Terá uma ou outra gralha, têm sempre. E continuará a provocar, à parte a indiferença, reacções díspares e tentativas de resumo da minha escrita. Para uns, o meu valor maior está na construção das personagens e sou um poeta menor; mas também já me disseram que não passo de um razoável poeta armado aos cucos, que não percebe nada dos outros e que, enfim, deveria manter-se no seu cantinho. Alguns, ainda, acham-me um bom escritor e ponto. E, como não, há quem já tivesse tido a coragem de me dizer que sou uma merda nisto das letras. Confesso que não é fácil ouvir - porque escrever é única coisa a que me vou ajeitando.
Bem... a única talvez não, que agora vem a notícia da semana: ontem fiz dez tórridos e inclinados quilómetros em 43m22s. Nada mau para o teu velho, hein?
Ia morrendo.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
que inútil o meu tormento
Manhoso, egoísta, cruel,
esse deus em que eu te quis
ainda baixa ao papel
a ver se o fazes feliz.
Acredita ele que assim
o compreenderás melhor,
que só através de mim
é que o saberás de cor.
Mal se distraia um momento,
hei-de apagar todo o poema.
Que inútil o meu tormento
se tu segues tão serena...
segunda-feira, 7 de maio de 2012
atrasavas-te
Atrasavas-te. Eu à esquina
sempre em busca do teu rosto
e desse olhar de menina
que, dizem, ainda tens posto.
E atrasavas-te. Ao contrário
do que é costume, eu escondia
nas parangonas dos diários
os estragos da minha vida.
Mas atrasavas-te. E viesse
o café que viesse, e fosse
no teu ar o ar que esquece
- pouco importa, eu nunca soube.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
fundo
.
A verdade é que os amigos
já não te batem à porta,
que o vaivém do amor antigo
é hoje vai que não volta.
No sofá dos dias planos,
nem televisão tens visto,
e é tão grande o teu desânimo
que até desistes dos livros.
Vives de pão, enlatados
e margarina vaqueiro;
isso e o peso do passado
são o teu futuro inteiro.
A verdade é que os amigos
já não te batem à porta,
que o vaivém do amor antigo
é hoje vai que não volta.
No sofá dos dias planos,
nem televisão tens visto,
e é tão grande o teu desânimo
que até desistes dos livros.
Vives de pão, enlatados
e margarina vaqueiro;
isso e o peso do passado
são o teu futuro inteiro.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
amor tão certo
E, no entanto, confessou-me que o comprimento da cama é todo feito de um nome e da certeza de que ama.
Que só dormindo, aliás, e em sonhos te guarda perto, que a vigília nunca traz o prémio de amor tão certo.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
16-04-2012 - 29.04.2012
Grande notícia: a mãe não vai ter de fazer quimioterapia. Para festejar, fomos almoçar fora. Há vários meses que não metia cadáveres à boca, o salmão grelhado não me caiu nada bem. Ou terá sido o vinho barato? Fosse como fosse, era um dia especial e bebi a parte que me cabia e a que não.
Anteontem, pela primeira vez neste três meses de sem ti, acordei no teu lado da cama. Sobressaltei-me primeiro, por pensar que podia estar a magoar-te, gostei depois de ocupar com o meu sono o espaço do teu. Sorri do calor que tantas vezes circulou entre os nossos corpos.
O meu segundo romance já tem lançamento marcado mas não me apetece falar do assunto. Gosto muito de escrever, tu bem sabes, quantas vezes interrompi os nossos abraços para apontar uma frase - mas que importância tem para os outros o que eu escrevo? Desconfio que, tarde ou cedo, virá à tona o meu exercício da vaidade. Entretanto, na maior parte do tempo estou lúcido e não espero nada.
Tu percebes, querido, foste tu que me ensinaste a querer cada vez menos.
Anteontem, pela primeira vez neste três meses de sem ti, acordei no teu lado da cama. Sobressaltei-me primeiro, por pensar que podia estar a magoar-te, gostei depois de ocupar com o meu sono o espaço do teu. Sorri do calor que tantas vezes circulou entre os nossos corpos.
O meu segundo romance já tem lançamento marcado mas não me apetece falar do assunto. Gosto muito de escrever, tu bem sabes, quantas vezes interrompi os nossos abraços para apontar uma frase - mas que importância tem para os outros o que eu escrevo? Desconfio que, tarde ou cedo, virá à tona o meu exercício da vaidade. Entretanto, na maior parte do tempo estou lúcido e não espero nada.
Tu percebes, querido, foste tu que me ensinaste a querer cada vez menos.
sábado, 28 de abril de 2012
pieds bourgeois
Há pouco mais de seis meses ofereceram-me uns ténis para correr. Setenta euros, pelo que vim a descobrir, o que muito me sensibilizou: a carteira do ofertante não é tão abonada quanto isso. Nunca na vida tinha calçado tão caro, nem de perto; nunca na vida me fora o chão fácil assim.
Ontem, estava eu a meio do treino, caiu-me em cima a chuvada do meio-dia. A água nunca me fez desistir de nada, antes me incita a continuar como se fosse o meu ambiente natural, e por isso continuei a papar as léguas, completamente encharcado. Mas comigo também se encharcaram os ténis, pelo que tive de correr hoje com o meu antigo par de... sete euros.
Descobri que os meus pés têm sido excessivamente mimados: lamuriam-se agora de meia hora de obstinada destruição. E, cada vez mais burgueses, anseiam por que faça bom tempo e os outros ténis sequem.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
para uma ciência do adeus
Quantas vezes morre um homem
antes de morrer de vez?
Quantos dias e por que ordem
vão desfazendo o que ele fez?
Quantos sonhos são precisos
para que vá devagar?
Para estender-lhe o sorriso,
onde temos de acordar?
Como reter os seus rumos
em rumos que sejam nossos?
E como fazer-lhe o luto
sem nos descobrirmos mortos?
quinta-feira, 19 de abril de 2012
barba e não só

Uso barba desde os dezasseis e este hábito vem da minha enorme admiração por Camões. Mas hoje à tarde acelerava as pernas pelo quarteirão e um senhor dos seus sessenta fez-me sorrir por me comparar com outro barbudo:
Eh pá, o Antero de Quental a correr aqui no quarteirão.
Agora que se esvai a euforia do pós-exercício dou por mim a pensar que também tenho algo de Antero, sim, além da barba, da testa leporina e do nariz grado. Não a filosofia nem a arte, mas o impulso para acabar com tudo isto.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
nem três horas
Lídia veio demasiada
bater-me à porta hoje à tarde,
os olhos postos em água
e na voz tudo o que sabe.
Estendeu as mãos exaustas
de impotência com saudade
e buscou no que me falta
o consolo que lhe cabe.
Mas como a lua trouxesse
a promessa de outro dia,
ainda nem eram sete
e já de mim se esquecia.
Às oito bateu com a porta
porque eu era coisa morta.
bater-me à porta hoje à tarde,
os olhos postos em água
e na voz tudo o que sabe.
Estendeu as mãos exaustas
de impotência com saudade
e buscou no que me falta
o consolo que lhe cabe.
Mas como a lua trouxesse
a promessa de outro dia,
ainda nem eram sete
e já de mim se esquecia.
Às oito bateu com a porta
porque eu era coisa morta.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
27.03.2012 - 15.04.2012
A mãe está a recuperar bem mas ainda não sabemos se precisará de fazer quimioterapia: os resultados dos exames só chegam no dia 26.
Parece muito cansada para algum dia voltar a trabalhar como antes. As últimas notícias não são boas: quando, aqui há uns anos, estava prestes a reformar-se, aumentaram a idade da reforma para os 65; agora que tem quase 64, dizem que a partir do fim do ano a idade da reforma passa para os 67.
Tenho-me esquecido de te dizer que, desde a tua partida, o Bê-Dê prefere estar em casa dela. Talvez nesta nossa lhe falte alguém que organize o espaço e o tempo. Tu eras óptimo nisso. E a mãe também.
Tenho jogado um pouco mais de xadrez - lembras-te?, aquela coisa que às vezes eu punha junto de ti, num canto do sofá, aos quadradinhos pretos e brancos e com muitas pecinhas soltas - só que no computador. Não sou grande coisa. Gosto de pensar que um bom jogador de xadrez tem de ser inteligente mas que uma pessoa inteligente pode não jogar bem xadrez.
Às vezes corro até uma livraria que me permita folhear. Perdi muito do gosto antigo e, do que vou lendo, parece-me que a nova geração de autores é boa mas empolada na quantidade e na qualidade.
No fim do mês, estará pronto o nosso segundo romance. Tu sabes, neste não entram cãozinhos como no primeiro, onde tu e a Bonita estavam entre as personagens principais. Mas digo-te agora em segredo que o seguinte já está guardadinho na gaveta e tem um cãozinho quase tão giro e meigo como tu.
Não te esqueço, meu amor.
Parece muito cansada para algum dia voltar a trabalhar como antes. As últimas notícias não são boas: quando, aqui há uns anos, estava prestes a reformar-se, aumentaram a idade da reforma para os 65; agora que tem quase 64, dizem que a partir do fim do ano a idade da reforma passa para os 67.
Tenho-me esquecido de te dizer que, desde a tua partida, o Bê-Dê prefere estar em casa dela. Talvez nesta nossa lhe falte alguém que organize o espaço e o tempo. Tu eras óptimo nisso. E a mãe também.
Tenho jogado um pouco mais de xadrez - lembras-te?, aquela coisa que às vezes eu punha junto de ti, num canto do sofá, aos quadradinhos pretos e brancos e com muitas pecinhas soltas - só que no computador. Não sou grande coisa. Gosto de pensar que um bom jogador de xadrez tem de ser inteligente mas que uma pessoa inteligente pode não jogar bem xadrez.
Às vezes corro até uma livraria que me permita folhear. Perdi muito do gosto antigo e, do que vou lendo, parece-me que a nova geração de autores é boa mas empolada na quantidade e na qualidade.
No fim do mês, estará pronto o nosso segundo romance. Tu sabes, neste não entram cãozinhos como no primeiro, onde tu e a Bonita estavam entre as personagens principais. Mas digo-te agora em segredo que o seguinte já está guardadinho na gaveta e tem um cãozinho quase tão giro e meigo como tu.
Não te esqueço, meu amor.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
como se fosse outro acaso
Estio morno. Sol deitado.
Voo rente. Sombra larga.
A indolência do passado.
O futuro do que estagna.
O suor do homem que nisto
desliza a mão pela frente.
Toda a alma do seu respiro
no socalco do presente.
E se vier a maior paz
para fim do nosso estado
- sorrir por tudo, aceitar
como se fosse outro acaso.
Voo rente. Sombra larga.
A indolência do passado.
O futuro do que estagna.
O suor do homem que nisto
desliza a mão pela frente.
Toda a alma do seu respiro
no socalco do presente.
E se vier a maior paz
para fim do nosso estado
- sorrir por tudo, aceitar
como se fosse outro acaso.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
.
No princípio de maio se lança e era até o ano passado o mais árduo e solitário dos meus exercícios engavetados. Há já quatro anos romance feito, acompanhava-o ultimamente outro quarto de resma.
domingo, 8 de abril de 2012
artifício
Por menos voltas que der
a pena que em mim ciranda,
nunca fica no papel
o pensamento que o mancha.
E mais: o grau do artifício
é sempre tanto e tamanho
que toda a frase é delírio
e nenhum verbo sai plano.
Por isso, pouco me importa
que gozes com a redondilha:
se a palavra é sempre torta
ao menos que seja minha.
a pena que em mim ciranda,
nunca fica no papel
o pensamento que o mancha.
E mais: o grau do artifício
é sempre tanto e tamanho
que toda a frase é delírio
e nenhum verbo sai plano.
Por isso, pouco me importa
que gozes com a redondilha:
se a palavra é sempre torta
ao menos que seja minha.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
para que fosse casa
.
contar as paredes e pressentir o tecto
era começá-la
e na verdade quase parecia
nas mobílias do quarto e no preenchimento da sala
da cozinha chegava o restauro do sol
e o banho compunha os caboucos da vida
no entanto aqui nunca me conheceste
aqui sempre faltou o suspiro e eu saber que faltava
contar as paredes e pressentir o tecto
era começá-la
e na verdade quase parecia
nas mobílias do quarto e no preenchimento da sala
da cozinha chegava o restauro do sol
e o banho compunha os caboucos da vida
no entanto aqui nunca me conheceste
aqui sempre faltou o suspiro e eu saber que faltava
quinta-feira, 5 de abril de 2012
década
Há dez anitos, nem tanto,
punhas a vida em cadernos
e os cadernos nesse canto
dos amores ainda eternos.
Há mais ou menos cinco anos
abandonaste os papéis
e os anseios mais humanos
no canto aos dias cruéis.
E agora entregas a chave
da gaveta que te sobra
pois não há nada que trave
a tua última manobra.
punhas a vida em cadernos
e os cadernos nesse canto
dos amores ainda eternos.
Há mais ou menos cinco anos
abandonaste os papéis
e os anseios mais humanos
no canto aos dias cruéis.
E agora entregas a chave
da gaveta que te sobra
pois não há nada que trave
a tua última manobra.
quarta-feira, 28 de março de 2012
balelas de escritores
A boa escrita, diz por aí quem julga fazê-la, exige imensa leitura. Conclusão minha: coitadinhos dos escritores antigos, que nem leram uma centésima parte do que eu, paupérrimo leitor e escritor contemporâneo, já li. São todos piores do que eu e mil vezes piores do que essa catrefa de bons escritores que anda por aí a papar livros.
A boa escrita exige, isso sim, a leitura - atenta, apaixonada e na idade melhor - de meia dúzia de bons livros. Mas, acima de tudo, assenta numa incapacidade, com várias e complexas explicações, para guardar segredos. Se depois se lê mais ou menos, isso já é coisa ao gosto de cada um.
Já nem falo da necessidade, também tão apontada, de viajar muito. Essa é outra balela que não resiste à análise de inúmeras biografias de grandes autores.
A boa escrita exige, isso sim, a leitura - atenta, apaixonada e na idade melhor - de meia dúzia de bons livros. Mas, acima de tudo, assenta numa incapacidade, com várias e complexas explicações, para guardar segredos. Se depois se lê mais ou menos, isso já é coisa ao gosto de cada um.
Já nem falo da necessidade, também tão apontada, de viajar muito. Essa é outra balela que não resiste à análise de inúmeras biografias de grandes autores.
terça-feira, 27 de março de 2012
16.03.2012 - 26.03.2012
A mãe veio hoje para casa, depois de quase onze dias no hospital. A operação correu bem mas o recobro foi um pouco difícil, com muitos enjoos, vómitos e tonturas. Descobriram, depois, que se passava o que muitas vezes se passa depois de uma cirurgia: uma eliminação acentuada de ião potássio pelos rins. Assim que lhe começaram a repor aquele ião, ela começou a melhorar.
Não corri esta meia-maratona de março. Não me senti com força para tanto povo, embora há duas semanas tenha feito, num treino solitário como todos os meus, menos de duas horas em 21 quilómetros e meio, um terço deles em subida bem acentuada. Creio que na meia-maratona de ontem, toda plana e a descer, seria bem capaz de fazer menos da hora e cinquenta. Pois se na de Dezembro, mais difícil que esta, gastei uma hora e cinquenta e cinco sem qualquer treino... Ainda estavas aqui, lembras-te?
Tenho pensado muito no primeiro ano do nosso longo encontro, esse ano em que não soube cuidar de ti. Espero que os outros onze, e sobretudo os últimos oito, tenham deixado no teu coração a marca indelével do meu amor. E espero um dia poder sentir no meu o teu perdão.
Se estivesses aqui, fazia-te festas até adormeceres e mais festas depois que não te acordassem.
Não corri esta meia-maratona de março. Não me senti com força para tanto povo, embora há duas semanas tenha feito, num treino solitário como todos os meus, menos de duas horas em 21 quilómetros e meio, um terço deles em subida bem acentuada. Creio que na meia-maratona de ontem, toda plana e a descer, seria bem capaz de fazer menos da hora e cinquenta. Pois se na de Dezembro, mais difícil que esta, gastei uma hora e cinquenta e cinco sem qualquer treino... Ainda estavas aqui, lembras-te?
Tenho pensado muito no primeiro ano do nosso longo encontro, esse ano em que não soube cuidar de ti. Espero que os outros onze, e sobretudo os últimos oito, tenham deixado no teu coração a marca indelével do meu amor. E espero um dia poder sentir no meu o teu perdão.
Se estivesses aqui, fazia-te festas até adormeceres e mais festas depois que não te acordassem.
domingo, 25 de março de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
03.03.2012 - 15.03.2012
Em 2011, não me passava pela cabeça que o teu 2012 viesse a ser tão pequeno. Vamos a meio de março e reparei que todas as datas me saem com um ano de vida: vou remendar agora as que puder.
A mãe foi internada hoje e desta vez parece que para operar. Diz que no Santa Maria passa uma grande seca, está num quarto com outra pessoa que não lhe liga nenhuma e parece que se ressente. Só agora reparo: sou mais parecido com o pai - tu não conheceste o pai, vieste viver comigo meio ano depois de ele morrer e por isso eu não pude ser logo teu amigo. O pai gostava de estar só, como eu. Espero é que não tenha sido pela mesma razão que a minha: uma culpa ancestral em ocupar o tempo e limitar o espaço dos outros.
Não sei, ninguém sabe o que se passa com o meu sistema circulatório: vive em tensão permanente, 17-10, e não sai daí nem com medicamentos. Mas creio que um dia se descobre, e digam o que disserem, a verdade será apenas uma: faltas-me..., não há noite, passados quase dois meses, em que não me acordem os pesadelos do teu fim.
Agora vou correr um pouco, muito devagarinho não me vá dar o badagaio numa altura tão pouco propícia, e durante uma ou duas horas: acontece até que, sempre que arranjo coragem para o fazer, a hipertensão se esconde por uns tempos e tu regressas ao meu sorriso.
Muitas festas na tua barriguinha branca, querido.
A mãe foi internada hoje e desta vez parece que para operar. Diz que no Santa Maria passa uma grande seca, está num quarto com outra pessoa que não lhe liga nenhuma e parece que se ressente. Só agora reparo: sou mais parecido com o pai - tu não conheceste o pai, vieste viver comigo meio ano depois de ele morrer e por isso eu não pude ser logo teu amigo. O pai gostava de estar só, como eu. Espero é que não tenha sido pela mesma razão que a minha: uma culpa ancestral em ocupar o tempo e limitar o espaço dos outros.
Não sei, ninguém sabe o que se passa com o meu sistema circulatório: vive em tensão permanente, 17-10, e não sai daí nem com medicamentos. Mas creio que um dia se descobre, e digam o que disserem, a verdade será apenas uma: faltas-me..., não há noite, passados quase dois meses, em que não me acordem os pesadelos do teu fim.
Agora vou correr um pouco, muito devagarinho não me vá dar o badagaio numa altura tão pouco propícia, e durante uma ou duas horas: acontece até que, sempre que arranjo coragem para o fazer, a hipertensão se esconde por uns tempos e tu regressas ao meu sorriso.
Muitas festas na tua barriguinha branca, querido.
quarta-feira, 14 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
L. C. - HAB. LIT. (08-03-2012)
Licenciatura: Um Pinguim na Garagem (2003, publicado em 2009);
Mestrado: (2008, romance, na gaveta, à procura de nome);
Doutoramento : (2011, romance, na gaveta, merece tanto como o anterior).
Entretanto, poesia. E essa é a vida.
Mestrado: (2008, romance, na gaveta, à procura de nome);
Doutoramento : (2011, romance, na gaveta, merece tanto como o anterior).
Entretanto, poesia. E essa é a vida.
domingo, 4 de março de 2012
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Dizem os físicos que andar é empurrar o planeta para trás. Por isso, anda. Corre mesmo. Talvez com a tua ajuda lhe possamos reverter o sentido.
sábado, 3 de março de 2012
23.02.2012 - 02.03.2012
Esta gripe lembra-me a de ano e meio atrás. Então foi quase um mês de cama, a de agora vai ainda na semana e pouco. Mas a outra não custou nada, estiveste sempre ao meu lado e aconchegavas o teu corpo quente e peludo à minha febre.
Não tenho corrido e creio bem que não vou cumprir a promessa que te fiz de melhorar os meus tempos no prazo de um ano...
Também não tenho lido, sou um leitor cada vez pior. Agora dizem muito por aí que é preciso ler muito para escrever bem. Balelas. É preciso ler muito para se estar actualizado mas não para se escrever bem. O Camões não deve ter posto os olhos em mais do que meia dúzia de bons livros. E o Platão, quanto terá lido? O que é preciso é ler duas ou três coisas muito boas e estar atento ao mundo.
A mãe não chegou a ser operada: chegaram à conclusão de que estava anémica e a operação era um risco. Agora, só quando os índices de hemoglobina subirem é que volta a ser internada.
A adopção por homossexuais chumbou no parlamento. Das duas, uma: ou a maior parte dos deputados considera a homossexualidade uma doença ou não tem coragem para ser impopular.
Até para a semana, querido.
Não tenho corrido e creio bem que não vou cumprir a promessa que te fiz de melhorar os meus tempos no prazo de um ano...
Também não tenho lido, sou um leitor cada vez pior. Agora dizem muito por aí que é preciso ler muito para escrever bem. Balelas. É preciso ler muito para se estar actualizado mas não para se escrever bem. O Camões não deve ter posto os olhos em mais do que meia dúzia de bons livros. E o Platão, quanto terá lido? O que é preciso é ler duas ou três coisas muito boas e estar atento ao mundo.
A mãe não chegou a ser operada: chegaram à conclusão de que estava anémica e a operação era um risco. Agora, só quando os índices de hemoglobina subirem é que volta a ser internada.
A adopção por homossexuais chumbou no parlamento. Das duas, uma: ou a maior parte dos deputados considera a homossexualidade uma doença ou não tem coragem para ser impopular.
Até para a semana, querido.
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